Adailtom
Alves Teixeira[1]
A cena se repete com muita frequência:
um(a) jovem sentado(a) numa sala de aula, em uma mesa de jantar (em casa ou em
restaurante) ou no transporte público, com os olhos fixos na tela. A cena, que
não é propriamente de rebeldia, revela a captura. O dispositivo que ele(a)
segura foi projetado para não ser largado. E o que acontece com o sistema
nervoso de alguém submetido a esse estado de captura contínua é algo que a
filosofia, a psicanálise e a neurociência, por meio de diversos estudos,
convergem em descrever com crescente preocupação.
Os jovens de hoje são (é
importante dizer que isso não é privilégio da juventude, mas é o nosso foco),
ao mesmo tempo, os mais conectados e, provavelmente, os mais esgotados de que
se tem notícia. Excitados, desatentos e cansados, graças a um design que
queria isso desde sua criação.
Vamos dialogar um pouco mais
sobre esses pontos, no intuito de compreendermos o que vem acontecendo – embora
é notório que muitos já sabem, até eles próprios, mas, nesse caso, saber parece
não ser suficiente para abandonar a “prática”.
A excitação como estado permanente
Nina Saroldi, psicanalista e
pesquisadora brasileira, em curso na Casa do Saber, formulou uma tríade que
resume com precisão o estado subjetivo do(a) jovem contemporâneo(a):
onipotente, deprimido e excitado. O excitado é aquele que vive em estado de
ativação constante, alimentado por estímulos que chegam sem pausa, sem
intervalo, sem silêncio. As telas, e mais especificamente as redes sociais e os
conteúdos de consumo rápido como os vídeos curtos, são o motor dessa excitação.
Cada notificação, like, comentário ou novo vídeo ativa o sistema de recompensa
do cérebro, promovendo picos frequentes de dopamina.
O problema não é o prazer em
si, mas a frequência e a gratuidade com que ele é induzido. A razão pela qual
os algoritmos têm se tornado cada vez mais refinados é que eles vêm se
transformando em especialistas no disparo da dopamina — e recebendo descargas
desse hormônio sem muito esforço, a tendência é que os usuários se tornem cada
vez mais tolerantes, precisando de doses maiores para sentir o mesmo efeito. É
a lógica do vício transposta para a experiência cultural cotidiana. Nesse
sentido, estamos vendo nascer uma nova subjetividade bastante delicada, pra não
dizer perigosa.
Byung-Chul Han, filósofo
sul-coreano radicado em Berlim e uma das vozes atentas sobre o sofrimento
psíquico contemporâneo, descreve esse fenômeno como parte de uma mutação
estrutural da sociedade, já que em sua visão “Cada época possuiu suas
enfermidades fundamentais”. Em Sociedade do Cansaço (2017, Vozes), Han
sustenta que sofrimentos psíquicos como burnout, transtorno de déficit de
atenção e depressão são apreendidos em sua relação direta com o modo operatório
do capitalismo contemporâneo — um capitalismo que já não precisa de vigilância
externa para nos explorar, porque aprendeu a nos fazer explorar a nós mesmos. “Na
sociedade do trabalho e do desempenho de hoje, que representa traços de uma
sociedade coativa, cada um carrega consigo um campo, um campo de trabalho. A
característica específica desse campo de trabalho é que cada um é ao mesmo
tempo detento e guarda, vítima e algoz, senhor e escravo. Nós exploramos a nós
mesmos. O que explora é ao mesmo tempo o explorado. Já não se pode distinguir
entre algoz e vítima”. Por essa mesma lógica, pode-se afirmar que o jovem
excitado não está sendo obrigado a nada: ele escolhe, voluntariamente, o
próximo vídeo. E o próximo. E o próximo. Algoz de si nesse processo maquínico.
Uma sociedade viciada em
dopamina causada pelo constante uso de redes sociais e estímulos torna o ócio
(visto como tédio) um pecado capital. E é exatamente aí que reside uma das
perdas mais silenciosas desse processo: o ócio, historicamente o espaço onde a
imaginação trabalha, onde o pensamento divaga e onde a subjetividade se
constitui, torna-se insuportável. O jovem que não consegue ficar dois minutos
sem uma tela não é preguiçoso — é alguém cujo limiar de tolerância ao vazio foi
radicalmente rebaixado. O ócio criativo desaparece e a subjetividade é hackeada,
ou melhor, é sugada e entregue às big techs.
A desatenção como condição estrutural
Evidente que a era visual não
começou com o smartphone. O cinema, a televisão, a publicidade, o néon das
cidades — toda a modernidade foi uma aceleração da imagem sobre a palavra, do
estímulo sobre a reflexão, e Guy Debord, em A sociedade do espetáculo
(1997, Contraponto), já alertava que “Do automóvel à televisão, todos os bens
selecionados pelo sistema espetacular são também suas armas para o reforço
constante das condições de isolamento das ‘multidões solitárias’”. O digital apenas
intensificou esse processo a um novo ponto qualitativo: não apenas mais
imagens, mas imagens que respondem, que aprendem o que nos prende e nos
entregam mais disso. Primeiro vamos moldando o algoritmo a nossos gostos,
depois, ele molda o nosso gosto, deixando-nos em um fluxo continuo de mais do
mesmo. Quando há criticidade apurada já é difícil sair do círculo vicioso,
imagine um jovem em formação.
O resultado é a hiperatenção:
a existência de uma dispersa hiperatenção, isto é, a multiplicação da atenção
por mil e uma coisas, tarefas, leituras etc., são imensas e seus efeitos são
tremendos. A hiperatenção é o avesso da atenção profunda: ela permite que o
jovem acompanhe cinco conversas simultâneas, alterne entre doze abas abertas e
consuma trezentos vídeos por dia — mas o incapacita de ler um capítulo de livro
sem interromper a leitura para checar o celular. Aliás, é importante que se
diga, nunca se leu tanto, afinal estamos todos (as) lendo o tempo inteiro cards,
descrições de publicações etc., mas tem diminuído o processo de leitura atenta,
como livros e artigos, basta perguntar a qualquer professor universitário sobre
o quanto tem sido difícil que os/as jovens leiam textos profundos. Então, há
muita leitura diária, mas trata-se de uma leitura-varredura e não de uma
leitura imersiva.
A neurociência demonstra que o
cérebro não processa tarefas complexas em simultâneo, mas sim alterna
rapidamente entre elas, reduzindo a eficiência e aumentando o tempo de execução
de cada atividade. O que se percebe como multitarefa é, na verdade, uma sucessão
de microinterrupções — cada uma com custo cognitivo real. A economia da atenção
cobra o seu preço. Será por isso o crescimento de tantos transtornos e a venda
de tantos remédios para minimizar tais deficiências? O fato é que parece
difícil se concentrar com uma geringonça apitando ou vibrando a cada cinco
segundos no bolso.
A dimensão política desse
processo não deve ser subestimada. Para Han, em Infocracia: digitalização e
crise da democracia (2022, Vozes), vivemos, como o título da obra anuncia, uma
infocracia, isto é, uma sociedade na qual a circulação de informação pelo mundo
digital dita a vida em sociedade, levando cada um a ficar na sua própria bolha
e prejudicando as faculdades humanas essenciais para a democracia, como a
imaginação, a empatia e a racionalidade discursiva. Um jovem desatento não é
apenas um estudante com baixo rendimento: é um cidadão com a capacidade crítica
comprometida, capturado por algoritmos que decidem o que ele vê, acredita e
deseja. Daí para ele entrar em uma guerra de memes, embarcar em radicalidades rasas,
é um passo. Pensar, usar da racionalidade é trabalhoso e demorado.
Saroldi observa que a
indústria cultural contemporânea invade a subjetividade de forma mais radical
do que Adorno e Horkheimer poderiam ter imaginado. As big techs capturam
quase todos os sentidos por meio de telas onipresentes, substituindo a
imaginação por estímulos audiovisuais constantes. O que está em jogo não é
apenas a capacidade de concentração, mas a possibilidade mesma de uma vida
interior — de um espaço subjetivo que não seja continuamente colonizado externamente.
Walter Benjamin em A obra de arte na época da possibilidade de sua
reprodução técnica, presente no livro Estética e sociologia da arte,
(2017, Autêntica), já afirmava que ao mudar “o modo de existência das
sociedades humanas”, muda também o “modo de percepção”. Onde nos levará essa percepção
e qual subjetividade ela formará?
O cansaço como consequência inevitável
Se a excitação é o estado e a
desatenção é o modo, o cansaço é o destino. E não é um cansaço qualquer, mas o
cansaço do sistema nervoso sobrecarregado, de um cérebro que parece nunca ter descansado
de verdade porque nunca ficou, de fato, em silêncio. Lembremos que o cérebro
consome muita energia.
O excesso de estímulos aumenta
o cortisol, levando a ansiedade e à fadiga mental. Alguns especialistas alertam
que crianças e jovens expostos a telas por mais de cinco horas diárias mostram
alterações no córtex pré-frontal, área ligada ao controle cognitivo. Um cérebro
em estado de alerta permanente, processando fluxos ininterruptos de informação,
paga um preço fisiológico concreto: cansaço.
Han já havia descrito esse
esgotamento como a doença paradigmática do nosso tempo. A sociedade atual parece
ter destruído a capacidade de atenção e de ócio criativo. É como se não
conseguíssemos mais parar. O paradoxo é bem cruel, pois quanto mais cansado,
mais se busca o estímulo das telas, como se elas fossem relaxar; tal busca, por
outro lado, é o estímulo imediato, não exige esforço e oferece a ilusão de
recompensa, ainda que tenhamos consciência disso. O cansaço alimenta a
dependência que gera mais cansaço.
Saroldi nomeia esse ponto de
chegada de modo preocupante: o jovem excitado é também o jovem deprimido. Não necessariamente
a depressão clínica, mas um estado de vazio afetivo que se instala quando o
sistema de recompensa é tão continuamente ativado que perde a sensibilidade. Por
outro lado, há um excesso de otimismo nas redes e o scroll infinito faz
com que não se queira ficar por fora, há sempre um certo receio de estarmos
perdendo algo e com isso vamos ignorando os limites do corpo e da mente,
resultando em extrema exaustão. Na cultura digital não há limite.
(In) conclusão
É preciso resistir à tentação
de transformar esse diagnóstico em moralismo ou apenas em um problema
geracional. Afinal quase todos nós estamos mergulhados nesse problema, eu
mesmo, por conta do trabalho tenho ficado cada vez mais horas diante das telas.
Nesse sentido, talvez seja pertinente perguntar: os jovens são vítimas ou são
sujeitos nesse processo? Será que conseguem escolher livremente? Cabe lembrar
que o córtex pré-frontal só fica totalmente maduro aos 25 anos. Há bastante
informação na internet acerca do quanto o uso das redes sociais ativa
intensamente os circuitos dopaminérgicos. "O modelo de negócio dessas
empresas é gerar vício", como explicou o pediatra e sanitarista Daniel
Becker (leia aqui).
O que está em jogo, portanto,
é tanto uma questão de saúde pública quanto uma questão política e educacional.
Recuperar a atenção profunda — aquilo que Han chama de "demorar
contemplativo", o único modo de acesso ao pensamento de longo alcance, e
isso não é um luxo nostálgico. É uma condição para a formação de sujeitos
capazes de habitar o mundo com autonomia e discernimento. De minha parte, tenho
tentado ampliar cada vez mais o meu universo de leituras, mas não estou na
mesma condição dos/as jovens, minha geração não cresceu conectado. Quanto a
juventude, penso que por um lado, há a necessidade de responsabilizar as
empresas desenvolvedoras de tais mecanismos e, ao mesmo tempo, investir cada
vez mais em educação digital desde cedo.
Ter tempo para o ócio
criativo, para a contemplação, valores defendidos desde a antiguidade, parece ser
um bom caminho, embora isso implique o debate de outras questões em nosso tempo
acelerado, como, por exemplo, o mundo do trabalho. O fato é que tudo isso veio
pra ficar e não se trata de combater, mas sim compreender e educar. Por
enquanto, faz-se necessário ensinar aos/às jovens que suportarem o “tédio”, que
ficarem consigo mesmo ou atravessarem um texto longo sem interrupção, é um ato de
rebeldia. E de rebeldia, penso que os jovens ainda entendem, assim espero.
[1] Professor adjunto na Universidade
Federal de Rondônia (UNIR); mestre e doutor em Artes pelo Instituto de Artes da
Unesp; graduado em História pela Universidade Cruzeiros do Sul; atualmente é
coordenador do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; integrante dos grupos de
pesquisas Práxis épico-populares em perspectivas críticas: documentação de
experimentos teatrais e PAKY'OP Laboratório de Pesquisa em
Teatro e Transculturalidade: práxis, reflexões e
poéticas pedagógicas, neste último coordena a linha de pesquisa Memórias
da Cena Amazônica; um dos fundadores da Rede Brasileira de Teatro de Rua;
integrante do Teatro Ruante; autor dos livros Circo Teatro Palombar: somos periferia;
potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua: identidade, território (Giostri,
2020) e coorganizador de Paky`op: experiência, travessias, práxis cênica e
docência em teatro (Edufro, 2022).
