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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Vídeo sobre represálias das ações em espaços público Londrina-PR

O vídeo trata de algumas intolerâncias religiosas e sexuais ocorridas recentemente na cidade de Londrina-PR (e no mundo!) como estopim. O foco principal do vídeo são dois atos organizados em favor do respeito à diversidade, realizados por vários grupos da cidade, sendo que os dois atos terminaram vítimas de agressões e represálias. 

Os realizadores do vídeo entendem que a compreensão do que seja o sentimento de "compaixão" ajudaria a todos nós a irmos além. Compaixão é quando percebemos que somos um, apesar vários.

http://www.youtube.com/watch?v=bsQIl3rnqoM&feature=c4-overview&list=UU8WxrBaXSEfwlWA00Us5lzA

MARL - Londrina e outros movimentos da cidade! Tem a listagem no vídeo!!

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

IBGE apresenta indicadores da cultura


IBGE apresenta indicadores da cultura   

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apresentou nesta sexta-feira (18/10) o estudo Sistema de Informações e Indicadores Culturais 2007-2010, realizado em parceria com o Ministério da Cultura, com o objetivo de organizar e sistematizar informações para a construção de indicadores relacionados ao setor cultural brasileiro.

Foto: morebyless Esta é a terceira edição da análise, que utiliza dados do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), da Pesquisa Industrial Anual-Empresa (PIA Empresa), da Pesquisa Anual de Comércio (PAC), da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) e dos gastos públicos com a cultura de 2007 a 2010, além da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2007 a 2012.

Foi identificado que as famílias gastaram, de 2007 a 2010, em média, 8,6% do seu orçamento mensal (equivalentes a R$ 184,57) em produtos e serviços relacionados à cultura, sendo que os gastos com telefonia representam a maior parte desse montante: R$ 78,26, ou 42,4% da despesa com cultura. A seguir está a aquisição de eletrodomésticos (R$ 28,89, ou 15,7%) e só em terceiro lugar as atividades de cultura, lazer e festas (R$ 26,00, ou 14,1%).

"A telefonia possui grande peso, independentemente do recorte considerado. Quando não se leva em conta este grupamento, a aquisição de eletrodomésticos representa 27,0% da despesa com cultura, enquanto as atividades de cultura, lazer e festas equivale a 24,5%", informa o relatório.

Trabalhadores da cultura – O número de trabalhadores vinculados ao setor cultural alcançou 3,7 milhões em 2012, o equivalente a 3,9% do total de ocupados no Brasil. A região Sudeste apresentou a maior proporção em todo o período (4,5% em 2012), sendo que São Paulo foi o Estado com a maior participação de trabalhadores em atividades culturais na população ocupada: 5,1%, o equivalente a 1,1 milhão de pessoas.

Em 2007, 1,4 milhão das pessoas envolvidas em atividades culturais possuíam carteira assinada (34,4% do total de ocupados na cultura). Em 2012, esse número chegou 1,5 milhão (39,8% do total de ocupados). Segundo o IBGE, a maior participação de trabalhadores com carteira assinada no setor cultural influenciou a elevação do percentual de contribuintes para a Previdência, de 46,3% em 2007 (1,9 milhão de pessoas) para 55,8% em 2012 (2,0 milhões de trabalhadores).

Já o rendimento médio real mensal dos trabalhadores da cultura foi estimado em R$ 1.258 em 2007 e em R$ 1.553 em 2012, valores superiores aos rendimentos da população ocupada no total das atividades produtivas (respectivamente, R$ 1.213 e R$ 1.460). São Paulo e Rio de Janeiro foram as unidades da federação analisadas onde a população ocupada em atividades culturais recebia mais (R$ 2.093 e R$ 1.996, respectivamente), mais que o dobro do salário médio recebido pela população ocupada na cultura no Ceará (R$ 952), menor valor estimado para o salário médio mensal.

Despesas públicas - Os gastos governamentais com a cultura nas esferas federal, estadual e municipal totalizam 0,3% do total das despesas consolidadas da administração pública em cada ano do período analisado (2007 a 2010). Esses valores foram de R$ 4,4 bilhões em 2007 e R$ 7,3 bilhões em 2010.

O governo federal ampliou seu volume de gastos no setor cultural, de R$ 824,4 milhões em 2007 para R$ 1,5 bilhão em 2010. É a esfera governamental menos representativa (18,7% em 2007 e 20,5% em 2010), mas os dados coletados são referentes apenas às despesas orçamentárias (Orçamento Fiscal e da Seguridade Social) e não incluem os referentes à Lei Rouanet.

Os governos estaduais destacaram-se na participação dos gastos públicos com cultura, totalizando R$ 1,4 bilhão (32,3%) em 2007 e R$ 2,5 bilhões (34,9%) em 2010. De 2007 a 2010, São Paulo aumentou suas despesas em cultura de R$ 470,6 milhões para R$ 992,9 milhões; o Rio de Janeiro de R$ 77,5 milhões para R$ 163,6 milhões; e o Distrito Federal de R$ 65,9 milhões para R$ 152,7 milhões.

A participação dos municípios caiu de 49,0% em 2007 (R$ 2,2 bilhões) para 44,5% em 2010 (R$ 3,2 bilhões), mas eles continuam sendo os principais entes governamentais no que diz respeito ao total de gastos públicos com cultura. "A maior importância dos municípios pode ser explicada pela proximidade desta instância com a população e suas respectivas demandas culturais, por parte de gestores, produtores e consumidores de bens e serviços culturais", explica o documento.

Clique aqui para acessar o estudo na íntegra.



4º Encontro de Mamulengo


Celebrando a Cultura Popular e a Resistência da Arte de Rua.. Vem aí:




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Cabaré da Diversidade / MARL - Londrina-PR





Cabaré Diversidade Londrina
O coletivo ElityTrans, em parceria com outros movimentos sociais e algumas instituições do município de Londrina, promoverá no dia 18 de Outubro a noite cultural "Cabaré Diversidade Londrina", das 18 às 21 horas na Concha Acústica, a fim de gozar do talento de artistas Londrinenses que acreditam e lutam por uma sociedade igualitária e com oportunidades para tod@s, trabalhando a inserção social e combatendo os estigmas e o preconceito.
 O evento marca um ano do Ato "Diversidade Colorindo a Cidade", realizado em 2012 na Praça Rocha Pombo. Este Ato foi organizado em resposta às frases homofóbicas que se destacavam na paisagem da praça, mas também como uma atitude estratégica em termos de ocupação do espaço público, uma reivindicação também do coletivo parceiro MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina) através de ações culturais em vários espaços da cidade.
Este "Cabaré Diversidade" surge da união de esforços entre o Coletivo Elitytrans Londrina, Cia. Teatro de Garagem, a Ong Núcleo Londrinense de Redução de Danos, e Repare - Rede Paranaense de Redução de Danos. Conta também com o apoio dos movimentos sociais MARL - Movimento dos Artistas de Rua de Londrina, Coletivo Eva, Marcha das Vadias, Coletivo Maria Vem com a Gente, e com os órgãos Secretaria da Mulher, Secretaria de Saúde, Ong Alia, Balada no Busão - DJ Ninton Silva, e Sindicato dos Bancários de Londrina.
O objetivo do evento é, através das apresentações culturais, celebrar a diferença e chamar a atenção do público para as reinvindicações do movimento LGBTT com ênfase na discriminação de gênero e na divulgação da Lei Municipal anti discriminatória  Nº 8812, de 13 de Junho de 2002, usando a linguagem da arte para provocar reflexão e fomentar o entendimento.
Contatos Organização:
Melissa Campos – (33268948 / 84593553)
Eduardo Borghi e Niki Miranda – (3304 8882)
Herbert Proença e Rafael Avansini – (33612668)


PROGRAMAÇÃO CABARÉ DIVERSIDADE
18h00 – DJ Balada no buzzão
18h30 – Cena "Sem Vandalismo", Cia. Teatro de Garagem
18h40 – Grupo "Pisada da Jurema"
19h00 – Abertura do Cabaré: Cia. Teatro de Garagem e Coletivo ElityTrans
19h10 – Homenagem à Scarlett O`Hara e Yá Mukumby 
19h25 – Bendita Geni, Cia. Teatro de Garagem
19h35 – Fala dos Movimentos Sociais: MARL, Marcha das Vadias e Maria Vem com a Gente.
19h50 – Pedro José
20h20 – Segundo Bloco: Falas dos Movimentos Sociais: Rede Feminista, MML - Movimento Mulheres em Luta e ElityTrans.
20h35 - Verdes Veredas
21h15 - Encerramento

domingo, 13 de outubro de 2013

QUEREMOS 100 MILHÕES PARA OS EDITAIS DO PROAC

 

 

Dia 5/11, a partir das 10h,

todos os artistas, produtores,

secretários de cultura municipais e pessoas interessadas

no aumento dos recursos para o ProAC Editais

estarão presentes na

Assembleia Legislativa do Estado para acompanhar

a Audiência Pública da Comissão de Educação e Cultura que debaterá o tema

com a sociedade civil.

 

 

Os Editais PROAC foram uma resposta do Governo do Estado da Cultura a uma reivindicação dos artistas que se juntaram para lutar pela implantação  do Fundo Estadual de Cultura com uma dotação de no mínimo 100 milhões de reais.

 

Com um procedimento coletivo, aproximadamente 1200 pessoas da classe artística lotaram a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em 2005,  com esta pauta única. Em resposta a esta demanda o Governo criou o PROAC, colocando, na época, o orçamento de 20 milhões nos PROACs EDITAIS e 60 milhões nos PROACs ICMS.



Hoje os editais do ProAC são uma das fontes mais importantes de financiamento direto, isto é, financiamento que sai das mãos do governo diretamente para as mãos do produtor cultural, através da aprovação de projetos de interesse comum para a cultura no Estado de São Paulo. O PROAC EDITAIS tem incentivado novas criações, tanto de continuidade para grupos e artistas contemplados mais de uma vez com projetos diferenciados, quanto de grupos e artistas que apresentam seus primeiros projetos.

 

A transformação e o crescimento da produção cultural do Estado de SP dependem atualmente deste tipo de financiamento, uma vez que, muitos municípios não contam com apoios e recursos de suas cidades. No entanto, tal crescimento da produção não tem tido uma contrapartida equivalente no financiamento, deixando de dar vazão a uma grande quantidade de bons projetos culturais e consequentemente impedindo o acesso do público a eles. Esse estrangulamento é verificado pelo exponencial crescimento na qualidade sem que se verifique o crescimento proporcional do número de contemplados e de sua difusão.

Outro dado contundente é que os editais do PROAC têm incluído permanentemente novos segmentos culturais, sem que, para isso, os recursos sejam ampliados na mesma proporção.  Sem aumento do orçamento o que observamos é uma pulverização dos recursos entre várias categorias, estrangulando ainda mais a difusão do crescimento significativo da produção cultural do Estado.  

 

Assim, reiteramos que tal ampliação, quando devidamente justificada, deve necessariamente ser respaldada pelo aumento dos recursos, de acordo com o tamanho proporcional do investimento. Isso infelizmente não tem acontecido, embora do ano passado para este ano, o PROAC EDITAIS tenha aumentado seu aporte de 25 para 30 milhões. Um crescimento percentual significativo, entretanto ínfimo para a demanda do Estado.

A cultura é a identidade de um povo e é fundamental que ela flua amplamente. Também não podemos nos esquecer que há uma grande cadeia de valor ligada às artes, e um projeto aprovado movimenta vários setores da economia, gerando trabalho e produzindo conhecimento e novos modos de fazer e de saber.


Por tudo isso afirmamos que QUEREMOS 100 MILHÕES PARA OS EDITAIS DO PROAC!

 

 

 

SERVIÇO

Dia 5 de novembro – a partir das 10h.

Assembleia Legislativa do Estado

Entrada pela Av. Sargento Mário Kozel Filho

Ibirapuera – São Paulo – SP


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Dramatúrgia para teatro de rua: reflexões acerca do processo dramatúrgico da peça O Bom Quixote - Delírio Urbano

SANTOS, Márcio Silveira dos. Dramaturgia para Teatro de Rua - Reflexões acerca do processo dramatúrgico da peça O Bom Quixote - Delírio Urbano.
Área de Estudo: Artes Cênicas na Rua. Sem vínculos a Instituições de Ensino Superior. Titulação: Mestre em Artes Cênicas/UFRGS.
Atuação Profissional: Pesquisador, dramaturgo, ator e diretor do Grupo Teatral Manjericão.

RESUMO

O presente trabalho se constitui a partir de um relato reflexivo a cerca do processo de escrita dramatúrgica que realizei para o espetáculo de teatro de rua: O Bom Quixote - Delírio Urbano, do Grupo de Teatro Ueba Produtos Notáveis, de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. O Grupo teve desde o inicio da criação deste espetáculo, a proposta de contextualizar para os dias atuais a clássica história de cavalaria, Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Após doze meses de árduo trabalho o espetáculo teve sua estreia no dia 27/11/2011 na Praça Dante Alighieri, Caxias do Sul/RS. Pretendo estabelecer aqui tessituras reflexivas para um possível entendimento de uma dramaturgia para teatro de rua na atualidade. Tendo por base de reflexão crítica as bibliografias sobre Teatro de Rua, as anotações do processo e o material produzido do espetáculo, como fotos e vídeos, e os trabalhos teóricos de Martin Esslin, Jean Jacques Roubine, Peter Szondi, Hans Thies Lehmann, Eric Bentley, Patrice Pavis, dentre outros.

Palavras-chave: Teatro de Rua. Dramaturgia. Grupo UEBA Produtos Notáveis. Políticas Públicas. Arte Pública.

RESUMÉ

Le présent ouvrage est d'un rapport sur le drame processus d'ecriture réflexive que j'ai fait pour  le spectacle de théâtre de rue: O Bom Quixote - Delírio Urbano, Grupo de Teatro UEBA Produtos Notáveis, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. Le groupe avait depuis Le début de La création de CE spectacle, Le contexte proposé pour conte classique d'aujourd'hui de La chevalerie, Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Après douze móis de travail acharné Le spectacle a été créée Le 27/11/2011 sur La Praça Dante Alighieri, Caxias do Sul/RS. J'ai l'intention de s'installer ici pour une compréhension tecituras possible Le reflet de la dramaturgie pour un théâtre de rue aujourd'hui. Sur la base des bibliographies de réflexion critique sur le théâtre de rue, les notes du processus et le matériel produit le spectacle, tels que des photos et des vídeos, ET Le travail théorique de Martin Esslin, Jean-Jacques Roubine, Peter Szondi, Hans Thies Lehmann, Eric Bentley, Patrice Pavis, entre autres.
Most-clés: Théâtre de rue. Dramaturgie. Grupo UEBA Produtos Notáveis. Des politiques publiques. D'art public.

O Princípio do Delírio

            Em meados do ano de 2010 fui convidado pelo Grupo UEBA Produtos Notáveis, com sede na cidade de Caxias do Sul, localizada na serra gaúcha, para participar de um novo projeto. Consistia na realização da dramaturgia de um espetáculo de teatro de rua com base no livro Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Afeito a desafios, aceitei com muito gosto. Realizamos uma série de reuniões com a equipe, inicialmente formada pelo Grupo UEBA, por mim e o Diretor Jessé Oliveira. Agregaram-se depois a figurinista Raquel Cappelletto e Fernanda Beppler para criação musical. O Projeto foi contemplado com o Prêmio Anual de Incentivo a Montagem Teatral, da Prefeitura Municipal de Caxias do Sul/RS.
            O Grupo UEBA em seus 08 anos de existência vem desenvolvendo um trabalho inédito no interior do Rio Grande do Sul, seus trabalhos primam pela pesquisa de linguagens e abordam uma série de temas ligados ao humano frente a adversidade dos tempos que vivemos. Sua cidade sede, há décadas é palco não só da festa da uva, mas também da gigantesca produção das indústrias metal-mecânicas. Um exemplo disso é o conglomerado de Empresas Randon, surgida em 1949 e hoje é composto por empresas líderes na América Latina. Conta com a mais completa linha de equipamentos para o transporte de carga terrestre, com seus veículos rebocados, vagões ferroviários e veículos especiais. Atuam, ainda, nos segmentos de autopeças e sistemas automotivos, além dos serviços de consórcio e de banco. Mantém uma rede internacional de vendas e serviços, atendendo a mais de 100 países.



            Cito aqui a Empresa Randon dentre tantas porque justamente nos últimos anos cresceu de forma vertiginosa e assim também cresceu a demanda de trabalho, que por sua vez provocou a imigração de pessoas do país inteiro para a cidade.  De 2010 até a escrita deste artigo há um volume muito grande de novos moradores na cidade, "Cidadãos-Quixotes" entre o sonho de uma vida melhor e a realidade de uma cidade despreparada em sua infraestrutura para abarcar tanta gente em um curto espaço de tempo.
            Foi na perspectiva de dialogar com a cidade em sua diversidade e história que o Grupo UEBA Produtos Notáveis resolveu montar Dom Quixote pelo viés de uma contextualização do texto clássico de Cervantes aos dias de hoje, um Quixote dividido entre o sonho e a realidade em pleno século XXI, perfazendo assim os caminhos tortuosos de um delírio urbano. Como diz o ditado popular: fala de tua aldeia que estarás falando do mundo, assim seguiu a UEBA em um ano de trabalho.
Nos primeiros encontros era nítida a ideia de realizarmos uma dramaturgia colaborativa. Esse termo "dramaturgia colaborativa" ganhou destaque nos anos 2000 (século XXI) com trabalhos de grupos e coletivos teatrais.

Trata-se, a nosso ver, de um processo que tem como antecedentes imediatos a prática da criação coletiva e a experiência do dramaturgismo. Dessa, herdou a pesquisa e a presença de alguém responsável pela dramaturgia na sala de ensaio. O dramaturgista atua muitas vezes como "braço-escritor" do diretor, aliando a criação dos intérpretes, os elementos pesquisados, a visão do diretor e a sua própria na escrita do texto a ser enunciado na peça. (Nicolete, 2010, p.33-34)

            Ciente de que o processo colaborativo leva mais tempo na sua execução do que o de gabinete, onde o dramaturgo escreve sozinho em seu escritório de trabalho, passamos a nos encontrar semanalmente a partir do mês de abril de 2011. O Grupo após leituras de alguns capítulos, previamente selecionados pelo diretor, passava a improvisar cenas. Eu procurava filmar, fotografar, anotar tudo que conseguia. Após voltava para meu computador e num misto de transcrição das falas das improvisações, mais o texto de Cervantes e uma série de outras fontes: literárias, cinematográficas, quadrinhos, pinturas, gravuras, desenhos, artigos, dissertações e teses, estabelecia um texto novo a ser improvisado, depois reelaborado para novos ensaios. Este processo se deu até o dia da estreia em 27/11/2011 na Praça Dante Alighieri, Caxias do Sul/RS.

Delirando    

Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) escreveu sua obra-prima Dom Quixote de La Mancha (1605), opondo-se as novelas de cavalaria muito em voga na época, segundo introdução de seu histórico na edição brasileira:

Dom Quixote, obra concebida como novela curta, inspirado num caso real de loucura, destinava-se a combater a cavalaria andante. Opondo-se à irrealidade das novelas de cavalarias, ainda muito lidas na Espanha da época, Cervantes teria pretendido fazer uma sátira dessa "propaganda" cavaleiresca e dos que se armavam cavaleiros às cegas. Mas a caricatura de um estilo fantasioso se transformou no retrato da aventura humana, no perfil do homem dividido entre o sonho e a realidade. Dom Quixote e Sancho Pança, surgidos da fantasia do artista, aparecem vivos como se fossem personagens históricas. (Saavedra; Azevedo: 1981).

O autor escrevia na forma de capítulos, tramando aos poucos as aventuras e desventuras do cavaleiro da triste figura, cuja primeira parte foi publicada em 1605. Cervantes  havia sido preso, por ser acusado injustamente de desviar verba quando desempenhava a função de coletor de impostos. Ficou na prisão por dez anos, neste período o autor deixou de lado sua obra-prima, passou a escrever outras obras de sucesso, mas nenhuma comparada a Dom Quixote. Seu romance de cavalaria fazia tanto sucesso que autores impostores criavam novas histórias passando-se por Cervantes. Irritado, Cervantes retomou a escrita e concluiu a segunda parte, dando assim o final que temos hoje. Onde ironiza sua própria condição, criando um capitulo de duelo entre Dom Quixote e um cavaleiro impostor que se diz Dom Quixote.
Na montagem para teatro de rua o Grupo UEBA desejava contextualizar muitos capítulos da obra no ambiente da rua, assim como os personagens de Cervantes. Construímos cenas com uma série de "figuras" que habitam nosso cotidiano das ruas, como: O vendedor de banha de peixe boi, que vendia o Bálsamo de Toboso (terra de Dulcinéia); o anunciante de ofertas das lojas de rua, concebido através de uma atriz sobre pernas de pau anunciando as lojas Quixote, fazendo aqui uma alusão ao escritor impostor, onde o personagem enfrenta o anunciante chamando-o de falsário. Outras cenas como o castelo transformado em bordel, onde o personagem em seu delírio é condecorado "Dom Quixote de la Mancha" por um cafetão; os moinhos de vento contextualizados por um bonecão de posto, onde se lê: Postos Moinho. O que gerou uma cena de luta muito interessante entre Quixote e o bonecão inflável.
A história de Miguel de Cervantes nos proporcionou a liberdade de adaptação da obra para uma dramaturgia por vezes engajada e fragmentada (Lehmann: 2007) na sua evolução, a exemplo da inserção de um monitor de LED 42" onde são exibidas cenas filmadas de Dom Quixote deslocando-se no mundo contemporâneo: na escada rolante de um shopping, pegando um ônibus, correndo no meio do transito, revelando o desajuste do personagem frente ao mundo atual, resignificando o que Quixote diz constantemente como sendo "obra dos feitiços de Fristão" seu inimigo imaginário.
 Mas a grande inquietação inicial permaneceu por muito tempo no processo: de que forma sintetizar, condensar essa aventura escrita em dois tomos? Através de uma leitura minuciosa podemos perceber na obra as cenas de fino trato irônico do autor ao seu tempo, que proporcionaria trabalhar com uma estrutura sintética e de entendimento na rua. Tendo em vista que no espaço da rua o texto curto permite ao espectador transeunte entenda e reflita a situação dos personagens em poucos minutos, estabelecendo assim uma "cerimônia social diferida" (Duvignaud, apud Carreira: 2007). Um exemplo é a transposição do capitulo onde Quixote escreve uma carta para Sancho entregar a sua amada Dulcinéia. Na história original é exposta a carta desenhada na pagina com seus versos. Já na peça ela é lida por um ator/radialista sobre andaimes, ao mesmo tempo em que o ator/Quixote empunha uma guitarra e toca distorcidamente enquanto declama/traduz para o inglês os versos. O público acompanha e vibra numa cena melodramática de Love Story.

O teatro, ao contrário da literatura impressa, que é consumida por indivíduos em isolamento, é uma experiência coletiva e, por isso mesmo, acontece que as emoções que provoca dão-se em público. Assim, a mensagem contida em uma peça (seja ela política ou de qualquer outra natureza) sempre coexiste com a demonstração da recepção que merece de uma unidade social, a coletividade da plateia. (ESSLIN: 1978, p.109-110).
           
            Naturalmente na contextualização texto/cena em uma cidade industrial, não poderíamos deixar de estabelecer conexão com a vida dos trabalhadores. Há um momento em que Quixote confronta um rebanho de ovelhas pensando ser um batalhão a lhe desafiar. Na dramaturgia/encenação realizou-se um confronto dos trabalhadores em greve, reivindicando melhores condições de trabalho na indústria. Proporcionamos assim a um capitulo do texto, que em primeira analise não teria função, a um caráter de grande importância dentro do argumento da encenação e texto, "com seu contexto cultural, histórico,  ideológico, a fim de não abordá-lo num vazio formal." (Pavis: 2003 p.405). Realizamos uma adaptação à altura da reflexão de Bentley (1991) a cerca do papel do dramaturgo em sua sociedade, onde tem também a função de um "pensador" a cerca do seu tempo, provocando, produzindo reflexão no público e atores.





O Delírio Urbano

O espetáculo, à medida que avançaram os ensaios na rua, tomou corpo e forma. Ganhou cenários com andaimes, equipamentos de luz e som, adereços, bonecos, máscaras, carrinho de supermercado, ventiladores industriais, dúzias de figurinos e duas bicicletas como montarias. Nas cenas finais desenvolvemos o ápice da encenação através da presença de Dulcinéia, que na obra de literária nunca fora vista. Embora as aparições permeassem a evolução da peça, somente no final ela é personificada de fato, representando o novo versus o velho. Criou-se um duelo entre duas divas norte-americanas da música pop mundial: Britney Spears e Lady Gaga. Representações do grupo de Dom Quixote e o grupo do Cavaleiro da Lua Branca, que vence e Quixote volta ao lar. Esse "novo" representado pela cultura pop, dita evasiva e sem conteúdo, em tempos de excesso de informação via internet, frente à cultura dos valores antigos, do interesse a leitura de livros, percorremos um caminho próximo ao que Roubine (2000 p.86) chama de "o artista face à história", onde o teatro não pode ficar indiferente ao seu mundo. Um teatro de rua como propulsor de diálogo e reflexão social. Exemplificado também na cena anterior, onde vemos Sancho Pança ganhar sua ilha "Cidade de Baratária" e diante da frustração, da ganância social, da impossibilidade de ser feliz e realizar um governo digno que tanto sonhará, parte para outra aventura, entrega a chave da cidade e diz: "FUI!" Assim segue o espetáculo "O Bom Quixote: delírio urbano" que vem ganhando as ruas do país de forma galopante.
Parafraseando Szondi (2011: 155) a cerca da dramaturgia moderna, digo que este relato de uma possível dramaturgia para teatro de rua, em processo de coexistência com outras, não é um último ato e sim que se inicia um novo processo.

Referencias
BENTLEY, Eric. O Dramaturgo como Pensador. Tradução Ana Zelma Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
CARREIRA, André. Teatro de rua – Brasil e Argentina nos anos 1980 – Uma paixão no Asfalto. São Paulo: Hucitec, 2007.
ESSLIN, Martin. Uma Anatomia do Drama. Tradução: Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.
LEHMANN, Hans-Thies. Teatro Pós-dramático. Tradução: Pedro Sussekind. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
NICOLETE, Adélia. Dramaturgia em colaboração: por um aprimoramento. In. Subtexto – Revista de teatro do Galpão Cine Horto, nº7, Minas Gerais: CPMT, 2010.
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. Tradução J. Guinsburg, Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 2003.
ROUBINE, Jean-Jacques. Introdução às Grandes Teorias do Teatro. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2000.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. Dom Quixote de La mancha. Tradução: Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1981.
SZONDI, Peter. Teoria do Drama Moderno [1880-1950]. Tradução Raquel Imanishi Rodrigues. São Paulo: Cosac Naify, 2011.


Cultura como ponta de lança

Cultura como ponta de lança ou aja criatividade

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

 

O capitalismo vive em crise e, como ainda não conseguimos acabar com ele, vive se reinventando. Quanto à cultura, a mesma vem sendo ponta de lança de práticas que apenas favorecem esse modo de produção. Chin-Tao Wu, em Privatizações da cultura, já analisou como a política neoliberal chegou ao campo das artes. Afinal, cada vez mais, ideias são mais rentáveis do que os produtos materiais. Uma peça, um automóvel, é preciso sempre produzir para vender; já uma ideia, ao ser criada, pode ser vendida indefinidamente, gerando muito lucro para os detentores dos seus direitos. E não são apenas as grandes empresas as maiores detentoras dos direitos?

É nesse campo que se coloca a economia criativa. E as últimas ações da Ministra da Cultura para expandir cada vez mais esse "universo cultural" são um pequeno retrato do que devem esperar todos e todas que lidam com a cultura em nosso país.

A ideia de uma economia criativa, até onde se apurou, começou na Austrália, com a perspectiva de nação criativa, depois migrou para o Reino Unido, sob a batuta de Tony Blair, continuador da política de Margareth Thatcher. E se os mercados ditam as regras, claro que o Brasil não poderia ficar de fora. A Secretaria de Economia Criativa foi implantada em janeiro de 2011, logo no início do governo Dilma, deixando claro como a cultura deveria ser tratada: como negócio.  A Secretaria é voltada para pensar e auxiliar na construção de produtos e serviços de dimensões simbólicas. Se a indústria da moda, que sempre vampirizou as criações artísticas, é um desses campos, foi o que se perguntaram muitos brasileiros recentemente.

Em dezembro de 2011 a ex-Secretária de Economia Criativa, Claudia Leitão, em artigo publicado no Jornal Brasil Econômico, afirmou ser difícil conceituar o que seja economia criativa, no entanto, não deixava dúvidas: "mas nós sabemos onde ela está". E frisava a necessidade de linhas de crédito para fomentar os empreendimentos criativos, pois a criatividade precisa virar inovação, para que esta se torne riqueza - muito embora o artigo não deixasse claro para quem iria a riqueza gerada por tais empreendimentos. Leitão já não está mais na Secretaria, mas as ações do Ministério parecem deixar claro quais devem ser os rumos do que entendem por economia criativa e quais os mecanismos para isso. Para se ter uma ideia, a tônica da política cultural brasileira ainda são as leis de renúncia fiscal, sendo a Lei Rouanet o modelo.

Os dados dessa política são contundentes. Eliane Parmezani, na edição de outubro de 2012 da Revista Caros Amigos, afirmou que "por meio de renúncia fiscal, foram disponibilizados 12 bilhões de reais nesses 20 anos de lei Rouanet. Contudo, 50% dos recursos estão concentrados em cerca de 100 captadores. A outra metade fica com 20% deles. E os outros 80% dos proponentes não captam nada. Mais: apenas 5% dos projetos aprovados na lei Rouanet são realizados". Existe aí um feudo cultural financiado com dinheiro público.

Se não revirmos urgentemente o modelo de política cultural, não serão apenas desfiles de moda os beneficiados, mas uma gama infinita de "criativos", enquanto pequenos produtores das artes padecem pelo Brasil. Se a ideia da economia criativa for no sentido de distribuir renda, como reza o discurso oficial, eu não tenho dúvida que um pequeno festival de teatro realizado no norte do país, ou qualquer outra região, distribui renda e agrega muito mais valor do que qualquer desfile de moda realizado fora do Brasil.

 

Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato, edição 553.



[1]
                        [1] Graduado em História e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp.