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sexta-feira, 5 de julho de 2019

20 anos de publicação sobre teatro de rua

Uma dica de leitura:

CRUCIANI, Fabrizio; FALLETTI, Clelia. Teatro de Rua. Trad.: Roberta Baarni; com o capítulo Teatro de Rua no Brasil de Fernando Peixoto. São Paulo: Hucitec, 1999.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

Carta ao Presidente da República - RBTR


Brasil, 27 de junho de 2019. 

Dia Nacional da Tomada do Brasil Pelas Artes Públicas
em memória a Luana Barbosa, assassinada pela polícia militar.


Carta ao Excelentíssimo Sr. Presidente da República,

A RBTR - Rede Brasileira de Teatro de Rua, agregadora de artistas, ativistas e coletivos nesta esfera do teatro brasileiro, bem como pesquisadoras(es) das artes cênicas, educadoras(es) populares e professoras(es) de escolas e universidades públicas, além de profissionais dos mais diversos campos da Cultura, nos 26 estados do Brasil e Distrito Federal, vem, por meio desta, parabenizar o Excelentíssimo Presidente da República, Sr. Jair Messias Bolsonaro, pela escolha do Sr. Roberto Alvim para a condução do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE. Ninguém, na ampla área cultural deste país, teria maior capacidade de se integrar a um governo desta natureza, somando-se a um quadro tão distinto de "profissionais" do atual governo federal, nomeados por Vossa Excelência.
O Teatro é uma arte difícil, de elaboração complexa e plural, poética. Teatro este, que não nasceu na Grécia, mas nas ruas e nos ritos visceralmente populares, nos corpos de uma gente que sempre foi morta pelos "vencedores" que contam a história oficial: a classe dominante. Sabemos da importância de nossa poética e prática e das formas plurais e complexas, por meio das quais ela se manifesta, em sua capacidade de dialogar com a população que ainda caminha nas ruas insalubres desse Brasil, em especial nas periferias.
Nenhuma(um) artista desta Rede aceitaria fazer parte de um governo fascista, misógino, homofóbico e militarizado, que em tão pouco tempo, levou às alturas os índices de violência, feminicídio, fome e desemprego, sem apresentar à sociedade brasileira como um todo (e não apenas ao seu próprio contingente eleitoral) alguma proposta efetiva, que não esteja embuída de mais cortes nos investimentos sociais e de privatizações ao gosto do Grande Capital, especialmente do setor financeiro, de parcela considerável das igrejas evangélicas e do agronegócio.
Um governo que se declara inimigo da Educação não poderia ter alguém mais adequado do que o Sr. Alvim, fruto de uma geração teatral de grupo da cidade de São Paulo, a mesma que, agora, ele próprio condena, tendo convertido-se de maneira fanática à fé católica, em sua vertente mais reacionária, o que paradoxalmente dista-se até mesmo do que prega o atual Sumo Pontífice. Alvim perverte a história do Teatro com o discurso ideológico alinhado à lógica ilógica do projeto Escola sem Partido. O Sr Alvim, baseado em crenças individuais, visões milagrosas e passagens bíblicas mal interpretadas, além de repetidos plágios, divide a arte em dois lados e os coloca em uma "guerra", na qual, segundo ele, apenas o time "da esquerda" é ideológico e mal elaborado. Ao outro lado, o "conservador", para o qual ele conclama seguidores, cabe, a seu ver, a "verdadeira poesia" e a neutralidade.
A Rede Brasileira de Teatro de Rua, por sua vez, é uma realidade consolidada e conectada em todo o território nacional. Em suas ações, ela vem, há muito tempo, realizando inúmeras publicações, festivais, espetáculos e encontros municipais, estaduais e nacionais, agregando atualmente mais de 500 grupos teatrais e milhares de artistas em atividade. Somos a história viva de uma cultura que EXISTE E RESISTE, com ou sem o apoio do poder público; que lutou e conquistou leis, programas e editais públicos, com comissões democraticamente eleitas pela sociedade civil, para uma equilibrada divisão das verbas e investimentos publicos na Cultura, que considere sempre a diversidade e a liberdade na produção multidiversificada desse país tão distinto.
Nota-se, portanto, que estamos na contramão das expectativas do Sr. Alvim, o qual, logo em sua primeira ação, já busca impor à realidade apenas um tipo de arte como merecedora de investimentos. Isto tem nome antigo, Sr Presidente da República: "política de balcão". Ou, simplesmente: CORRUPÇÃO. Não nos resta a menor sombra de dúvida de que sua escolha significa um enorme retrocesso no setor das políticas públicas, tão arduamente conquistadas em conferências, encontros e debates nacionais. Não compactuamos com esse governo que é, SIM, ideológico e tem, SIM, um projeto de desmonte e de doutrinação cultural planejado, agora, aparelhado em instituições que eram para ser públicas e democráticas e que passam a se tornar máquina de propaganda aberta e declarada do próprio governo.
Na História, os grandes equívocos não se repetem duas vezes da mesma forma, Sr Presidente da República, a não ser da seguinte maneira: na primeira, como tragédia; na segunda, farsa. E nada nos parece mais farsesco do que essa ascensão patética do Sr. Alvim ao referido cargo na Fundação Nacional das Artes, completando, assim, o seu quadro ilustre dos ditos “representantes de Deus”, ainda cheios de dólares nas cuecas e clamando por justiça com armas nas mãos.
Estamos na platéia, não sentados pacificamente, mas como bons espectadores, com tomates à postos e merda nos sapatos, atentos ao desenrolar dessa história triste, resultado de sucessivos golpes, que nos impedem de calar. O tempo há de provar as injustiças e as máscaras já começaram a cair. E não são poucas.
O Sr. Presidente da República tem, sabemos, o direito de escolher seus colaboradores, mas saiba: o Sr Roberto Alvim jamais terá a legitimidade selada pelos seus pares da categoria cultural. Essa divisão medíocre e simplória que, em seu primeiro ato este colega elabora, com flagrante ignorância, tenda reduzir a apenas dois lados um front cultural de enorme Pluralidade, Liberdade de Expressão Artística e Diversidade Cultural que temos  produzido nos últimos anos, mesmo sem os investimentos necessários e políticas adequadas.
Considerando isto tudo, folgamos em saber que o colega Alvim sabe de que lado está, pois nós também sabemos (e muito bem!) o nosso lugar no carro alegre da História. E é somente porque o nosso teatro representa um perigo, ao despertar corpos e mentes para as tamanhas contradições que tem ocorrido, que este governo rapidamente se propõe a eliminá-lo. Proibindo a arte nos meios públicos de trânsito de trabalhadores, como já fez no Rio de Janeiro, ou elevando a cargos públicos da cultura, profissionais que agem em nome de único deus, num Estado que deveria, pela constituição, ser laico. Mas, Sr. Presidente da República, lembre-se que “a História será implacável com os que hoje se julgam vencedores”. Traidores não passarão.
Desde que este país foi invadido e que a matança de nossos povos originários teve início, nós resistimos. Os couros de nossos tambores se esticam no que resta de sol e seguimos fazendo barulho. Nosso teatro não é produzido em gabinetes ou palanques, mas nas ruas, nas vielas e favelas, florestas e assentamentos, quilombos e aldeias que, independente do governo em questão, permanecem vivas, por sua luta e história. Quanto mais nos encurralam, mais nós ficamos perto, juntos, em festa, estandartes de pé e olhos vivos, acendendo fogueiras e ensaiando novas peças, com ou sem o apoio de Vossa Senhoria.
Quando matam Marielle, multiplicam seu grito por todo planeta. Quando assassinam a Lua, nascem estrelas em cada pedaço de ceú. Não se enganem, apontando suas armas aos nossos coletivos e trabalhos. A força ancestral de todos os deuses e deusas desse teatro que pulsa, jamais se dobrará aos seus decretos. Esperamos, juntas(os), editais, comissões, prêmios e programas que sejam de fato PÚBLICOS e abrangendo tudo que nossa cultura já conquistou com muita luta.

“Se não nos deixam sonhar, não deixaremos vocês dormirem em paz”.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Carta de Salvador – XXII Encontro da RBTR, 2019



Ditadura nunca mais!
A Rede Brasileira de Teatro de Rua - RBTR, criada em março de 2007, em Salvador/BA, é um espaço físico e virtual de organização horizontal, sem hierarquia, democrático e inclusivo. Todos os grupos de teatro, artistas-trabalhadoras e trabalhadores, pesquisadoras e pesquisadores envolvidas com o fazer artístico da rua, pertencentes à RBTR podem e devem ser suas articuladoras e seus articuladores para, assim, ampliar e capilarizar, cada vez mais, reflexões e pensamentos, com encontros, movimentos e ações em suas localidades.
O intercâmbio da RBTR ocorre de forma presencial e virtual, entretanto toda e qualquer deliberação é feita nos encontros presenciais, realizados, ao menos, uma vez ao ano, de forma rotativa de maneira a contemplar todas as regiões brasileiras, valorizando as necessidades mais urgentes do país. As articuladoras e os articuladores de todos os Estados, bem como os coletivos regionais, deverão se organizar para garantir a participação nos encontros, além da continuidade dos trabalhos iniciados nos Grupos de Trabalhos (GT´s), a saber: 1) Política e Ações estratégicas; 2) Pesquisa; 3) Colaboração artística; 4) Comunicação; 5) Gênero.
A Rede Brasileira de Teatro de Rua, reunida de 26 a 31 de março de 2019, na cidade de Salvador/BA, em seu XXII Encontro, com a presença de 125 articuladoras e articuladores de 16 estados brasileiros e do Distrito Federal, reafirma sua missão de lutar:
·        Por um mundo socialmente justo e igualitário que respeite as diversidades;
·         Por políticas públicas culturais com investimento direto do Estado por meio de fundos públicos de cultura, garantindo assim o direito à produção e ao acesso aos bens culturais a todas as brasileiras e brasileiros;
·         Por políticas transversais que viabilizem o diálogo do Teatro de Rua com os campos da Educação, Saúde, Ação Social, Segurança e Direitos Humanos;
·         Pelo livre uso dos espaços públicos abertos, garantindo a prática artística e respeitando as especificidades dos diversos segmentos das artes cênicas, em acordo com o artigo 5º da Constituição Brasileira e com o artigo 3º do Decreto-Lei Federal 4.657/1942; e
·         Contribuir para o desenvolvimento das Artes Públicas, possibilitando as trocas de experiências artísticas e políticas entre as articuladoras e os articuladores da rede;

A RBTR expressa suas femenagens a:
Selma Bustamante (in memorian), palhaça Kandura, fundadora do Grupo Baião de Dois, importante artista e arte/educadora, atuante nas cidades de São Paulo/SP e Manaus/AM, entre outros locais, ao longo de quase 40 anos de trajetória;
Tainã Andrade, artivista, Mestra de Teatro de Rua e Cultura Popular, fundadora do Grupo Teatral Filhos da Rua, idealizadora do Espaço Cultural Tupinambá e militante histórica do Movimento de Teatro de Rua da Bahia (MTR/BA), enaltecendo a sua história de luta e resistência. O concreto não apagará o seu legado!
A RBTR demarca o espaço de presença, ocupação e representatividade artística e política da população trans e travesti no decorrer do encontro e nas articulações, qualificando o debate do teatro de rua.
Demarcamos também a emergência e importância histórica de grupos de mulheres realizados nos Encontros nacionais da RBTR em Campo Grande, Presidente Prudente e Parelheiros e no Encontro Estadual de São Paulo, em Guarulhos, que possibilitaram debates interseccionais relacionados às questões raciais, étnicas e de classe, bem como a análise sobre as expressões e efeitos de masculinidades tóxicas. Estas composições se somaram e implicaram no primeiro GT de Gênero, realizado no Encontro da RBTR de Salvador, bem como na premissa deste debate como vital e fundante dos próximos encontros.

Nós, articuladoras e os articuladores da Rede Brasileira de Teatro de Rua, com o objetivo de construir políticas públicas culturais mais democráticas e inclusivas, defendemos:
·         A criação de lei que fomente o Teatro de Grupo e que a mesma assegure a participação do teatro de rua e contemple: produção, circulação, formação, trabalho continuado, registro e memória, manutenção, pesquisa, intercâmbio, vivência, mostras e encontros de teatro, levando em consideração as especificidades de cada região (ex: custo amazônico);
·         O debate e a criação junto ao poder público de marcos legais para a plena utilização dos espaços públicos abertos, com proteção e segurança, extinguindo todas e quaisquer cobranças de taxas, bem como a excessiva burocracia para as apresentações de artistas de rua;
·         A ocupação de prédios passíveis de serem considerados de utilidade pública e que não cumprem sua função social, transformando-os em sedes de grupos que desenvolvam ações continuadas;
·         Defendemos a representatividade do teatro de rua nos colegiados setoriais e conselhos das instâncias Municipais e Estaduais e a reativação dos conselhos que não tiveram continuidade nos últimos anos;
·         A criação de uma legislação específica para a cultura, já que a Lei federal 8.666/93 não contempla as especificidades da área cultural;
·         Que sejam incluídos dentro das Universidades, instituições de ensino e escolas técnicas, componentes curriculares e projetos de pesquisa e extensão referentes ao Teatro de Rua, às Culturas Populares Brasileiras e ao teatro da América Latina;

Denunciamos e repudiamos:
·         O desmonte das políticas públicas de cultura em âmbito federal, como os editais da Funarte, entre eles o Myriam Muniz (teatro), Klaus Viana (dança), Carequinha (circo) e Artes Cênicas na Rua (circo, dança e teatro) e o programa Pontos de Cultura, que foram interrompidos em 2017.
·         O fim das reuniões do Colegiado Setorial de Teatro, ligado ao Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), cujas reuniões deixaram de acontecer no ano de 2017.

Repudiamos:
·         Toda e qualquer forma de opressão, perseguição e/ou repressão às artistas e aos artistas de rua e a proibição de apresentações artísticas em espaços públicos;
·         Todo e qualquer ataque, por parte do poder público e/ou sociedade civil, contra sedes de coletivos e ocupações artístico-culturais.

Frente a um processo histórico, que prima pela higienização e pela criminalização dos movimentos sociais, a RBTR apoia e defende a luta do Movimento de Teatro de Rua da Bahia (MTR/BA), que reivindica o direito à ocupação cultural das cidades.
Conforme os acompanhamentos tirados em plenária, frutos do debate realizado no XXII Encontro da RBTR, com a participação do Professor Glaucio Machado Santos, vice-diretor da Escola de Teatro da UFBA, a RBTR e o MTR/BA defendem que o Teatro de Rua seja institucionalizado nos currículos dos cursos de Teatro da UFBA, de forma articulada aos projetos de pesquisa e extensão da citada universidade.
A RBTR acompanhará o diálogo do Movimento de Teatro de Rua da Bahia junto às instâncias do poder público do Estado a fim de reativar o grupo de trabalho para a regulamentação da Lei Estadual nº 8.638/2003, que autoriza a criação da Casa do Teatro de Rua da Bahia.
A RBTR e o MTR/BA reivindicam a abertura de debate acerca da elaboração da Lei Municipal de Artistas de Rua de Salvador.
A RBTR apoia e defende a luta do MTR/BA na formulação de políticas culturais na área do teatro e do patrimônio, compreendendo a importância do reconhecimento, por parte do poder público, do Teatro de Rua enquanto Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial.
A RBTR considera fundamental a abertura da sede do Movimento de Teatro de Rua da Bahia para todes Artistas de Rua, independentes ou vinculades a coletivos.

O Teatro de Rua é um símbolo de resistência artística, comunicador e gerador de sentido, além de ser propositor de novas razões no uso dos espaços públicos abertos. Assim, reafirmamos o dia 27 de junho como dia nacional da Tomada do Brasil pelas Artes Públicas, em memória de Lua Barbosa, assassinada pela polícia militar neste mesmo dia do ano de 2014, em Presidente Prudente/SP. Tomaremos as cidades, ocuparemos seus espaços públicos, cantaremos pela arte, saúde e educação públicas, pelo direito à moradia e por um país que respeite a dimensão da convivência pública e pacífica.

Foi indicada em plenária final a cidade de Serra Talhada/PE, para o XXIII Encontro da RBTR, a ser realizado no primeiro semestre de 2020 e uma cidade na Região Metropolitana de Porto Alegre/RS para o XXIV Encontro, a ser realizado no segundo semestre de 2020 ou no primeiro semestre de 2021.
                Por fim, reiterando, para que não haja dúvida:  Ditadura nunca Mais!

31 de março de 2019
Salvador, Bahia, Rede Brasileira de Teatro de Rua

quinta-feira, 7 de março de 2019

A Kandura do Baião de Dois[1]



Márcio Silveira dos Santos[2]

As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado que vivencia, experimenta, conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas dos prédios quanto os indivíduos no abrigo de suas quatro paredes.
(Walter Benjamin) [3]

Selma Bustamante fundou o Grupo de Teatro Baião de Dois no ano de 1989, após ter trabalhado uma década com o mestre Ilo Krugli no Grupo Ventoforte (SP). Juntamente com Edgard Lippo passaram a desenvolver no Baião pesquisas e espetáculos que abordassem a diversidade cultural do Brasil. Inquietos e ávidos pela estrada, não demoraram muito em São Paulo e partiram para o Piauí, depois de alguns anos seguiram para Manaus de barco pelos rios da Amazônia, sentindo pelo caminho o poder das águas e a força da floresta. Desde então, há mais de 20 anos, a capital amazonense se tornou a Cidade-sede para o Baião de Dois. Mestre Edgard já partiu para o mundo dos encantados da floresta e Selma segue firme na arte da cena.
Palhaça Kandura em cena - Selma Bustamante
Também há mais de duas décadas que Selma tem trabalho continuado com a palhaçaria feminina. Sua palhaça, a Kandura, surgiu das vivências, trocas e curiosidades da atriz. Aliás, acredito que o que mantém Bustamante na ativa nestes quase 40 anos dedicado as artes, como se estivesse recém-começado, seja de fato a sua curiosidade aguçada, que por sua vez fermenta a vontade de experimentar o novo. Por isso é comum encontrar Selma Bustamante agitando alguns festivais pelo país ou empenhada em realizar uma oficina daquilo que aprendeu com a palhaça Kandura, para os interessados em ampliar seu conhecimento e prática a respeito das artes circenses. Não é atoa que Selma adora a frase da poetisa Cora Coralina: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Se tiver oportunidade faça uma oficina com Selma/Kandura.
Selma Bustamante quando ainda estava no Ventoforte 
Conheço Selma Bustamante há 10 anos e nestas andanças pelo Brasil pude assistir inúmeras apresentações dela com a Kandura, mas quero falar aqui de um trabalho específico que assisti umas quatro vezes. Trata-se do espetáculo solo de rua que ela mais tem apresentado: Se Essa Rua Fosse Minha, cuja estreia foi no ano de 2012, em Manaus (AM). O bom de assistir em diferentes Estados do país é ter observado como Selma se sai diante dos diferentes comportamentos do público, que para nós artistas de rua muitas vezes são diferenças abissais. Mas Selma se sai brilhantemente de palhaçatriz, conquista o espectador e sua Kandura espalha afetos.
O espetáculo de Teatro de Rua Se Essa Rua Fosse Minha, mostra por meio da palhaça Kandura, a vida de uma moradora de rua que carrega consigo uma história de vida baseada no cotidiano difícil de quem vive à margem, mas com o objetivo de nunca deixar de sonhar. Em silêncio, a personagem compartilha sua situação com a plateia. Segundo Selma, a peça é repleta de sensações e sentimentos de uma mulher e seu dia a dia que inclui mudanças, transformações da vida e carregam o peso da passagem do tempo. Sem fala, a palhaça Kandura vai mostrando seu universo e produzindo afeição com o público por meio de interação.
Logo do grupo de Selma Bustamante
Kandura chega à cena carregando um estojo (case) pesado de guitarra de onde tira muitos apetrechos cênicos, uma bacia grande e uma vassoura. Estabelece contato visual com a plateia e o ambiente que irá ocupar por quase uma hora. Vai começando leve, vai varrendo o espaço emitindo melodias, doce e suave, após muitas risadas da plateia, quando Kandura já conquistou a todos, sua história vai ficando densa, complexa. Há a cena do casamento, que parece ser o grande desejo não realizado de Kandura que coloca adereços de noiva e o noivo nunca chega. Cena forte. Algumas vezes alguém da plateia se habilita a casar-se com ela, mas sabemos que esse momento de dor e solidão faz parte do universo de Kandura, que logo ela vai quebrar a cena e em segundos todos estarão gargalhando quando ela deliberadamente puxa do peito um coração recortado de cor vermelho vivo e entrega para alguém que ali assisti. Eis o grande trunfo de Selma Bustamante, a capacidade de perceber o publico da rua e saber quando e como mudar o jogo das cenas. Selma e Kandura te guiam numa montanha russa de emoções.
Uma das últimas atuações foi no projeto Roda na Praça, com
 jovens palhaços manauaras
Outra cena forte é quando Kandura pega um jornal da rua e observa as notícias. Ela expõe os desassossegos com relação aos fatos vigentes. Tudo na base da comunicação visual e gestual entre público e palhaça. Ela demonstra os horrores e realiza o momento que chamo de “tá lá um corpo estendido no chão” (música de João Bosco). Kandura pega um pedaço de giz e deitada no chão desenha, com a ajuda de alguém da plateia, o contorno do seu corpo estirado. Depois encobre a cabeça com o jornal aberto. Há uma tensão e silêncio por alguns segundos e logo em seguida, após um tempo dramático, Kandura rasga o jornal na altura do nariz, ficando saliente somente o nariz vermelho da palhaça respirando, provocando assim mais uma vez gargalhada geral. Completo domínio de cena e público.

Kandura - Selma Bustamante
Certa vez Selma falou em entrevista sobre essa relação com o público:
O palhaço normalmente nos remete à piada. Ele é feito para trazer o riso, mas o riso que proporciona na gente vem de uma inadequação dele no tal como ele é. Ele não vê o mundo como os outros, e o riso é uma medalha de dois lados: só existe o riso se existir a tristeza. Por conta disso, ele também tem esse lado triste, de reflexões. E é esse jogo que o bom palhaço sabe fazer: não apenas rir, mas refletir.

Selma Bustamante também é conhecida por seu lado engajado na causa dos artistas, das leis e prêmios para cultura. Sempre participando de reuniões, colegiados e fóruns de discussões e promoções de debate sobre produção, difusão, memória e circulação artística. Selma diz que, se nem um bolo cresce sem ter fermento imagina como fica a diversidade cultural sem fomento!? Ela é firme na luta!
O riso marcante de Selma Bustamante

        A atriz, palhaça e professora-pesquisadora continua circulando pelo país, apresentando a Kandura nas aldeias da Amazônia, no alto Rio Negro, em grandes festivais internacionais no centro do país, nas comunidades ribeirinhas e nos parques e ruas requintados e-ou esquecidos das grandes metrópoles. Nos dois últimos anos tem circulado mais com o solo em Festivais de palhaçaria feminina, como o Festival Internacional de Comicidade Feminina “Esse monte de Mulher Palhaça” (2016). Também pode ser encontrada circulando ou fazendo temporadas nas praças e ruas manauaras com um grupo de jovens palhaços no espetáculo Roda na Praça (2017-2018).




[1] Selma Bustamante partiu para o mundo dos encantados da floresta e do circo etéreo entre os dias 04 e 05 de Março de 2019, como se fosse ensaiado, em plena festa de carnaval. Segundo informações de amigas e amigos presentes em seu velório Selma parecia estar tranquila e feliz nesta passagem. Em homenagem a essa grande mulher, batalhadora e guerreira incansável publicamos aqui este texto extraído do livro Um Artista de Rua Faz Mais Que Um Ministro da Cultura. SANTOS, Márcio Silveira. Porto Alegre: UEBA Editora, p. 133-136, 2018. O autor que foi grande amigo de Selma Bustamante agradece muito e deseja longa vida ao legado deixado por Selma/Kandura: Dezenas e dezenas de palhaços e palhaças espalhadas por este mundão.
[2] Márcio Silveira dos Santos é professor, pesquisador, ator, diretor, dramaturgo. Integrante do Grupo Manjericão (RS). Doutorando em Teatro pelo Programa de Pós-Graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina. Autor dos livros: Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora (2016) e Um Artista de Rua faz mais que um Ministro da Cultura (2018), UEBA Editora.
[3] BENJAMIN, Walter. Passagens. 2ª reimpressão. Belo Horizonte: Editora UFMG, p. 468, 2009.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Baco mora na quebrada


Alexandre Falcão de Araújo[1]

Baco, aquele deus grego-romano da desmesura etílica e sexual, também mora na quebrada! E não é que ele deu um rolê na zona leste de São Paulo?! Foi uma visita à XI Mostra de Teatro de São Miguel Paulista, realizada pelo grupo Buraco do Oráculo. Baco deu as caras e “girou” na apresentação de “Pólo Marginal – Opereta de Rua”, espetáculo do grupo de teatro de rua Loucos e Oprimidos da Maciel, de Recife. Mas, ele não veio sozinho! Em sua companhia, diretamente do panteão africano, veio Exu, que abriu os caminhos para que o encontro teatral acontecesse.

Construído a partir da obra poética de Marco Pólo Guimarães, com roteiro e direção do teatrista pernambucano Carlos Salles – já falecido, o espetáculo se inicia com a tradicional formação da roda do teatro de rua. Desta feita, porém, é com cachaça nordestina que se desenha a roda! A mesma cachaça que lubrifica as goelas e outros orifícios dos atores e das atrizes da trupe recifense...
Pólo Marginal em São Miguel Paulista - São Paulo.

Banhados de músicas da Ave Sangria – banda recifense surgida nos anos 1970 e que, recentemente, retornou à ativa, tendo sido pioneira na fusão sonora de ritmos pernambucanos com o rock psicodélico e o blues e da qual Marco Pólo é vocalista e compositor – o bando teatral brinca com a trajetória de um pirata, coletivamente apresentado, que aporta no centro de uma cidade e convida o público a navegar com ele.

As poesias, cores, sonoridades e corporalidades da encenação transbordam referências da iluminada Recife, com seu mormaço, seu sol aberto e suas praias e mangues. Entre tintas de um teatro ritual híbrido, brincado num brasileiro lócus entre a África Negra e as referências dionisíacas, o espetáculo diverte, emociona, arrepia e também causa reflexões, uma vez que nele não faltam referências de crítica aos regimes autoritários de ontem e de hoje.

É impressionante como a obra cria um universo imagético muito diferente do que é mais usual no teatro de rua paulista. O trabalho é tão repleto de cores que se sobrepôs de forma bela ao cinza de mais um dos muitos dias nublados de São Paulo. Talvez exatamente pela dimensão ambiental e litorânea de seu teatro, a energia dos loucos pernambucanos lembre também a atmosfera criada pelo grupo Tá na Rua, importante e longevo grupo carioca de teatro de rua, em sua “suada labuta” da carnavalização.

                No elenco, quiçá pelas diferenças de idade e de experiências de vida e de teatro, alguns artistas pareciam mais inteiros e entregues à intensidade e visceralidade propostas em cena. Nesse sentido, correndo o risco de ser injusto, destaco Rodrigo Torres (cuja presença em cena me remetia ao grande Ney Matogrosso), Sandro Sant´ana e Roberta Lúcia, que nitidamente divertiam-se com as traquinagens e provocações por eles próprios realizadas junto ao público, gerando forte empatia e creio que também um bocado de excitação. Além da sensualidade de seus corpos em cena e das belas imagens geradas pelas poesias compartilhadas, algumas vezes os artistas também se valiam de gestus ou de posicionamentos políticos explícitos, para criar mais camadas de leitura à obra.

                Ainda em relação à crítica e reflexão, destaco o quadro “Mete Bronca”, que abre espaço para a participação direta do público, para que este possa denunciar os problemas do bairro, da cidade e do país ou apenas compartilhar sua expressão poética no centro da roda. Naquele dia, na zona leste paulistana, o desastroso resultado das eleições brasileiras, bem como o machismo e a falta de responsabilidade dos pais (homens) para com seus filhos, veio à tona, em críticas trazidas pelo público.

                Eu não poderia deixar de citar ainda a bela direção musical do espetáculo, de Walgrene Agra, que está em cena acompanhado de uma banda de bons atores-músicos, cuja última marca aparece no momento de passar o chapéu, com a deliciosa canção: “se quiser dar, pode dar agora, que tá na hora de rodar nossa sacola...”. Assim, entre duplos-sentidos, requebradas, passos de ciranda e muito bom-humor, encerrou-se uma bela tarde de apresentações em São Miguel.



[1] Ator, diretor e pesquisador teatral, professor do curso de Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), coordenador do grupo de Trabalho Artes Cênicas na Rua, da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas (ABRACE) e articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR).

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Como o teatro pode contribuir para uma sociedade melhor?


Adailtom Alves Teixeira[1]

O Brasil atravessa um momento político, econômico, social e cultural muito difícil, para dizer o mínimo. Mas, como todos sabem, o que se colherá amanhã se planta hoje. O teatro e arte em geral, são fatores de mudanças sociais, com capacidades de descolonização de nossas mentes e corpos. Os artistas progressistas têm o grande desafio de criar e sedimentar, aliado a outras forças políticas, uma nova mentalidade que possa alçar o Brasil a patamares melhores, não em termos desenvolvimentistas, mas em termos mais humanos, solidários, onde a diferença, o respeito pela vida seja elemento preponderante em nossas condutas.

Nesse sentido, a arte tem papel importante. E um dos desafios é fazer com que a arte chegue ao povo, ao mesmo tempo em que se permite que a própria arte popular ganhe mais espaço. Além disso, permitir o acesso dos populares às técnicas, para que eles próprios criem e expressem suas angústias, sonhos e medos artisticamente. Essa tarefa é também apresentada por Angela Davis em Mulheres, cultura e política, e se pergunta: “(...) como reconhecemos de maneira coletiva o legado da nossa cultura popular e o transmitimos para as massas de nosso povo, a quem, em sua maioria, tem sido negado o acesso aos espaços sociais reservados à arte e à cultura” (2017, p. 166)?

A preocupação não é nova e muitos foram os artistas ou correntes atentos a essa questão, como os agitpropistas russos, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht e suas peças didáticas, o brasileiro Augusto Boal e a turma dos Centros Populares de Cultura. Mais do que permitir a fruição – sem dúvida muito importante –, é fundamental permitir que os populares tenham acesso aos meios, isto é, que se apossem das técnicas para que eles próprios criem, se expressem, apresentando seus pontos de vistas por meio da arte. Claro que esse trabalho deve ser seguido também de uma formação política, no sentido de entender melhor a complexidade da nossa realidade.

Em sendo a arte uma forma de consciência política, pode vir a sensibilizar e impelir as pessoas a se envolverem em movimentos organizados, movimentos verdadeiramente preocupados em uma transformação social positiva. Como afirma ainda Davis, no artigo A arte na linha de frente: mandato para uma cultura do povo, escrito em 1985 e presente no citado livro: a arte influencia sentimentos e conhecimentos. Dessa forma, a arte “(...) pode incitar as pessoas no sentido da emancipação social” (2017, p. 166).

Nesse sentido, o teatro é uma arma poderosa e o de rua mais ainda, pode misturar-se nas comunidades, nos movimentos, ir a todos os lugares e realizar o que afirma Canclini: “(...) utilizar todos os espaços e instituições disponíveis para oferecer a todos os setores sociais a informação oculta pelos meios de comunicação oficial e para abrir novas perspectivas de análise” (1980, p. 159).

Claro que a realidade é complexa, devemos analisá-la de forma dialética e sempre questionarmos sobre os rumos, avanços e recuos. Distribuir os meios, as técnicas por meio de oficinas, por exemplo, em coletivos já organizados e que buscam a emancipação de classe ou identitária, é, digamos assim, fácil e relativamente tranquilo. Mas se pensarmos em termos de massificação é preciso ir além desses coletivos. Quais riscos existem ao distribuir conhecimentos técnicos teatrais, por exemplo, em uma sociedade conservadora, eivada por grupos religiosos ultraconservadores moral e politicamente? Haverá riscos dessas técnicas servirem a um projeto contrário? Há que se pensar.

O velho trabalho político de base talvez seja o caminho, isto é, qualquer trabalho artístico apresentado, bem como oficinas, vivencias, entre outros, necessitam de um acompanhamento político. Os procedimentos não devem virem desacompanhados, técnica pela técnica. Se a perspectiva é que conheçam o caráter social de suas vidas interiores, como defende Angela Davis, isto é, fazer com que cidadãs e cidadãos reconheçam que são o que são, ou que estão onde estão, que pensam de determinada forma por causa de uma série de fatores externos a elas, a arte, bem como seus procedimentos devem demonstrar que não estamos desvinculados do mundo que nos cerca. Nascemos em um mundo da cultura já pronto e introjetamos valores, crenças, enfim, ideologias.

Outro ponto significativo a se observar é que o processo não pode ser de cima para baixo, nos colocarmos como uma vanguarda que leva a salvação, mas sim de forma dialógica, como nos ensinou Paulo Freire: aquele que ensina, aprende e aquele que aprende, ensina. Ninguém é destituído de cultura, logo, é importante identificar em cada grupo com quem se trabalha manifestações existentes e que podem vir a somar àquelas que se leva, bem como serem completamente aproveitadas, bastando, às vezes uma sistematização para melhor uso, inclusive por outros grupos em outros lugares.

Claro que as forças progressistas, partidos, movimentos, entidades, precisam compreender a importância da arte, buscando incentivar e estimular. Assim como é fundamental que os artistas se somem a essas forças, de forma a se auxiliarem mutuamente, sem subordinação, pois a arte precisa de liberdade para progredir. Logo, esse caminho se faz junto, lado a lado. Esse ainda é um ponto de difícil compreensão por parte das esquerdas e que deve ser também nossa tarefa trabalhar.

O nosso tempo histórico exige essa aproximação e esse caminhar lado a lado. Se a estética burguesa sempre defendeu que a arte deve existir para além de qualquer ideologia e da luta de classes, arte pela arte, fruto de uma criatividade individual, é justamente aí onde ela se coloca mais política e permissiva. A liberdade que pleiteio aqui é a apresentada por Walter Benjamin em O autor como produtor, a liberdade de colocar nossa obra em uma causa. Para Benjamin, a decisão do escritor progressista “(...) se dá no campo da luta de classes, na qual se coloca ao lado do proletariado. (...) Ele orienta  a sua atividade em função do que for útil ao proletariado na luta de classes” (2012, p. 129). Mais adiante comenta Benjamin:

Um autor que não ensina nada aos escritores não ensina ninguém. O caráter modelar da produção é, portanto, decisivo: em primeiro lugar, ela deve poder orientar outros produtores em sua produção e, em segundo lugar, colocar à disposição deles um aparelho mais perfeito. E esse aparelho é tanto melhor quanto mais conduz consumidores à esfera da produção, ou seja, quanto maior for sua capacidade de transformar em colaboradores os leitores ou espectadores. Já possuímos um modelo desse gênero (...). É o teatro épico de Brecht (2012, p. 141-2. Grifo do autor).

E por quê o teatro tem maior facilidade de se desvincular dos meios capitalistas, que dominam muito mais as outras artes? Porque os artistas em sendo criadores e criaturas, carregam consigo sua arte, logo são donos dos meios de produção. É possível afirmar ainda que a esmagadora maioria do teatro mais progressista se organiza em grupo, o que facilita a sua produção, mas não só isso. Por ser uma arte coletiva, como afirma Canclini, o “(...) caráter grupal facilita a superação do narcisismo dos artistas e a participação do público” (1980, P. 155), o que, em seu entender, não ocorre, por exemplo, com as artes plásticas.

Claro que deve haver liberdade para exercer plenamente os princípios artísticos. Lênin, citado por Davis, também defende a liberdade do artista, pois ao exercer a liberdade plena é possível contribuir de forma efetiva no processo emancipatório da população. E por quê? Porque ao mesmo tempo em que permite a fruição, distribui os meios, ele pode avançar em sua estética, elevando a arte a outros patamares. Da indústria cultural jamais virá, ainda que aí possa existir artistas progressistas, o limite está em que estes são dominados pela burguesia, ainda que quem pense, faça e frua não seja necessariamente burguês. Mas todos os meios são bem-vindos nessa luta e hoje em dia, com a internet e o barateamento de equipamentos, há uma liberdade maior de criação e na comunicação, que também precisamos nos apropriarmos.

Para um efetivo trabalho artístico emancipatório, faz-se necessário, portanto, que os artistas criem trabalhos preocupados em destrinchar, discutir nosso tempo histórico, nossas condições, valendo-se dos elementos populares, ao mesmo tempo em que também fornecem os meios para que os próprios populares possam se expressarem. Mas isso só ocorrerá se os artistas também se aproximarem das organizações políticas com essa preocupação. “Profissionais da cultura, portanto, devem se preocupar não só em criar arte progressista, mas em se envolver ativamente na organização de movimento políticos populares” (DAVIS, 2017, p. 180). A tripla tarefa pode nos levar, no futuro, a uma sociedade distinta da que temos hoje. Por fim, cabe ressaltar que não será a arte a modificar o mundo, mas ela pode sim modificar os sujeitos e estes, organizados, podem mudar o mundo.

Bibliografia
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
CANCLINI, Néstor García. A socialização da arte: teoria e prática na América Latina. São Paulo: Cultrix, 1980.
DAVIS, Angela. Mulheres, cultura e política. Trad.: Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017. 




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista-UNESP; articulador da RBTR; integrante do Teatro Ruante de Porto Velho/RO.