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segunda-feira, 27 de julho de 2026

UMA FERA EM DEFESA DA AMAZÔNIA

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

Quem tem um amigo tem tudo, cantou Emicida, e foi graças ao amigo Nonato Tavares (a quem agradeço imensamente) que tive a felicidade de conhecer uma mulher extraordinária: Olga D'Arc Pimentel. Atualmente aposentada, mas sempre inquieta, continua a militar por uma causa fundamental: a Amazônia; melhor dizendo, pela permanência da vida humana neste mundinho chamado Terra. Sua militância vem de longe. Ela se contrapôs aos desmandos da ditadura civil-militar e participou do amplo movimento de luta para arrancar do Estado o SUS – Sistema Único de Saúde.

Olga D`Arc Pimentel - Foto Adailtom Alves

Olga D'Arc, que carrega os nomes de duas heroínas, mora em um flutuante na comunidade Nossa Senhora do Livramento — logo ela, que diz não professar nenhuma fé. Além do flutuante, porém, criou uma maloca em terra firme, onde pisa descalça em busca de conexão. Ali procura unir os saberes acadêmicos aos saberes ancestrais, especialmente os dos povos originários. Em sua visão, essa convergência de conhecimentos poderá nos salvar como espécie. Alguém duvida? Basta observar os recordes de temperatura desde 2024, os constantes alertas dos cientistas acerca da emergência climática e o El Niño deste ano.

Para que se tenha uma dimensão um pouco maior de Olga, basta lembrar uma homenagem recebida no Dia Mundial do Meio Ambiente, em 2021, na Universidade Leonel Brizola. Na placa está gravada a seguinte frase: "Seu amor pelo Amazonas fez dela uma fera que nem onça". Essa bruxa — na melhor acepção que a palavra possa ter — enfrenta mares revoltosos cotidianamente e, para tanto, carrega seu cajado sempre à mão. A canoa, sempre amarrada ao flutuante, é seu principal meio de transporte.

Ela nasceu em Goiânia. Socióloga de formação, teve de migrar, em 1969, para o Rio de Janeiro, em razão das perseguições políticas. Em 1987 iniciou seu trabalho na Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz. Apesar de já aposentada, mantém laços com a instituição justamente por conta da maloca, onde desenvolve atividades em parceria com o pajé Gabriel Gentil, do povo Tukano.

A práxis defendida por Olga foi exposta em um poema-manifesto, publicado no livro Poetas de Manguinhos II, organizado por Antenor Amâncio Filho, Luiz Fernando Ferreira e Pedro Teixeira. Seu poema-manifesto chama-se "Arca de Noé II – Brasil dois mil", no qual defende que precisamos voltar "ao estágio primitivo do ser", pois, depois de 500 anos de história, da Revolução Industrial e da revolução tecnológica, o chamado progresso apenas nos trouxe problemas com os quais hoje precisamos lidar. Afinal, ela acredita que quem possuir "águas limpas e florestas" será potência.

Daí a tarefa da Arca, que consiste justamente em "recuperar as águas e florestas do Brasil". Hoje, ela já defende que devam existir muitas arcas, para que possamos reverter os problemas historicamente produzidos. É preciso atentar para a necessidade de uma mudança de mentalidade: "A Terra, como as Águas e o Ar / Não podem ser propriedade privada".

A função das Arcas é ocupar áreas degradadas. É isso o que ela chama de óbvio em seu manifesto, embora ainda precise ser dito. Um exemplo desse processo foi construído em sua própria comunidade. Olga saía recolhendo o lixo jogado nos espaços abertos e no rio. De tanto insistir — isto é, educando pelo exemplo ou, como nos ensina Paulo Freire, aproximando o discurso da prática —, hoje já são muitas as pessoas que repetem o gesto de recolher todo o lixo. A coletividade passa, assim, a cuidar da própria comunidade.

Outro pressuposto defendido é que, na Arca, não deve haver dinheiro, apenas troca, e ela seria organizada do seguinte modo:

Serão duzentas pessoas, sendo quarenta por cento

De músicos (pra tocarem pros bichos, águas e árvores)

O restante por gente de qualquer espécie.

Trinta por cento de crianças e adolescentes,

Quarenta, pelo pessoal da segunda e terceira Idade

E vinte por cento, pelo pessoal da quarta e quinta Idade.

Teremos vários templos: o dos Ensinamentos (a educação

Será ministrada pelas próprias crianças com supervisão dos

Sábios e anciões); o da Conversa Filosófica; da Meditação

Pura e Simples; do Amor e do Sexo, das Artes; etc.

O trabalho coletivo não será superior a quatro horas

Diárias. As vinte horas restantes para cada um fazer

O que bem entender...

 

Depois dessa etapa, chamada “É Óbvio”, vêm as seguintes: "No cu pardal" e "Caguei Redondo", expressões que Olga afirma utilizar cotidianamente em situações hilárias, mas que, no contexto do manifesto, adquirem grave seriedade.

A primeira constitui um chamado à ciência, ou melhor, aos cientistas, para que conheçam o próprio território e adotem exclusivamente a nossa língua na produção do conhecimento; nada de idiomas alienígenas. Não se trata, penso eu, de nenhum "quaremismo" ao modo barretiano. Como ela deixou escapar em nossa conversa, a partir do ensinamento indígena, "língua é nação". Nosso saber deve ser voltado para dentro, e é urgente "retirar do império americano / O controle sobre as informações estratégicas da Amazônia", que até pode — e deve — ser internacionalizada para outras nações, mas sempre "sob o nosso controle". Por isso, "'No cu pardal' para os interesses estranhos" e para os estrangeirismos.

A terceira etapa do projeto seria um ataque aos "feudos familiares", isto é, ao latifúndio: "Cague redondo pras Capitanias Hereditárias". Esse sistema permanece firme desde o Brasil Colônia. Pois não é fato que a terra sempre foi um problema no Brasil, sobretudo em razão de sua concentração? Embora sejamos um país continental, jamais realizamos uma reforma agrária efetiva, e a terra continua concentrada nas mãos de poucas famílias, que detêm quase tudo, enquanto a esmagadora maioria se engalfinha por um pedaço de chão, seja no campo, seja na cidade.

Nesse sentido, as unidades federativas, na concepção de Olga, constituem um entrave ao avanço. Além disso, já acumulam uma dívida superior à da própria União e apenas contribuem para fortalecer a concentração fundiária. Por isso, ela defende uma reorganização estatal baseada apenas na relação entre municípios e União, com uma divisão geográfica pautada pelas bacias hidrográficas: "Os grandes rios como limites naturais das imensas regiões".

Os municípios deveriam ser reunidos por afinidade produtiva e possuir, no mínimo, a mesma extensão de áreas verdes que de áreas construídas. Ainda nessa etapa, também é preciso dizer o óbvio, afinal é no município que "você faz tudo: / Ama, casa, faz sexo, tem filhos, vive e morre".

Olga D'Arc, essa bruxa do século XXI, a quem saúdo e reverencio, finaliza:

As fronteiras internas são fictícias e

Pertencem a determinados grupos de elite

A despeito da multidão...

“Caguei redondo” às fronteiras absurdas

Que tentam separar o inseparável:

A brasilidade!

 

Manáos, 26 de julho de 2026.



[1] Professor na Universidade Federal de Rondônia (UNIR); doutorado e mestrado em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); Licenciado em História pela Universidade Cruzeiros do Sul; atualmente é coordenador do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; integrante dos grupos de pesquisas Práxis épico-populares em perspectivas críticas e PAKY'OP - Laboratório de Pesquisa em Teatro e Transculturalidade, no qual coordena a linha de pesquisa Memórias da Cena Amazônica; ator, diretor, dramaturgo; integrante do Teatro Ruante; autor dos livros O futuro não pode esperar (Temática, 2026), Circo Teatro Palombar: somos periferia; potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua: identidade, território (Giostri, 2020).

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