Adailtom Alves Teixeira[1]
Nascemos entre humanos, mas
não nascemos propriamente humanizados. A condição humana não é um dado
biológico acabado; trata-se antes de um processo histórico, cultural e ético.
Entre os animais, somos um dos mais frágeis ao nascer: dependemos do cuidado prolongado,
da linguagem, da educação e da convivência social para adquirir as ferramentas
simbólicas que nos tornam, de fato, humanos.
Em Regras para o
parque humano (2018), Peter Sloterdijk estabelece um interessante
diálogo com Martin Heidegger, especialmente a partir da Carta sobre o
Humanismo (1947). Heidegger, cuja trajetória é marcada por sua adesão
ao nazismo, questionava o esgotamento do humanismo clássico europeu. Sloterdijk
retoma esse debate para perguntar quem, afinal, educa o ser humano e quais
mecanismos culturais regulam o processo civilizatório. O texto, fruto de uma
conferência, sugere que o humanismo sempre funcionou como uma tecnologia de
domesticação: a leitura, a escola e a cultura escrita atuariam historicamente
como dispositivos de contenção da barbárie.
Contudo, se antes os processos
de humanização estavam ligados ao livro e à formação cultural, hoje eles
parecem deslocar-se para os campos da biotecnologia, da engenharia genética e
das plataformas digitais. Sloterdijk alerta para a necessidade de regras éticas
diante do poder crescente dos conglomerados científicos e tecnológicos capazes
de intervir diretamente na constituição biológica da vida humana.
Em certa medida, preocupação
semelhante aparece em O futuro da natureza humana (2004), de
Jürgen Habermas. Habermas questiona os riscos de uma eugenia liberal orientada
pelo mercado, na qual escolhas genéticas poderiam produzir desigualdades
irreversíveis entre indivíduos previamente “programados”. Para além de
compartilharem origem intelectual europeia, ambos os pensadores enfrentam uma
questão urgente: quem decidirá os limites da intervenção tecnológica sobre os
seres humanos?
O debate torna-se ainda mais
relevante em um contexto global marcado pela ascensão de movimentos
autoritários e pelo enorme poder político e econômico das grandes empresas de
tecnologia. A concentração de dados, riqueza e capacidade técnica levanta uma questão
preocupante: poderíamos caminhar para a produção de humanos diferenciados, seja
biológica, cognitiva ou socialmente? Se a espécie persistir, o que significará
ser humano daqui a um século?
Essas inquietações,
entretanto, não são novas. A própria modernidade ocidental construiu
hierarquias de humanidade. Durante o período colonial, a Igreja Católica
debateu se os povos originários das Américas possuíam alma, tal discussão foi
decisiva para legitimar processos de conquista e catequese. Sabemos hoje que
tal “salvação” implicou violência cultural, epistemicídio e extermínio. Em
relação aos africanos escravizados, a lógica foi ainda mais brutal: a
necessidade econômica da escravidão dispensava qualquer debate moral
consistente sobre sua humanidade.
Assim, a pergunta permanece
aberta: o que significa ser humanizado? Quem define os critérios? Sloterdijk
afirma que, até 1945, predominou um humanismo burguês fundamentado na cultura
livresca, posteriormente colocado em crise pelas guerras mundiais e pelos meios
de comunicação de massa. Ainda segundo o autor, “O tema latente do humanismo é,
portanto, o desembrutecimento do ser humano” (Sloterdijk, 2018, p. 17).
Mas caberia perguntar: apesar
dos avanços científicos e da riqueza global acumulada, temos realmente avançado
nesse processo de desembrutecimento? Em um mundo atravessado pela precarização
do trabalho, pela superexploração econômica e por aquilo que Achille Mbembe
denomina de necropolítica (a gestão política da morte),
torna-se difícil sustentar que vivemos uma ampliação efetiva do “parque
humano”.
Habermas recorda que a
comunidade moral depende do reconhecimento mútuo entre sujeitos capazes de
atribuir direitos e deveres uns aos outros: “Na linguagem dos direitos e
deveres, a comunidade de seres morais [...] refere-se a todas as relações que
necessitam de um regulamento normativo” (Habermas, 2004, p. 46).
Entretanto, a modernidade que
produziu "direitos universais" também consolidou um sistema econômico
que continuamente exclui parcelas imensas da humanidade. Para parafrasear
George Orwell, alguns humanos parecem tornar-se e dia a dia seguem mais humanos
que outros.
Essa crítica encontra eco
também fora do pensamento europeu. O líder yanomami Davi Kopenawa, denuncia a
lógica predatória do que chama de povo da mercadoria, os napë (os
brancos/inimigos): “Os brancos se dizem inteligentes. Não somos menos. Nossos
pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e
muitas” (Kopenawa; Albert, 2020).
Tal perspectiva desloca radicalmente o debate: talvez o problema não seja ampliar o parque humano, mas redefinir suas regras a partir de outras cosmologias e formas de existência. Frear o avanço ilimitado do povo da mercadoria e de seu sistema baseado na acumulação infinita e na exploração da vida, pode ser não apenas uma escolha ética, mas condição de sobrevivência coletiva. Humanizar-se, afinal, talvez signifique reconhecer que ninguém deveria ficar do lado de fora do parque.
Bibliografia
HABERMAS,
Jürgen. O futuro da natureza humana. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
HEIDEGGER,
Martin. Carta sobre o humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.
KOPENAWA,
Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras,
2020.
MBEMBE,
Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
ORWELL,
George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SLOTERDIJK,
Peter. Regras para o parque humano. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.
[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (Unir); mestre e doutor em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História pela Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul).
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