Adailtom
Alves Teixeira[1]
O centenário de nascimento de
Milton Santos (3 de maio de 1926) foi celebrado no último 3 de maio, reiterando
o imenso legado desse geógrafo brasileiro de renome mundial. Durante meu
mestrado, debrucei-me sobre parte de sua obra, sobretudo por discutir teatro de
rua e territorialidade — um campo em que suas reflexões se mostram não apenas
pertinentes, mas estruturantes.
Milton Santos - imagem da internet
Para quem faz qualquer arte de
rua, Milton Santos é leitura incontornável. Em O espaço do cidadão
(2000), por exemplo, o autor problematiza o direito à cidade e evidencia como
os sujeitos são valorados a partir dos lugares que ocupam, mesmo que
virtualmente iguais, isto é, com as mesmas formações daqueles que habitam
espaços considerados “melhores”. Essa perspectiva incide diretamente sobre o
teatro de rua, que, ao ocupar praças, feiras, becos e periferias, tensiona
hierarquias espaciais e simbólicas, reconfigurando o acesso à arte e ao próprio
espaço urbano. Não esqueçamos que, por isso mesmo, o próprio teatro de rua é
marginalizado e desprestigiados em relação a outros teatros.
A concepção de espaço em
Santos (2008b) está longe de ser fixa: transforma-se historicamente, sendo
composto pelo arranjo de objetos geográficos, naturais e sociais, mas,
sobretudo, animado pela vida — portanto, em constante movimento. Nesse sentido,
o teatro de rua não apenas ocupa o espaço: ele o reinventa, inscrevendo nele
outras narrativas, corpos e temporalidades. Ao intervir no cotidiano urbano,
artistas tornam-se agentes que deslocam sentidos e produzem novas leituras do
território. Contudo, para que isso ocorra de modo crítico, é necessário, antes,
“afastar todos os símbolos destinados a fazer sombra à nossa capacidade de
apreensão da realidade” (Santos, 1997, p. 41).
Assim, o estudo das cidades em
suas múltiplas dimensões torna-se fundamental. Para Santos (2008a), a análise
da paisagem possui um valor semelhante ao de uma “escavação arqueológica”,
revelando camadas de história, conflitos e disputas que constituem o espaço
vivido. O teatro de rua, ao dialogar diretamente com essas camadas — muitas
vezes invisibilizadas —, pode operar como prática de desvelamento, tornando
sensíveis as contradições urbanas e os processos de exclusão. Se toda cidade é
um palimpsesto, com quais camadas escolhemos dialogar?
Crítico da globalização,
Milton Santos afirma que, embora todos os lugares sejam impactados por esse
processo, cada um combina tais influências de maneira singular. Afinal, “quando
a divisão do trabalho, e a cooperação perversa por ela ocasionada se estendem à
escala do planeta, o mundo como espaço se torna o espaço do capital” (1997, p.
15). Diante disso, o teatro de rua pode ser compreendido como uma forma de
resistência micropolítica: ao ocupar o espaço público sem mediação
mercadológica direta, ele tensiona a lógica do capital e reinscreve o comum
como lugar de encontro, fricção e possibilidade.
Celebrar Milton Santos,
portanto, é também reafirmar a potência de práticas artísticas que, como o
teatro de rua, compreendem o espaço não como dado, mas como campo de disputa —
vivo, contraditório e aberto à transformação. Viva Milton Santos! Viva as artes
de rua!
Referências
SANTOS,
Milton. Espaço e método. 5ª ed. São Paulo: EdUsp, 2008a.
SANTOS,
Milton. Metamorfoses do espaço habitado: Fundamentos teóricos e metodológicos
da geografia. 6ª ed. São Paulo: EdUsp, 2008b.
SANTOS,
Milton. O espaço do cidadão. 5ª ed. São Paulo: Studio Nobel, 2000.
SANTOS,
Milton. Pensando o espaço do homem. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
TEIXEIRA,
Adailtom Alves. Teatro de rua: identidade, território. São Paulo:
Giostri, 2020.
[1] Professor na Universidade Federal de Rondônia;
mestre e doutor em Artes (área de concentração Artes Cênicas) pelo Instituto de
Artes da Universidade Estadual Paulista; articulador e um dos fundadores da
Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR); integrante do Teatro Ruante.