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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Jussara Trindade escreve sobre o Matraca

SÍSIFO IN WORK

Alunos de Interpretação Teatral I - Curso de Licenciatura em Teatro da UFMA

A performance Sísifo in work foi realizada no primeiro dia do II Encontro Matraca de Teatro de Rua, em São Luís do Maranhão. No final da manhã, por volta das 11h sob o sol escaldante da Rua Grande, movimentado centro comercial da cidade, muita gente suada e apressada lutava por uma passagem nas calçadas estreitas; talvez estivessem em busca de presentes, já que nos aproximávamos do Dia da Criança, 12 de outubro. Eu procurava ansiosa por algum sinal de "atividade teatral", pois não via nada além de gente e mais gente, até onde a minha vista alcançava. E a rua parecia não ter fim!

Então, avistei um grupo de atores que vinha pelo meio da rua, diretamente em minha direção. Muitos transeuntes acompanhavam o lento cortejo. À frente, alguns atores caracterizados como trabalhadores de diferentes profissões conduziam com muito cuidado um enorme pneu de trator; dentro dele, uma atriz equilibrava-se com dificuldade, enrolando o corpo na mesma forma circular. Logo atrás, jovens atores e atrizes dispostos em três fileiras paralelas vinham recitando em uníssono o poema Sísifo, de Heiner Müller. Estavam, também, caracterizados: operário, professora, médico, escriturário, vendedor, simples cidadão ou cidadã. Alguns vinham descalços, ou com partes do corpo à mostra. Nada, ali, evocava sensualidade. Era uma exibição de simples corpos-máquina. Revezavam entre si as posições assumidas na coreografia de movimentos repetitivos que sugeria o lento movimentar de uma engrenagem, talvez um mecanismo a empurrar penosamente a grande pedra-roda que o belo texto de Muller descreve com tanta poesia:

"Fazer rolar a pedra, sempre a mesma,

para cima do monte, sempre o mesmo" (...)

Impossível ficar indiferente àquela imagem poderosa e magnética, que atraía para si a atenção de todos. A visível dificuldade de equilibrar o pneu e a atriz dentro dele, a longa e difícil caminhada debaixo do sol inclemente, o calor, o suor, a sede e o cansaço, tudo embalado pelo texto adágio, repetido de novo e de novo desde o início, num círculo de eterno retorno ad infinitum, a performance conseguia provocar, no espectador, as sensações físicas contidas nas palavras do texto:

"o peso da pedra aumentando,

a força do trabalho diminuindo com a subida..."

E tornava terrivelmente verdadeiro o presumível desfecho da empreitada:

"Esperança e decepção. Arredondamento da pedra.

Desgaste recíproco de homem, pedra, monte. Até o clímax sonhado."

Alguém perguntou, do meu lado: "É greve?" E alguém respondeu: "Parece que é só teatro..." Uma senhora indignada exclamou alto, da calçada: "É isso mesmo! A gente trabalha, trabalha, e a força vai só diminuindo, até a gente envelhecer". Muitos comentavam, observavam, acompanhavam, tão compenetrados quanto os atores. O público demonstrava grande respeito pela performance, talvez por identificação com o tema ou mesmo pela total concentração e seriedade dos atores. Percebia-se uma alteração no ato de caminhar dos transeuntes, transformados momentaneamente em espectadores-atuadores. Vários entravam em sintonia rítmica com o deslocamento do grupo, e passavam a andar lentamente a seu lado. O público aceitava a interferência, admitindo uma ressignificação temporária daquele lugar e modificando, propositalmente, o seu frenético movimento cotidiano.

Apenas alguém não teve a mínima sensibilidade para com o esforço sobre-humano de Sísifo: como um sintoma da grave doença urbana que tenta, de todas as maneiras, subtrair o espaço público do cidadão, foi justamente o motorista de um carro-forte, desses que levam "valores" pela cidade, quem mais se impacientou com a lentidão do cortejo e ficou ameaçadoramente atrás da última fileira, acionando a sirene bem perto dos atores e exigindo que a performance lhe "abrisse passagem". Ironicamente, o caminhão exibia o letreiro "CEFOR – segurança e informação" na couraça blindada. O diretor Luiz Pazzini, que vinha com um megafone ao lado do grupo, trajando macacão e capacete de operário, ainda resistiu por algum tempo; mas a situação foi ficando insustentável e, finalmente, ele conduziu a performance para seu desfecho final, com os atores e atrizes recitando em uníssono o poema pela última vez, em círculo. Embora um tanto "doutrinário", foi um final belo e emocionante.

São Luís, 08 de outubro de 2009

ESPETÁCULO CIRCULUZ BRINCANTE – Raquel Franco e Tapete Criações Cênicas

Era um espaço calçado, num canto da Praça Deodoro, em São Luís. Ao lado havia um Ponto de Táxi onde alguns homens conversavam, aguardando clientes sob as árvores. Ali, foi montada uma estrutura metálica muito alta de onde pendia um tecido vermelho, até então amarrado numa das "pernas" laterais. Em seguida, já como a palhaça Keke Kerubina, Raquel Franco andava de um lado para o outro conversando com o público, em sua maioria crianças sentadas em semicírculo, onde a generosa sombra das árvores amenizava um pouco o sol escaldante. Era bom ver aquela figura cheia de doçura andando de lá para cá com seu enorme vestido sobre uma malha de listras horizontais e imensos sapatos coloridos que lhe davam o caminhar desajeitado dos palhaços. Andar esquisito, com os joelhos subindo mais do que o normal a cada passo, como se andassem num terreno pegajoso ou alagado. Com esse andar já meio caindo, os palhaços estão sempre brincando com o equilíbrio – ou a falta dele. E assim vão, caminhando torto e desengonçado pela vida afora. Fazendo os seus sempre estranhos afazeres, em eterno desequilíbrio. Esse é um dos segredos do palhaço: ficamos esperando ele tropeçar para rirmos dele... e ele sabe que a gente sabe, e fica esperando o momento exato de uma distração nossa para só então tropeçar e fazer a gente rir! Todos sabemos que o palhaço vai errar, tropeçar, cambalear; mas ele sempre consegue pegar a gente de surpresa. Ele é o dono do jogo, mesmo que seja o jogo de errar tudo. A sua arte reside em brincar com a instabilidade, com o movimento perpétuo, com o desequilíbrio que leva à necessidade de se inventar um novo equilíbrio; em desafiar o mundo "normal" em que as coisas estão – ou deveriam estar - firmemente assentadas em seus devidos lugares.

Então Keke pendura uma rede – invenção da mais pura genialidade indígena-nordestina-brasileira - na grande estrutura, deita, deixa todo mundo com inveja daquele conforto. De repente, pega uma almofada e... voilá! A almofada vai para baixo do vestido e vira uma barriga enorme. Keke, a palhaça, está grávida! E vai parir ali mesmo, na praça, diante de todos! Segurando a barriga com uma mão e gesticulando com a outra, caminhando já quase em posição de parto, Keke vai puxando assunto com os espectadores, perguntando pelo pai da criança e dando muitos motivos para a meninada "zoar" de algum amigo, entrando com gosto na brincadeira tão séria de descobrir "quem é o pai da criança". Parodiando o ritual sagrado do parto, com o auxílio confuso do "pai" encontrado entre os presentes – um garoto do público - Keke dá à luz ali mesmo, na rede. Aparecem dois bebês "que já nascem artistas" e se deixam rodopiar pelo ar nas mais doidas estripulias, levados pelo cordão que "mamãe" manipula com maestria. São dois carretéis: um maior, que é o mais velho, e um menor, o caçula. Enquanto rodopiam pelo ar, Keke conversa com seus "rebentos", incentivando os pimpolhos em suas aventuras. A cada giro, uma expressão de afeto e orgulho. Nada de medo, só aceitação e encorajamento. Naqueles poucos minutos, a atriz consegue despertar no público a ternura que somente as crianças pequenas são capazes de ver nos objetos inanimados. Dotados agora de vida, os carretéis transformam-se em criancinhas esforçadas, em pleno aprendizado do ofício circense. A palhaça apresenta não apenas um número de destreza com esses "materiais de cena", como se esperaria desse tipo de apresentação. Há ali, também, uma dramaturgia, uma cena teatral, onde três membros da mesma família interagem criando expectativa na platéia, arriscam um movimento mais complexo, erram e tentam novamente, estimulam-se mutuamente, exibindo sua performance. Não é apenas Keke, mas toda a "Família Keke" em cena. A artista se multiplica, a magia do circo se espalha nos rostos sorridentes; crianças e adultos, somos agora todos crianças e desejamos Keke como nossa mãe – protetora, confiante, brincalhona, capaz de rir de nossos pequenos erros e de estimular-nos a tentar de novo, e de novo, de outro jeito.

Depois do Gran finale, em que um movimento mais arriscado do pequenino equilibrista arranca calorosos aplausos da assistência, Keke solicita a uma espectadora que seja sua colaboradora, no número seguinte. Agora, ela organiza o espaço de ação e inspeciona os equipamentos, porque irá realizar a perigosa façanha de subir pelo tecido. Novamente, a artista surpreende pela originalidade que confere à apresentação, fazendo dessa conhecida técnica circense uma performance teatral. Pede à moça que leia, diante de um microfone de pedestal, um roteiro que deverá ser cumprido rigorosamente, orientando a tarefa "de grande perigo e impacto". E assim vai, seguindo cada instrução, não sem antes confundir as pernas ou a posição dos braços; repete lentamente e em voz alta as palavras de sua partner simulando atenção, mas erra sempre em algum detalhe, levando os pequenos espectadores aos berros, na tentativa de alertarem a atrapalhada ginasta. A subida é penosa; e Keke a valoriza ainda mais com a lentidão e os "erros" que a fazem repetir tudo novamente; seu "pânico" aumenta a cada metro galgado. No final, a queda perfeita em giro, com o tecido desenrolando de seu corpo e... tcham tcham! Eis Keke de volta ao chão, sã e salva! Ela passa o chapéu (aliás, o carretel) e ninguém escapa: espectadores, taxistas, transeuntes e casais de namorados que assistiam, do outro lado da praça, à apresentação. Poucas vezes, num espetáculo de rua, o "chapéu" me pareceu tão simbólico; que pagamento estaria à altura de tanta ternura em cena?

Recentemente, mais e mais pesquisadores têm-se dedicado ao estudo da complexa arte do palhaço. Para além das técnicas circenses - inúmeras e imprescindíveis - esta figura milenar transcende com sua magia quaisquer distâncias espaciais e temporais, percorrendo sob incontáveis formas todas as culturas do globo, das mais antigas às contemporâneas. O que explicaria o fascínio que o palhaço exerce sobre nós? Na busca de uma possível resposta, recorro a Carl Gustav Jung, psicanalista e discípulo dissidente de Freud que estudou profundamente as imagens criadas pela psique humana, registradas nas produções artísticas e religiosas de diferentes culturas, em também diferentes lugares e épocas. Com base nessas investigações, Jung formulou a sua teoria do Inconsciente Coletivo, a partir da qual buscou alcançar a lógica interna de fenômenos humanos e sociais até então considerados incompreensíveis: os sonhos, os mitos, a religião, a guerra. Jung e seus seguidores também pesquisaram ciências simbólicas como a Alquimia, o I Ching e as antigas cartas do Tarot. Este último é particularmente interessante para nós, pois permite-nos compreender a figura do palhaço como uma personificação do Arcano (ou carta) Zero - o Louco. No baralho moderno ele sobrevive como o Coringa, carta sem propósito específico, mas que paradoxalmente serve a todas as funções, tal como o número que o rege. Assim como o Louco e o palhaço, o Coringa liga dois mundos: o cotidiano e o da imaginação. Ou, ainda, estabelece uma passagem entre o oceano caótico do Inconsciente Coletivo e a terra firme da consciência. Por isso, sua marca é a ambivalência entre sabedoria e desatino. É o Louco interior quem nos empurra para a vida, pois a sua energia varre tudo o que estiver à frente, como um vento forte carrega as folhas secas pelo ar. Ele gosta do risco e não da segurança; ama a liberdade, deseja viver a vida com espontaneidade; o mundo é a sua casa. O Louco é andarilho porque sabe que o conhecimento está no mundo. Mas, ainda que eternamente errante, confere-se ao Louco um papel especial na ordem social, porque seu impulso é o que move a humanidade.

Na Idade Média, era tarefa do Bobo da corte – uma outra das inúmeras faces do Louco - lembrar ao rei a sua insanidade, a finitude da carne, o pecado da arrogância e do orgulho. E o palhaço de hoje cumpre ainda as mesmas funções, tanto nas "cortes palacianas" atuais, como nas ruas do mundo. Como Saltimbanco, Arlequim, Carlitos, Palhaço da Folia de Reis ou Cazumbá, o arquétipo do Louco continua movendo-se fora do espaço e do tempo, com o espírito habitado pela profecia e pela poesia, inspirando em segredo os artistas de todos os tempos. Acho que vem daí o fascínio do palhaço; talvez precisemos dele, mais do que ele de nós! Como as sábias palavras de Márcio Libar, encontradas numa abertura ao acaso, do seu livro A nobre arte do palhaço: "meu palhaço me cura todos os dias..." Por isso, rogo a todos os Cuti-Cuti, Picolinos, Carequinhas, Grandes e Pequenos Cafés, Marias, Margaritas, Palitas, Kekés Kerubinas e tantos outros palhaços e palhaças, que continuem suas andanças pelo mundo curando as feridas do nosso triste cotidiano, com suas graças demasiadamente humanas e sua Graça imensamente divina.

São Luís, 10 de outubro de 2009

2 comentários:

Andréa Flores disse...

Olá!
Jussara me indicou seu blog, como articulador para minha pesquisa de pós graduação e eu simplesmente amei. Interessante demais. Em especial este artigo, sobre o palhaço, minha área de interesse, tem um tom bastante poético sobre nossa arte. Parabéns!
Serei público cativo aqui, a partir de agora.
Se quiser, visite: www.bilazinhadamamae.arteblog.com.br

Um abraço!

Adailton Alves disse...

Obrigado pela visita.
O seu trabalho é focado no espaço aberto?