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domingo, 28 de setembro de 2014

MEMÓRIA PRESENTE III


A jornada antes do Evento Ocupa Nise 2014 ainda teve uma parada, Londrina, onde aconteceu o XIV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua. Mas antes do Paraná, interlúdio no Rio de Janeiro.

Antes do encontro em Londrina, o Fórum de Arte Pública, junto com representantes da Universidade Popular de Arte e Ciência. Conversamos sobre a possibilidade de confirmar ou não o Encontro da RBTR na cidade do Rio de Janeiro. Quais as dificuldades, quando e onde. Seria interessante? Afinal era uma idéia que tinha nascido no encontro do Ocupa Nise 2013 e proposto por articuladores da RBTR que estavam no evento.  Avaliamos que seria muito bom que o Rio pudesse sediar o XV Encontro, principalmente sendo realizado dentro do Instituo Nise da Silveira, na Zona Norte da cidade, no espaço do Hotel da Loucura. Concordamos que sim, confirmaríamos o Rio no encontro em Londrina. E iríamos como delegação, com seis representantes, para sancionar o XV Encontro da RBTR, junto com o 4° Congresso da UPAC, em setembro, de 01 á 07, no 3° Ocupa Nise, ano de 2014.

Londrina – XIV Encontro
Paraná, cidade de Londrina. Segundo a história, Sir Simon Joseph Fraser, mais conhecido como Lord Lovat, quando veio ao Brasil e visitou o norte do Paraná, ficou encantado com a região. Com outros companheiros ingleses, fundou a Companhia de Terras do Paraná. Ao observarem a névoa característica da mata, viram semelhanças com a neblina da cidade de Londres. Para homenagear a capital da Inglaterra, batizaram o lugar de Londrina.

A cidade já foi a Capital do café e é a casa do famoso Tubarão, o Londrina esporte Clube, um dos mais tradicionais clubes brasileiros.

Ficamos alojados em um retiro afastado da cidade. Um local bem aconchegante e calmo. Muitos articuladores não puderam vir ao encontro e cancelaram a sua ida para Londrina, alguns em cima da hora. Apesar desse fator, o encontro no Paraná foi muito bom.

O começo não poderia ter sido melhor. A abertura se deu no Sesc poderia ter sido convencional, com as pessoas se deslocando para o auditório, sentando em suas cadeiras enfileiradas enquanto o palestrante ficaria em cima do palco, falando e atendendo pergunta. Não aconteceu nada disso, primeiro fizemos uma concentração em frente a porta da instituição. Roda formada, Humberto, mestre do cavalo marinho comandando a musicalidade regada a xote, forró e samba e com muita dança na ponta do pé. Foi com ritual e celebração, com dança, música (por que não falar: suco de cevada dos deuses do bar), que penetramos no prédio do Sesc, subindo as escadas em cortejo. Na frente, Daniel e Alexandre rodavam as suas saias, conduzindo a trupe até o local da palestra de abertura falando sobre Arte Pública. E foi dançando que entramos no auditório, onde sob desmontamos o convencional e formamos uma roda para dialogar com o Mestre Amir Haddad sobre o tema proposto.

No dia seguinte, no sitio onde o encontro estava sendo hospedado, iniciamos, antes dos relatos dos estados, com um pequeno vídeo, uma pílula, sobre o I Festival Carioca de Arte Pública, mas focado na Praça Tiradentes onde o Tá Na Rua era o grupo anfitrião. Muitos se emocionaram com o depoimento da Aquimi, nossa menina que coloca seu nome em um grão de arroz, falando que “ela não estava mais sozinha”. Foi bom, pois foi um bom dia onde o dialogo fluiu muito bem, com os relatos, com a poesia proferida pelo bom Daniel e pelos tambores de macumba que ecoaram dentro das paredes do sitio. A sala virou um terreiro, onde os pilintras deram pinta e as pombas giras rodaram suas saias. Foi nesta celebração, com a presença de Amir Hdaddad e de Vitor Pordeus, mentor do hotel da Loucura, que confirmamos o Rio como sede do próximo encontro da Rede, dentro do evento Ocupa Nise.

Fiquei pensando muito sobre isso, o fluir do movimento, sem determinar o movimento, o mesmo que acontece conosco quando estamos na rua nos apresentando, seguindo os acontecimentos. É uma questão que levantamos nas rodas, quando é que a rua entra no teatro de rua?

 E tivemos exemplos disso, quando assistimos as apresentações na Praça Floriano Peixoto, onde os moradores de rua entravam, falando e dançando. Era o fluxo da rua trocando e sendo organizado pelos espetáculos. Ignorar era uma influência negativa na apresentação. E como eles tem a aprender, como ensinar. Como não dá para ficar preso a determinadas regras, sem flexibilidade.

Essas questões ficaram na minha cabeça, inda mais quando tivemos uma vivência forte com o Sergio, paulista perdido nas esquinas de Londrina. Humilde em tudo e que participou com desenvoltura do espetáculo apresentado pelo grupo Rococoz, de São Paulo, depois tocando com o Pedro, músico local e finalizando com uma apresentação solo, tocando guitarra e cantando “Ouro de Tolo” do Raul Seixas, com desenvoltura e, o mais importante, com vida. Ao final, até os guardas da praça, que estavam implicando com sua caixa de sapatos e sua flauta de brinquedo, contribuíram com o chapéu que passamos para ele. O mendigo de inicio, encurvado, foi perdendo o fedor, o bafo, ficou perfumado, tirou o casaco escuro, ficou de camisa colorida, ficou ereto e fez a guarda municipal chorar com emoção. Isso tem um significado muito forte, pois se apresentar na rua não que dizer que esteja vendo o seu movimento. O chapéu do Sergio foi tão bom, que ele comprou comida com seus parceiros da praça e ainda teve um convite de trabalho, com o contratante se dispondo a resgatar toda a documentação que ele havia perdido. Este momento está melhor transcrito em outro artigo que breve estará degustado pela literatura. 

Mas como é bom isso, como é bom para a saúde de uma cidade ter uma arte pública em movimento, atuando nos espaços públicos. Como é bom é bom entrar na secretária municipal de cultura tocando os tambores e os funcionários dançarem com o nosso ritmo. Como é bom ver a secretária de cultura entrar na roda e dançar com os artistas. É protesto na sua melhor função, como proposta, sem ser um protesto.

Esses exemplos são a melhor maneira que pude encontrar para primeiro falar como foi importante o movimento que o encontro tomou em Londrina para dar uma melhor dimensão e harmonia entre celebração, apresentação e dialogo dentro de um encontro, com identidade e com sua forma de realizar uma plenária, sem o peso de ser uma plenária. Terminamos bem o encontro com um cortejo pelas ruas do centro da cidade, com a população nos parabenizando pelo colorido da tarde. Do alto Rogério declamava com destreza teatral a carta de Londrina.

Sabemos que não é fácil conduzir uma produção, mas o pessoal do MARL – Movimento de artistas de Rua de Londrina – fez um belo trabalho, onde fomos bem amparados, alojados e alimentados. Bato palmas para eles. Valeu Londrina.

Próxima parada, Rio de Janeiro.


NOSSA SENHORA DE LONDRINA

Destacada na parte oeste da Praça Floriano Peixoto, fica uma imagem de uma santa, mas não qualquer santa, é Nossa Senhora, extática, linda imponente com sua coroa dourada e seu manto branco e... vermelho. Estamos tão acostumados com a imagem de Maria com um manto azul que muitas vezes não ponderamos que ela pode se vestir com outras cores. Só a identifiquei pelo menino Jesus que tão carinhosamente segurava perto do coração. Coração de mãe. Coração bordado em vermelho e dourado, sem nenhuma faca atravessando o nobre músculo, símbolo da vida, de sangue e do amor. Curioso, me aproximei. Era uma estátua diferente. Do nada, ela se movimenta e como mágica, das mãos do menino Jesus brota um minúsculo papiro, do tamanho de um grão de bico, no formato de um rolo e fechado por uma fitinha fina vermelha. Desenrolo o pequenino pergaminho e leio o seu conteúdo: “Vivo nas Estrelas porque é lá que vive minha Alma – Manoel Bandeira.”

Encantado com a destreza e a beleza tanto da frase, como do gesto, dos movimentos em total sintonia e destreza, deslizei pelo pequeno altar montado em sua frente um pequeno donativo em oferenda ao presente recebido. A Santa encurva-se um pouco em agradecimento e modificando sua posição, coloca o menino em outra posição, mas a frente, do jeito como a mão eleva o filho para apresentá-lo ao mundo, voltando a sua inércia. A mais bela imagem que encontrei pelas ruas de Londrina, uma Santa Viva.


Herculano Dias

RELATÓRIO DE VIAGEM AO RIO DE JANEIRO PARA PARTICIPAR DO XV ENCONTRO DA REDE BRASILEIRA DE TEATRO DE RUA



A viagem teve por objetivo participar do XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, realizado na cidade do Rio de Janeiro, no período de 01 a 07 de setembro de 2014.
Minha saída de Rio Branco se deu dia 01 de setembro as 02h30, tendo chegando ao Rio de Janeiro as 10h30, horário local, na mesma data. A hospedagem ocorreu no Hotel da Loucura, no mesmo local onde  aconteceu XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua e Ocupa Nise 2014, no Engenho de Dentro
Nas discursões foram sempre enfocadas a importância da arte integrada com a saúde da mente. Todo o encontro recheado de discussões em plenárias, momentos festivos, poéticos, encenações, espetáculos, filmes, cortejos, marcou muito todos os participantes, pela sua forma metodológica.  Já havia participado de dois encontros da RBTR em Rio Branco, onde fiquei conhecendo mais claramente a vivência indígena do Estado Acre, um povo de uma história muito rica e muita firmeza, bem com  a história da RBTR, a partir de então foi criada a PUIPISI – Rede Acriana de Movimentos Populares de Rua e Floresta, a qual está crescendo a cada dia, evoluindo nas discussões em relação ao teatro de rua e ligado a problemática social do nosso Estado e do país.
O XV Encontro da RBTR e Ocupa Nise, a temática e metodologia foi diferente e de suma importância, para o movimento de teatro de rua e para a saúde mental. Participaram do encontro muitas figuras importantes e talentosas, entre elas Romualdo Freitas, que tem vasta experiência e conhecimentos em relação ao campo da arte, VITOR PORDEUS, LINCKO, JUSSARA, AMIR HADAD, JOSÉ PACHECO, PELEZINHO  e muitos outros, bem como alguns pacientes do Hospital da Loucura, pessoas tão simples mais de uma grande experiência em se falando de cultura,  saúde e conhecimentos dos direitos e leis, que tratam das várias temáticas em relação a cultura e a saúde. O Hotel da Loucura é uma excelente escola, onde a cultura está presente no dia a dia dos pacientes, educadores e estudantes da arte-saúde mental e educação. A maioria dos Estados estavam representados no encontro por grandes artistas, grupos de teatro de rua, palhaços, etc.
No dia 07/09/2014 , último dia do evento, tivemos  uma plenária grandiosíssima com a presença do Mestre José Pacheco e de muitos educadores locais e nacional, onde cada pergunta ou questionamento  eram esclarecidas de forma sucintas e claras. Após a plenária os participantes saíram em um grande cortejo pela cidade Estivemos na Praça Rio Grande do sul, próximo do Hotel da Loucura e na Cinelândia, com a concentração em frente a Casa do GRUPO TÁ NA RUA,   do amigo Amir Hadad. Dai seguimos rumo a Cinelândia, com todos muito empolgados.
Tivemos nesse encontro várias ações, tais como: lançamento de livros, algumas moções de apoio a grupos e comunidades culturais, que sofrem repressão por parte das autoridades e governo que ainda tentam reprimir artistas e grupos que através da sua arte denunciam e esclarecem para a população e sociedade sobre direitos, leis etc, bem como um manifesto por uma arte-pública e uma carta que todos devem ler e procurar colocar em prática, os princípios da RBTR para que, unidos, possamos lutar por nossos direitos e exigir  respeito ao nosso trabalho.
 A arte tem que está presente em todos os contextos da sociedade, embora muitos não tenham consciência da sua importância. “ARTE É VIDA E SAÚDE, E NÃO PODE FICAR FORA DO CONTEXTO SOCIAL.
O retorno aconteceu no dia 08 de setembro de 2014 , com embarque às 15h20horas, chegado em Rio Branco as 00h15, horário local.
  Deixo aqui meu muito obrigado a todos da organização, bem como a todos os rueiros que se encontravam no evento.
 Rio Branco, 24 de Setembro de 2014.

           Francisco Ferreira do Nascimento
Companhia de Artes Camalearte
PUIPISI - Rede Acriana de Movimentos Populares de Rua e Floresta.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

MEMÓRIA APRESENTE II



Como escrevi anteriormente, no Acre levantaríamos a proposta da cidade do Rio de Janeiro sediar um dos próximos encontros da RBTR, precisamente no espaço do Hotel da Loucura, no Engenho de Dentro


ACRE
No Acre, articuladores se reuniram para o XIII Encontro da RBTR. O Encontro não aconteceu na cidade de Rio Branco, capital do estado, o que posso dizer que foi muito bom, pois nos encontramos na no Espaço Cultural que estava sendo inaugurado, na Zona Rural, espaço da Área Viva, que estava aos cuidados do Grupo Vivarte (grupo responsável pela produção do encontro), longe do centro urbano e perto dos moradores rurais, descendentes dos antigos seringueiros da região. Não dormimos em quartos, acampamos e nos separamos em grupos para preparar café, almoço e jantar. Não vou colocar enfeites, dizer que tudo foi perfeito. No local mesmo havia problemas em relação á estrutura, do local não estar completamente pronto. Mas depois de um tempo passado, fazendo uma analise mais afastada, digo que não poderia ter sido diferente. Primeiro que não é fácil fazer produção desde porte, devidos aos entraves burocráticos das políticas culturais e das dificuldades que os agentes culturais da região norte sofrem devido ao pensamento reinante dos órgãos de cultura local e pelas próprias dificuldades sociais que os moradores da região sofrem.

As dificuldades nos ajudam a pensar e nos colocar em sintonia com as possibilidades que podemos criar. Foi assim neste encontro, dentro da mata, em contato com a terra, onde tivemos as reuniões, as apresentações de grupos de teatro de rua dentro da mata, onde o céu de noite virava um manto costurado com estrelas,  convivendo, trocando experiência e participando dos rituais celebrados pelos indígenas da Tribo Hunikuin, do Rio Envira. Ali, no meu entender, começa a ficar evidente como conjugar diálogos, celebração e apresentação nos encontros, de entender mais ainda quem nós somos e como nós somos, pensamentos e questionamentos que já sondavam o Encontro em Brasília. Por isso ressalto a importância do encontro do Acre, como foi e aonde foi realizado. Não posso deixar de parabenizar o Grupo Vivarte pelo esforço de realizar o evento, assim como não posso de deixar de homenagear o Núcleo Pavanelli que tinha chegado um mês antes e contribuiu solidariamente para a realização do encontro.

Atores públicos que publicamente se ajudam.  E ali, cercado pelas árvores, dentro do circulo construído para os nossos rituais e assembléias, firmamos que os próximos encontros da RBTR na seqüência seriam Londrina, e, proposta levantada e defendida por articuladores da Rede, Rio de Janeiro, na Zona Norte da cidade, Hotel da Loucura, Engenho de Dentro.

  
SEU ANTÔNIO
De poucas falas e marcado pelos anos de trabalho na região. Seu Antônio é proprietário de uma pequena casinha, dentro da Área Viva, construída com seu suor e onde durante mais e trinta anos viveu com sua esposa que “hoje tá juntinho de deus Nosso senhor”.  Seu Antônio começou na labuta cedo, com oito anos já ajudava a família trabalhando no seringal. Simples, humilde e solidário, pois não teve nenhuma dúvida em ceder a energia da sua casa para que pudesse ter eletricidade no circulo onde as reuniões, celebrações e apresentações aconteceriam. 

“Luz por aqui é ainda novidade, pois passei mais da metade dos meus anos andando no escuro das trilhas, com ajuda de lampião ou com a luz da lua” – me confidência.


Praticamente, quase todo dia teve um espetáculo no encontro do Acre, e Seu Antônio esteve presente em todas as apresentações, impecável, na sua melhor roupa de festa. Miúdo em tamanho, chegava no seu passinho calmo, sentava nas cadeiras de troncos e junto com seus vizinhos que pareciam brotar de dentro da floresta, apreciava cada momento das peças.

No ultimo dia de apresentação, sentado ao meu lado, observando os atores trabalharem com o mesmo olhar calmo e curioso do primeiro trabalho apresentado, escuto sua voz serena emitir a seguinte frase: “Como é bunito o teatro...”

Opinião de um cidadão, cidadão publico, cidadão da floresta, cidadão do mundo...
Haux Haux



Herculano Dias


domingo, 21 de setembro de 2014

MÉMORIA PRESENTE I



Foram setes dias de diálogos, celebrações, vivências e trocas. Dois temas que se fundem, os ambos tinham o mesmo efeito, preservar o cidadão das doenças sociais com a prática publica das manifestações artísticas, pois saúde é prevenção social, coletiva e não o produto final após a digestão de líquidos e pílulas. Arte Pública e Saúde Pública. Sete dias de setembro onde a Universidade Popular de Arte e Ciência e a Rede Brasileira de teatro de Rua tiveram contato para falar sobre os temas propostos. Diferentes em seus métodos mais iguais em um fundamento: a prática da arte em prol de uma população e uma cidade com saúde, não só física, mas também equilibrada no sentimento coletivo público e no bem estar social.

BRASILIA
Para entender o presente é preciso resgatar a memória passada e avançar no futuro possível. Aqui me contradigo quando falei que o encontro no Rio foi proposto no Ocupa Nise 2013.
Acho que nasce antes, quando em Brasília, no XII Encontro da RBTR, quando nas rodas começamos a falar sobre Arte Pública, que conceito era esse que tinha nascido no movimento do Rio de Janeiro, quando os grupos de teatro e circo de rua tendo problemas para se apresentar nos espaços abertos por conta do Choque de Ordem instaurado na cidade por decisão da Secretária Municipal de Ordem Pública e quando através dos nossos encontros verificamos que não somente nós, mais os artistas que se apresentam nos espaços públicos estavam sendo proibidos de trabalhar, com seus materiais apreendidos pela Guarda Municipal. Verificamos que a rua tinha uma gama de cidadãos que optaram por exercer seu oficio nas praças e esquinas, vivendo do seu chapéu com colaboração voluntária do seu público. O Movimento no Rio cresceu e em pouco tempo conseguimos aprovar uma lei que protegia o artista de rua e que virou modelo para outros municípios brasileiros conseguirem instituir as leis nas suas cidades e passamos a nos encontrar semanalmente, na Casa do Tá Na Rua, sempre as segundas feiras – encontros esses que completaram três anos - como um fórum, o Fórum de Arte Pública, onde os artistas de rua, cada qual com a sua arte, se encontravam para entender e dialogar sobre o conceito Arte Pública e para falar de Políticas Públicas para as Artes Públicas.


HOTEL DA LOUCURA OCUPA NISE 2012
Assim, avançando para 2012, na segunda Edição do Ocupa Nise, onde acontecia o 3° Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, o conceito arte Pública também foi mencionado. Neste encontro, articuladores da RBTR estavam presentes não ultimo dia do evento, reunidos em uma roda, trocamos informações do ultimo encontro realizado pela RBTR em Brasília e dos últimos encontros da UPAC e do Ocupa Nise. Neste momento, os articuladores da Rede sugeriram propor no Acre, onde aconteceria o XIII Encontro da RBTR, que o Rio de Janeiro sedia-se um dos próximos encontros justamente ali, no Engenho de Dentro, no Hotel da Loucura sediado no Instituto Nise da Silveira. A idéia foi acolhida com alegria e canção, afinal, estávamos falando da necessidade da saúde para o ser humano, mas não através de remédios e poções, mas de bem estar psíquico e físico. De que o cidadão precisa de saúde pública para poder se proteger das doenças da sociedade e que a arte era o potencial harmônico para corpo, mente e alma. Assim, no Acre, a proposta Rio seria apresentada.


Herculano Dias

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Chico de Assis

No próximo dia 15 de setembro, o dramaturgo e diretor Chico de Assis terá lançada grande parte de sua obra dramatúrgica em livros editados pela Funarte, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo. Portanto é um bom momento para se escrever um pouco sobre esse homem que participou e participa ativamente da vida cultural e política desse país há 60 anos. Apesar de ter trabalhado com destaque em diversas atividades (rádio, TV e cinema) acredito que a melhor definição para Chico de Assis é que ele é um homem de teatro (um termo que há muito não ouço, mas que cabe resgatar para falar dele). Sob a ribalta, exerceu as funções de ator, compositor, diretor e dramaturgo com brilhantismo. É um dos mais destacados de um a geração brilhante e continua a ser hoje um autor produtivo, além de um grande mestre de dramaturgia. 
Nascido Francisco de Assis Pereira, começou sua carreira como ator de rádio em 1953 (aos 19 anos) e depois de dois anos foi para TV, com a intenção de conhecer esse novo meio de comunicação, tornando-se cameraman. Logo passou a trabalhar como ator e assistente de direção; na Tupi teve sua primeira peça montada, uma adaptação de Machado de Assis: “Os Óculos de Pedro Antão”. Na mesma Tupi, escreve seu primeiro texto original: “Na Beira da Várzea”.
Em 1958 entrou para o Teatro de Arena, atuando em A Mulher do Outro, de Sydney Howard, com direção de Augusto Boal, e Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por José Renato, em 1958. Em 1959, atua em Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho e Gente como a Gente, de Roberto Freire. Neste período é um dos fundadores do 1º Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena, que leva à cena textos escritos pelos membros da companhia, num expressivo movimento de nacionalizar o palco, difundir os textos e politizar a discussão da realidade nacional. Surge no seminário uma grande geração de autores que, nos anos seguintes, tiveram destaque em teatro e na teledramaturgia.
Em 1960 Chico e Vianinha, que eram militantes marxistas, resolveram aprofundar o debate com um texto que trouxesse o debate ideológico para a cena de forma mais direta. Assim, durante a temporada das peças do Teatro de Arena no Rio de Janeiro, eles montam A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar (texto de Vianinha e direção de Chico de Assis, com música de Carlos Lyra). A peça, de forte caráter didático, foi encenada no Teatro da Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio. Os debates ocorridos entre os artistas e o público deu origem ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo de militância política e cultural que teve grande importância nacional nos anos que antecederam a ditadura.
Em 1961 surge “O Testamento do Cangaceiro”, de sua autoria, dirigida por Boal, tendo Flávio Império como cenógrafo e figurinista. Em 1963 escreve A Aventura de Ripió Lacraia, que é dirigida por José Renato para o Teatro Nacional de Comédia (TNC); e Farsa com Cangaceiro, Truco e Padre, que é montado pelo Núcleo 2 do Arena, em 1967, fechando uma trilogia sobre a literatura popular de cordel do Brasil. Nesta trilogia, Chico une a tradição popular brasileira com o teatro épico de Brecht, um trabalho de grande relevância que ainda precisa debatido com mais profundidade.
Volta a trabalhar como ator em Tom Paine, de Paul Foster, dirigido por Ademar Guerra, em 1970. No mesmo ano, sua peça O Auto do Burrinho de Belém é interditada pela censura. Escreve Missa Leiga, peça polêmica dirigida por Ademar Guerra, com produção de Ruth Escobar, que é proibida de ser apresentada na Igreja da Consolação. Acaba por apresentar-se numa fábrica abandonada, em 1972, fazendo enorme sucesso e viajando para Portugal e África.
Durante os anos 1970, escreveu várias novelas para Globo e para Tupi, fazendo parte do grupo de militantes de esquerda que para sobreviver à ditadura foram trabalhar na TV (juntamente com Dias Gomes, Vianna Filho e outros). Para os que cresceram nos anos 1970, é curioso saber que Chico de Assis era um dos responsáveis pela edição brasileira de Vila Sésamo, primeiro na TV Cultura depois na Globo. Em 1983, Antônio Fagundes, que havia participado da primeira montagem de Farsa com Cangaceiro, Truco e Padre, remonta o texto – mudando o título para Xandú Quaresma – com grande sucesso, ficando muitos meses em cartaz com casa cheia.
É convidado, em 1989, pelo diretor e autor Fauzi Arap, para montar um curso de dramaturgia no Teatro de Arena, no Projeto Tarô dos Ventos. Terminado o projeto, Chico de Assis conserva o seminário, então denominado Projeto Semda – Seminário de Dramaturgia do Arena. Desde então, com seu método formou inúmeros novos dramaturgos.
Este histórico é parcial; Chico tem dezenas de peças de teatro, escritas em diversos estilos e formas. Sua atuação é ampla.
Conheci Chico de Assis em 2000, quando ele assistiu uma montagem nossa (da Cia. Ocamorana). A partir de então nos aproximamos dele e logo decidimos montar uma peça de sua autoria. Ficamos muito felizes quando ele aceitou a direção. Montamos uma peça sua escrita em 1966, que havia sido censurada pouco antes de sua estreia e era, portanto, inédita até aquele momento: As Aventuras e Desventuras de Maria Malazartes durante a construção da Grande Pirâmide. Por meio de uma fabula épica (a construção da pirâmide), Chico descreve como o capital cria próteses para se desenvolver. A peça serve ainda como uma alegoria sobre a construção de Brasília, permanecendo atual ainda hoje, 48 anos após ter sido escrito. Fizemos duas temporadas da peça no Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Tive o prazer de fazer assistência de direção para ele, além de ter participado por anos do Semda.
Chico escreveu para a companhia um texto infantil que ainda é inédito, mas que está nos nosso planos: Quebra-vento e Dorminhoco ou o Triunfo da Amizade.

Chico de Assis tem uma vida dedicada ao desenvolvimento da cultura brasileira. Seu companheiro de oficio Brecht dizia que “os homens que lutam por toda vida são imprescindíveis” – tenho certeza que ele admiraria o trabalho de Chico de Assis.

Márcio Boaro - Diretor do Ocamorana
Publicado originalmente no Brasil de Fato

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

ALMANAQUE OFF SINA

                    


Antes de começar a escrever fiquei pensando como definir o almanaque comemorativo de 25 anos do Grupo Off Sina. Me dei conta que não dá para definir em uma palavra, mas em duas que se confundem e se interagem no mesmo significado e importância para a história dos artistas de rua e do Teatro e Circo no seu todo: Ancestralidade e Linguagem.

Partindo da ultima, o que lemos é a síntese do começo de uma pesquisa e uma necessidade: necessidade de praticar o que mais se ama, nesse caso, a arte, com todos os seus percalços e seus questionamentos. Questões levam a curiosidade e a curiosidade faz brotar a necessidade de se aprofundar na arte que exercemos. Quanto mais perguntas e mais inquietações, nasce á linguagem. Assim é o retrato deste almanaque que complementa o primeiro, onde o inicio desta linguagem nasceu da inquietação e da procura de novas possibilidades. Assim o estudo do seu ofício  proporcionou ao Off Sina encontrar uma linguagem própria, baseando sua caminhada na descoberta do circo teatro e se esgueirando pela ancestralidade do palhaço. O cuidado com essa linguagem é narrada com carinho nas páginas que descrevem o nascimento de um espetáculo, no caso o Tremelicando, desde a concepção dos artefatos musicais construídos e do entendimento dessa arte através do contato com o casal de palhaços Treme Treme e Currupita. É busca, é proposta e é resgate da memória que não está escrita, mas que é presente. Ai entra a ancestralidade no modo representar, “tão antigo e tão contemporâneo – Amir Haddad”, pois é a perpetuação da memória dos antigos bufões, mambembes e circenses, que nasceram antes de nós e que serão depois de nós. O palhaço de rua, o circense e os atores de rua já existiam antes mesmo da Grécia. Nascemos com a necessidade de se manifestar  e daí em diante não mais paramos.   Somos antes do Egito ou das antigas civilizações e continuamos após elas. Da idade do ouro até os dias de hoje, saltando junto com a natureza. E é isso que encontramos neste almanaque, um passeio entre passado e presente, referências da herança que recebemos pelos que antes trilharam estes caminhos, gastando suas solas de sapatos.

Poderia ser uma revista, poderia ser um livreto, mas a escolha de ser almanaque é mais do que acertada. Almanaque na sua origem árabe representa a memória registrada em matérias, informações, fotos, humor e brincadeiras. O almanaque é não é uma invenção moderna, mas é de tradição antiga milenar e ancestral. O resultado não poderia ser outro e cumpre sua função. De maneira leve, simples e direta é fermento para contribuir com a nossa memória pública ancestral. Parabéns OFF Sina. Mais 25 anos de puro prazer.


Herculano Dias. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Relato sobre XV Encontro RBTR e Ocupanise

LOUCOS DE AMOR

Loucos de amor.
Não nos entregaremos e vamos juntos até o fim, Nos somos a resistência e não nos entregaremos. Somos as forças desarmadas da população e vamos Quebrar os velhos moldes, abandonar os temas irrisórios dar larga ao pensamento livre. Nós os artistas deste tempo, falaremos do amor, da liberdade e da arte pública, das durezas amargas da nossa época e do nosso meio. Somos um grande gueto sempre aberto e livre. Nossa liberdade desafia a ordem do homem, nosso gueto se expande ocupando as ruas e, as praças dialogando com as pessoas e fazendo delas protagonistas, estamos nos alastrando como a peste que somos e iniciamos a retomada porque estas cidades são nossas o Brasil é nosso.



Adelante junto somos mais fortes. Somos insanos, um bando cheio dos recheios da mais doce loucura. A loucura do afeto, sem perversidade. Nossa loucura causa felicidade. Portanto é a contra mão do que nossa sociedade quer. Sociedade entupida de repressão e opressão. Sociedade que clama por saúde pública com uma polícia doente dentro do colapso político onde armas disparam sem querer e dinheiros somem sem querer, não temos mais opção, nos entregamos ou vamos ate o fim juntos. Só a saúde pública salva, só o cuidado com outro salva. Estamos determinados nos somos as forças desarmadas da população queremos romper e exterminar a perversidade desta sociedade doente. Nós temos que tomar ciência que todos somos doentes frutos da podridão desta ordem. Vamos rasgar os ternos do poder a dureza e o cinza das cidades, a conversa e a troca estão abertas entre nesta roda sem culpa sem culpa ocupa nise.  Venha para a cura, vista os trapos das fantasias, vamos colorir e fazer rebolar as curvas das cidades, pois amar em tempos de ódio é um ato revolucionário. Nós somos as forças desarmadas do povo. Estamos na frente no fronte preparados para a tomada. Muita Gratidão pelo carinho e afeto, pela troca e principalmente pelo entrelace e fortalecimento da brodagem, saio deste encontro mais determinado, seguro que estamos no caminho certo e que o que está posto neste mundo não nos serve.

  Fico feliz de ter a grata sorte de poder compartilhar com várias gerações de mestres de todos os lugares e de nenhum lugar, com as mais diversas práticas, das mais variadas cores, de riquezas ímpares. Mostrando-nos com generosidade em apontar o caminho. Nesta sociedade decadente e doente que clama por educação, saúde e arte pública. Onde se perguntam com quantos policiais, porretes e políticos corruptos se faz um cidadão estamos de pronto respondendo e mostrando com quantos espetáculos, cortejos e com quantas doses de arte pública e loucura se faz um cidadão. Se preparem, a retomada começou! As forças desarmadas do povo tomaram a Cinelândia e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A arte pública salva, a educação pública salva e a saúde pública salva. Nesta sociedade insana, onde padecemos das mais variadas tragédias, este encontro da RBTR, da UPAC e OCUPANISE veio como um rio que passou em minha vida me enchendo de questionamentos metendo o dedo na ferida e mostrando o que somos!




Renderson Valentim conspirados com todos aliados e pensamentos de grandes mestres XV RBTR, IV UPAC e III OCUPANISE Engenho de dentro para fora Rio de Janeiro. Salvemos nossas loucuras...