Adailtom Alves Teixeira[1]
Quem tem um amigo tem tudo,
cantou Emicida, e foi graças ao amigo Nonato Tavares (a quem agradeço
imensamente) que tive a felicidade de conhecer uma mulher extraordinária: Olga
D'Arc Pimentel. Atualmente aposentada, mas sempre inquieta, continua a militar
por uma causa fundamental: a Amazônia; melhor dizendo, pela permanência da vida
humana neste mundinho chamado Terra. Sua militância vem de longe. Ela se
contrapôs aos desmandos da ditadura civil-militar e participou do amplo movimento
de luta para arrancar do Estado o SUS – Sistema Único de Saúde.
Olga D`Arc Pimentel - Foto Adailtom Alves
Olga D'Arc, que carrega os
nomes de duas heroínas, mora em um flutuante na comunidade Nossa Senhora do
Livramento — logo ela, que diz não professar nenhuma fé. Além do flutuante,
porém, criou uma maloca em terra firme, onde pisa descalça em busca de conexão.
Ali procura unir os saberes acadêmicos aos saberes ancestrais, especialmente os
dos povos originários. Em sua visão, essa convergência de conhecimentos poderá
nos salvar como espécie. Alguém duvida? Basta observar os recordes de
temperatura desde 2024, os constantes alertas dos cientistas acerca da
emergência climática e o El Niño deste ano.
Para que se tenha uma dimensão
um pouco maior de Olga, basta lembrar uma homenagem recebida no Dia Mundial do
Meio Ambiente, em 2021, na Universidade Leonel Brizola. Na placa está gravada a
seguinte frase: "Seu amor pelo Amazonas fez dela uma fera que nem
onça". Essa bruxa — na melhor acepção que a palavra possa ter —
enfrenta mares revoltosos cotidianamente e, para tanto, carrega seu cajado
sempre à mão. A canoa, sempre amarrada ao flutuante, é seu principal meio de
transporte.
Ela nasceu em Goiânia.
Socióloga de formação, teve de migrar, em 1969, para o Rio de Janeiro, em razão
das perseguições políticas. Em 1987 iniciou seu trabalho na Fundação Oswaldo
Cruz – Fiocruz. Apesar de já aposentada, mantém laços com a instituição justamente
por conta da maloca, onde desenvolve atividades em parceria com o pajé Gabriel
Gentil, do povo Tukano.
A práxis defendida por Olga
foi exposta em um poema-manifesto, publicado no livro Poetas de Manguinhos
II, organizado por Antenor Amâncio Filho, Luiz Fernando Ferreira e Pedro
Teixeira. Seu poema-manifesto chama-se "Arca de Noé II – Brasil dois
mil", no qual defende que precisamos voltar "ao estágio primitivo
do ser", pois, depois de 500 anos de história, da Revolução Industrial e
da revolução tecnológica, o chamado progresso apenas nos trouxe problemas com
os quais hoje precisamos lidar. Afinal, ela acredita que quem possuir
"águas limpas e florestas" será potência.
Daí a tarefa da Arca, que
consiste justamente em "recuperar as águas e florestas do Brasil".
Hoje, ela já defende que devam existir muitas arcas, para que possamos reverter
os problemas historicamente produzidos. É preciso atentar para a necessidade de
uma mudança de mentalidade: "A Terra, como as Águas e o Ar / Não podem ser
propriedade privada".
A função das Arcas é ocupar
áreas degradadas. É isso o que ela chama de óbvio em seu manifesto, embora
ainda precise ser dito. Um exemplo desse processo foi construído em sua própria
comunidade. Olga saía recolhendo o lixo jogado nos espaços abertos e no rio. De
tanto insistir — isto é, educando pelo exemplo ou, como nos ensina Paulo
Freire, aproximando o discurso da prática —, hoje já são muitas as pessoas que
repetem o gesto de recolher todo o lixo. A coletividade passa, assim, a cuidar
da própria comunidade.
Outro pressuposto defendido é
que, na Arca, não deve haver dinheiro, apenas troca, e ela seria organizada do
seguinte modo:
Serão duzentas pessoas, sendo quarenta
por cento
De músicos (pra tocarem pros bichos,
águas e árvores)
O restante por gente de qualquer
espécie.
Trinta por cento de crianças e
adolescentes,
Quarenta, pelo pessoal da segunda e
terceira Idade
E vinte por cento, pelo pessoal da
quarta e quinta Idade.
Teremos vários templos: o dos
Ensinamentos (a educação
Será ministrada pelas próprias crianças
com supervisão dos
Sábios e anciões); o da Conversa
Filosófica; da Meditação
Pura e Simples; do Amor e do Sexo, das
Artes; etc.
O trabalho coletivo não será superior a
quatro horas
Diárias. As vinte horas restantes para
cada um fazer
O que bem entender...
Depois dessa etapa, chamada “É
Óbvio”, vêm as seguintes: "No cu pardal" e "Caguei Redondo",
expressões que Olga afirma utilizar cotidianamente em situações hilárias, mas
que, no contexto do manifesto, adquirem grave seriedade.
A primeira constitui um
chamado à ciência, ou melhor, aos cientistas, para que conheçam o próprio
território e adotem exclusivamente a nossa língua na produção do conhecimento;
nada de idiomas alienígenas. Não se trata, penso eu, de nenhum "quaremismo"
ao modo barretiano. Como ela deixou escapar em nossa conversa, a partir do
ensinamento indígena, "língua é nação". Nosso saber deve ser voltado
para dentro, e é urgente "retirar do império americano / O controle sobre
as informações estratégicas da Amazônia", que até pode — e deve — ser
internacionalizada para outras nações, mas sempre "sob o nosso
controle". Por isso, "'No cu pardal' para os interesses
estranhos" e para os estrangeirismos.
A terceira etapa do projeto
seria um ataque aos "feudos familiares", isto é, ao latifúndio: "Cague
redondo pras Capitanias Hereditárias". Esse sistema permanece firme desde
o Brasil Colônia. Pois não é fato que a terra sempre foi um problema no Brasil,
sobretudo em razão de sua concentração? Embora sejamos um país continental,
jamais realizamos uma reforma agrária efetiva, e a terra continua concentrada
nas mãos de poucas famílias, que detêm quase tudo, enquanto a esmagadora
maioria se engalfinha por um pedaço de chão, seja no campo, seja na cidade.
Nesse sentido, as unidades
federativas, na concepção de Olga, constituem um entrave ao avanço. Além disso,
já acumulam uma dívida superior à da própria União e apenas contribuem para
fortalecer a concentração fundiária. Por isso, ela defende uma reorganização
estatal baseada apenas na relação entre municípios e União, com uma divisão
geográfica pautada pelas bacias hidrográficas: "Os grandes rios como
limites naturais das imensas regiões".
Os municípios deveriam ser
reunidos por afinidade produtiva e possuir, no mínimo, a mesma extensão de
áreas verdes que de áreas construídas. Ainda nessa etapa, também é preciso
dizer o óbvio, afinal é no município que "você faz tudo: / Ama, casa, faz
sexo, tem filhos, vive e morre".
Olga D'Arc, essa bruxa do
século XXI, a quem saúdo e reverencio, finaliza:
As fronteiras internas são fictícias e
Pertencem a determinados grupos de elite
A despeito da multidão...
“Caguei redondo” às fronteiras absurdas
Que tentam separar o inseparável:
A brasilidade!
Manáos,
26 de julho de 2026.
[1] Professor na
Universidade Federal de Rondônia (UNIR); doutorado e mestrado em Artes pelo
Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); Licenciado em
História pela Universidade Cruzeiros do Sul; atualmente é coordenador do Curso
Licenciatura em Teatro da UNIR; integrante dos grupos de pesquisas Práxis
épico-populares em perspectivas críticas e PAKY'OP - Laboratório de
Pesquisa em Teatro e Transculturalidade, no qual coordena a linha de pesquisa
Memórias da Cena Amazônica; ator, diretor, dramaturgo; integrante do Teatro
Ruante; autor dos livros O futuro não pode esperar (Temática,
2026), Circo Teatro Palombar:
somos periferia; potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua:
identidade, território (Giostri, 2020).