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domingo, 15 de março de 2026

Sobre a ética ou quando os “virtuosos” não pensam

Adailtom Alves Teixeira*

A reflexão ética costuma nascer de uma pergunta simples, mas de resposta nada fácil: o que significa agir bem? A filosofia ocidental colocou essa questão no centro de seu pensamento desde a Grécia antiga. Em muitos casos, como aponta Danilo Marcondes em Textos Básicos de Ética (2008), a ética foi compreendida como uma virtude, algo que orienta o comportamento humano para o bem. No entanto, a própria história do pensamento mostra que a virtude, quando separada da reflexão crítica, pode transformar-se em obediência cega; e, nesse ponto, a literatura frequentemente revela aquilo que a teoria filosófica às vezes deixa escapar.

No diálogo Mênon, de Platão, encontramos uma das perguntas fundamentais da filosofia moral: a virtude (areté) pode ser ensinada? Para o pensador, um adepto do mundo das Ideias, ela seria inata, trazemos conosco, mas pode estar adormecida, caberia aos filósofos despertá-la. A conversa entre Sócrates e Mênon parte da suposição de que a virtude é algo desejável e necessário para a vida justa, mas logo esbarra em uma dificuldade: ninguém parece saber exatamente o que ela é. Sócrates conduz o diálogo demonstrando que muitas pessoas acreditam possuir virtude, mas não conseguem defini-la com clareza. Para Platão, a virtude está ligada ao conhecimento do bem; agir bem dependeria, portanto, de um certo tipo de saber. No entanto, como lembra Marcondes (2008) ao discutir esse diálogo, Platão termina por sugerir que a virtude muitas vezes aparece mais como opinião correta do que como conhecimento plenamente fundamentado.

Esse ponto é importante porque revela uma fragilidade: se a virtude pode existir como simples opinião correta, isto é, como algo que seguimos sem compreender inteiramente, então ela pode também degenerar em comportamento automático, sustentado apenas por costumes, tradições ou ordens de autoridade. A filosofia de Platão reconhece o problema, mas não o resolve completamente.

É justamente aí que a literatura entra como campo significativo para expor as contradições da moral vivida. No romance Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro (s.d.) – uma história de areté como o autor expõe na abertura –, acompanhamos a trajetória de um militar do interior nordestino encarregado de transportar um preso político. Getúlio cumpre sua missão com absoluta convicção: ele acredita estar fazendo o que é certo porque está obedecendo à ordem recebida. Sua ética é uma ética da fidelidade e da disciplina. Ele se vê como um homem honrado, leal, alguém que não trai a palavra dada.

Entretanto, à medida que a narrativa avança, percebemos o paradoxo: a virtude de Getúlio é também sua prisão moral. Ele cumpre ordens mesmo quando o contexto político muda, mesmo quando a própria ordem perde sentido. Sua fidelidade deixa de ser virtude e torna-se obstinação. Falta-lhe aquilo que Sócrates exigia de seus interlocutores: a reflexão crítica sobre o que se está fazendo.

O romance evidencia, assim, um tipo de alienação ética. Getúlio não age por maldade consciente; ele acredita estar agindo corretamente. O problema é que sua noção de correção está fundada apenas na obediência e na identidade que construiu para si: a de um soldado que cumpre ordens. Nesse sentido, sua virtude é frágil porque não passa pelo exame racional da própria ação.

Esse ponto dialoga com o problema levantado em Mênon. Se a virtude não é plenamente compreendida, mas apenas seguida como hábito ou opinião, ela pode facilmente transformar-se em instrumento de violência ou injustiça. E não é o que faz Getúlio? Além de cumprir cegamente as ordens, age brutalmente na condução de seu preso. Nesse caso, a ética deixa de ser um exercício da razão e passa a ser apenas uma máscara moral para práticas que nunca foram realmente interrogadas.

Tal problema não pertence apenas à filosofia antiga ou à literatura brasileira. Ele atravessa o nosso tempo histórico. Vivemos um momento em que muitas pessoas, inclusive muitas lideranças políticas e também lideranças religiosas, reivindicam para si o lugar da virtude: dizem agir em nome da moral, da ordem, da tradição ou da justiça. Contudo, frequentemente esquecem um princípio ético elementar, presente em diversas tradições: não fazer ao outro aquilo que não queremos que façam a nós mesmos.

Quando esse princípio desaparece, a virtude torna-se apenas retórica. Surge então uma espécie de moralidade agressiva, na qual indivíduos se percebem como justos enquanto legitimam a exclusão, a violência ou a indiferença diante do sofrimento alheio. Nesse cenário, multiplicam-se os “virtuosos” que, tal como Getúlio, acreditam cumprir uma missão moral, mas raramente parece se perguntar sobre o impacto real de seus atos.

Assim, tanto a perspectiva platônica quanto a figura do Sargento Getúlio revelam limites éticos importantes. Platão percebe que a virtude precisa estar ligada ao conhecimento, mas admite que muitas vezes ela se manifesta apenas como opinião correta, sem fundamento sólido. Já Getúlio representa o extremo oposto: a virtude reduzida à obediência absoluta, sem espaço para questionamento.

Entre esses dois pólos surge a necessidade de uma ética que seja simultaneamente virtude e reflexão que conduza a uma prática realmente ética. Afinal, a ética não pode ser apenas um conjunto de valores proclamados, nem uma fidelidade cega a normas ou autoridades. Ela precisa envolver o exercício constante de perguntar: por que estou fazendo isso? Quem é afetado por essa ação? Ela preserva ou destrói a dignidade do outro?

Talvez a reflexão que a filosofia e a literatura trazidas aqui nesse pequeno texto nos oferecem, quando lidas em conjunto, seja justamente essa: a virtude sem reflexão pode tornar-se perigosa, violenta, mas a reflexão sem compromisso moral também pode tornar-se estéril. Afinal a ética exige as duas coisas: o desejo de agir bem e a coragem de examinar continuamente aquilo que chamamos de bem. Como afirma Marcondes: “Um ato pode ser considerado ético sempre que seu autor for capaz de explicitar seus motivos e justificá-los, assumindo integralmente sua atitude” (2008, p.12)[1]. Porém tal fechamento pode levar a uma dúbia interpretação de que os fins justificam os meios, mas é disso que se trata[2]. Além disso, outro ponto a se atentar é quanto ao sujeito, se este for enquadrado como “universal” como se tem feito desde o início da modernidade outros equívocos podem vir a se somar, como o apagamento de outras cosmovisões[3]. Desse ponto de vista, penso ser importante trazer um outro pensador pro diálogo, Adolfo Sánchez Vázquez (1980), que nos alerta para não confurdirmos ética e moral. A ética, por se deparar “com uma experiência histórico-social no terreno da moral”, busca “determinar a essência da moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas do ato moral” (1980, p. 12). Por isso autor define a ética como ciência do comportamento moral de homens e mulheres em sociedade. Logo, trata-se de uma ciência específica, que não deve ser confundida com seu objeto. Se á ética é científica, a moral não; pode existir um conhecimento científico sobre a moral. “A ética não e a moral e, portanto, não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições; sua missão é explicar a moral efetiva e, neste sentido, pode influir na moral” (Vázquez, 1980, p. 13-4).

Referências

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, s.d. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea, 27)

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 4ª ed. Trad,: João Dell`Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

 

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*Professor Adjunto da Universidade Federal de Rondônia (UNIR); doutor e mestre em Artes (área de concentração Artes Cênicas) pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP); graduado em História; dramaturgo, diretor, ator, integrante do Teatro Ruante de Porto Velho/RO.

 



[1] O texto se encerrava aqui, porém recebi duas observações significativas importantes, de Marcelino Pereira e Sérgio Luiz de Souza, a quem muito agradeço.

[2] Nas palavras de Marcelino: “Explico meu ponto de vista: ao encerrar o argumento com a definição de Marcondes — de que o ato ético é aquele cujos motivos o agente consegue explicitar e justificar —, o texto parece abrir, involuntariamente, espaço para a lógica dos fins que justificam os meios. Isso porque a definição é procedimental: ela avalia como o agente pensa, mas não estabelece o que a ação pode ou não pode fazer ao outro. Um agente reflexivo e convicto que conclua ser o sofrimento alheio um custo aceitável para um bem maior passaria, formalmente, pelo crivo proposto — e ainda assim estaria agindo de forma antiética.

“O problema, portanto, não é apenas a ausência de reflexão — como ilustra Getúlio —, mas também a possibilidade de uma reflexão que se dobra aos próprios fins, tornando-se autorreferente. Lembro aqui de Hannah Arendt: Eichmann também justificava racionalmente suas ações — havia reflexão sem empatia, o que ela chamou de “banalidade do mal”. Faltaria, talvez, um passo a mais no argumento: a exigência de um princípio substantivo inviolável. Levinas nos oferece uma pista: a ética começa no rosto do outro, na responsabilidade incondicional pelo outro antes de qualquer sistema de valores — o limite da ação não vem da reflexão interna, mas do reconhecimento irredutível do outro como sujeito. Isso responderia exatamente à lacuna que identifico, e seria ainda mais robusto que o imperativo categórico kantiano, embora complementar a ele.”

[3] Nas palavras de Sérgio: “Se o diálogo partir de um padrão universalista e supremo de humano, humanidade e vida, o compartilhar de patrimônios, cosmovisões e referências é barrado pelo estigma, anulação do valor e silenciamento das fontes dialógicas diversas do padrão supremacista.”


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Quem pode entrar no parquinho humano?

Adailtom Alves Teixeira[1]


Nascemos entre humanos, mas não nascemos propriamente humanizados. A condição humana não é um dado biológico acabado; trata-se antes de um processo histórico, cultural e ético. Entre os animais, somos um dos mais frágeis ao nascer: dependemos do cuidado prolongado, da linguagem, da educação e da convivência social para adquirir as ferramentas simbólicas que nos tornam, de fato, humanos.

Em Regras para o parque humano (2018), Peter Sloterdijk estabelece um interessante diálogo com Martin Heidegger, especialmente a partir da Carta sobre o Humanismo (1947). Heidegger, cuja trajetória é marcada por sua adesão ao nazismo, questionava o esgotamento do humanismo clássico europeu. Sloterdijk retoma esse debate para perguntar quem, afinal, educa o ser humano e quais mecanismos culturais regulam o processo civilizatório. O texto, fruto de uma conferência, sugere que o humanismo sempre funcionou como uma tecnologia de domesticação: a leitura, a escola e a cultura escrita atuariam historicamente como dispositivos de contenção da barbárie.

Contudo, se antes os processos de humanização estavam ligados ao livro e à formação cultural, hoje eles parecem deslocar-se para os campos da biotecnologia, da engenharia genética e das plataformas digitais. Sloterdijk alerta para a necessidade de regras éticas diante do poder crescente dos conglomerados científicos e tecnológicos capazes de intervir diretamente na constituição biológica da vida humana.

Em certa medida, preocupação semelhante aparece em O futuro da natureza humana (2004), de Jürgen Habermas. Habermas questiona os riscos de uma eugenia liberal orientada pelo mercado, na qual escolhas genéticas poderiam produzir desigualdades irreversíveis entre indivíduos previamente “programados”. Para além de compartilharem origem intelectual europeia, ambos os pensadores enfrentam uma questão urgente: quem decidirá os limites da intervenção tecnológica sobre os seres humanos?

O debate torna-se ainda mais relevante em um contexto global marcado pela ascensão de movimentos autoritários e pelo enorme poder político e econômico das grandes empresas de tecnologia. A concentração de dados, riqueza e capacidade técnica levanta uma questão preocupante: poderíamos caminhar para a produção de humanos diferenciados, seja biológica, cognitiva ou socialmente? Se a espécie persistir, o que significará ser humano daqui a um século?

Essas inquietações, entretanto, não são novas. A própria modernidade ocidental construiu hierarquias de humanidade. Durante o período colonial, a Igreja Católica debateu se os povos originários das Américas possuíam alma, tal discussão foi decisiva para legitimar processos de conquista e catequese. Sabemos hoje que tal “salvação” implicou violência cultural, epistemicídio e extermínio. Em relação aos africanos escravizados, a lógica foi ainda mais brutal: a necessidade econômica da escravidão dispensava qualquer debate moral consistente sobre sua humanidade.

Assim, a pergunta permanece aberta: o que significa ser humanizado? Quem define os critérios? Sloterdijk afirma que, até 1945, predominou um humanismo burguês fundamentado na cultura livresca, posteriormente colocado em crise pelas guerras mundiais e pelos meios de comunicação de massa. Ainda segundo o autor, “O tema latente do humanismo é, portanto, o desembrutecimento do ser humano” (Sloterdijk, 2018, p. 17).

Mas caberia perguntar: apesar dos avanços científicos e da riqueza global acumulada, temos realmente avançado nesse processo de desembrutecimento? Em um mundo atravessado pela precarização do trabalho, pela superexploração econômica e por aquilo que Achille Mbembe denomina de necropolítica (a gestão política da morte), torna-se difícil sustentar que vivemos uma ampliação efetiva do “parque humano”.

Habermas recorda que a comunidade moral depende do reconhecimento mútuo entre sujeitos capazes de atribuir direitos e deveres uns aos outros: “Na linguagem dos direitos e deveres, a comunidade de seres morais [...] refere-se a todas as relações que necessitam de um regulamento normativo” (Habermas, 2004, p. 46).

Entretanto, a modernidade que produziu "direitos universais" também consolidou um sistema econômico que continuamente exclui parcelas imensas da humanidade. Para parafrasear George Orwell, alguns humanos parecem tornar-se e dia a dia seguem mais humanos que outros.

Essa crítica encontra eco também fora do pensamento europeu. O líder yanomami Davi Kopenawa, denuncia a lógica predatória do que chama de povo da mercadoria, os napë (os brancos/inimigos): “Os brancos se dizem inteligentes. Não somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas” (Kopenawa; Albert, 2020).

Tal perspectiva desloca radicalmente o debate: talvez o problema não seja ampliar o parque humano, mas redefinir suas regras a partir de outras cosmologias e formas de existência. Frear o avanço ilimitado do povo da mercadoria e de seu sistema baseado na acumulação infinita e na exploração da vida, pode ser não apenas uma escolha ética, mas condição de sobrevivência coletiva. Humanizar-se, afinal, talvez signifique reconhecer que ninguém deveria ficar do lado de fora do parque. 

Bibliografia

HABERMAS, Jürgen. O futuro da natureza humana. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.



[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (Unir); mestre e doutor em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História pela Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul).