Adailtom Alves Teixeira*
A reflexão ética costuma nascer de uma pergunta simples, mas de resposta nada fácil: o que significa agir bem? A filosofia ocidental colocou essa questão no centro de seu pensamento desde a Grécia antiga. Em muitos casos, como aponta Danilo Marcondes em Textos Básicos de Ética (2008), a ética foi compreendida como uma virtude, algo que orienta o comportamento humano para o bem. No entanto, a própria história do pensamento mostra que a virtude, quando separada da reflexão crítica, pode transformar-se em obediência cega; e, nesse ponto, a literatura frequentemente revela aquilo que a teoria filosófica às vezes deixa escapar.
No diálogo Mênon, de Platão, encontramos uma das perguntas fundamentais da filosofia moral: a virtude (areté) pode ser ensinada? Para o pensador, um adepto do mundo das Ideias, ela seria inata, trazemos conosco, mas pode estar adormecida, caberia aos filósofos despertá-la. A conversa entre Sócrates e Mênon parte da suposição de que a virtude é algo desejável e necessário para a vida justa, mas logo esbarra em uma dificuldade: ninguém parece saber exatamente o que ela é. Sócrates conduz o diálogo demonstrando que muitas pessoas acreditam possuir virtude, mas não conseguem defini-la com clareza. Para Platão, a virtude está ligada ao conhecimento do bem; agir bem dependeria, portanto, de um certo tipo de saber. No entanto, como lembra Marcondes (2008) ao discutir esse diálogo, Platão termina por sugerir que a virtude muitas vezes aparece mais como opinião correta do que como conhecimento plenamente fundamentado.
Esse ponto é importante porque revela uma fragilidade: se a virtude pode existir como simples opinião correta, isto é, como algo que seguimos sem compreender inteiramente, então ela pode também degenerar em comportamento automático, sustentado apenas por costumes, tradições ou ordens de autoridade. A filosofia de Platão reconhece o problema, mas não o resolve completamente.
É justamente aí que a literatura entra como campo significativo para expor as contradições da moral vivida. No romance Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro (s.d.) - uma história de areté como o autor expõe na abertura -, acompanhamos a trajetória de um militar do interior nordestino encarregado de transportar um preso político. Getúlio cumpre sua missão com absoluta convicção: ele acredita estar fazendo o que é certo porque está obedecendo à ordem recebida. Sua ética é uma ética da fidelidade e da disciplina. Ele se vê como um homem honrado, leal, alguém que não trai a palavra dada.
Entretanto, à medida que a narrativa avança, percebemos o paradoxo: a virtude de Getúlio é também sua prisão moral. Ele cumpre ordens mesmo quando o contexto político muda, mesmo quando a própria ordem perde sentido. Sua fidelidade deixa de ser virtude e torna-se obstinação. Falta-lhe aquilo que Sócrates exigia de seus interlocutores: a reflexão crítica sobre o que se está fazendo.
O romance evidencia, assim, um tipo de alienação ética. Getúlio não age por maldade consciente; ele acredita estar agindo corretamente. O problema é que sua noção de correção está fundada apenas na obediência e na identidade que construiu para si: a de um soldado que cumpre ordens. Nesse sentido, sua virtude é frágil porque não passa pelo exame racional da própria ação.
Esse ponto dialoga com o problema levantado em Mênon. Se a virtude não é plenamente compreendida, mas apenas seguida como hábito ou opinião, ela pode facilmente transformar-se em instrumento de violência ou injustiça.E não é o que faz Getúlio? Além de cumprir cegamente as ordens, age brutalmente na condução de seu preso. Nesse caso, a ética deixa de ser um exercício da razão e passa a ser apenas uma máscara moral para práticas que nunca foram realmente interrogadas.
Tal problema não pertence apenas à filosofia antiga ou à literatura brasileira. Ele atravessa o nosso tempo histórico. Vivemos um momento em que muitas pessoas, inclusive muitas lideranças políticas e também lideranças religiosas, reivindicam para si o lugar da virtude: dizem agir em nome da moral, da ordem, da tradição ou da justiça. Contudo, frequentemente esquecem um princípio ético elementar, presente em diversas tradições: não fazer ao outro aquilo que não queremos que façam a nós mesmos.
Quando esse princípio desaparece, a virtude torna-se apenas retórica. Surge então uma espécie de moralidade agressiva, na qual indivíduos se percebem como justos enquanto legitimam a exclusão, a violência ou a indiferença diante do sofrimento alheio. Nesse cenário, multiplicam-se os “virtuosos” que, tal como Getúlio, acreditam cumprir uma missão moral, mas raramente parece se perguntar sobre o impacto real de seus atos.
Assim, tanto a perspectiva platônica quanto a figura do Sargento Getúlio revelam limites éticos importantes. Platão percebe que a virtude precisa estar ligada ao conhecimento, mas admite que muitas vezes ela se manifesta apenas como opinião correta, sem fundamento sólido. Já Getúlio representa o extremo oposto: a virtude reduzida à obediência absoluta, sem espaço para questionamento.
Entre esses dois pólos surge a necessidade de uma ética que seja simultaneamente virtude e reflexão que conduza a uma prática realmente ética. Afinal, a ética não pode ser apenas um conjunto de valores proclamados, nem uma fidelidade cega a normas ou autoridades. Ela precisa envolver o exercício constante de perguntar: por que estou fazendo isso? Quem é afetado por essa ação? Ela preserva ou destrói a dignidade do outro?
Talvez a reflexão que a filosofia e a literatura trazidas aqui nesse pequeno texto nos oferecem, quando lidas em conjunto, seja justamente essa: a virtude sem reflexão pode tornar-se perigosa, violenta, mas a reflexão sem compromisso moral também pode tornar-se estéril. Afinal a ética exige as duas coisas: o desejo de agir bem e a coragem de examinar continuamente aquilo que chamamos de bem. Como afirma Marcondes: “Um ato pode ser considerado ético sempre que seu autor for capaz de explicitar seus motivos e justificá-los, assumindo integralmente sua atitude” (2008, p.12).
Referências
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, s.d. (Col. Mestres da Literatura Contemporânea, 27)
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