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sábado, 12 de novembro de 2016

Caravana Mamulengos do Cerrado rumo à Caatinga




 
Caravana Mamulengos do Cerrado rumo à Caatinga
Viagem comemora 20 anos de Mamulengo Sem Fronteiras, buscando vivências com mestres nordestinos e os laços entre Cerrado e Caatinga


No final de novembro, o Mamulengo Sem Fronteiras sai de sua terra natal, Taguatinga (DF), e segue Nordeste adentro com a "Caravana Mamulengos do Cerrado rumo à Caatinga". Uma viagem coletiva que também comemora 20 anos de existência do grupo Mamulengo Sem Fronteiras. Junto, mais dois grupos brasilienses convidados: Mamulengo Fuzuê e Mamulengo Presepada. Será um mês de mergulho com mestres e mestras do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Em cada estado, quatro apresentações e um encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua.

Além de celebrar e conviver, a Caravana se propõe abrir, junto às comunidades, um diálogo sobre a arte do mamulengo, fortalecendo os laços entre Nordeste e Brasília, Caatinga e Cerrado. O próprio IPHAN reconhece o DF como a região com a maior presença de mamulengos fora do Nordeste, fato que está diretamente ligado ao movimento migratório de nordestinos ao Planalto Central, com a construção de Brasília na década de 50. Conta-se que nessa época, operários retirantes usavam o tempo de folga ou fugiam do trabalho exaustivo para brincar com os bonecos.

O Teatro de Bonecos Popular do Nordeste é hoje patrimônio cultural imaterial brasileiro, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2015. Nesse mesmo ano, o Mamulengo Sem Fronteiras realizou a "Caravana Mamulengos do Cerrado", compartilhando dessa tradição nos interiores de Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Agora, chegou a hora da caravana rumar à raiz de sua consagrada brincadeira, reverenciado suas mestras e mestras nordestinos.

VÍDEO TEASER: https://www.youtube.com/watch?v=fmb_CDk-FqI

Mamulengo Sem Fronteiras
A família Mamulengo Sem Fronteiras se uniu para brincar mamulengo em 1996, em Taguatinga (DF). Coordenado por Walter Cedro, o grupo recebeu a herança do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste das mãos do bonequeiro Chico Simões (Mamulengo Presepada), este iniciado por Carlinhos Babau e Mestre Solón. São mais de 20 anos de pesquisa sobre a tradição do Mamulengo e das brincadeiras populares, em interação a novas formas de expressão. Hoje, o grupo compartilha experiências e estudos em apresentações, oficinas e festivais pelo Brasil e em países da Europa e América do Sul.

O Mamulengo
O Teatro de Bonecos Popular do Nordeste é memória e história, transmitido de geração a geração por artistas caminhantes. É uma das poucas formas de teatro popular que consegue sobreviver no interior e nos centros populares e urbanos do Brasil, sendo chamado de vários jeitos: Mamulengo (PE e DF), Cassimiro Coco (PI, CE e MA), João-Redondo (RN), Babau (PB) e Mané-Gostoso (BA). Em constante transformação, carrega ao mesmo tempo uma estética tradicional e elementos históricos de um teatro universal, com fortes influências das culturas afro-indígenas e resquícios da Commedia Dell'Arte. Para além das figuras e personagens "vindos de São Saruê", a música ao vivo enche o enredo de ludicidade e reforça a interação com o público.

ROTEIROS E ANFITRIÕES

Ceará
03/12: Juazeiro do Norte (Mestre Carlinhos Babau e Mister Van)
05/12: Fortaleza (Epidemia de Bonecos e Grupo Formosura)
06/12: Aracati (Mestre Cherim e Calungas do Cumbe)
07/12: Icapuí (Mestre Gilberto Calungueiro e Marquinho Calungueiro)

Rio Grande do Norte
08/12: Mossoró (Vania de Paiva)
10/12: Itajá (Josivan, Daniel e Antônio)
12/12: Natal (Mestre Raul dos Mamulengos)
14/12: Carnaúba dos Dantas (Mestra Dona Dadi e Compalhaçaria)

Paraíba
15/12: Lagoa de Dentro (Mestre Nildo)
16/12: Sapé (Mestre Severino Reis)
17/12: João Pessoa (Cia Boca de Cena e Quem tem Boca é pra Gritar)
19/12: Pedras de Fogo (Pedro do Mamulengo e Zé Pequeno)

Pernambuco
20/12: Carpina (Mestre Saúba)
21/12: Lagoa de Itaenga (Mestre Zé de Vina)
22/12: Glória do Goitá (Associação do Mamulengueiros)
23/12 Olinda (Grupo Bongar)

SERVIÇO

Caravana Mamulengos do Cerrado Rumo à Caatinga
Quando: Dezembro de 2016
Onde: CE, RN, PB e PE
Entrada: Franca
Classificação indicativa: Livre
Contato: 61 9.8438.8338 / 9.8278.8970
Redes sociais: f/mamulengosemfronteiras.bonecos

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O espaço do teatro de rua

O espaço do teatro de rua
13 de outubro de 2016
Todo o trabalho envolvido no projeto do livro Teatro(s) de Rua do Brasil – a Luta pelo Espaço Público, contemplado pelo Rumos 2013-2014, finalmente chegará ao público no dia 26 de outubro. O resultado da proposta do diretor e pesquisador teatral Noeli Turle da Silva, o Licko, é uma obra que discute a noção de teatro de rua além da visão de modalidade popular e/ou de militância política, estendendo-se para uma acepção mais atual, como campo de conhecimento que alcança outras dimensões estéticas e éticas.
Segundo o autor, o teatro de rua foi uma das primeiras formas de comunicação e manifestação artística criadas pelo ser humano. No Brasil, essa modalidade teatral se tornou um dos símbolos de resistência ao regime de ditadura militar nas décadas de 1960, 1970 e 1980, quando foram criados diversos grupos – como Ói Nóis Aqui Traveiz, em Porto Alegre; Imbuaça, em Sergipe; Alegria, Alegria, em Natal; Parlapatões, em São Paulo; Grupo Galpão, em Belo Horizonte; e Tá na Rua, no Rio de Janeiro. Nesse período, também surgiram outras formas de teatro político – como o Teatro do Oprimido, criado por Augusto Boal, com quem Licko Turle fundou o Centro de Teatro do Oprimido.
Licko Turle é diretor e pesquisador teatral
Licko Turle é diretor e pesquisador teatral

Apesar de essa modalidade ter uma produção diversificada e rica, poucos estudos se dedicaram a ela. Pensando nisso, o diretor e pesquisador teatral, que acompanha esse cenário desde 1986, idealizou uma obra que não só recuperasse a história e a memória do teatro de rua, mas também promovesse uma reflexão sobre o espaço dessa manifestação no campo da arte, do trabalho e da política atual.
A popularização dos meios de comunicação digitais nos últimos anos impactou a troca de teorias e práticas sobre o teatro de rua, na medida em que deu espaço para que coletivos de artistas-trabalhadores das ruas se comunicassem de forma mais efetiva e autônoma. Assim, eles puderam desenvolver uma identidade própria e características particulares na formação de profissionais e na produção de conhecimento.
Um dos exemplos é o conceito de arte pública, apresentado por Amir Haddad em 2010 na Rede Brasileira de Teatro de Rua – organização criada em Salvador por articuladores de vários estados. Com isso, surgiu um movimento de reivindicação de políticas públicas e de representatividade na crítica e na imprensa, além de reconhecimento dessa modalidade.
O livro de Licko situa esse momento do teatro de rua. A obra, que tem como coautora a pesquisadora Jussara Trindade, será lançada no dia 26 de outubro, no evento IV Jornadas Internacionais de Teatro do Oprimido e Universidade, que acontece na cidade do Rio de Janeiro, nos jardins da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) – campus Pão de Açúcar.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Teatro de Rua: artes pública de performance e convívio

Hamilton Leite[1]
Introdução
Com o presente artigo, pretendo sintetizar a pesquisa realizada com integrantes de grupos de teatro de rua de Porto Alegre, bem como com o público que assistiu às apresentações desta modalidade teatral na cidade, no período de outubro de 2012 a julho de 2013, ou seja, nas estações do ano mais propícias para esta atividade aqui no Estado: primavera, verão e outono.
Nestas páginas, além de justificar que o teatro de rua é uma arte pública de performance e de convívio, relatarei brevemente o que o público pensa e percebe do teatro de rua feito em Porto Alegre. Para tanto, elaborei um questionário realizado com os espectadores de rua, em que havia alguns quesitos como nome, idade, profissão e escolaridade do entrevistado, além de perguntas que abrangiam impressões a respeito da obra teatral de rua em questão. Foram 25 apresentações de espetáculos de rua nas quais fiz a pesquisa com o público, com cerca de 250 espectadores abordados. Além disso, pude entrevistar artistas de 9 grupos de teatro de rua, alguns surgidos recentemente e outros há décadas em atividade na cidade. A minha intenção com isso é fazer um breve panorama da cena teatral de rua em Porto Alegre e refletir sobre quem está se apresentando nos espaços públicos da cidade, o que está sendo levado ao público, que espetáculos estão em atividade, e o que pensa esses espectadores. Cabe destacar que a pesquisa não tem por objetivo cobrir toda a produção porto-alegrense e nem esgotar o tema.
Para ajudar a refletir as problemáticas da pesquisa, começo abordando o fato de milhares de brasileiros terem ido às ruas de todo o país nos últimos cinco meses – e que foi diretamente influenciado pelas manifestações populares contra o aumento das passagens do transporte coletivo ocorridas em Porto Alegre no primeiro trimestre de 2013. Em paralelo a isto, há outro fato que também foi recorrente no período da pesquisa, que se trata da proibição do teatro de rua e a institucionalização da mesma pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em especial pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, em que somente poderia haver apresentações artísticas de rua com autorização prévia.
  A constituição brasileira é clara no Artigo 5º, inciso 9º, sobre o direito à livre expressão, seja ela artística, científica ou social. Ambos os casos se tornaram vitoriosos: no caso das passagens de ônibus, houve a redução das tarifas, ocasionada principalmente pelas manifestações populares e pela ação judicial; no caso do teatro de rua, a elaboração e o protocolo da Lei do Artista de Rua de Porto Alegre, no mês de abril de 2013. Os exemplos citados mostram a questão do convívio humano, do direito à livre expressão e do encontro/ reunião em espaço público aberto como tônica da sociedade atual, na qual a rua volta a ser o lugar protagonista da manifestação, do protesto, e da transformação político-social.

Um pouco de história...
Durante um longo período do século XX, o Brasil passou por duas  ditaduras: nos anos 1930, no período Vargas, e posteriormente entre 1964 e 1985, na ditadura civil-militar. Foram praticamente 35 anos de prisões e proibições, em um regime centrado na censura e na proibição do uso do espaço público aberto para manifestações políticas, democráticas, intelectuais, culturais e artísticas. O movimento pela redemocratização do país na década de 1980, o chamado “Diretas Já”, foi um dos propulsores do ressurgimento do teatro de rua no Brasil e, especialmente, em Porto Alegre. A propagação desta modalidade teatral se multiplica até os dias atuais pelas ruas e praças de nosso país. Assim, ainda que o movimento das diretas tenha sido derrotado, já que não houve eleições diretas, sua inspiração do uso da rua continua a ecoar e a dar bons frutos.
Os primeiros registros de teatro de rua em Porto Alegre são do final da década de 1970 e início de 1980, coincidindo com as manifestações de reivindicação política daquela época.  Nesse contexto, surgiu nas ruas a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Pude presenciar no ano de 1984 a também inauguração da Terreira da Tribo, sede do grupo, no bairro Cidade Baixa. A sede foi uma importante referência cultural destes novos tempos de redemocratização, e também um modo fundamental para articulação e apoio às atividades do grupo. Estrategicamente era localizado ao lado do centro da cidade, já que todas as manifestações se deslocavam até a famosa Esquina Democrática, local este que muitas vezes, durante 1984, com colegas da escola Júlio de Castilhos – popularmente conhecido como Julinho –, nos manifestávamos pelas “Diretas Já” tanto para diretor de escola quanto para presidente da República. Assim, na segunda metade da década de 1980, em cinco anos, Porto Alegre já contava com seis grupos de teatro de rua: Ói Nóis Aqui Traveiz, Pé de Palco (depois Rapazes do Pé de Palco), Oficina Perna de Pau, Alcatéia e Cia Teatral D’Rua. Para o imaginário e a construção de um país democrático, haver manifestações artísticas de teatro de rua era algo muito significativo.
Em pouco tempo, no início dos anos 1990, começou a articulação para a I Mostra de Teatro de Rua de Porto Alegre e, posteriormente, o I Encontro Nacional de Teatro de Rua, trazendo à capital gaúcha grupos que eram novos naquela época, mas que hoje são referências em teatro de rua no país, como o Grupo Galpão, de Minas Gerais, o Imbuaça, de Sergipe, o Tá na Rua, do Rio de Janeiro, e o Fora do Sério, do Interior de São Paulo. Porto Alegre, dessa maneira, ganhava lugar de destaque no cenário teatral de rua brasileiro, e em virtude dessa efervescência, em que o surgimento de grupos se multiplicava como uma “praga” passou a ser mais recorrente a apresentação de espetáculos em ruas, parques, bairros e vilas da cidade. Chegava-se a se fazer três apresentações por dia nos bairros, um a cada turno e em um bairro da periferia e com apoio da prefeitura do período, a chamada Frente Popular (1989-1992). Muitas vezes, a própria comunidade dava aos grupos o que comer e beber. Também era comum que algumas apresentações ocorressem nas feiras de hortifrutigranjeiros. Com o grupo que eu fazia parte naquela época, a Oficina Perna de Pau, cada feirante nos dava um pouco do seu produto, gerando um grande sopão quando retornávamos para a então sede do grupo, no pé do Morro da Cruz, na Vila São José. Nesse sentido, ocorriam também as Mostras de Teatro de Rua em Porta de Fábrica, com a presença e o apoio institucional da prefeitura.
O tempo passou e, enquanto diversos grupos faleceram, outros surgiram. Eu, particularmente, logo após o fim do Oficina Perna de Pau, em 1997, fui fazer um intercâmbio com o grupo Teatro de Los Andes, em Yotala, povoado ao lado de Sucre na Bolívia, onde me propiciou apresentar nas ruas de muitas cidades como Buenos Aires, Cochabamba, La Paz, Montevidéo, Canelones e Santa Cruz de La Sierra.

O Retorno e as Proibições
Janela sobre as proibições
Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto no Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.
AS PALAVRAS ANDANTES – Eduardo Galeano

Ao retornar à Porto Alegre, após um ano viajando e vivendo em outro país da América Latina, entre os anos de 1999 e 2000, me deparei com uma nova realidade: a institucionalização da arte de rua, por meio de um decreto municipal referente à obrigatoriedade de ter que pedir autorização para apresentações de teatro de rua. Ironicamente isso ocorreu em 1998, ainda na gestão da Frente Popular, aquela mesma que, na primeira metade da década de 1990, apoiava os grupos de teatro de rua nas suas apresentações na periferia da cidade – foram quatro governos consecutivos. A gestão criou o Decreto nº 11.929 de 09/03/1998, que serviu de base para justificar o pedido de autorização da livre expressão artística garantida pela Constituição Nacional de 1988. Cabe salientar que toda a origem das manifestações de rua e o surgimento do teatro de rua em Porto Alegre pós-ditadura não necessitava de autorização prévia, pois é corriqueiro haver uma ética do artista  de rua, no sentido de não atrapalhar a apresentação do outro (ou se esperava o término do que havia chego antes para, assim, iniciar o seu espetáculo ou performance, ou ainda o artista escolhia um outro local mais adiante). É mais irônico ainda o fato dessa institucionalização ocorrer no mesmo governo, já com uma década de orçamento participativo e participação popular, instituir o pedido de autorização para o teatro de rua e o comparar a grandes eventos de empresas privadas. A justificativa deste decreto relacionado ao teatro de rua nunca foi muito clara. No entanto, é evidente o processo de estatização do espaço público aberto e o controle do mesmo pelo Estado, abrindo precedentes para o novo século. Assim, nos anos 2000, torna-se corriqueiro o teatro de rua ser proibido, mesmo não havendo atividade acontecendo naquele mesmo espaço/tempo e, junto a isto, a cidade passou a ter seus espaços públicos privatizados por grandes corporações, como empresas de construção civil e famosas marcas de refrigerante.
A figura do fiscal e/ou organizador surgiu nesse processo, tornando-se um mandatário do espaço público, e criando assim uma relação de poder e (pré)potência. Ele, muitas vezes, passa por cima da Constituição (na qual consta que é direito do cidadão a livre expressão artística) e, ao mesmo tempo, proíbe uma das poucas manifestações cotidianas e continuadas de livre acesso à arte para a população em Porto Alegre. O fato de a prefeitura se preocupar em manter e conservar o espaço público aberto pode até ser justificado pelo seu compromisso e responsabilidade, mas a proibição pela proibição da arte, que no caso do teatro de rua é arte pública (conceito que aprofundarei posteriormente), demonstra um enorme despreparo dos agentes públicos e suas coordenadorias para com sua população. A situação é tão alarmante que, durante esta pesquisa, recebi relatos de que estavam proibindo manifestações de capoeira no Largo Zumbi dos Palmares (antigo Largo da EPATUR).
Neste clima de total controle por parte do Estado, ou seja, a estatização do espaço público aberto surge algo mais alarmante: o processo de privatização. As bancas dos artesãos do Brique da Redenção, feitas de plástico e todas iguais, são patrocinadas por uma marca de supermercado, o que dá um acabamento sintético e nem um pouco artesanal ou artístico. Hoje, o Parque da Redenção é de uma famosa marca de refrigerante, a qual coloca sua logomarca em diversos lugares. O Auditório Araújo Vianna também foi privatizado, e atualmente leva o nome de uma empresa de telefonia. O Largo Glênio Peres foi destinado à outra famosa marca de refrigerante, assim como a orla do Rio Guaíba. Todos esses exemplos nos levam a crer que, em Porto Alegre, o espaço público não é público. Considero importante relatar tudo isso por estar embasando uma pesquisa sobre o que o público pensa do teatro de rua, a qual pode ser considerada como arte pública, o que está se produzindo na cidade em termos de teatro de rua e como ela costuma ser financiada.
A Lei do Artista de Rua é extremamente importante na atual conjuntura, pois, na realidade, pelo que a pesquisa demonstra com os dados, não é para o artista nem para o público, mas sim para o Poder Público e seus servidores que fiscalizam, organizam e proíbem atividades desta modalidade teatral em parques, praças e ruas. As manifestações democráticas e artísticas, como o livre direito à expressão e o direito de encontro e reunião nos espaços públicos abertos deixam claro a necessidade de ampliar o conceito de Teatro de Rua como uma arte pública de performance e convívio. Dito em outros termos: ainda há aqueles que cantam, brincam e fazem teatro de rua, independente das interdições.

O Teatro de Rua em Porto Alegre – Panorama Atual
    Entre outubro de 2012 e julho de 2013, pude acompanhar 25 apresentações de teatro de rua, além de conversar com integrantes de alguns grupos que neste período de 10 meses se apresentaram em Porto Alegre. Pude escutar as respostas às questões que foram feitas aos seus espectadores.
    Poucos anos se passaram desde as “Diretas Já”, praticamente três décadas. Para a História e os processos históricos, 30 anos significam quase nada, porém Porto Alegre ainda se mostra como um celeiro de produção em teatro de rua, e sim, se trata de uma prática aprovada pela população que circula pelas ruas e parques da cidade.
  Aqui apresentarei alguns espetáculos e grupos que pude ver neste curto espaço de tempo, e as impressões do público quanto as suas peças e às formas de apresentá-las. Certamente nestas três décadas de teatro de rua muitos grupos surgiram, tantos outros se firmaram, outros desapareceram. Infelizmente, nestes dez meses de pesquisa, existiram alguns grupos que não consegui acompanhar, ou que por estarem envolvidos em outros projetos, não realizaram apresentações de teatro de rua em Porto Alegre. No total, aconteceram mais de 40 apresentações teatrais de rua de grupos de fora do Estado e do interior, no entanto o foco da pesquisa são os grupos da cidade que trabalham cotidianamente e residem aqui. Acompanhei, assim, apresentações do Ói Nóis Aqui Traveiz, Falos & Stercus, Usina do Trabalho do Ator (UTA), Povo da Rua, Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, Manjericão, além de alguns grupos surgidos mais recentemente como Mosaico Cultural, Pindaibanos e Levanta Favela.

(...) Na rua, lugar obrigatório da comunidade, passa todo o público, o conhecedor teatral e aqueles que estão em nível mais abaixo: donas de casa e secretárias, adolescentes e avós, leitores de jornais e analfabetos. Podem ficar ou ir embora (nenhuma forma psicológica os prende a sua cadeira marcada de teatro. No caso do espetáculo itinerante, ao que nos referimos especificamente,  podem seguir vendo a representação ou abandoná-la, o público é soberano de suas decisões mais sinceras. E aqui quem sabe pela primeira vez, grande parte de pessoas que não tem acesso a uma cadeira teatral e nem a televisões a cabo, terão um encontro com o fenômeno “teatral”: atores que tocam música, outros que surpreendem em cima de suas pernas de pau; outros em procissão passam em bandas por baixo de janelas abertas. (...)
(CRUCIANI, Fabricio; FALLETTI, Clelia. El Teatro de Calle – Tecnica y manejo del espacio. 1992, p.15).


1.    Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz (1978)
O grupo mais antigo de teatro de rua de Porto Alegre, e também um dos mais antigos do país, nasceu de incursões pelas ruas do centro da cidade. Os temas de suas intervenções variavam: contra usinas nucleares (em memória das vítimas da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, ambas no Japão), sobre a situação degradante do Rio Guaíba (O Guaíba vai virar Copacabana), contra o racismo, dentre outros temas. O Oi Nóis, como é lembrado carinhosamente pela população da cidade, é um dos grupos mais lembrados pelos entrevistados da pesquisa. Nestes mais de 30 anos de história, o grupo realizou muitas apresentações de espetáculos e intervenções, tais como A História do Homem Que Lutou Sem Conhecer Seu Grande Inimigo, Teon – Morte em Tupi Guarani, Dança da Conquista, Deus Ajuda os Bão, Os Três Caminhos Percorridos Por Honório dos Anjos e dos Diabos, Se Não Tem Pão, Comam Bolo!, Independência ou Morte, A Heroína da Pindaiba, A Exceção e a Regra, A Saga de Canudos.
Desde setembro de 2008 tem encenado pelas ruas do país e no exterior (como em Portugal) o espetáculo O Amargo Santo da Purificação, o qual se tornou um marco da história do teatro gaúcho. Ganhou o Prêmio Açorianos de Espetáculo, Produção, Figurinos, Trilha Sonora e Melhor Atriz. Para este trabalho, o grupo escolheu a história do revolucionário brasileiro Carlos Maringhella, que lutou contra as ditaduras do Estado Novo e do Regime Militar, morrendo em 1969, atingido por vários tiros de arma pelos agentes do Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS). A encenação procura trazer à tona a história desse herói popular, o qual os setores dominantes tentaram banir da história do país durante décadas.
Nos últimos anos, o espetáculo percorreu 14 estados brasileiros, participando de Mostras e Festivais em todo país, colorindo com suas alegorias praças, parques, vilas e bairros de Porto Alegre, e levando o trabalho também à zona rural do Estado, passando por diversos assentamentos. O grupo atualmente conta com o patrocínio do Programa Petrobrás Cultural.     

2.    UTA - Usina do Trabalho do Ator (1992)
O grupo teatral Usina do Trabalho do Ator teve sua origem em 25 de maio de 1992, em Porto Alegre, a partir de um projeto, do então Diretor da Oficina Teatral Carlos Carvalho, Maurício Guzinski, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Esse projeto visava criar um núcleo de pesquisa teatral. Os atores foram selecionados por intermédio de uma concorrência pública, com encaminhamento de projetos de pesquisa. Inicialmente, funcionou no Espaço Cultural do Trabalho Usina do Gasômetro e contou com o apoio daquela Secretaria.
Ao findar o período de alguns meses, sob a alçada da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, um grupo desses atores seguiu o trabalho de forma independente, e construiu ao longo dos anos a Usina do Trabalho do Ator, grupo de teatro ligado hoje ao GETEPE - Grupo de Estudos em Educação, Teatro e Performance, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O nome do grupo é uma referência ao primeiro espaço ocupado pelo trabalho – a Usina do Gasômetro -, mas, também, ao significado das palavras Usina (lugar onde se produz energia), Trabalho (ação continua e progressiva duma força natural, e o resultado desta ação), Ator (agente da ação) e a relação com o trabalho desenvolvido pelo grupo.
A vertente de estudos sobre o trabalho do ator teve vários desdobramentos, tanto em espetáculos apresentados no Brasil e no exterior, quanto em demonstrações técnicas e trabalhos escritos publicados. Nessa perspectiva, o ator é investigado no amplo espectro das possibilidades criativas e na configuração de suas identidades, em um modo particular de fazer teatro.
Sua outra área de investigação diz respeito à linguagem cênica. Nessa abordagem, o trabalho investigativo do grupo permeou diversos aspectos. Assim, o trabalho do grupo ao longo dos anos caracterizou-se, sobretudo, na relação com o espaço; na exigência corpóreo-vocal; na incorporação de elementos teatralizados; no uso da música; e, na configuração de um modo identitário próprio.
A incorporação de elementos teatralizados incluiu a presença e o uso de pernas-de-pau, instrumentos musicais e de percussão, uso de máscaras e outros elementos. O trabalho com a música foi sempre tomado como central no desenvolvimento da linguagem do grupo. A configuração de modos identitários se manifesta, então, em duas dimensões. A primeira, nas temáticas que tem nos modos gaúchos de vida seu principal foco. A segunda, nos modos de fazer teatro, na maneira dos atores se imporem disciplina e rigor em seu trabalho e descobrir nisso uma maneira de expressão precisa e que manifestaria um modo de pensar o mundo, atestando a imersão em uma comunidade específica.
Ao longo de sua história de produção investigativa e artística o grupo realizou demonstrações de trabalho, espetáculos teatrais, seminários e oficinas, sempre com o objetivo de divulgar, compartilhar e discutir seu trabalho com a comunidade.

3.    Povo da Rua – teatro de grupo (1998)
Principiou suas atividades no início de 1998, ocupando uma sala na sede SINTRAJUFE. Lá, realizou intervenções cênicas e ministrou oficinas aos trabalhadores do movimento Sindical e ao público em geral. Foi através do núcleo de pessoas da Oficina de Teatro Sindical que surgiu a intenção e a força para construir um grupo de teatro.
O Povo da Rua se propõe, primeiramente, à elaboração de uma dramaturgia própria específica para teatro de rua, do que resultou a montagem do espetáculo Os Sete Pecados do Capital, o qual teve sua estreia no 7º Poa em Cena (em setembro de 1999).
Na busca de espaço próprio para trabalho, o Povo se transferiu para o antigo e abandonado Estaleiro Só, às margens do Guaíba. O grupo retomou as oficinas abertas, partindo para sua segunda montagem. O resultado foi o espetáculo Os Mistérios das Quatro Chaves – uma brincadeira espetáculo, adaptação coletiva do texto de Ilo Krugli.
No ano de 2002, movimentando o velho estaleiro desativado por meio do seu primeiro financiamento público, o Povo da Rua encenou o espetáculo Pedro Malazartes da Silva, adaptação do texto de Maria Helena Kühner.
No ano de 2003, passou por novas transformações, culminando na mudança de sede. Assim, em parceria com outros grupos teatrais locais, passou a ocupar um dos pavilhões desativados do histórico Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP).  Naquele velho novo espaço, que é chamado pelo grupo de “A Casa do Povo”, o grupo aprofundou a prática cotidiana de trabalho artístico, com estreita ligação com funcionários, pacientes e comunidade do entorno do HPSP. Além da criação de espetáculos e intervenções, passou a também ministrar oficinas de teatro dentro do projeto Teatro do Povo, Inclusão na Vida.
Em 2006, retomou seu projeto de dramaturgia própria, porém com um diferencial: A Ciranda dos Orixás, espetáculo músico-teatral, foi concebido para apresentações na sala do espaço do grupo, realizando temporada de três meses.
A Caravana da Ilusão, seu mais recente trabalho, foi uma adaptação para teatro de rua do texto homônimo de Alcione Araújo, contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro (o Miryam Muniz e Artes Cênicas na Rua).
Nestes últimos meses, o Povo da Rua fez apresentações em Porto Alegre, viajou pelo interior do Estado com patrocínio da Corag e circulou pela região nordeste do Brasil por meio de um patrocínio via renúncia fiscal (lei Rouanet), sendo este fato uma raridade na realidade do teatro de rua de Porto Alegre.

4.    Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais (1999)
A Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais surgiu em 1999 com o espetáculo Deus e o Diabo na Terra de Miséria, completando 15 anos de trabalho continuado de grupo em maio de 2014. Nestes anos produziu 8 espetáculos teatrais, alcançando um público de 750.000 pessoas em mais de 1500 apresentações.
Entre 1999 e 2002, o grupo produziu três espetáculos de teatro de rua, focando o resgate de contos e lendas da América do Sul, o qual denominou Trilogia Pampiana: Deus e o Diabo na Terra de Miséria (1999), Mboitatá – a Verdadeira História da Cobra de Fogo dos Pampas (2001) e O Negrinho do Pastoreio (2002). Com a estreia deste último espetáculo lançou o CD Trilogia Pampiana com as trilhas sonoras originais e versos dos três espetáculos. Em 2008, estreou Miséria Servidor de Dois Estancieiros, e em 2012 estreou o seu mais recente trabalho O Baile dos Anastácio, depois de dois anos de pesquisa, elaboração e montagem com dramaturgia de Luis Alberto de Abreu.
Com esses espetáculos percorreu a cidade de Porto Alegre, o interior do estado do RS, 18 estados brasileiros, Argentina, Portugal, e Uruguai, representando o teatro de rua gaúcho e brasileiro nos principais e mais variados festivais, mostras e encontros teatrais. O grupo anualmente faz temporadas de teatro de rua nos parques e praças de Porto Alegre, além de apresentar em escolas e entidades. Também realiza cortejos e intervenções cênicas. A Oigalê nestes anos virou referência nacional e local de teatro de rua, sendo um dos grupos mais atuantes do cenário nacional e conseguindo manter um repertório de 5 espetáculos para o teatro de rua.
Neste período de setembro de 2012 a julho de 2013, a Oigalê fez 82 apresentações de seus espetáculos em repertório O Negrinho do Pastoreio, A Máquina do Tempo, Miséria Servidor de Dois Estancieiros e O Baile dos Anastácio, o qual estreou em Porto Alegre em outubro de 2012 fazendo mais de 20 apresentações em bairros, vilas, praças e parques. A pesquisa e montagem deste último espetáculo teve o patrocínio da Petrobras, por meio de Seleção Pública do Programa Petrobras Cultural. Já o espetáculo O Negrinho do Pastoreio contou com a circulação comemorativa do projeto Uma década do espetáculo e um século da lenda de João Simões Lopes Neto, com financiamento do edital público Artes Cênicas nas Ruas da FUNARTE. Por fim, o espetáculo A Máquina do Tempo teve o patrocínio da CORSAN, nos meses de janeiro e fevereiro de 2013.    

5.    Grupo Teatral Manjericão (1998)
O grupo formou-se em fevereiro de l998, surgindo da necessidade dos artistas que o integram de colocar suas idéias, conhecimentos e objetivos na prática, através de pesquisas cênicas.
Através de treinamentos calcados no trabalho do ator e da encenação, o grupo experiencia as diferentes técnicas do teatro popular junto às linguagens como o teatro de máscaras, o palhaço circense e a commedia dell’arte, buscando e possibilitando assim o surgimento de novas formas e técnicas, particulares do grupo, para a criação e encenação de seus espetáculos.
As encenações são trabalhadas com base nas experiências que o grupo obteve nestes anos de atividades, quando constatou que a inserção de elementos da cultura popular às linguagens utilizadas proporciona uma empatia muito maior com o público, transpondo a barreira do discurso e da compreensão dos temas propostos, ampliando a relação ator/espectador.
O Grupo Teatral Manjericão, em 15 anos de estrada, também realiza projetos de circulação pelos bairros e periferias, onde a comunidade, através de seus articuladores culturais, fornece a estrutura para as apresentações.
Contemplados com Edital do Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2012, o grupo circulou por 10 capitais brasileiras, nas regiões do Centro-oeste e Nordeste, em celebração dos 15 anos do grupo: Natal, João Pessoa, Limoeiro-PE, Fortaleza, Teresina, Salvador, Brasília, Goiânia, Campo Grande e Porto Alegre.
De outubro 2012 a julho de 2013, foram 43 funções entre apresentações/intervenções de seus dois espetáculos em repertório: O Dilema do Paciente e João Pé-de-chinelo. Em 19 diferentes cidades em 14 Estados da nação.
Atualmente o grupo é composto de 4 integrantes: Anelise Camargo Garcia, Alice Machado Chiapini, Márcio Silveira dos Santos e Valdir Alexandre da Silva. Não possui sede própria, nem aluga alguma. O Manjericão utiliza o Parque Alim Pedro, no bairro IAPI, como sede pública para ensaios, quando o clima permite.
O Grupo Teatral Manjericão não teve nenhuma apresentação em que seu público foi entrevistado, pois nestes últimos 10 meses o grupo mais se apresentou fora do estado do Rio Grande do Sul, porém por se tratar de um dos grupos que desde o século passado se dedica ao teatro de rua, incluí na pesquisa e fiz uma entrevista com um de seus fundadores, Márcio Silveira dos Santos.
Na entrevista, Márcio Silveira afirma que o grupo, há alguns anos, já vem trabalhando muito mais fora do Estado pela falta de verba e pela desvalorização de uma política cultural para esta modalidade teatral no Estado.

6.    Grupo Pindaibanos (2009)
Trata-se de um novo grupo de teatro de rua de Porto Alegre, e surgido de uma maneira atípica, porque nasceu dentro do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS (da graduação em Teatro). Eles sempre se consideraram como os “tortos”, os "bagaceiros" do meio acadêmico. Em virtude disso, decidiram por colocar o nome do grupo de Pindaibanos, que vem do termo "pindaíba" – significando quebrado, falido, sem dinheiro. O primeiro trabalho de rua do grupo foi Meu Barraco, Minha Vida, realizado numa disciplina chamada "Atelier II" no segundo semestre de 2009. O trabalhou foi apresentado em dezembro do mesmo ano no centro de Porto Alegre, e o mote  da encenação era a busca de um bando de bufões por uma casa própria no centro da cidade. Ela foi remontada em 2011, sendo o trabalho de conclusão de curso da diretora do grupo, Evelise Mendes.
  Em 2010 era o ano das atividades curriculares chamadas de “estágios” (estágio de atuação de três integrantes, e de direção de um deles). Por se sentirem incomodados sobre a forma como Nelson Rodrigues costuma ser montado, e querendo aprofundar essa relação com o espaço público aberto que fora iniciado no Meu Barraco, Minha Vida, o grupo criou A Serpentina ou Meu Amigo Nelson.
Foram feitas quatro apresentações em julho de 2010, no centro de Porto Alegre (POA), no auge do inverno, ficando um longo tempo sem apresentá-lo. Em 2012, o Pindaibanos decidiu inscrever o trabalho no edital de ocupação dos teatros municipais da cidade, propondo de apresentar A Serpentina no pátio do Teatro de Câmara Túlio Piva, integrando o projeto Novas Caras (destinado aos novos artistas da cidade). O principal argumento era de que apresentações de teatro de rua no pátio do teatro iria chamar um outro tipo de público, já que muitas pessoas que circulam naquele bairro desconhecem o fato de existir um equipamento cultural ali. O espetáculo foi selecionado, e foram feitas 4 apresentações no local, todas as quartas-feiras entre outubro e novembro, às 20h.
Para essas apresentações, foi realizada praticamente uma remontagem. Acrescentou-se a figura do Nelson Rodrigues na peça, investiu-se na linguagem carnavalesca, dentre outras ações. Devido a essas apresentações, o grupo concorreu e ganhou, em dezembro de 2012, o Prêmio Mais Teatro Revelação nas categorias Espetáculo, Diretor e Ator, além do Troféu RBS Júri Popular.
Entre outubro de 2012 e julho de 2013, o grupo apresentou o espetáculo 17 vezes, sendo 2 em bairros da periferia da cidade, 14 no centro da cidade e 1 apresentação em Caxias do Sul.
        
7.    Cambada de Ação Direta Levanta Favela (2008)
A Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela iniciou suas atividades em 2008, com uma intervenção cênica de denúncia aos doze anos de impunidade do massacre de Eldorado dos Carajás. Esta apresentação é repetida anualmente. Seguindo a linha do teatro de Agitação e Propaganda, montou a intervenção Manifesto por uma educação libertária. Durante aquele ano, participou da ocupação urbana chamada Casa Rosa, no bairro Floresta, de Porto Alegre.
Organizou então a Oficina de Teatro em Ação Direta, gratuita e aberta, com a proposta de criação de intervenções cênicas. Essa oficina se mantém até hoje, e teve como resultado algumas intervenções, como Dona Maria, o Direito de Comer Direito (2008). Nos quarenta anos de edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), estreou seu primeiro espetáculo de rua, O Canto da Terra, trazendo a público a história dos massacres no Pará, desde a guerrilha do Araguaia até o massacre de Eldorado dos Carajás.
Ao completar um ano de atividades, a cambada firmou parceria com a Comunidade Autônoma Utopia e Luta, e passou a trabalhar no Quilombo das Artes, onde deu continuidade à Oficina de Teatro em Ação Direta, onde construiu e apresentou Nosso Herói morreu de calibre 12; 1º de Maio Trabalhadores e o Julgamento de Yeda Crusis (2009). No final do ano, a Cambada pôs nas ruas o seu novo espetáculo de rua, Árvore em Fogo, contando a história da vida e da obra de Bertolt Brecht, tendo como pano de fundo a 1ª e 2 ª Guerras Mundiais.
Em 2010, na Oficina de Teatro em Ação Direta, foram criadas as intervenções Para Que(m) Serve Teu Voto? e Abolição Libertária. Em 2010, a cambada desenvolveu o seu primeiro espetáculo de sala, Margem abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonaltas, que estreou dia 13 de dezembro no Clube de Cultura. Em 2011, da oficina originou as intervenções Pula a Roleta e Pacha mama.
Em dezembro de 2011, estreou sua nova peça de teatro de rua chamada Futebol, nossa Paixão: pra falar sobre política, futebol e religião. A peça abordava a vida de personagens populares moradores de uma favela que são apaixonados por futebol e que têm suas vidas mudadas a partir da vinda da Copa do Mundo de Futebol em 2014, tanto pela expectativa de ver o jogo com seus próprios olhos quanto pelas mudanças que vão ocorrendo no país e na cidade. Estes favelados, representando o povo brasileiro, fazem de tudo para ver a grande final da Copa do Mundo, mas acabam se deparando com as agruras das injustiças sociais devido ao meio em que estão inseridos.
Em uma adaptação do texto Corinthians, meu amor de César Vieira[2], o Levanta Favela traz uma discussão a respeito da paixão que o povo brasileiro nutre pelo futebol e o choque de interesses que ocorre a partir das conseqüências possíveis geradas por um megaevento do porte da Copa do Mundo de Futebol no Brasil. Um dos dados mais relevantes na pesquisa é que a Cambada Levanta Favela é bem lembrada pelo público, e é um dos poucos grupos que vive exclusivamente com verba própria de seus integrantes durante estes cinco anos de trabalho continuado.

8.    Mosaico Cultural (2010)
Em tempos de guerra e de paz, sem regras, não pertencendo a reis ou qualquer governo nascem os Corsários Inversos. Autênticos heróis fora da lei.
Desbravadores da poesia e da percepção, eles navegam pelas almas saqueando os sentimentos em busca da sensibilidade pela troca.
Sua Nau nos conduz ao além mar da imaginação, ressignificando o cotidiano que passa desapercebido ao nosso olhar.    
É um convite para atracarmos em um universo de imagens e sensações, materializadas através dos objetos. Um encontro da música e da poesia com o teatro de animação. (Release feito pelo grupo para seu espetáculo Os Corsários Inversos)

O espetáculo Os Corsários Inversos tem por proposta abranger as diferentes linguagens teatrais, sendo ponto de encontro da música, do teatro de animação e do poema. Os “piratas-poetas” fazem uma encenação onde há um sutil e engraçado jogo entre os personagens e a plateia, encontrando no olhar do espectador um porto seguro para um escambo de sentimentos.
Em pequenos grupos, o público, sem restrição de idade, é convidado a mergulhar no lúdico da imaginação. O espetáculo fez uma circulação pelo Estado e país com apresentações em Porto Alegre, por meio do Prêmio Myriam Muniz de Teatro – FUNARTE. O grupo pouco apresentou em Porto Alegre nestes últimos meses, fez mais apresentações fora da cidade.

9.    Falos & Stercus (1991)
O grupo tem por proposta a "fertilidade criativa e o exercício da sensibilidade humana", e em 2013 completa 21 anos de atividade. Encenou espetáculos no Brasil e na Europa, e é responsável por alguns espetáculos que questionaram a sociedade e as instituições de poder, como PM2, Farsa Trágica, Clã Destino, A Escrita de Borges, La Loba, In Surto, Voo das Fêmeas, Mithologias do Clã e WWW. Prometeu.
O nome do grupo é inspirado em duas ideias de fertilidade. A primeira, o símbolo usado nos rituais dionisíacos e posteriormente nos festivais de teatro grego: o falo. A segunda relaciona-se ao adubo que dá vida a planta: o esterco.
O espetáculo Despedida de Palhaços teve financiamento do FUMPROARTE da Prefeitura de Porto Alegre e estreou em 22 de julho de 2012 no Parque Farroupilha, cumprindo temporada até o final de agosto pelas praças e parques da capital gaúcha. Em setembro do mesmo ano integrou a programação do 19º Porto Alegre em Cena, e em 2013 participou do Festival Palco Giratório – SESC/RS.
Na peça, os palhaços Sifú Carvalho e Piróca estão a ponto de desistir de sua arte e abrir mão daquilo que, durante anos, foi sua razão de existir. Decepcionados com a desvalorização de seu ofício no Brasil, eles acreditam que a única saída pra evitar a ruína é partir rumo à Europa, em busca do tão sonhado “éden cultural”. Na bagagem, levam apenas a esperança de ter seu trabalho reconhecido e desfrutar de algum prestígio em terras estrangeiras. Mas no caminho conhecerão um menino de rua que sonha entrar para o circo e embarcar com eles na aventura. O cenário do espetáculo é também o meio de transporte dos palhaços: uma espécie de triciclo gigante carinhosamente apelidado de “Traquingonça”, com mais de quatro metros de altura. Com este trabalho, o Falos retorna às suas origens ao utilizar o teatro de rua como ferramenta de jogo direto com o público, surpreendendo-o em seus trajetos cotidianos e interagindo com a paisagem urbana.

           Os grupos pesquisados
          Neste ano de 2013 o Ói Nóis completou 35 anos, com três apresentações grandiosas no Parque da Redenção e com malas prontas para ir à Portugal.
A Oigalê depois de cerca de 80 espetáculos durante estes 10 meses trarão Circo dos Horrores, que estreia em setembro com Financiamento do Fumproarte.   Já o Falos esta pesquisando e terá uma intervenção urbana que estreia dia 21 de setembro no Arroio dilúvio, através da Lei de Fomento a Grupos de Teatro e Dança. O Povo da Rua estreia um novo espetáculo Dez Mandamentos da Capital com o financiamento do Fundo de Apoio a Cultura do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. O Mosaico Cultural acaba de fazer uma circulação fruto do Prêmio Myriam Muniz.  A Usina do Trabalho do Ator promete um novo espetáculo para 2014. O Levanta Favela e os Pindaibanos seguem apresentando pelas ruas e praças seus trabalhos. O Manjericão completou 15 anos viajando bastante pelo Brasil
Entre novos grupos e os mais velhos a saída para a subsistência tem sido os editais públicos como: Fumproarte, FAC, Editais da FUNARTE e seleção pública Plano Petrobras Cultural, mas a certeza da verba nem sempre é garantida, e falta de incentivo a novos grupos é um fato. Porém a falta de leis para a manutenção de um trabalho continuado e reconhecido há anos e há décadas é um fato que poderia ser mudado com um Plano Nacional de Cultura que reconhecesse o valor cultural e artístico destes grupos de teatro de rua desde os mais novos até os que ai estão firmes e fortes desde o século passado. Nas conversas também vimos que outra forma de subsistência e troca é as Mostras e Festivais que acontecem regionalmente e nacionalmente. Outra forma é a circulação e venda de espetáculo para escolas e prefeituras do interior.
Ironicamente todos os grupos relatam que não são contratados pela Descentralização da Cultura da Secretaria Municipal da Cultura. Os grupos mais novos nunca foram contratados, pelo visto não se trata de algo recente, os grupos que começaram no século passado dizem que faz mais de 10 anos que não existe a circulação de espetáculos de teatro de rua como existia na década de 90. A função do Projeto Descentralização que era levar espetáculos e oficinas já se descaracterizou e nos últimos anos marca presença na periferia com apoio e contratação de apresentações de teatro de rua em eventos pontuais como 24horas de cultura e Porto Alegre em Cena.

Pesquisa com os Espectadores da Rua
O presente e breve relato de cada grupo não tem a intenção de ser um currículo dos grupos, porém tem a função de mostrar para o leitor de onde vem cada grupo, desde quando está em atividade e como basicamente eles se mantêm. Também ressalto que esses não são os únicos grupos de teatro de rua em atividade na cidade, mas sim são os grupos que consegui acompanhar dentro das 25 apresentações propostas pelo projeto da pesquisa, e conversar com seus integrantes durante o período da investigação (outubro de 2012 até julho de 2013).
Foram cerca de 250 pessoas ouvidas, em locais centrais da cidade como prainha da Usina do Gasômetro, Largo Glênio Peres, Parque da Redenção (Brique da Redenção, Recanto Alpino, Rótula da Setembrina), e Praça da Alfândega. Algumas das apresentações se deram no 5º Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre e no 8º Festival de Teatro Palco Giratório. Saliento que todas as apresentações foram feitas em locais públicos abertos e com apresentações gratuitas, sendo esta uma pratica cotidiana do teatro de rua (porém mais adiante aprofundarei a ideia de que o teatro de rua é arte pública de performance e convívio).
Todas as perguntas do questionário foram feitas no final das apresentações teatrais para um público aleatório que permaneceu do início até o final do espetáculo. A intenção desta pesquisa não é fazer uma abordagem individual de cada grupo e/ou espetáculo, mas sim o que o público pensa do teatro de rua produzido em Porto Alegre.
As perguntas do questionário eram as seguintes:

Nome, Idade, Profissão, Escolaridade
Cerca de 60% eram mulheres, e mais de 60% possuem formação superior ou superior incompleta. Acredito que o nível de escolaridade alto se deu pelo fato de a pesquisa ter sido feita basicamente na região central ou nos parques centrais da cidade. 

Tu já viste uma apresentação de teatro de rua antes dessa apresentação?
Uma grande constatação na entrevista é que 65% dos entrevistados já viram teatro de rua, e lembram dos grupos. Os mais citados foram o tradicional e histórico grupo Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz, a Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, e a Cambada de Ação Direta Levanta Favela.

Caso sim, qual espetáculo?
Muitos espetáculos foram citados como: O Amargo Santo da Purificação, O Baile dos Anastácio, Miséria Servidor de Dois Estancieiros, O Negrinho do Pastoreio, Futebol e Religião, Caravana da Ilusão, Despedida de Palhaço, A Serpentina ou Meu Amigo Nelson, Romeu e Julieta, Domínio Público, Ayê, O Vendedor de Palavras, Joana D’Arc, Farra de Teatro, A Máquina do Tempo, Timbre de Galo, Molière Imaginário, Noite de Fogo, A Mulher que Comeu o Mundo, A Mãe dos Monstros, Corsários Inversos, Lançador de Foguetes, O Homem do Gato.

Caso sim, tu lembras que grupo?
Os grupos mais lembrados foram Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais e Oi Nóis Aqui Traveiz, seguidos de Levanta Favela, Povo da Rua, Falos & Stercus, Pindaibanos, Mosaico Cultural, Depósito de Teatro, Galpão, Erro Grupo, Cia um Pé de Dois, Mototóti, Brava Companhia, UEBA.

Caso tu te lembras, onde foi?
A quase totalidade do público entrevistado respondeu que viu apresentações de teatro de rua em regiões centrais de Porto Alegre, como Redenção, Praça da Alfândega, Usina do Gasômetro, Parque Marinha do Brasil, Parque Harmonia, Praça Brigadeiro Sampaio, Andradas, Pátio do Teatro de Câmara Túlio Piva, Cidade Baixa, Mercado Público, Esquina Democrática, Casa de Cultura Mário Quintana e Parque Moinhos de Vento. Somente três locais eram descentralizados: Vila Assunção, Parque Mascarenha de Moraes e Parque Germânia.

Tu achas importante para a cidade apresentações de teatro de rua?
94% dos entrevistados responderem que “sim”, que apresentações de teatro de rua são importantes para a cidade; menos de 1% não consideram importante; 5% não responderem. Abaixo seleciono algumas respostas dos entrevistados. Elas podem parecer óbvias, mas elas deixam claro que o teatro de rua é extremamente bem aceito pela população, independente do grupo. É importante dizer que as apresentações que pude acompanhar tiveram uma ampla participação do público, tendo uma média de público superior a 500 pessoas.
O que fica evidente nas respostas abaixo é o fator econômico e a distância cultural da prática de ir ao edifício teatral. Em algumas citações é claro o estímulo que o teatro de rua pode dar aos espetáculos de sala. No entanto, a pesquisa não tem a intenção de provar que o teatro de rua é formador de público para ambientes fechados, mas sim mostrar que o teatro de rua é extremamente importante para a cidade e, principalmente, para a população.
Outro fator relevante é que nenhum entrevistado falou que as apresentações de teatro de rua deveriam ser proibidas ou controladas pelo Poder Público, prática que vem ocorrendo em diversas cidades do país. Em Porto Alegre ocorreram tentativas de proibição de apresentações de espetáculos da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, Ói Nóis Aqui Traveiz e Cambada Levanta Favela nos últimos anos. Além disso, recentemente o Grupo Manjericão teve problemas com tentativas de proibição em algumas cidades do resto do país, assim como o grupo Buraco d`Oráculo, de São Paulo, que teve problemas em Fortaleza-CE. Seguem abaixo algumas citações do público relacionadas à questão acima:
 “Sim, pela alegria das pessoas.”
“Muito, esta foi a diversão da tarde.”
“Sim, maravilhoso!”
“Muito importante.”
“Muito importante, pois é a democratização da cultura.”
“Sim, para disfarçar este triste e cinza da cidade.”
“Com certeza, facilita o acesso à cultura a toda a população.”
“Sim, porque coloca o público em contato com a cultura.”
“Sim, pela popularização da Cultura e levar à pessoas de menos instrução escolar.”
“Sim, porque tem pessoas que não tem condições para pagar um ingresso.”
 “Levar ao povo que não vai ao Teatro.”
“As manifestações artísticas que trazem uma reflexão e o despertamento da consciência são sempre válidos. O povo precisa disso.”
“Sim, acesso a cultura para quem não tem grana.”
“Sim, toda forma de arte é válida.”
“Sim, porque incentiva à cultura e é muito importante.”
“Muito Importante o acesso de cultura para todos os níveis sociais.”
Penso que és muy importante y fundamental El teatro de calle porque és La única manera de hacer llegar lãs ideas y emociones que produce  aquellas personas que nunca hun tenido relacionamento com el teatro.”
“Com certeza, é preciso levar o espetáculo onde está o público.”
“Sim. Pelo fato que leva teatro a todos os tipos de pessoas.”
“Sim, pelo bem de todos, pelas cores e alegrias.”
“Toda atividade cultural é válida em POA, pois temos poucas opções. Quando é um espetáculo de qualidade como este de hoje só engrandece o bem estar de POA.”
“Sim, é uma forma de democratizar a arte.”
 “Muito! Contribui para a formação dos sujeitos.”
Muito, es uma forma de llevar el teatro a la gente, fomentar La cultura y El pensamento crítico.”
“Acho muito importante já que o acesso aos grandes espetáculos e teatros não são para aquelas pessoas que trabalham a semana inteira e não tem sequer condições de colocar comida em casa.”
“Sim mostra mais uma forma de expressar a cidade.”
“É muito importante para o povo o acesso à cultura.”
“Importante, necessário e desperta outra dimensão cultural em nós.”
“Extremamente importante. A arte tem a sua função social, para isso é necessário que isso se torne comum.”
“Muito, é sempre uma alegria sair pelas ruas e encontrar com apresentações artísticas.”
“Penso que é muito importante, o teatro de rua é uma forma de distribuir cultura de forma gratuita e fácil para a população, além de enfeitar nossa cidade.”
“Acho muito importante levar essa cultura para todas as pessoas, independente da classe social.”
“Sim, pois leva a arte ao povo e utiliza do cenário urbano. Arte sem fronteiras.”
“Muito. Pois pode ser o primeiro contato ou contato mais fácil do povo com o Teatro, surgindo um interesse maior em conhecer e prestigiar qualquer arte teatral.”
“Muito, pois nem todos têm condições de pagar entrada.”
“Sim, ajuda com que as pessoas que não tem condições de ir ao teatro.”
“Sim. Em lugares públicos e gratuitos para levar a cultura para as pessoas que não tem acesso.”
“Com certeza. Cultura de graça para a população enriquecendo espaços públicos da cidade.”
“Acho bastante importante, pois leva o teatro a pessoas que não teriam acesso a ele.”

Tu acreditas que o Governo Municipal deve investir mais nesta prática teatral?
Mais de 99% dos entrevistados disseram que o governo municipal deve investir mais nesta prática teatral. Se esta resposta for associada à grande concentração de espetáculos de rua na região central de Porto Alegre, posso afirmar que o projeto “Descentralização da Cultura” (da Secretaria Municipal da Cultura), o qual já foi um parceiro de grupos desta modalidade teatral no sentido de levar cultura para a periferia da cidade, está em dívida material para com a população destas comunidades. A própria Secretaria da Educação também poderia levar para dentro das escolas dos bairros da periferia projetos que estimulassem atividades culturais nessas localidades. Ressalto ainda que na década de 1990 até o início dos anos 2000, era comum haver intensa programação artística nas áreas periféricas de Porto Alegre, porém os anos se passaram, a população cresceu nessas regiões e as apresentações de teatro de rua, as quais costumam ter um baixo custo de logística, e que poderiam ser uma bela alternativa para isto, só acontecem por iniciativa dos próprios grupos. Como exemplos desse tipo de iniciativa, posso citar o projeto Caminho para um Teatro Popular – Circuito de Apresentações Teatrais por Bairros, Parques e Vilas Populares da Cidade, desenvolvido pelo Ói Nóis, além de apresentações oferecidas pelos grupos que fazem Ocupação Cênica no Hospital Psiquiátrico São Pedro para o entorno do hospital (no caso, o bairro Partenon), como é o caso da Oigalê, Povo da Rua e Falos & Stercus.
Assim, é evidente a falta de uma política continuada para esta modalidade teatral. Por se tratar de uma arte que se concretiza em espaços públicos abertos da cidade, ocorrendo de maneira gratuita, deveria haver um maior incentivo do governo municipal para com circuitos e políticas de manutenção dos grupos e ampliação dos mesmos. Seguem abaixo algumas citações do público entrevistado para a pergunta acima:
“Sim, principalmente em bairros.”
“Sim, pois é muito difícil para o artista que trabalha com este tipo de espetáculo viver apenas do chapéu. É importante para os artistas também este investimento.”
“Obviamente que deve investir em toda prática teatral, musical com acesso público.”
“Mais investimento em teatro e menos em copa do mundo.”
“Sim, o teatro é uma das melhores artes.”
“Sim, cultura é um direito de todos.”
“Sempre o governo tem força, mas investe onde não precisa.”
“Sim, acredito que o governo municipal deve trazer cultura para o povo.”
“Não só nessa como em outras, quem sabe se aumentar a demanda?”
“Eles devem sim investir, pois é muito importante para nós.”
“Com certeza, é um investimento em educação e cultura que não pesa nos cofres públicos.”
“Acho que sim, pois incentiva mais quem faz esta arte.”
“Sim, incentiva a formação de público para o Teatro.”
“Sim. Não só investir como liberar os espaços públicos para isso.”
“Sim, educação e cultura, só assim para mudar.”
“Sim, o acesso à cultura para todos deve ser incentivado das mais variadas formas.”
Debe, em Porto Alegre no hay mucho Teatro de calle y hay muchos grupos y actores esperando llevar su arte a la rua.”
“Muito, deve investir o governo para poder fazer mais espetáculos.”
“Com certeza! Não só investir nas apresentações como patrocinar a formação de novos grupos.”
“Pelo bem de todos, pelas cores e alegria.”
“Sim, porque é uma ala cultural sem o devido incentivo.”
“Sim, é preciso um apoio permanente e práticas que visem à formação de público.”
“Em teatro e em outras áreas também.”
“O municipal e todos os outros e o setor privado também.”
“Sim todos devem ter o direito de se expressar.”
“Acho importante, mas o principal é à força de vontade.”
“Não tenho a menor dúvida que é importante o investimento.” 

Tu sabes o que é arte pública ou cultura pública? Caso sim, explique.
O conceito de Arte Pública vem das artes plásticas. Originalmente servia para designar as grandes obras de arte e os monumentos colocados em locais públicos abertos, ou seja, nas praças, ruas e parques. No entanto, como já citei anteriormente, após o processo de redemocratização no país, este conceito se amplia à medida que outras áreas artísticas passam a ir para as ruas também.  No início da década de 1980, havia somente quatro grupos de teatro de rua no país. Atualmente são centenas, e só em Porto Alegre deve existir cerca de quinze grupos que fazem teatro de rua.
Nesta pergunta, o que interessa é a declaração das pessoas entrevistadas a respeito do que pensam sobre este conceito. Num momento em que as manifestações reivindicatórias em todo mundo se proliferam, dever-se-ia questionar a questão da educação, da saúde e da segurança pública, uma vez que estes quesitos são de interesse (ou deveriam ser) de todos os cidadãos, assim como haver um debate a respeito de um Plano Nacional de Cultura que seja de ordem pública. Nesse sentido, saliento aqui que não só relacionado ao tipo de financiamento (no caso, edital público), mas sim que se leve em consideração um público alvo menos privilegiado financeiramente. Este público alvo se encontra majoritariamente nos locais públicos abertos, já que tais espaços são democráticos e de livre acesso para todo e qualquer indivíduo. Abaixo estão algumas respostas para a pergunta acima:
“A arte é de todos.”
“Arte que abrange temas que envolvam políticas variadas.”
“Acredito que seja a arte vinda de todos os espaços sociais.”
“É a incentivada por lei de acesso à cultura.”
“Arte para acesso de todos, subsidiada pelo poder público.”
“Acesso por todas as classes sociais.”
“Toda forma de expressão popular nas ruas.”
‘“Do povo para o povo com financiamento público, desde que gratuito ou acessível economicamente à grande parte da população.”
“Arte/cultura incentivada pelo governo e disponibilizada ao público.”
“Cultura acessível para todos.”
“Arte pública faz parte da cultura pública, isto é: livre, popular, democrática e isenta.”
“Aquilo que é feito a partir da cultura popular local e ofertada em espaços públicos.”
“É a forma de manifestação coletiva dos direitos e deveres e anseios do povo.”
“Todo tipo de arte, com livre acesso público.”
“Arte pública é a arte gratuita patrocinada pelo Estado.”
“É a arte de livre acesso ao povo, não interessa o gênero.”
“Entendo que são formas de expressão artísticas que sejam acessíveis a todos. Que todos tenham o direito de participar, tamanha é a importância enquanto forma de educação, diversão, conscientização, beleza...”
“Sim, teatro de rua ou apresentações sem fins lucrativos.”
“Arte para todos, com fácil acesso cultural para o povo.”
“Pode levar arte para rua, para todos, acesso para todas as classes.”
“Atividades culturais de acesso universal, direito social a cultura.”
“Arte/cultura produzida e oferecida livre, gratuitamente ao povo e pelo povo.”
“Arte e cultura nas ruas, para o público pelo público.”
“No meu ver, acho que é cultura junto com a Liberdade de se expressar.”
“Imagino que seja arte incentivada pelo poder público, realizada nos espaços públicos para o público da cidade.”
“Acho que é o subsidiado pelo governo e gratuito para o público.”
“Cultura gratuita incentivada pelo governo.”
“Para mim, a arte é sempre Pública, mesmo quando não é financiada pelo governo.”
“Toda manifestação cultural acessível ao público.”
“Arte pública é o teatro, e a cultura pública é a divulgação da arte.”
“É a cultura disponível a todas as classes sociais.”
“Imagino que possa ser todo o contato que a população tenha com a arte e que não seja cobrada.”
“São manifestações artísticas proporcionadas a todo o tipo de público em locais abertos ou visitados por diversos segmentos sociais.”
“Imagino que seja a democratização da arte, ampliando o acesso.”
“É a arte de rua para o público de rua, é a arte que todos têm condições de assistir.”
“É a arte de rua mostrando todo o potencial do artista e animando quem está olhando.”
“Acho que sim, o que eu entendo por cultura pública é a cultura ao alcance de todos”.
“Penso que a parte da cultura que cada um traz consigo por mérito próprio ou pelo incentivo de alguém.”
“Para todo circulante! Criada a partir das trocas e para as trocas.”
“Expressão Humana ou material de emoções e cultura.”
“Sim, espetáculos que falem de situações cotidianas sem ônus para a população.”
“Entendo serem as intervenções culturais independentes, organizadas por artistas e grupos sem fins lucrativos.”
“Acredito que oportuniza a população a ter acesso à arte e cultura.”

O que tu achaste do espetáculo? Ótimo, bom, regular ou ruim?
Nesta pergunta, espectador pôde expressar o quanto o espetáculo que ele acabou de ver lhe proporcionou. O que impressiona é que 85% dos transeuntes de Porto Alegre consideraram ótimas as apresentações teatrais que recém assistiram. A diversidade de linguagem e de temas abordados dos espetáculos de rua agrada ao espectador, assim como o convívio direto com o artista num local de lazer, prazer e descanso, como as praças e parques, ou nos lugares de passagem, como as ruas.
Do público restante, 14% acham boas as apresentações, e 1% regular, dados estes que mostram a qualidade dos grupos e espetáculos, e o interesse do público por teatro de rua, isto é, uma “arte pública de performance e convívio”.

Caso queira escrever ou comentar algo sobre o espetáculo, fique à vontade.
Para finalizar o questionário, deixei uma pergunta aberta para quem quisesse falar de suas impressões sobre o espetáculo que acabara de ver. Seguem algumas declarações do público:
“O espetáculo tem uma linguagem que segura o público. Ótimas composições musicais e enredo envolvente.”
“Este espetáculo deve ser visto por muitas pessoas. E além de muito bem concebido, leva algo que é vital para a arte. O amor que se repete nas interpretações.”  
“Parabenizo o grupo pelo espetáculo. Ótimos atores e o roteiro muito divertido.”
“Fiquei surpreso, vim ao parque apenas para aproveitar à tarde de sol e o ar. Adorei a novidade e a espontaneidade de vocês.”  
“Muito lindo! É um recorte da cultura brasileira atravessado pela condição política que construiu a nossa forma de ser.”  
“O Oi Nóis deve dar uma aula pra Globo sobre o que é arte e expressão.”
“Acredito que este espetáculo nos transporta para um mundo de magia, fundamental para enriquecer a nossa vida cotidiana tão corrida e em tantos momentos perdida nos valores que realmente importam.”
“A melhor crítica construtiva que já vi! Sem ofensas há ninguém, muito boa, apenas mostrando o Brasil de hoje.”
“Eu achei muito bom! Epero que tudo dê certo para eles e que Deus proteja eles nessa viagem e sempre dê força para eles. Tudo de bom para vocês e boa sorte na vida de todos.”
“No sábado, na Praça Tapira, assistimos a este espetáculo, e voltamos para assistir novamente, e é maravilhoso!. Parabéns!
“O espetáculo é maravilhoso! Levar arte, música, poesia, teatro para rua ajuda na educação do público, instrui, alegria e diversão. O público se aproxima, se relaciona com o outro e quebra o tabu da distância da arte.”
“A peça foi muito bem elaborada, engraçada e cativante. E sinceramente gostaria de ver mais dessas peças pelos parques.”
“Se órgãos públicos do nosso governo investissem mais em arte muitas pessoas adquiriam um caminho a seguir ou até uma vocação a seguir. Muito bem! Muito bom obrigado pela oportunidade de participar desta obra pública.”
“Vocês estão de parabéns! São ótimos, deveria ter sempre. Só acho que poderia ser um pouco mais curto, nem tantas pessoas se prendem tanto tempo.”
  “Continuem com essa iniciativa. Parabéns ao grupo. Todos somos formadores de opinião e com certeza serão mencionados por quem assistiu. É assim que começa.”
“Não só sobre o espetáculo, mas sobre o grupo. Fico feliz de ter esses atores preocupados com a arte, com a arte enquanto público e como ferramenta de educação popular. É expressão de amor com o coletivo.”
“Maravilhoso, a participação do público também é importante, para quem não tem condições de ir ao teatro é importante, e para as crianças é maravilhoso estou muito feliz de ter assistido. Beijos.”
“Primeiro teatro de rua que assisto. Foi ótimo!”
“Foi ótimo! Chamou a atenção pela qualidade do texto.”
“Eu achei muito lindo e bom! Incentiva o público a pensar e refletir. E rir. Tira o estresse das pessoas.”
“Achei maravilhoso, pois faz abrir os olhos das pessoas quanto à realidade da vida.”
“Excelente. Já havia assistido e fiz questão de assisti-lo novamente.”
“Poderia haver maior divulgação, eu soube por acaso e gostei muito do que vi.”
“O espetáculo é super criativo, de fácil compreensão e com um belo toque de sensibilidade. Sem falar do figurino que é lindo. Muito bom mesmo!”
“Achei muito legal (ou tri massa como dizem os gaúchos). Só que também acho que a divulgação deste tipo de eventos não é muito, como dizer, divulgado.”
“Achei interessante porque é através do teatro que expressam as opiniões, críticas e nos fazem pensar sobre todos os assuntos, principalmente no de hoje sobre a Copa, investimentos e sobre o que nosso país realmente precisa para melhorar. Acho que deveria haver mais teatro de rua, principalmente para as pessoas que não tem acesso”.
“Estava bom. Penso que se houvessem mais recursos financeiros, os grupos poderiam aprimorar mais e assim o povo teria oportunidade e mais acesso á cultura e as artes.”

Conceitos sobre Arte Pública
Valmir Santos fala em seu artigo publicado na Cavalo Louco, revista do Ói Nóis, como o teatro de rua é arte pública.
(...) também ocupa o espaço público a partir de 1977 bebendo na fonte da literatura de cordel, o que influência decisivamente o nascimento do grupo Imbuaça (1977) em Sergipe. Não demora aparecem o Ói Nois Aqui Traveiz (1978), no Rio Grande do Sul; O Grupo Galpão (1982), em Minas Gerais; o Alegria Alegria (1984), no Rio Grande do Norte; o Teatro de Anônimo( 1986); no Rio de Janeiro; e o Fora do Sério (1988), o Pombas Urbanas (1989) e os Parlapatões, Patifes &Paspalhões (1990) em São Paulo.
Do Imbuaça em diante, todos seguem em atividades. É bastante comum que estes coletivos conciliem espetáculos de palco e de rua, mas uns poucos perseverantes dentre os citados emanam a mesma vitalidade, a mesma energia e inventividade do início de trajetória em suas apresentações ao ar livre. É preciso reinventar-se ao olhar para trás. Em compensação, temos notícias de grupos de jovens criadores que já nascem no olho do furacão poético da rua e investem em suas linguagens cênicas e dramatúrgicas com muito ímpeto, coragem e talento. É o caso dos gaúchos da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais (1999), dos paulistas da Brava Companhia de Teatro (1998), do Tablado de Arruar (2001), do OPOVEMPÉ (2004) e Grupo Trecho (2007); e da paranaense Companhia Silenciosa (2002). Estes grupos têm contribuído para o alargamento de horizontes quando à noção de Teatro de Rua, fundindo-o a canais múltiplos da arte contemporânea sem menosprezar a veia popular na acepção sofisticada possível, bem acima do mediano midiático ao qual somos bombardeados cotidianamente. Arte pública, em suma. (SANTOS, Valmir)

Neste texto, Valmir faz referência a grupos de teatro de rua das décadas de 1970 e 80 como fontes iniciais de arte pública, e uma nova busca de grupos surgidos nos últimos anos no país. Muitos destes grupos novos são incentivados pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, a qual é um das poucas políticas públicas específicas para o teatro, e que tem contemplado muitos grupos de teatro de rua. Em suma, neste breve recorte do texto, Valmir afirma que a relação artística em vias públicas se contrapõe ao mediano midiático, afirmação esta que entra em acordo com a afirmação de Jorge Dubati sobre o tecnovívio e o convívio.
Amir Haddad, diretor do grupo Tá na Rua, do Rio de Janeiro, afirma na revista A Poética da Rua do Núcleo Pavanelli de Teatro e Circo:
(...) Nossa atividade é de Arte Pública. Nós vamos para as praças, nós vamos para as ruas, nós oferecemos o nosso trabalho. Nós achamos que existe uma quantidade grande de doação que é possível ser feita em contato direto com a população. Nenhum grupo de teatro de rua tem esta idéia de se trancar e vender ingresso. A gente vai para a rua e muitas vezes acha que tem dinheiro, acha que quer, acha que merece – merece! Mas não ter dinheiro não impede a gente de fazer, de ir para a rua e fazer. É um chamado muito grande...
...A arte pública se realiza no contato direto do artista ou de sua obra com a população, sem distinção de nenhuma espécie. Neste sentido o Teatro de Rua é a modalidade que mais se aproxima de um conceito antigo e moderno do que pode ser Arte Pública. (HADDAD, Amir)

No entanto, como falei anteriormente, o conceito inicial de arte pública vem da área das artes plásticas, a qual se caracteriza por não ter obrigação da presença do artista junto a sua obra. Assim, a obra muitas vezes é feita em um local fechado, e colocado nas ruas da cidade, sendo raramente feito em situação presencial e de convívio para com o apreciador da obra (pois isso não é da ordem desta linguagem artística, diferente do teatro, que pressupõe a presença do artista e do espectador).
Definir uma arte que seja pública obriga a considerar as dificuldades que rondam a noção desse conceito. A princípio, se refeririam a obras que pertencem aos museus e acervos, ou aos monumentos nas ruas e praças. Como exemplos disso, posso citar O Pensador, de Auguste Rodin (1840 - 1917), instalado em frente do Panteão em Paris, e os muralistas Diego Rivera (1886 - 1957) e David Alfaro Siqueiros (1896 - 1974), estes últimos considerados alguns dos precursores da arte pública (em virtude de seu compromisso político e de seu apelo visual).
O sentido recorrente da arte pública se relaciona a uma arte realizada fora dos espaços tradicionalmente dedicados a ela. Fala-se de uma arte em espaços públicos, ainda que o termo possa designar também interferências artísticas em espaços privados, como hospitais e aeroportos. A idéia geral é de que se trata de arte fisicamente acessível, que modifica a paisagem circundante, de modo permanente ou temporário. O termo entra para o vocabulário da crítica de arte na década 1970, acompanhando de perto as políticas de financiamento criadas para a arte em espaços públicos, como o National Endowment for the Arts (NEA) e o General Services Administration (GSA), nos Estados Unidos. Diversos artistas sublinham o caráter engajado da arte pública, que visaria alterar a paisagem ordinária e, no caso das cidades, interferir na fisionomia urbana, recuperando espaços degradados e promovendo o debate cívico. "O artista público é um cidadão em primeiro lugar", afirma o iraniano Siah Armajani (1939), radicado nos Estados Unidos.
A arte pública deve ser pensada como uma tendência da arte contemporânea de se voltar para o espaço, seja ele o espaço da galeria, o ambiente natural ou as áreas urbanas. Diante da expansão da obra no espaço, o espectador deixa de ser observador distanciado e torna-se parte integrante do trabalho (nesse sentido, difícil parece algumas vezes localizar os limites entre arte pública e arte ambiental). O contexto artístico que abriga as novas experiências com o espaço refere-se ao desenvolvimento da arte pop, do minimalismo, do pós-minimalismo e da arte conceitual, que tomam a cena norte-americana a partir de fins da década de 1960, desdobrando-se em instalações, performances, arte processual, land art, graffiti art etc. Essas novas orientações partilham um espírito comum: são, cada qual a sua maneira, tentativas de dirigir a criação artística às coisas do mundo. As obras articulam diferentes linguagens - dança, música, pintura, teatro, escultura, literatura etc. -, desafiando as classificações habituais, colocando em questão o caráter das representações artísticas e a própria definição de arte. Interpelam criticamente o mercado e o sistema de validação da arte, denunciando seu caráter elitista.
Para Arnaldo Antunes, músico e poeta,
Arte pública é arte de graça, é arte que você não paga para ver, é arte que as pessoas têm acesso sem ter que pagar ingresso. Arte pública é arte sem mercantilização. É aquilo que está na rua, na praça ou em exposição aberta. São as formas de arte acessíveis à maioria da população que não tem grana e que pode, então, conviver com aquilo. Não precisa estar na rua, mas não pode prescindir do fato de ser de graça. No Brasil, rola muito menos do que deveria rolar. (ANTUNES, Arnaldo)

Já para Artur Omar, diretor de cinema,
Corta. (Você me vem com cada pergunta.) Olha só, para mim, arte pública hoje é um pouco o que eu estou fazendo. Existe todo um conceito de arte pública, que é arte que está nas praças ou que opera nas cidades etc. e tal. Mas o que eu acho que seria arte pública, pelo menos na minha prática, seria a arte pós-contemporânea. Aquela que está operando com a emoção do povo. Ela vai resgatar o que a televisão e toda a mídia estão fazendo e operar ali. Essa ocupação da mente pública, essa arte vai tentar estar dentro desse lugar. Não com uma desconstrução como a arte contemporânea fez, mas criando novos objetos e possibilitando novas formas de percepção. Isso pode se traduzir das mais diversas maneiras, nos mais diversos objetos. Não estou apresentando um trabalho narcisístico da minha viagem ao Afeganistão. Estou me usando como um aparelho de percepção para tentar entender a coisa além daquilo que é fornecido. Nesse sentido, acho que o que estou fazendo é arte pública porque estou dialogando com o público.(OMAR, Artur)

Segundo Fabiana de Barros, artista,
Há várias definições de arte pública. Antes, era só uma escultura em uma praça e hoje é um movimento em si - o que é mais complexo, porque implica em obras que se relacionam interativamente com o público. Considero que é a participação do visitante que faz a própria obra. Ou seja, o projeto Fiteiro Cultural, que está no Museum for All, da artista grega Maria Papadimitriou, na Bienal, se define a partir da comunidade onde está, a partir do visitante, de quem participar dele. Se está nos Alpes suíços, em uma comunidade de camponeses, ele vai adquirir um significado. Quando está com os ciganos na periferia de Atenas, ele se transforma em outra coisa. A definição, quem dá, é a comunidade em que o trabalho está inserido. Se o espectador não vier, meu trabalho não existe. Há uma postura social nisso. Acho que o trabalho tem que ter um engajamento com a situação do mundo. Meu pai, Geraldo de Barros, já tinha uma postura de arte pública, porque queria que uma cadeira que ele desenhasse fosse uma obra de arte que todos pudessem comprar a preços acessíveis. Arte pública envolve essa utopia. (BARROS, Fabiana de)

Conforme Tadeu Chiarelli, professor de história da arte brasileira na ECA-USP,
Acho que existe um pequeno equívoco: as pessoas tendem a confundir "arte pública" e "arte em espaços públicos". Creio que "arte pública" é o conjunto de obras que deve pertencer a uma determinada comunidade, estar disponibilizada aos elementos que a constituem. Tal conjunto deve estar disponibilizado em museus e espaços de passagem (ruas, parques etc.), não apenas por meio de sua exposição, mas também através de serviços educativos que as tornem mais efetivamente claras para o público - seu proprietário. No Brasil, infelizmente, toda a discussão sobre "arte pública", que, na verdade, é sobre "arte em espaços públicos", não leva em consideração os acervos fixos de nossos museus, que pertencem a todos. Privilegiam apenas exposições periódicas em espaços públicos, exposições e/ou intervenções que, quase sempre, pouco ou nada contribuem para a ampliação da percepção estética do transeunte. (CHIARELLI, Tadeu)

Por fim, para Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC – SP,
Toda arte é pública, a meu ver, pois o fazer artístico é irrevogavelmente uma ação sobre o mundo e, portanto, sobre o espaço e a cidade, que incorpora a habitação, a circulação, a interação, enfim, a vida. O reforço da idéia do público, nessa expressão, ajuda-nos, no entanto, a não perder de vista o caráter democrático da arte, capaz de propor, a cada indivíduo, novas relações com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo. (MIRANDA, Danilo S. de)


Teatro de Rua – Arte Pública de Performance e Convívio
Usando basicamente o conceito de Amir Haddad a respeito de Arte Pública e a exemplificação de Valmir Santos citando a prática de vários grupos de teatro de rua, conceituo a partir de uma palestra do professor da UNESP, Alexandre Mate sobre os termos Teatro e Rua:
Teatro (Gr.) theatron lugar de onde se vê, referindo-se, portanto, a platéia, do grego plastos – que é manipulável por gesso ou cera;
Rua: substantivo latino derivado de ruga – que, figurativamente, alude a traços e marcas no rosto. Desse modo, a cidade também é um corpo, repleto de rugas-artérias (ruas) marcadas pelo tempo e cuja construção ocorre, fundamentalmente, pelas mãos dos homens. Ruas como rugas sulgadas pelo intermitente trânsito de homens – sozinhos ou acompanhados; independentes ou motorizados; distraídos ou em posição de caçadores; abatedores ou em processo de abate...Homens no tempo em tecimento a partir de múltiplas relações... (MATE, Alexandre)

Decido buscar nos cadernos de aula na década de 1990, quando era aluno do Departamento de Arte Dramática da UFRGS – nas aulas de Introdução à Cultura para o Teatro (Art 918). Na primeira aula, a então professora Graça Nunes citou a arte da Performance: “O importante é a ação em si. Exige a presença do criador”. O dado vivo do teatro – o encontro entre a essência, a dança e a música, partilhando um pouco deste dado vivo, mas não partilhando a iconicidade que tem o teatro. O ator é o ícone com o personagem.
Após conversar com a professora acima citada, encontrei também no Dicionário de Teatro, de Patrice Pavis, algo que pode ajudar nesta conceituação:.
Artes de Cena: do francês.:arts de La scène; Inglês.: performing arts, stage arts; Espanhol.: artes de La escena
As artes da cena estão ligadas à apresentação direta, não adiada ou apreendida por meio de comunicação, do produto artístico. O equivalente inglês (performing art) dá bem a idéia fundamental destas artes da cena: elas são “performadas”, criadas diretamente, hic et nunc, para um público que assiste (a) a representação: o teatro falado, cantado, dançado ou mimicado (gestual), o balé, a pantomima,  a ópera são exemplos mais conhecidos. Pouco importa a forma de palco, e a relação palco platéia; o que conta é a imediatidade da comunicação com o público por intermédio dos performers* (atores, cantores, mímicos, etc.)
*Performer: termo inglês usado às vezes para marcar a diferença em relação à palavra ator, considerada muito limitada ao interprete do teatro falado. O performer, ao contrário, é também cantor, bailarino, mímico, em suma, tudo o que o artista, ocidental ou oriental, é capaz de realizar (to perform) num palco de espetáculo. Performer realiza sempre uma façanha (uma performance) vocal, gestual ou instrumental, por oposição a interpretação e à representação mimética do papel pelo ator. (PAVIS, Patrice)

Junto isto ao conceito de Jorge Dubati, um dos principais nomes da historiografia e da critica teatral da América Latina, que proferiu a palestra “Teatro, convívio e tecnovívio”, no primeiro dia do congresso científico da ABRACE (encontro de pesquisadores em Artes Cênicas), quando discutiu implicações e alternativas que as Artes Cênicas enfrentam face às novas tecnologias e às novas formas de interação humana que caracterizam o mundo contemporâneo. Sua afirmação em acordo com a afirmação de Valmir Santos, de que o teatro de rua pode ser o oposto ou contraposição a um mundo mediano e midiático. Jorge Dubati concedeu entrevista para Renato Mendonça, onde fala:
O Teatro, historicamente, remete a uma estrutura ancestral que chamo de convívio. Convívio é a soma de interações que envolvem duas ou mais pessoas quando elas compartilham territorialmente um vínculo...
...a grande diferenciação entre convívio e tecnovívio é justamente tudo aquilo que implica a sustação do corpo. Primeiro elemento: desterritorialização. Segundo elemento: capacidades na percepção que não sejam as naturais em um corpo. Terceiro elemento: supressão do vínculo dialógico com o outro, porque o outro pode ou não estar do outro lado da intermediação tecnológica. É o que acontece com o cinema, por exemplo. No cinema não há nada do outro lado, há imagens projetadas, mas não há diálogo com o ator. O teatro, em sua fórmula básica, não admite a supressão do corpo, o vínculo tecnovivial. Dessa forma, ele já se distingue do cinema, do rádio, da web, das redes óticas e da televisão. O teatro não permite a desterritorialização, a desauratização, a des-historiação da zona de experiência, porque não admite a supressão do corpo. O que é sumamente interessante no Teatro é que, por um lado, sua base está no convívio, no encontro do corpo a corpo. (DUBATTI, Jorge)

Em suma, considero o teatro de rua como “arte pública de performance e de convívio”, pois a difere das demais artes públicas, sejam elas arquitetônicas, plásticas, urbanísticas, entre outras, já que o teatro de rua pressupõe que o artista esteja “presentificado” (por isso performance),  em convívio com o espectador.
Por último, penso ser importante destacar que falta uma política pública para a arte pública, uma vez que se fala tanto em educação e saúde pública, mas a partir da amostragem desta pesquisa percebo a altíssima aceitação da população para esse tipo de arte pública. Uma política pública cultural séria e consistente deveria prever o incentivo a grupos, artistas e coletivos que mantém a pratica da arte pública de rua. Um exemplo disso poderia ser uma Lei de Municipal, Estadual e Federal de Fomento ao Teatro (aqui em Porto Alegre já existe a Lei de Fomento ao Teatro e Dança, porém a verba é de extrema insignificância para qualquer fomento ou manutenção de um grupo durante um ano, tendo em vista uma mísera verba de R$100.000,00 anual), a exemplo de como ocorre em São Paulo, na ordem de R$ 18.000.000,00 anual e corrigido a cada ano. Porto Alegre conta com eventos pontuais como o Festival de Teatro de Rua da cidade, que leva apresentações para as ruas da cidade, e o 24 horas de Cultura, a qual ocorre durante o aniversário de POA e que costuma levar espetáculos de rua para os bairros da periferia. No entanto, nesses dois casos, em que existe uma programação intensa, são casos muito pontuais e raros. Nas demais 8736 horas, a população não vê um incentivo a arte pública. O projeto Descentralização da Cultura, por exemplo, deixa a desejar na sua função, pois há muito tempo que não promove circulação de teatro de rua na cidade. Poderia existir, por exemplo, uma Mostra Itinerante de Teatro de Rua, atingindo todas as regiões do Orçamento Participativo.
Portanto, esta pesquisa teve como objetivo ouvir a população que assistiu a teatro de rua entre os meses de outubro de 2012 e julho de 2013, e defender a ideia de que o teatro de rua é uma arte pública de performance e de convívio. Isso é somente o começo de um estudo e uma radiografia inicial da percepção do público frente a esta modalidade teatral, podendo ser uma grande motivação ao Poder Público Municipal de voltar a promover circulação de teatro de rua pela cidade.  A Prefeitura, a Secretaria de Cultura e o projeto Descentralização que já foram exemplo e referência nacional de circulação de espetáculos teatrais pelas ruas, parques e bairros de Porto Alegre.
Por fim, agradeço a todos os grupos envolvidos, a Niltamara Abreu Gomes, Vera Lucia Parenza e, em especial, a Evelise Mendes.


Bibliografia consultada
CRUCIANI, Fabricio; FALLETTI, Clelia. El Teatro de Calle – Tecnica y manejo del espacio. Grupo Editorial Gaceta, S.A,1992.
GALEANO, Eduardo. As palavras Andantes. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1994.
MENDONÇA, Renato. Cena 10 Conexões: entrevista com Jorge Dubati.
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. 2ª Ed. São Paulo:Perspectiva,1999.
TURLE, Licko. Palestra sobre o conceito de Arte Pública. Instituto de Artes da UNESP, 2011.



[1] Ator, diretor e produtor teatral, um dos fundadores da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais (1999).
[2] Idibal Piveta, advogado de presos políticos durante a ditadura civil-militar que, para se esconder da censura adotou o nome de César Vieira. Fundador do Teatro Popular União e Olho Vivo, criado em 1966, um dos mais longevos grupos  da América Latina. O grupo tem sede na cidade de São Paulo.