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terça-feira, 5 de maio de 2026

Milton Santos, 100 anos

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

O centenário de nascimento de Milton Santos (3 de maio de 1926) foi celebrado no último 3 de maio, reiterando o imenso legado desse geógrafo brasileiro de renome mundial. Durante meu mestrado, debrucei-me sobre parte de sua obra, sobretudo por discutir teatro de rua e territorialidade — um campo em que suas reflexões se mostram não apenas pertinentes, mas estruturantes.

Milton Santos - imagem da internet

Para quem faz qualquer arte de rua, Milton Santos é leitura incontornável. Em O espaço do cidadão (2000), por exemplo, o autor problematiza o direito à cidade e evidencia como os sujeitos são valorados a partir dos lugares que ocupam, mesmo que virtualmente iguais, isto é, com as mesmas formações daqueles que habitam espaços considerados “melhores”. Essa perspectiva incide diretamente sobre o teatro de rua, que, ao ocupar praças, feiras, becos e periferias, tensiona hierarquias espaciais e simbólicas, reconfigurando o acesso à arte e ao próprio espaço urbano. Não esqueçamos que, por isso mesmo, o próprio teatro de rua é marginalizado e desprestigiados em relação a outros teatros.

A concepção de espaço em Santos (2008b) está longe de ser fixa: transforma-se historicamente, sendo composto pelo arranjo de objetos geográficos, naturais e sociais, mas, sobretudo, animado pela vida — portanto, em constante movimento. Nesse sentido, o teatro de rua não apenas ocupa o espaço: ele o reinventa, inscrevendo nele outras narrativas, corpos e temporalidades. Ao intervir no cotidiano urbano, artistas tornam-se agentes que deslocam sentidos e produzem novas leituras do território. Contudo, para que isso ocorra de modo crítico, é necessário, antes, “afastar todos os símbolos destinados a fazer sombra à nossa capacidade de apreensão da realidade” (Santos, 1997, p. 41).

Assim, o estudo das cidades em suas múltiplas dimensões torna-se fundamental. Para Santos (2008a), a análise da paisagem possui um valor semelhante ao de uma “escavação arqueológica”, revelando camadas de história, conflitos e disputas que constituem o espaço vivido. O teatro de rua, ao dialogar diretamente com essas camadas — muitas vezes invisibilizadas —, pode operar como prática de desvelamento, tornando sensíveis as contradições urbanas e os processos de exclusão. Se toda cidade é um palimpsesto, com quais camadas escolhemos dialogar?

Crítico da globalização, Milton Santos afirma que, embora todos os lugares sejam impactados por esse processo, cada um combina tais influências de maneira singular. Afinal, “quando a divisão do trabalho, e a cooperação perversa por ela ocasionada se estendem à escala do planeta, o mundo como espaço se torna o espaço do capital” (1997, p. 15). Diante disso, o teatro de rua pode ser compreendido como uma forma de resistência micropolítica: ao ocupar o espaço público sem mediação mercadológica direta, ele tensiona a lógica do capital e reinscreve o comum como lugar de encontro, fricção e possibilidade.

Celebrar Milton Santos, portanto, é também reafirmar a potência de práticas artísticas que, como o teatro de rua, compreendem o espaço não como dado, mas como campo de disputa — vivo, contraditório e aberto à transformação. Viva Milton Santos! Viva as artes de rua!

 

Referências

SANTOS, Milton. Espaço e método. 5ª ed. São Paulo: EdUsp, 2008a.

SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado: Fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. 6ª ed. São Paulo: EdUsp, 2008b.

SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 5ª ed. São Paulo: Studio Nobel, 2000.

SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1997.

TEIXEIRA, Adailtom Alves. Teatro de rua: identidade, território. São Paulo: Giostri, 2020.



[1] Professor na Universidade Federal de Rondônia; mestre e doutor em Artes (área de concentração Artes Cênicas) pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista; articulador e um dos fundadores da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR); integrante do Teatro Ruante.

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