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terça-feira, 23 de junho de 2009

Sites e Blogs de grupos que integram a RBTR

ASSOCIAÇÃO DE TEATRO DE OLINDA - ATO http://www.atoemmovimento.blogspot.com/
SERÁOBENIDITO www.seraobenidito.com.br
LEO CARNEVALE http://pulitrica.blogspot.com/
ERRO GRUPO www.errogrupo.com.br
OIGALÊ www.oigale.com.br
TEATRO QUE RODA www.teatroqueroda.blogspot.com
GRUPO ENTROU POR UMA PORTA - RJ - http://grupoentrouporumaporta.blogspot.com/
TITETE http://titete.com.br/
TEATRO TERCEIRA MARGEM - MG. www.teatroterceiramargem.art.br
CIRCO DUX http://www.circodux.com.br
TEATRO DE CARETAS www.teatrodecaretas.blogspot.com
FARSA CENA CIA. TEATRAL www.farsacena.com.br www.farsacenaciateatral.blogspot.com
CIA. CIRCUNSTANCIA www.ciacircunstancia.com.br
FUSCA AZUL www.fuscazul.com.br
COMPANHIA FOLGAZÕES DE ARTES CÊNICAS www.companhiafolgazoes.com.br
TRUPE OLHO DA RUA www.trupeolhodarua.blogspot.com
JOANA GAJURU / AL www.joanagajuru.com.br
BURACO D`ORÁCULO - SP www.buracodoraculo.com.br
ROSA DOS VENTOS http://www.rosadosventos.art.br/
TEATRO EM CORDEL www.teatroemcordel.com.br
OFFSINA www.offsina.com.br
PALHAÇO JECA www.sitiodojeca.com http://palavradepalhaco.blogspot.com/
MARGARITA www.margarita88.com
GRUPOTEATRO KABANA DE SABARA / MG www.gtkabana.com.br
TÁ NA RUA www.tanarua.com.br
TEATRO EM CORDEL www.teatroemcordel.com.br
NÚCLEO PAVANELLI www.nucleopavanelli.com.br
POMBAS URBANAS www.pombasurbanas.org.br
NACE- NÚCLEO TANSDISCIPLINAR DE PESQUISA EM ARTES CÊNICAS E ESPETACULARES DE ALAGOASwww.nucleo.ufal.br/nace/
TEATRO COMMUNE www.commune.com.br
CIA CANDONGAS www.ciacandongas.com.br
CIA. DO LAVRADO www.ciadolavrado.com.br

domingo, 21 de junho de 2009

Teatro de Rua: estética e linguagem. Sua importância na metrópole

Por João Carlos Andreazza – ator e diretor

A rua é o advento da modernidade. Ela surge com as técnicas de pavimentação. Ela surge da idéia de Haussman, uma espécie de arquiteto e pensador, que foi contratado por Napoleão III para criar uma nova forma de se visualizar esse núcleo urbano. Ele cria para esse tipo de pavimentação o que ele chama de “Lodaçau de Macadame” e que tinha um sério problema: nos dias de verão levantava uma poeira absurda e nos dias de inverno virava um grande pântano. Então esse foi o grande problema entre Haussman e Napoleão III. Mas por que ele precisou criar isso? Porque precisava ser criada nesse núcleo urbano uma nova forma de policiamento. Então ele pensou a criação de um Boulevard, que nada mais era do que uma grande avenida, arborizada, com calçadas largas e é aí que vai acontecer a grande transformação: Nessas calçadas vão ser criados os cafés e tudo que acontecia dentro da casa passa a ser levado para esses locais, ao lado das carruagens que começam a percorrer essas avenidas trazendo o início do grande mal trazido pelo progresso que nós conhecemos como tráfego.

Nesse momento histórico acontece uma transformação contundente: a vida privada passa a existir ao lado da vida pública. O que era discutido no conforto de uma casa passa a ser discutido em um café, sob os olhos de pessoas estranhas. O público e o privado passam a acontecer de forma muito íntima. A rua se torna um grande divisor de águas entre o que existia no teatro e o que passa a existir a partir daí até os dias de hoje. Se em um primeiro momento a gente tem Haussman falando do Lodaçau de Macadame, num segundo momento vamos poder reproduzi-lo diminuindo essas calçadas e virando um ambiente voltado para o tráfego como se a rua fosse um grande sistema circulatório vital para cidade, que cria sistemas de abastecimentos que não ficam aos olhos do público.

A rua vai ter um papel de transformação social incrível ao longo da história: eu posso citar a revolução proletária, o grande desfile do 2o Reich etc. Nesse momento nós vamos perceber dois movimentos: as carruagens são liberadas dos cavalos. O povo que passa e transforma esses elementos dinâmicos em elementos inertes. Libertando os cavalos, as carruagens não andavam mais. Num 2o momento o povo vira essas carruagens de cabeça para baixo e transforma em barricadas. O que Napoleão III pediu para Haussman fazer - a criação do Boulevard – era na verdade um aparelho de policiamento. Ou seja, ele criou a rua para que pudesse transportar sua polícia para coibir qualquer levante popular e o povo acaba percebendo isso e transformando esses elementos inertes em barricadas. O povo rearranja esse ambiente pra criar um confronto e ao mesmo tempo se proteger. Esse é um movimento muito interessante e eu sinto que hoje o teatro de rua tem um papel semelhante que passa por esse viés, essa cepa que se torna a rua. É uma cepa extremamente frutífera para nós como artistas. Quando eu falo essa frase pra vocês: “O teatro é a melhor escola pública da boa e da má formação de um povo” é porque eu acredito no teatro como instrumento de educação muito forte e que não pode ser deixado de lado. A recuperação da rua é o grande desafio social do nosso século e é dentro dessa vertente que eu vejo o teatro de rua. Eu não o vejo como uma forma utilitária mas como uma forma prazeirosa de fazer teatro, que deve ser encarada de uma de uma maneira séria e gostosa. É isso que fazemos quando escolhemos as linguagens com as quais vai trabalhar e levar pra rua: música, circo, máscaras, enfim, tudo aquilo que tem cor, vida, sendo que cada vez mais percebemos um mundo monocromático onde a rua serve somente ao fluxo econômico de uma cidade.

Eu gosto de ver o teatro de rua de uma maneira alegre e que tenha um papel de recuperação desse espaço que a gente perdeu dentro da cidade, que é a rua. Eu sou o exemplo de uma pessoa que aprendeu a amar a cidade com o tempo e vejo que as pessoas que chegam tem muito medo da cidade. Por isso hostilizam, pelo medo de serem hostilizadas. Nesse momento eu sinto que essa proximidade que o teatro de rua tem, de fazer sua representação no mesmo piso que o público está, é uma maneira que o artista tem de falar com seu semelhante de uma forma muito direta. Esse diálogo que se estabelece com o público é forte porque quando um ser humano fala diretamente com outro ser humano não tem como o diálogo não se estabelecer. O cara só vai ficar ali pra ver o que está sendo feito porque gostou! De alguma forma a gente vai se fazendo entender por aquela pessoa que está lá.

O compromisso que a gente tem com teatro de rua não é uma falta de opção, muito pelo contrário. É porque entendemos que é uma grande opção. Não é porque não temos lugar pra fazer. Essa é uma história que a gente inventou pra gente mesmo e é uma história muito bonita e que pode ter desdobramentos maravilhosos.

Quando eu vejo uma platéia desse tamanho (refere-se ao público do seminário) e sei que tem gente que trabalha na rua há seis, dez anos, e tá se reunindo pra discutir, encontrar novas formas e dinâmicas de trabalho, novas linguagens, é porque existe um interesse bravo por parte de todos vocês de incrementar cada vez mais o trabalho, de tentar seduzir o público que pode ter começado pequeno e arredio nas primeiras apresentações mas que, pela própria persistência dos grupos, já se mostra mais receptivo as nossas apresentações.

O teatro de rua é um instrumento que temos na mão, que podemos usá-lo com a devida utilidade que um ator tem quando abre um diálogo direto com o público. É isso que a gente tem que ter e muito. Não importa a linguagem, importa que a gente toque a sensibilidade das pessoas de uma forma plena, que a gente perceba o brilho nos olhos das pessoas no momento da representação. Quando a nossa intenção é recuperar o espaço da rua como espaço de confraternização e criar o éden no meio do caos, isso é importante! Eu entendo o Teatro de rua com essa força, ele é destituído das formas burguesas do fazer teatral porque não está preso dentro das salas fechadas, porque a gente não tem que cobrar ingresso, a gente pode passar o chapéu e quem quiser dar dinheiro, que contribua! É nessa comunicação do ser humano, colocando suas necessidades de sobrevivência é que a gente vai fazer com que as pessoas sintam mais amor umas pelas outras. Pode parecer muito pueril, mas na realidade é de fundamental importância a gente se relacionar com amor com as pessoas. E o amor é a grande forma de comunicação e eu sinto que quando a gente faz teatro tá fazendo isso.

(Palestra proferida no I Seminário de Teatro de Rua em 04/08/03 – Realizado no Barracão Pavanelli. Este Seminário foi o pontapé inicial para a criação do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo)

A cidade e o teatro de rua

Por Adailtom Alves - Historiador e ator

Um dos maiores problemas do século XXI é enfrentado nos centros urbanos: o viver nas cidades. O mundo tornou-se urbano e a aglomeração de pessoas, na busca por uma vida melhor, tornou-se caótica em grande parte das cidades brasileira, sejam grandes ou médias.

O teatro sempre teve papel importante junto às cidades e aos cidadãos, pois através dele discutiu-se, ao longo dos milênios, os problemas da polis. Teatro e cidade sempre estiveram interligados. Foi assim na Grécia, na transição do período oligárquico para o democrático, foi assim na Idade Média em que a cidade era palco e cenário dos grandes espetáculos.

No Brasil temos hoje a primeira macrometrópole do hemisfério sul: a região metropolitana de São Paulo encontrou-se com a região metropolitana de Campinas, concentrando 12% da população brasileira. Quanto a cidade de São Paulo, está dividida em noventa e seis distritos, nos quais moram onze milhões de habitantes e seus equipamentos culturais, a sua imensa maioria, está na região central, em 14% do território, onde vivem 20% da população.

Em uma cidade desse porte (e em todas, de maneira geral), o teatro de rua cumpre um papel fundamental, já que pode descentralizar o acesso. Descentralizar não apenas no sentido de tirar do centro, mas de permitir o acesso àqueles que não costumam freqüentar as salas de espetáculos, independentemente de qual região da cidade ele habita.

O teatro de rua é uma manifestação marginal que utiliza o corpo e o discurso no espaço aberto urbano a serviço do estético, apropriando-se ou não da paisagem urbana como cenário, de maneira a permitir a fruição a um público passante. É marginal porque opõe-se a lógica capitalista, já que não cobra ingressos e rompe com o escoadouro do capital (a rua), dando-lhe novo significado, já que o cidadão que passa torna-se um espectador, ou seja, durante um espetáculo de rua o espaço aberto torna-se um local de fruição.

O teatro, como arte de seu tempo, deve refletir sobre a relação do homem no espaço urbano e os problemas gerados a partir disso. O teatro de rua, por permitir deslocar-se a diversos lugares sem perder os pressupostos técnicos e estéticos, deve cumprir o seu papel mobilizador, co-movedor (mover junto), isto é, deve coletivizar os problemas da cidade, ao mesmo tempo em que permite a fruição dessa arte milenar por parte de uma camada social alijadas dos bens culturais.

Mas do que nunca, teatro de rua e cidade estão umbilicalmente ligados e esta relação vai para além do uso da mesma como local de encenação, o viver na cidade e os problemas daí advindos devem aparecer nos espetáculos teatrais, pois já que a arte nos incita a criação e a re-criação, essa relação pode nos apontar novos caminhos.

I Encontro do Movimento de Teatro de Rua do Ceará

Caros,
Estou chegando de Arneiroz, no sertão dos Inhamuns, Ceará, onde fiquei de 11 a 13 de junho por ocasião do I Encontro do Movimento de Teatro de Rua do Ceará, uma iniciativa dos grupos e compahias de teatro do estado. Este evento ocorreu dentro do IV Festival dos Inhamuns – Circo, Bonecos e Artes de Rua que se espalhava pelas cidades de Tauá, Parambu, Quiterianópolis e Aiuaba. Tentarei descrever para vocês as minhas sensações e reflexões desta experiência com os companheiros e me convidaram a participar.
Saí do Rio de Janeiro às 21:50h do dia 10/06 e cheguei em Fortaleza, às 00:50h do dia 11/06. Fui para o hotel Abrolhos dormir um pouco e às 05:30h, saímos para o sertão dos Inhamuns. O motorista Maurício avisou que a estrada estava ruim, por causa das chuvas. Que um açude havia arrebentado e levado parte da BR-020, que liga o litoral ao sul do estado... por isto ele teria que fazer outro caminho e aumentar o tempo em duas ou três horas. Eu não havia jantado no dia anterior e estávamos saindo antes do café-da-manhã do hotel... Falei isto para ele e para os meus outros dois companheiros de viagem: Pedro Domingues e Alexandra Costa.
Maurício disse: “- Vamos parar no trevo! Lá tomamos café!”
Chegamos ao trevo, às 06:00h. Paramos num posto de gasolina que estava lotado. Fomos para a lanchonete e fizemos o primeiro contato com o nordeste: caldo de carne, carne-de-sol, batata-doce, cuzcuz... me fartei! Fomos para a estrada! As cidades se apresentavam para nós com toda a sua beleza de casarios coloridos de telhados cansados em meia-água. Quixadá me encanta com seu cenário rochoso cinematográfico; Quixeramobim, terra de Antonio Conselheiro, lugar onde o Zé Celso apresentou Os Sertões, Pedra Branca de serra verde, estrada pintada de carcarás, coiotes apressados e jumentos ingênuos e lindos. Os buracos não me deixavam dormir por isto eu via toda a beleza do nordeste molhado, verde, olhos d’água.
Chegamos à Tauá, às 12:06h. Ali o Festival também acontecia e o Pedro e a Alexandra (soube na viagem que eram do MinC) iriam participar de uma mesa sobre territórios da cidadania. Almoçamos em Tauá, na pousada Silvestre. O Luis Carlos Vasconcelos estava sentado à mesa almoçando - primeiro rosto conhecido – ele disse que estava ministrando uma Oficina de Produção de Texto (dramaturgia do palhaço) de 5 dias e iria se apresentar naquela noite, às 20h com o espetáculo “Silêncio total – Vem chegando um Palhaço”. Conheci o Fábio (um dos produtores) que nos orientou sobre o encontro e, depois comemos feijão de corda, farofa, macarrão, carne-de-sol... Deixamos os dois (Pedro e Alexandra) no salão paroquial de Tauá, e seguimos para Arneiróz, que ficava a 47km de distância.
Na estrada, carcará, açude, jumento, olho d’água, serra verde...
Às 15h, entramos em Arneiróz, vila com duas ruas maiores e três transversais menores. Levaram-me para o “hotel” do Seu Nery e da Dona Inês. Um lugar simples, com uma cozinha grande que você tinha que atravessar para chegar aos quartinhos. Carne pendurada ao sol, panelas reluzindo, rádio ligado dando as notícias da capital. Cheguei ao quarto e, antes mesmo de tirar os sapatos, montei o meu ‘laptop’ e enfiei o modem da internet... nada! Peguei o celular para ligar para casa e avisar que cheguei bem... nada! Comecei a suar frio... abri a porta e perguntei para Dona Inês: “ – Aqui pega celular?, internet?” Ela me respondeu com uma calma carinhosa, enquanto continuava o seu crochê, sentada na calçada da pousada: “ - Não, meu filho... se precisar ligar, tem um orelhão aqui do lado e uma internet à radio, que às vezes cai, ali na frente, ó!” “- E banco, tem BB, Itaú, Caixa? “ insisti (porque estava com pouco dinheiro em espécie). Ela, “tem não, moço. Tem só um Bradesco, que comprou o Banco do estado do Ceará... “Agradeci e voltei para o quarto, sentei na cama e comecei a desfazer as malas e refletia sobre a cidade onde estava: ARNEIROZ, Ceará, Brasil. A situação me trouxe a realidade do meu país, do meu povo da minha gente, das várias maneiras de viver e de fazer teatro. TEATRO!!! Lembrei que havia lido na programação que o Júnio Santos iria mostrar a brincadeira do CABEÇA DE PAPELÃO, às 17h. Pedi ao menino que me chamasse, eu iria esticar os ossos um tiquinho só... Ele me chamou: “- Moço, começou o Cabeça de Papelão lá na Praça da Matriz! “ Dei um salto da cama peguei a câmera e corri prá lá! Durante o pequeno trajeto, a música e a voz do Cervantes do Brasil me guiavam. Cheguei ao local e via um coro poderoso de 17 atores e seis músicos aproximadamente, fazendo o público se divertir!

CABEÇA-DE-PAPELÃO – Cervantes do Brasil (Icapúi-CE) 
O espetáculo, de Júnio Santos, tem uma proposta ousada e diferente. É um espetáculo aberto em todos os sentidos que trabalha com figuras alegóricas e arquetípicas, numa mistura de comédia dell’arte, carnaval, cordel... É um musical que viaja por todos os ritmos como samba, rock, funk, baião, jazz e blues que sustentam a narrativa dramática de cabo a rabo. Os figurinos me impressionaram bastante. A maioria tem cores escuras como base, e adereços brilhosos e atraentes, principalmente as cabeças (pinicos, relógios, chifres, etc.) e os pênis gigantes que teimavam em pairar sobre a cabeça do público que se divertia a valer. O uso de bonecos e escadas dava densidade e volume ainda maior ao trabalho. Os músicos eram impecáveis e contagiavam o lugar. O espetáculo era belo e o tema falava direto no olho do espectador sobre as questões da exploração do homem pelo homem através de um distanciamento histórico da fábula que mostra passo-a-passo a degradação do ser humano desde seu convívio familiar/matriarcal até as suas relações com o patrão e a sedução pela política. Cabeça de Papelão tem o formato de uma “peça didática” brechtiniana e acredito que o pedagogo Junio Santos pense na educação, não só da população como também, dos seus jovens atores, através de seus espetáculos. O encadeamento das cenas pelas músicas, a viagem (mítica) do herói e o uso da arte do grafite constroem o ambiente profícuo para teatro épico. O diretor utiliza-se de personagens duplos e triplos que agem, falam e andam em todas as direções, todos formam um grande coro que narram a história. Desta forma, o espectador não perde nenhuma parte da história, pois a mesma é refletida, amplificada e rebatida em todas as direções, dando um efeito quântico à peça teatral. Apesar de tudo isto, o espetáculo ficou confinado à cena quase à italiana, uma vez que a posição dos músicos (ao fundo) e uma parede de lojas, à esquerda, limitaram a movimentação e a atenção de todos: artistas e espectadores.
Depois da função, tomei uma cerveja com o Júnior, o Felippo e outros atores da trupe. Júnior explicou o problema do ponto de luz, do circo, do caminhão e, principalmente, das garças que foram colocadas no chafariz da praça, diminuindo-a substancialmente. Antes, nos anos anteriores, ela ali que tudo acontecia... Não tinha outro lugar para fazer! Disse ainda, que este projeto reunia atores de vários grupos. Começou com quarenta e, agora, tem 26. Eles fizeram uma opção econômica-política ao reunir um prêmio que seria de 2.000,00 reais para dez grupos e fizeram esta montagem coletiva. Enfim, Cabeça-de-Papelão, uma brincadeira coletiva coordenada pela companhia Cervantes do Brasil, merece ser vista. Ela estará se apresentando na mostra Lino Rojas de Teatro de Rua/SP, em novembro, segundo o seu criador.
Depois, às 20h, eu vi o tal caminhão que atrapalhava o espaço para o Cabeça-de-Papelão, se abrir... era o povo das minas geraes...

GIZ – Giramundo (MG)
O espetáculo de bonecos gigantes do pessoal do Giramundo encanta pela delicadeza dos gestos dos manipuladores (aparentes) e pela forma de seus bonecos brancos feito de tecidos. O caminhão deles (uma carreta-baú) se transforma num palco totalmente adaptado ao trabalho do grupo e, aos poucos, a magia dos bonecos articulados atraem, para si, cada um dos pares de olhos paralisados que os acompanham, sem piscar. GIZ é um espetáculo que mostra a destreza e a qualidade técnica do grupo mineiro, de renome internacional. Os efeitos sonoros e a música mecânica são fundamentais para o sucesso da empreitada porque são a ligação entre os movimentos dos bonecos e a sensibilidade do público. Exaustivamente ensaiados, os sons, ritmos e movimentos estão sincronizados e, juntos, dão sentido estético ao espetáculo. Destaque para os bonecos de um tiranossauro articulado e o do líder político que mexe os olhos e os pés! Como sempre, o espetáculo de bonecos encantou a platéia e surpreendeu no final apoteótico. Fiquei para ver a desmontagem... pedaços, panos, madeira, rodízios, que antes tinham vida e comunicavam... os bonecos estavam sendo desparafusados e colocados de lado, soltos, divididos, cabeças prá cá, pernas e braços aqui.. corpos de tecidos enrolados... a magia se esvanecia diante de meus olhos... Acho que fui o único que ficou para ver aquilo. Todos os outros já haviam corrido, com suas cadeiras, para dentro do circo onde o show continuava...

CIRCO ARNEIRÓZ 
21:00h Começa a parte circense. Artistas mostram seus números: acrobacia, palhaçaria, música. Não saberia comentar sobre as artes circenses, mas digo que o público vibrava! Encontrei com a Vanéssia no circo... Ela me informou que chegou num ônibus com 43 pessoas vindas de Fortaleza, Aracati e outras cidades vizinhas. “Nos vemos amanhã, às 09h, bjs, bjs, bjs!

I ENCONTRO DO MOVIMENTO DE TEATRO DE RUA DO CEARÁ Sexta-feira, 09h da manhã. Entro na ‘lan house’ da cidade. Tento a primeira, a segunda... “pegou! Caiu... Espero 5 minutos... Pegou?, Não. Depois eu volto... quanto custa? Nada... obrigado.” Sigo para a paróquia. Lá começa a apresentação, nome, cidade, grupo, o que faz, muita gente! Diversidade! Teatro comunitário, teatro social, teatro do oprimido, palco & rua, grupo antigo... grupo novo... grupo só de mulheres... só de estudantes...
Vanéssia pede para eu falar um pouco sobre a experiência da RBTR, da Rede do Rio, do edital Artes de Rua da FUNARTE. Falo sobre a importância política que a RBTR passou ater, depois que o Redemoinho acabou... Sobre a história da criação... Sobre os Encontros e os Desencontros... as brigas... o disse-me-disse... a dor e a delícia de ser o que é... papo gostoso... Junio... Galba... Vanéssia... Murilo... Pipoqueiro... Emerson... Pedro... Jonas... Filippo... 14h- À tarde, encontramos com o Sr. Pedro Domingues e a Sra. Alexandra Costa funcionários do MinC. Pedro faz uma longa e completa explanação sobre o PNC-Plano Nacional de Cultura, as antigas câmaras setoriais, os atuais conselhos, representatividade e o futuro PNT – Plano Nacional de Teatro. Coloca que é fundamental a participação do teatro de rua. Peço a palavra para dizer que “se o governo deseja discutir o teatro no PNC, precisa ter a visão do teatro realizado em espaços abertos. Os índices citados do IBGE, que dizem que 90% dos brasileiros nunca assistiram a uma peça teatral, só levam em conta aquela modalidade que ocorre no espaço fechado, em prédios chamados TEATRO e não consideraram os espetáculos de teatro de rua. O teatro de rua acontece em TODOS os municípios do Brasil, enquanto que a outra modalidade, somente onde existe o prédio. Os dados dizem que, dos mais de 6.000 municípios brasileiros somente alguns possuem teatros (prédios). Logo, neste raciocínio, poucos brasileiros já freqüentaram o TEATRO prédio. Afirmo ainda para os representantes do MinC que “as artes produzem conhecimento, saber, reflexão social... só que para o cidadão adquirir este saber, ele tem que comprá-lo! Compra quando paga a bilheteria, comprando o ingresso! Assim, somente alguns podem consumir ou pagar para ter o “saber”. Na modalidade teatro de rua, ao contrário, este saber é distribuído e construído democraticamente, sem privilégios de nenhuma classe social, uma vez que ocorre em espaços abertos e não cobra pelo conhecimento adquirido.” Outra questão que coloco para ponderação do coordenador do PNC é que “nos prédios teatrais geralmente, os temas são os da classe média como adultério, falências, heranças, conflitos de casais, traição , etc. enquanto que na modalidade teatro de rua os temas são, geralmente, universais, críticas sociais, luta de classe, debates políticos, crônicas, poesia e cordel, o que auxilia na educação e na formação dos atores e do público, uma vez que são informativos e atuais. Por último afirmo que “se o governo quiser realmente criar um plano nacional para o teatro, deve inverter o olhar e VER com os olhos do teatro de rua, que concentra a maioria da produção teatral brasileira nos 26 estados e no distrito federal e fala diretamente para TODA a população. O teatro de rua possui saberes e tecnologia social desenvolvida a milênios sobre o uso do espaço público e que as praças, ultimamente, em nome da urbanização, estão sendo cercadas e descaracterizadas como espaço para manifestações populares artísticas ou políticas. É comum as prefeituras encherem de chafarizes com garças, jardins que não se pode PISAR NA GRAMA, diminuindo consideravelmente os grandes vãos que permitem a realização das funções artísticas.” O senhor Pedro concorda com as ponderações e diz que a representação nos conselhos é aberta a todos que quiserem se candidatar. Seria interessante que a RBTR subscrevesse algum candidato comprometido com estas discussões, que os ‘mandatos’ se encerram em novembro ou dezembro exatamente para renovação, que no Ceará, os representantes eram uma pessoa do SATED-CE e outra que agora não lembro o nome. Fomos interrompidos pela produção do evento que pediu para que continuássemos no outro dia, porque havia uma necessidade de antecipar a programação.
Paramos às 16h.

Pão e Circo
Na praça principal de Arneiróz, começa o espetáculo da Cia dos Caretas, de Fortaleza-CE – “Pão e Circo” . Eu já havia assistido este espetáculo, por ocasião da XIII edição do Encontro de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, sob a curadoria de Michelle Cabral, do Maranhão. É um trabalho brilhante, com atores seguros e livres que dominam de tal forma o conteúdo dramatúrgico que se permitem improvisar o tempo todo. O trabalho é constituído de várias cenas isoladas que denunciam a hipocrisia da sociedade atual perante a fome e a miséria, principalmente com aqueles mais despossuídos. O espetáculo interage com a platéia e a faz cometer atos violentos e hediondos (cenicamente) como matar um cachorro que não obedece o dono e come dinheiro, ou linchar uma criança em praça pública e, finalmente, o ritual de “lavar as mãos” O trabalho é, também costurado por músicas com estruturas aparentemente simples, mas de um efeito teatral fantástico, geralmente criando o comentário do coro grego. Termina o espetáculo e me convidam para ir a Quiterianópolis, assistir ao espetáculo As Lavadeiras. “Quer ir? Entra no carro, agora!”
17h. Estrada... o pôr-do-sol nos Inhamuns... carcará... jumentos... 47 km até a cidade de Tauá... Um ator precisa trocar de roupa (ele havia feito o espetáculo da Cia dos Caretas e estava também nas Lavadeiras, o Marcos). Chegamos à Tauá, ele troca de roupa, faz maquiagem, entra na VAN!
18: 15h... estrada... a lua nos Inhamuns... Placa: QUITERIANÓPOLIS, 67 Km de Tauá...
19:15h... QUITERIANÓPOLIS. Chegamos. Fomos orientados por um rapaz de moto que nos aguardava na entrada da cidade para “irmos até o ginásio municipal porque o espetáculo aconteceria lá. O local anterior foi desmarcado e o secretário de cultura da cidade passou mal, subiu a pressão e o grupo de reisado não vem”, disse ele. Quando chegamos ao local estava acontecendo a festa de uma escola de ensino médio. Descemos todos e entramos no ginásio, CONVERSA DE LAVADEIRAS – Trupe Caba de Chegar de Teatro , Fortaleza/CE.
Os atores abriram caminho entre os presentes à festa junina. Eles saíram da Van, vestidos e direto para o meio da quadra que estava cheia de mesas e cadeiras. Tiveram que pedir para que as pessoas se levantassem para que pudessem encenar o espetáculo. Percebi que não ia dar nada muito certo porque o local tinha problemas de acústica, reverberação. Não se ouvia a voz dos atores e eles não conseguiam se ouvir entre si. A cada momento chegavam mais pessoas que não entendiam o que estava acontecendo. Uns pediam cerveja; outros, mugunzá, bolo, tapioca, e mais cerveja... A confusão era grande e eles, corajosamente, lá! Com toda a dignidade do ator, mas não dava! Festa errada, lugar errado, peça errada! Eles cortaram o que puderam e fizeram a função em mais ou menos 20 minutos, talvez menos, não sei. Saímos de lá rindo e conversando muito sobre este e outros fatos similares que acontecem com a modalidade de teatro de rua. O mesmo grupo me contou que uma vez, foram contratados para fazer uma campanha sobre DST-AIDS e preparam vários adereços e esquetes sobre a relação sexual. A primeira escola que os mandaram visitar foi... uma creche! Crianças e bebÊs! Eles não sabiam muito bem o que fazer com os adereços... usaram as chupetas! Jantamos e retornamos.
22: 15h... o retorno, a estrada... a lua nos Inhamuns... Placa: TAUÁ , 67 Km ...
23: 20... Tauá, estrada, Placa: Arneiróz mais 47km.
DIA 13/06 - 09h. Na manhã seguinte, me dirigi ao Salão Paroquial Nossa Senhora da Paz. Lá estavam os dois representantes do MinC. Após fala do Pedro Domingues sobre o PNC e outras colocações, Galba percebeu que era necessário mudar a dinâmica do encontro e propôs que “todos se dividissem em GTs sobre os temas que haviam levantado. Assim todos poderiam falar mais dar opiniões...” Isto correu e durou toda a amanhã. Às 12:00 retornamos à plenária e eu fiz o lançamento do livro e do DVD do Tá Na Rua. Deixei lá, também duas revistas do MTR-SP e duas do MTR-RJ que eu havia levado na bagagem. Faltaram livros para todos os grupos...
12h. Fomos almoçar!
13h. Coloquei o DVD sobre teatro invisível com o Augusto Boal, era uma forma de homenagear nosso grande mestre e enriquecer o nosso encontro. Quando terminou, quase todos pediram para fazer cópias deste material porque consideraram ele único, raro sobre Teatro Invisível, que já haviam lido mas não visto, etc. Fizemos!
14h. Organização, debate, relatos, discussão. Quem faz o quê! Compromisso!
17h, saí de Arneiroz antes de ver a carta ficar pronta! Eu tive que sair para pegar uma carona de volta para Fortaleza.
21h, saí de Tauá.
22h, o carro quebrou na estrada. Maurício diz que foi a gasolina "batizada" do posto de Tauá. O carro foi tossindo em direção as luzes que víamos ao longe. Chegamos até lá. O carro parou de vez. Assim conheci Mombaça. Cidade bonitinha e desenvolvida, fiquei zanzando pela praça e soube que , talvez, saísse algum ônibus para Fortaleza por aquelas horas. Peguei um táxi. Fui para a rodoviária de Mombaça. O ônibus já estava saindo...
23:30h, consegui entrar num ônibus que iria para Fortaleza via Quixeramobin. 05h, domingo, cheguei à Fortaleza. Hotel. Dormir até às 10h. Comer alguma coisa. Aeroporto!
19h. Guarulhos/SP. Conexão. Esqueço o celular no raio-X em São Paulo! Merda!
21h. Santos Dumont – Rio de Janeiro.
Sexta-feira. Dia 19. Vanéssia divulga a carta de Arneiróz na RBTR.
Li a carta e resolvo escrever como foi importante esta viagem para mim e envio, agora, a vocês! Obrigado, movimento de teatro de rua do Ceará! Vida longa para a RBTR! Próximo destino: ACRE!
Licko Turle

sexta-feira, 12 de junho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Angra dos Reis celebra o teatro de rua

Por Adailtom Alves – Ator e historiador, convidado do Encontro.


O XIV Encontro Nacional de Teatro de Rua de Angra dos Reis, que ocorreu de 07 a 10 de maio de 2009, recebeu grupos de teatro de rua de várias partes do país, montando um painel do que vem ocorrendo nesse seguimento pelo Brasil. Além de mais de duas dezenas de performances, a programação contou com quinze espetáculos de nove estados, seminários e oficinas. O Encontro teve a curadoria de Licko Turle e Jussara Trindade, pesquisadores e doutorandos da UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), organizadores do livro sobre o Tá Na Rua. A realização é da Cultuar (Fundação de Cultura do Município de Angra dos Reis), que tem na presidência Mário dos Anjos, que não é apenas um homem público, mas um fazedor de teatro, o que fez a diferença, pois mesmo com poucos recursos tornou o evento muito digno para os teatristas de rua.


A tônica maior foi a diversidade, que contou com espetáculos que englobavam do mamulengo ao teatro grego, passando pelo teatro imagético e pelo teatro experimental; grupos muitos experientes com décadas de existência (e resistência), como o Carroça de Mamulengo, do Ceará com mais de três décadas, o Pombas Urbanas, de São Paulo com duas décadas de vida, o Teatro Andante de Minas Gerais, com dezenove anos, bem como grupos jovens, como a Cia Gente de Teatro, da Bahia, com três anos de existência.

Não faltou público para as produções que se apresentaram na programação, tanto os espetáculos como as performances, bem como as rodas improvisadas por alguns artistas, que na ânsia por trocar com os colegas presentes abriram outras rodas fora da programação oficial.

Pela diversidade dos espetáculos, de linguagem e das formas de uso do espaço aberto, é difícil dar conta desse Encontro. O texto, portanto, não tem por objetivo cobrir essa diversidade. Cabe alertar ainda que, os espetáculos e os grupos citados aqui têm como referência as apresentações vistas no Encontro, qualquer crítica não desmerece sua história anterior ou posterior. Cabe dizer ainda, que nem todos serão citados, foi necessário um recorte para não tornar o texto longo demais.

Os espetáculos
O Encontro foi aberto pela Carroça de Mamulengo, um grupo familiar, que fica muito a vontade na rua com seu público. A programação atrasou por causa da mudança de local do espetáculo Histórias de Teatro e Circo, transferida para uma lona, pois havia a possibilidade de chuvas, o que não ocorreu. Maria Gomide, que conduz o espetáculo com sua voz magistral, cantando lindas canções, explicou a todos os presentes o motivo do atraso e a necessidade de afinar-se com a técnica, para poderem realizar um bom espetáculo. Nesse diálogo franco a atriz/cantora, demonstrou um duplo respeito, tanto ao seu trabalho como ao público, provando que a arte popular tem muito refinamento. Ali não havia espontaneísmo, mas sim o apuro de muito trabalho, um refinamento em lidar com o singelo. Todo o rigor e a beleza do popular estavam presentes no repertório musical, na técnica de manipulação dos bonecos, no figurino, na apresentação das personagens (montadas na frente do público) e nos efeitos pirotécnicos (um lagarto que cuspia fogo, arrancando calorosos aplausos da platéia. O jogo com a platéia era vivo e atingia a todos, a prova é que uma criança bem pequena (uns dois anos de idade, se tanto) entrou em cena para tocar seu personagem favorito, um carneiro. A música é fundamental no espetáculo, tem função dramatúrgica, sendo executadas ao vivo. Os atores/manipuladores/palhaços cantam e tocam diversos instrumentos, mostrando a importância dos atores completos na rua. Todos os artistas têm excelente domínio da rua, sabem o que fazem, inclusive os mais jovens, como as gêmeas Isabel e Luzia Gomide, ambas com oito anos de idade.

A Cia Chegança, de São Luis do Maranhão, apresentou A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99. O grupo demonstrou certo nervosismo, faltando escuta no jogo com a platéia. O espetáculo teria um maior ganho se os atores fechassem uma roda menor, isso porque o local era barulhento e o público ficou disperso. A voz dos atores, pelo tamanho do espaço escolhido, perdeu-se um pouco, nos alertando para a importância de um trabalho vocal profundo para o ator de rua, posto que as cidades, grandes e médias têm ficado cada vez mais ruidosas. Caberia outra discussão sobre o uso ou não de microfones, já que, no geral, esses equipamentos deixam os atores limitados, muito mais preocupados com os aparelhos do que com o seu gestual. Não foi o caso dos maranhenses, que optaram por não usarem este tipo de equipamento, mas perdemos muito do que diziam. O espetáculo da Cia Chegança trouxe para a cena a discussão de gênero, no entanto, o problema social no qual estão inseridos as personagens é muito mais profundo e talvez devesse ser melhor trabalhado. No entanto, foi uma boa oportunidade de ver as produções nordestinas que quase não vem ao sudeste, embora muitas das produções façam o caminho inverso.

A noite os Irmãos Brothers debutaram apresentando 15 anos Irmãos Brothers, nos deliciando com o universo do circo, apresentando ao público seu repertório de números circenses, desde os mais antigos, do começo de sua história aos mais recentes. Os palhaços jogam bem com a platéia e a maneira como foi estruturado o espetáculo é para grandes platéias, com cara de mega produção. As pequenas perdas deram-se por conta da música gravada, nem sempre precisas com o humano, o vivo. Mesmo assim, o que seria “erro”, foram aproveitados pelos palhaços para fazerem mais graça. O repertório apresentado passou pela contorção, números de efeitos, mágicas e acrobacias.

No dia 08, pela manhã, a programação iniciou-se com a Cia Mumulendo da Folia e o espetáculo A folia no terreiro de seu Mané Pacaru. O espetáculo foi realizado em conjunto com o público, que alegremente topou cada participação. O brincante Danilo Cavalcanti, apoiado pelo Trio Agrestino, utilizou muito bem esse jogo com a platéia, assim como outros recursos populares, como, por exemplo, a apresentação de cada personagem. Ficou claro que havia um roteiro (canovaccio), conhecido apenas pelo manipulador, mas através do jogo com a platéia foram juntos construindo o espetáculo. A história tem um mote simples: Benedito vai casar com a filha de seu Mané Pacaru e o diabo quer acabar com a festa, levando todos para o inferno. Aqui vemos a beleza da cultura popular, que mistura o mágico com o mundo real sem preconceitos. No desenvolver da brincadeira, o bricante aproveitou para rebaixar as ditas autoridades militares, religiosas e o patrão de Benedito. O “herói” Benedito, com suas pauladas, resolve os problemas, extravasa juntamente com o público seus medos, que são impostos desde cedo pelo credo ou outras vias da estrutura ideológicas. Assim, Benedito vence a morte, o capeta, a miséria e as autoridades. Os aplausos da platéia, quando o policial leva cacetadas de Benedito, é uma demonstração que este aparelho repressor não está a serviço dos populares. Aliás, as pauladas ou a intenção de ministrá-las tornou-se um bordão no restante do Encontro, pois sempre que um boneco iria apanhar, o manipulador anunciava que iria “dá o remédio”, dessa forma a cada suposto problema que surgia entre os participantes do Encontro falava-se: “dá o remédio para ele!”

A Grande Cia. Brasileira de Mistérios e Novidades, sediada entre Rio e São Paulo, levou ao Encontro o ousado Cíclopes. O espetáculo, um dos poucos dramas satíricos da Antiguidade que sobreviveram, conta a passagem da Odisséia em que Ulisses encontra o gigante de um olho só, o Cíclope. Os artistas nos conduziram para as origens do teatro de rua, ou o que imaginamos que tenha sido, uma ‘procissão’ ditirâmbica em que os atores, com sua carroça e seus instrumentos musicais nos narram a história. A companhia mostrou que boas histórias, independente de qual época elas sejam, são sempre bem-vindas. Cabe destacar o excelente trabalho realizado nas pernas de pau, pois ao mesmo tempo em que agigantavam os atores impunha um risco o tempo todo aos mesmos, envolvendo a platéia em um misto de encanto e medo, com seus movimentos cheios de estripulias.

A Cia. Gente de Teatro, de Salvador, Bahia – creio que era o grupo mais jovem na programação, apenas três anos –, apresentaram o espetáculo Cordel do pega pra capá, em que as questões sociais estavam presentes na feira onde tudo era vendido, mas os feirantes tinham que fugir do rapa, uma briga constante pela sobrevivência. O grupo domina muito bem a linguagem popular e utilizou muito bem as falas em coro, usou o hiperbólico e abusou de duplos sentidos em uma voz antinatural. Cabe destacar ainda o trabalho corporal do elenco. O espetáculo tem um ritmo musical, é dinâmico e envolvente. Por fim, é importante dizer que o grupo foi o único que se preocupou em buscar as referências do lugar para inserir no espetáculo, tornando as piadas conhecidas, o que fez com que ganhassem mais facilmente a platéia.

O único representante da cidade a apresentar um espetáculo – os demais apresentaram performances –, a Cia da Lua, apresentou uma história do lugar: A lenda da Bica da Carioca. O cenário foi a própria bica. Mas há equívocos na apresentação. O grupo levou para a rua um espetáculo com quarta parede, criando inclusive coxias. Os atores passavam no meio do público sem vê-los e sem dialogar com os mesmos. Além disso, o espetáculo contava a história do ponto de vista da classe dominante, mas a platéia, em sua quase totalidade, era composta por trabalhadores. Aqui merece uma reflexão a cerca da responsabilidade de se levar um espetáculo para a rua, posto ser este um espaço de todos, mas é ocupada principalmente pelos populares, já que os ricos evitam a rua. Não se trata de levar espetáculos ‘para os pobres’, mas justamente de espetáculos que rompam com as classes sociais ou discuta problemas da classe que os assiste, pois podemos acabar reforçando idéias que não nos pertence.

A Cia de Teatro Nu Escuro, de Goiânia, Goiás, levou uma adaptação da farsa medieval do Advogado Pathelin, misturando com o cordel e nominando-o de O cabra que matou as cabras. O grupo bebeu na teoria do realismo grotesco do russo Mikhail Baktin, criando personagens com corpos deformados, em que prevalece o baixo corporal e o duplo sentido. Logo no começo do espetáculo o ator/narrador pede para que acreditem no que irão narrar, senão uma caganeira os acometerá; este recurso de praguejar o público é utilizado por Rabelais em Gargântua e Pantagruel, obra estudada pelo teórico russo, é também uma forma de demonstrar para o público que atores e platéia são iguais, são do mesmo estrato social, são cúmplices, assim a confiança fica estabelecida. Este é ainda um recurso carnavalizante, que põe por terra as boas maneiras, as normas tão presentes na arte burguesa. Ainda dentro do universo carnavalizante, um outro recurso usado pelo grupo ao longo do espetáculo foi a paródia, que apareceram em orações e nas músicas conhecidas que foram reelaboradas. Todos são recursos cômicos largamente usados no seio popular. Aliás, este foi o grupo com as piadas mais picantes, demonstrando que estudaram muito bem o universo em que se embrenharam.

O grupo formado em São Paulo pelo peruano Lino Rojas em 1989, Pombas Urbanas, apresentou Histórias para serem contadas, um texto do argentino Oswaldo Dragún, escrito em 1957, mas extremamente atual. Mostra como o trabalhador comum é explorado. Destaque para o homem que virou cachorro, uma crítica ao subemprego que estão submetidos boa parte dos brasileiros. O grupo utiliza bem a narrativa falada e musicada; poderiam se valer desse recurso para deixar a primeira história um pouco mais direta, resolvendo repetições na dramaturgia. Poderiam ainda, utilizar mais a música ao vivo, fortaleceria o trabalho, afinal no grupo há músicos e todos os atores são experientes no espaço aberto, sabem, portanto, que este é um recurso muito forte para quem se dispõe a dialogar com o público da rua. Faltou ritmo ao espetáculo e as situações abordadas, por serem cotidianas, deveriam ser repensadas cenicamente, tornando-as mais imaginativas.

O Grupo Arte da Comédia do Paraná, levou ao Encontro Aconteceu no Brasil enquanto o ônibus não vem, um excelente pretexto para passear pela história do nosso país. Trata-se de um trabalho de máscaras, aliás, é importante dizer que são muito bem trabalhadas, tanto sua confecção bem como sua técnica, com triangulação impecável e gestos precisos. As máscaras da Commedia Dell`Arte foram adaptadas para a realidade brasileira, alguns tipos representam no espetáculo, estados brasileiros. Muitos dos problemas de nossa história vêm a baila nesse trabalho. Faltou um pouco mais de espaço para os atores se locomoverem e um pouco mais de volume de voz, mas a platéia permaneceu com eles até o fim, sinal de que foram conquistados pelo apuro técnico dos atores, bem como pela história que contaram. Um belíssimo trabalho com um ritmo contagiante!

Finalizando o Encontro o Grupo Teatro Andante de Belo Horizonte, Minas Gerais, apresentou A história de Édipo. Confesso que foi a primeira vez que vi uma tragédia na rua e foi realizada com poucas pessoas, quatro atores e um técnico apenas. Utilizando o recurso épico e a música ao vivo os atores deram conta do recado, realizando um bom espetáculo. Aliás, não necessitavam de microfones, pois o trabalho vocal dos atores é muito bom, tanto que um dos microfones falhou e o ator realizou sua função sem problemas. É um espetáculo muito bem feito, com excelentes atores, música bem executada, dentro de um tempo correto para o espaço aberto. O grupo mineiro está de parabéns!

A escuta na rua Para finalizar é importante falarmos da escuta para todos aqueles que se dispõe a fazer teatro de rua. Tendo o Encontro de Angra do Reis como referência, pode-se perceber que muitos grupos dispõem de uma escuta refinada, outros nem tanto.

Mas o que vem a ser escuta na rua? Trata-se da possibilidade real de troca entre atores e plateia. Os primeiros, ao travarem um jogo com os espectadores através dos fatos narrados no espetáculo, podem despertar a reflexão nos mesmos. Estes, por sua vez, querem interferir na realidade da obra, já que a rua não pede passividade por parte da platéia. Quando o ator escuta, seja a interferência dos espectadores, seja a interferência do ambiente, abre a possibilidade de diálogo, podendo agregar a interferência ao espetáculo. O diálogo não precisa necessariamente ser travado apenas com a fala, mas também com olhares, com o corpo etc. A escuta, seguida da troca, torna o espetáculo mais dinâmico e verdadeiro. Assim, a rua é um local que exige a adaptabilidade dos atores as realidades impostas pelo ambiente e pela platéia. Quando se troca verdadeiramente, o ator sai transformado, sente que ficou algo do que foi jogado para ele pela platéia, ao mesmo tempo ele deixou sua arte àquelas pessoas que o viram. Esse é o valor da escuta na rua: põe o ator em jogo direto com seu público. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a obra, re-significa o espaço, pois possibilitou a troca simbólica durante o espetáculo, naquele espaço de tempo, os atores re-significaram também suas vidas, pois travaram um diálogo humano. Assim, não basta ir para a rua, é preciso escutar, dialogar e trocar experiências com os espectadores. Sabemos da dificuldade, mas os mestres populares estão aí para nos ensinar.

Que venha o XV Encontro, com mais diversidade, com mais escuta e mais troca entre os fazedores e, principalmente, entre os fazedores e os espectadores.

domingo, 7 de junho de 2009

Alexandre Mate escreve sobre o XIV Encontro de Teatro de Rua de Angra dos Reis

I. TENTANDO UMA INTRODUÇÃO
por Alexandre Mate[1] 

Em uma de suas sempre significativas reflexões, o pensador francês Michel de Certeau afirma que passado-presente-futuro combinam-se para ressignificar as vivências cotidianas do espaço, na “arte” do caminhar. Nessa medida, a memória como algo que se produz permanentemente refere-se, sobretudo, às vivencias dos sujeitos com a espacialidade. Se –ao se lembrar de algo apresentado em um espaço – o exercício de memória (exercício mnemônico) subtrai muito da paisagem social e de tantos de seus complicadores, passado algum tempo depois do evento, é preciso um grande esforço no sentido de tentar trazer à consciência a troca de experiência simbólica, proposta pelo espetáculo na rua. Na retomada que vou tentar desenvolver agora, muitas das impressões que percebi no público – no período compreendido pela 14ª edição do Encontro Nacional de Teatro de Rua de Angra dos Reis, em que ocorreu o evento – é possível que se percam agora. Desse modo, se se lembra da obra, lembra-se dela subsumida do social. Nas práticas cotidianas, e talvez o mesmo pudesse ser dito em relação ao produzido pela memória há uma articulação, em um processo de vivência espacial, fragmentos, resíduos, ruídos e fantasmas que se incorporam nessa vivência produtora de sentido. Entretanto, exatamente pelo viver pressupor uma dialética permanente entre o que se ganha, ao se perder e vice-versa, vou tentar apresentar algumas das apreensões como participante crítico no evento acima citado. Vale destacar que não apresentei minhas apreensões antes por conta de excessos de trabalhos e de compromissos. Ter estado na bela Angra dos Reis foi um triplo privilégio, primeiro pela querida dupla formada por Licko e Jussara, a quem, e de público, agradeço o convite e a confiança; segundo pela oportunidade de assistir e trocar tantas impressões e apreensões durante o período de duração do evento e também pela acolhida, na bela – do ponto de vista humano e do natural – Angra dos Reis. Em sua 14ª edição, o Encontro Nacional de Teatro de Rua, acontecido entre 07 e 10 de maio de 2009, em Angra dos Reis, será revisitado – e agora, cidade de São Paulo, três de junho do mesmo ano – com o objetivo de trazer alguns fragmentos de belos espetáculos que por lá se apresentaram. Primeiro mérito precisa ser tributado à comissão de seleção, que soube criar uma programação representativa de diferentes experiências que podem ser levadas para a rua, objetivando principalmente a concepção e repertório, tanto dos fazedores de arte como aos apreciadores do teatro. Um painel diverso enriquece e amplia a potência de quem passa pelas ruas e, num momento de ruptura de sua cotidianidade dela espera algo significativo. Apesar de Jussara Trindade, gentilmente, ter enviado todas as fichas dos participantes, algumas chegaram sem qualquer informação (parece que o arquivo veio “corrompido”), motivo pelo qual evito citar nomes de pessoas. Outra coisa, como já faz algum tempo em que o evento foi apresentado, é possível, mesmo fazendo algumas anotações, que me confunda em uma ou outra coisa. Desse modo, peço desculpas, caso tenha cometido algum impropério, tenha misturado impressões, tenha, enfim, trocado bolas... Por último, não pude assistir a todos os espetáculos do evento. Desse modo, não vou, infelizmente (nesse momento, mas atento a outras oportunidades que apareçam), comentar todos os espetáculos. Positivíssimo, e facilitador, e pioneiro, e alentador foi a constituição de Núcleo Nacional de Pesquisadores de Teatro de Rua. Assim, trocas e encontros apresentam-se como vislumbres para um processo de trocas, permanentes, espero e vou batalhar. Quis escrever esse texto (mesmo correndo “certo perigo”), para apresentar algumas impressões críticas, tanto por haver me comprometido com essa tarefa como porque acredito ser fundamental realizar todos os esforços no sentido de documentar as experiências e espetáculos que são levados às ruas, parafraseando Gonzaguinha: “Dessa imensa avenida chamada Brasil.”

II. APONTAMENTOS DO ASSISTIDO 
Cia. Carroça de Mamulengos 
Oficialmente, o evento inicia-se muito bem com o digníssimo grupo cearense, de Juazeiro do Norte, Cia. Carroça de Mamulengos apresentando Histórias de teatro e circo. Sob uma lona, por conta de durante boa parte da madrugada ter chovido, o espetáculo atrasa sua apresentação. Foi preciso transportar o equipamento de um lugar para outro. Então, já no espaço de apresentação, há tempo para acompanhar a “passagem de som”. Com o violão dando completude ao corpo, a maestrina Maria Gomide – filha mais velha (?) da surpreendente mãe Schirley França: que tão belos seres colocou no mundo e em cena – coordenou trabalho de técnicos, no sentido de o som estar perfeito. No palco, acompanhando as evoluções de Maria, Beto Lemos e sempre com um sorriso rasgado, participava da festa também. Prova técnica, mas com os verdes olhos de Maria pousados na criançada, que lota a platéia, a todo o momento. No espaço de representação, um palco formado por tábuas perpendiculares à platéia, limitado por tapadeira-empanado de chitão, prefigura uma teia de aranha. O atraso para dar início ao espetáculo foi grande, mas o prazer de assistir àquela passagem de som fez com que não se percebesse tanto o tempo correndo. O espetáculo, com direção, criação e concepção de Carlos Gomide, inicia-se com um galo cenográfico e manipulado, que desfila sobre o empanado. O galo anuncia o início do espetáculo e o despertamento de vários bichos, que serão vestidos e mimados pelos atores da família... Na platéia a criançada vibra entusiasmada pelo desfilar de diversos bichos, e fica enlouquecida quando um deles, o dragão Xodó, solta fogo pela boca. Pirotecnia do bicho e da platéia. Emociona ver a emoção infantil, partilhada, contaminando alguns duros corações. Bastante emocionado por ver uma família tão linda, junta, apresentando-se, de modo tão harmonioso, penso porque gosto cada vez menos de espetáculos apresentados no palco... Nesse momento de devaneio reflexivo, uma criança desprende-se da mãe e vai até um “carneirinho” em cena para acariciá-lo... Ela o acaricia e conversa com ele: o que ela diz, claro, é um segredo!!! É isso, no devaneio, a resposta. No espetáculo de rua, que vislumbra a troca de relação e de experiência, como afirma a atriz Selma Pavanelli – do grupo paulistano Buraco d’Oráculo –, não se pratica o chamado “autismo estético”: atores e público se percebem e ressignificam, em igualdade, um momento vivido. Nenhuma parede ou muro existe para segregar, separar: os dois conjuntos se veem, ouvem o que um diz ao outro e preenchem uma relação presencial, repleta de tantas lacunas. Isso me remete à realidade social de que faço parte, e ainda em estado de devaneio – mas sem perder dos olhos e do sentimento que corre o espetáculo –, indago-me acerca dos legisladores. Esses seres já foram crianças, têm filhos, netos, sobrinhos... veem as crianças e parecem esquecer de como são simples a totalidade de suas necessidades. Ao esquecer isso, esquecem tantas promessas feitas e que, por meio de votos, foram eleitos, sobretudo por tantos pais e mães, cujos filhos crescem, mas sem que cresçam as oportunidades que se lhes deve. Apontando a importância da arte no processo de formação da criança, o importantíssimo crítico de artes plásticas, Mário Pedrosa, no texto Frade cético, crianças geniais, afirma: A mais autêntica finalidade desse aprendizado [educação pela arte] é mesmo a de preparar a meninada para pensar certo, agir com justeza, manipular as coisas judiciosamente, julgar pelo todo e não parcialmente, apreciar com proporção e confiança, gesticular com propriedade, utilizar-se das mãos com precisão, tirar alegria não só das grandes coisas e acontecimentos da vida, como, também, dos insignificantes e pequeninos. Ah! Esses que assim se conduzirem quando adultos serão artistas, mesmo que nunca mais peguem num lápis ou num pincel. Verão a vida como uma sadia e bela obra de arte a preservar... e apreciarão, acima de tudo, o trabalho bem realizado, pois neste sentirão a participação carinhosa do homem, penhor do racional, a emprestar-lhe um valor estético que transcende até ao ético.[2] Por intermédio de uma dramaturgia em forma de painel, e penso que aí reside o maior problema do belo espetáculo, as cenas – costuradas principalmente pelas músicas que apresentam uma narrativa épica – estruturam-se a partir de diferentes tipos de manipulação e expedientes característicos do espetáculo misto de rua. Os atores têm domínio do que fazem: tem pleno domínio da cena e da relação com a platéia; o figurino é clássico, bem talhado e colorido; as músicas são bem tocadas e cantadas... Em francês, fada escreve-se fée; dessa palavra surgiu um tipo de espetáculo cujo propósito é fazer aquilo que toda fada deve proporcionar: encantamento. Então, surge a féerie. Aclimatada ao português, a palavra, referindo-se a encantamento, foi grafada como feérico... Pensem como são feéricos os espetáculos das escolas de samba no Brasil, as festas do boi etc. Em teatro, são chamados de espetáculos feéricos, sobretudo, aqueles mistos, que misturam dança, canto, cenas dialogadas curtas... conhecidos como teatro de revista. O circo é feérico... Muitos espetáculos de rua também. Histórias de teatro e circo é feérico e encanta. Parabéns à ilustre família de artistas abrigadas pela Carroça de Mamulengos.

Cia. Chegança 
No primeiro dia de evento, o segundo grupo a apresentar-se, vindo de São Luís do Maranhão, foi a Cia. Chegança, dirigida por Michelle Cabral. Adotando proposição de processionalidade, os atores conclamam o público para segui-los saindo da Praça do Porto até a Praça Codrato Vilhena. Referindo ao ocorrido comigo, sem generalizar, evidentemente, o primeiro problema enfrentado pela Cia. Chegança diz respeito ao fato de “certa contaminação emocional” proporcionada pelo espetáculo anterior. Tomando Kant, estremeci de prazer diante da beleza proporcionada pelo espetáculo da Carroça de Mamulengos. Os integrantes do grupo do Maranhão, e isso era visível, davam o seu melhor, mas, ao nos conduzir de um ponto a outro, o cantar de seus integrantes apresentava-se sem potência, sem brilho, sem jocosidade. Nenhuma vez, os atores tentaram instigar o público a cantar junto, ainda que fosse um verso, um refrão... Seguíamos os atores, mas apartados do espetáculo. O canto de entrada, que na tradição popular, precisa ser forte e conclamante, anunciante da companhia que chega não cumpriu sua predestinação. O título da obra, bastante sugestivo: A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99, do mesmo modo como a chegança, não buscou o público, não se relacionou – solicitando cumplicidade, sugestões, ajuda – com a platéia: permaneceu enterrado em si mesmo. Insisto que os atores, debaixo de um sol intenso e forte, davam o seu máximo, mas o espetáculo não conseguia manifestações de cumplicidade. Usando uma metáfora, sobrou alguma coisa de alvenaria imaginária (alusão à quarta parede) impedindo uma relação e troca de experiência com a platéia. Era claro haver uma concepção de espetáculo, banhada por um conjunto de tradições populares, do cordel a alguns passos de dança – que Mario de Andrade nomeou dança dramática... –, passando pelo ritmo musical, mas, e infelizmente, em Angra dos Reis, o espetáculo não cumpriu sua destinação intrínseca enquanto espetáculo popular de rua. Talvez os atores precisassem, naquele momento, de mais um período de treinamento e de conhecimento do requerido para as manifestações de rua. Como observação final, à saída do espetáculo, e um pouco mais distante, não deixa de ser digno de nota, o fato de o Sr. vice-prefeito, segundo me informaram, em nome da gestão Tuca Jordão, distribuir rosas às mulheres passantes por conta de, no dia seguinte comemorar-se, oficialmente, o chamado “dia das mães”. Desse modo, por justa razão, depois de a mulher da peça vender seu “folgado marido” por R$ 1,99, todas as outras, alegorizadas ou não nela, eram premiadas com uma flor.

Irmãos Brothers 
À noite, ainda no primeiro dia de evento do Festival, na Praça da Matriz, foi a vez do grupo, sediado no Rio de Janeiro, Irmãos Brothers mostrar o seu a que viemos, “mostrar o seu valor”. Nessa primeira noite, já era possível perceber o sucesso do evento: a praça estava absolutamente lotada, “gente saindo pelo ladrão”. Com direção de Jorge Fernando e batizado 15 anos dos Irmãos Brothers, o espetáculo oferece ao público uma espécie de “melhores momentos de seu repertório”, inserindo-se na proposição de espetáculo de variedades, decorrente do significativo período de existência do grupo. Cumprindo rigorosamente aquilo com o que se compromete e apresenta em suas peças gráficas, os “manos em duplicidade” conseguem embalar e envolver a platéia durante todo o curto tempo, que demora o espetáculo. Os integrantes do grupo apresentam vários números juntos, e cada integrante tem seu momento solo, relacionando-se, muitíssimo bem, com a platéia. Nesse particular, e vale cumprimentar o formato sugerido pelos coordenadores do Festival e pela Cultuar – Fundação de Cultura de Angra dos Reis, os integrantes dos grupos acompanham todo o festival. Desse modo, imagino que os atores da Cia. Chegança devam ter se divertido bastante e apreendido inúmeras probabilidades de relação com a platéia. O espetáculo foi uma verdadeira festa e deliciosamente divertido. Entretanto, e por já conhecer o trabalho do grupo, prefiro os Irmãos Brothers apresentando espetáculos a partir de uma dramaturgia com personagens, narrativa, transformação de objetos... Insisto em que a explicitação de meu próprio gosto pessoal não tira o mérito do grupo e do trabalho!

Cia. Mamulengo da Folia
O segundo dia da 14ª edição do Festival Nacional de Teatro de Rua de Angra dos Reis começa muito bem. Na Praça do Porto, Danilo Cavalcanti, um atual paulistano, que já chamei de “mezzo nordestino e meio italiano”, traz a eloqüência popular nordestina e promove sua explosão, por meio de bonecos, prosódia, música e mentalidade pernambucanas. Para fazer o reconhecimento do público, Danilo Cavalcanti, na condição de boneco-bicicleteiro passeia pelo espaço em que o espetáculo irá ser apresentado. Difícil permanecer alheio, triste, “angelical”, inocente às personagens da tradição popular nordestinas. É certo que a narrativa é contada tomando a tradição da literatura de cordel, mas Danilo Cavalcanti consegue mimar a todas elas carregando em si uma longa e significativa tradição popular. Escondido atrás do empanado, mas de olhos firmes na platéia, Mestre Danilo Cavalcanti envolve, emociona, encanta pelo caráter popular da malandragem nordestino-brasileira. Nesse sentido a narrativa aparece repleta de expressões e alusões grotescas (que podem ser chamadas também de escatológicas), por exemplo, há uma personagem chamada Cabo Setenta (que existe também na obra Torturas de um coração de Ariano Suassuna). Ocorre que, de acordo com prosódia nordestina, as sílabas são faladas de modo intenso, à exceção da “ten”, a personagem é apresentada como “cabusetenta”... é clara a alusão ao órgão sexual feminino. O espetáculo ganha um tom mais característico e transporta para qualquer uma e todas as praças nordestinas (localizadas em qualquer Estado nordestino ou paulista ou carioca ou brasileiro) pelo trio de músicos: sanfona, zabumba e triângulo embalam as personagens e a narrativa apresentada por Danilo Cavalcanti. O espetáculo A folia no Terreiro de Seu Mané Pacaru imprime a nós todos, brancos ou negros, nascido em qualquer região do País de que temos uma raiz próxima, algo imaterial a zelar, a preservar e com o qual nos embalar... parafraseando Noel Rosa, a partir de uma língua que já passou de português.

Grande Cia. Brasileira de Mystérios e Novidades 
Caminhando em direção em que o próximo espetáculo seria apresentado, entrei para conhecer a Igreja de Santa Luzia. Linda construção inaugurada em 13 de dezembro de 1632. A data em princípio, o 13 de dezembro me terrificou, afinal, muitos séculos depois, nesse mesmo dia, em 1968, o País foi mergulhado em uma de suas piores ditaduras... Depois desse choque momentâneo, a monumentalidade e, sem qualquer paradoxo, a simplicitude da igreja encantam. Fiquei imaginando ao olhar tantos detalhes, os primeiros trabalhadores que ergueram aquela construção, tantos outros em várias reformas de que devem ter acontecido. Quantos fiéis ajoelharam-se naquele chão, quanta fé e esperança depositadas nos santos de lá. No breve momento em que lá estive, algumas pessoas rezavam fervorosamente... Saio da bela Igreja reprovando apenas a placa que solicita aos fiéis qualquer ajuda econômica para a salvação de suas almas... Nesse dia 08 de maio, às 16h, constava da programação do Festival o espetáculo Ciclope, fundamentado no mito grego homônimo, apresentado pela Grande Cia. Brasileira de Mystérios e Novidades do Rio de Janeiro, mas fundada em São Paulo, em 1990, e dirigida pela instigante e sempre criativa Lígia Veiga. A nova e bela Praça Zumbi dos Palmares (Largo do Mercado Municipal) preencheu-se do mais entusiasmado espetáculo ritual. A apresentação inicia-se com deidades gregas, ou não seriam ajoiés/ekédis da tradição do candomblé? O fato é que as sincréticas personagens montam no espaço-terreiro-templo um monumento: uma cabana. Várias hipóteses podem ser formuladas acerca da cabana, mas, para lembrar o empenho e a pesquisa de Lígia Veiga, é bom lembrar que a palavra grega skéne, cujo significado é cena, tem como raiz sk, que indica palavras que selecionam, abrigam o conceito de fazer sombra. Desse modo, sk caracteriza-se na raiz do verbo skenéo que significa construir tenda. Esse parêntese é aqui apresentado para demonstrar que a encenadora do espetáculo transita esteticamente com significativo processo de pesquisa. Tão logo a tenda mítico-cosmogônica é montada, aparece uma sugestiva carroça e nela o espaço que será consagrado às musicistas. Trata-se, sem dúvida, se se puder falar desse modo, do ponto alto do espetáculo. A sonoridade criada pelas mulheres é deslumbrante: são musas-musicistas surpreendentes. A pesquisa sonora com instrumentos inusitados é arrebatador. Ciclope entra, e em disputa pelo poder, acaba arrebanhando sátiros, cuja coriféia é uma negra atriz linda Mafalda Pequenino (e peço desculpas por não apresentar outros nomes a ficha técnica do espetáculo chegou-me corrompida), que singra o espaço, em puro ato de enfrentamento: personagem e atriz enfrentam tanto a ficção da obra como a realidade das ruas! O espetáculo é grandiloqüente, ousado e tem estofo de quem sabe o porquê vai para a rua e a quem o espetáculo deve atingir. Apesar da grandiosidade da obra, há, ainda (não sei se premeditado ou não), certa limpeza a ser promovida. Dentre elas, destacaria muitas das falas coletivas do coro. Certa histeria corporal da personagem coletiva tem um caráter excessivo (atores parecem esquecer que o espetáculo é feito para um público) e não se consegue ouvir o que fala as personagens, sobretudo quando se encontra em deslocamento. De qualquer forma, penso, pode ficar contente esse conjunto de criadores pela obra construída. Lígia Veiga é uma grande “maestrina da cena” e organizou um grande momento de criação coletivo. Que o espetáculo tenha uma grande vida e que consiga ser apresentado muitas vezes!

Cia. Gente de Teatro 
A gente morena, chegando da Bahia – terra de Assis Valente e de tantos outros artistas – veio para mostrar o seu valor. Como não são bobos, eles chegam em coro e vêm supercoloridos, usando, como intróito de chegança, o Abre alas da grande compositora Chiquinha Gonzaga. Na chegança, e à semelhança do adotado como prólogo na forma da revista teatral e certas manifestações de rua, o elenco apresenta-se, e, também, ao diretor do espetáculo, Luis Bandeira. Nesse segundo dia de evento, e com tantos espetáculos já assistidos, não deixa de ser louvável tratar-se do primeiro grupo a apresentar-se sem microfone. Não vou tratar dessa questão, mas quero lembrar que são muitos e polêmicos os pontos de vista, de puristas e tradicionalistas: premidos ou não por ortodoxias, que se posicionam de modos opostos acerca do uso do microfone em espetáculos de rua. Ainda com relação a espetáculo de rua e na rua também há pontos de vistas diferenciados, mas não cabe, nesse momento, tal discussão. Cabe, sim, o registro de que a totalidade dos integrantes do grupo conseguiu ser ouvido, durante a lotadíssima apresentação do espetáculo, na Praça da Matriz. Apresentado o coro, os pregoeiros apresentam-se individualmente, cada um vendendo seus produtos. Nessa venda, sobretudo pelo vendedor de bananas e depois pelo vendedor de rolinhas, há muita ambigüidade e deliciosa alusão sexual. Nesse momento, o público já é capturado pelos atores e pelo espetáculo. Por meio dessa percepção, e conscientes de que já houve uma conquista da platéia, a maioria dos atores, joga e muito bem, trocando experiência. Se na noite anterior, naquele mesmo espaço, os Irmãos Brothers haviam brincado com a platéia, com os atores da Cia. Gente de Teatro, mesmo sem ir ao centro da cena, a verve de alguns atores, fez com que a platéia fosse a oitava personagem. Os atores transitam com a tradição das narrativas populares e mesclam no espetáculo a criação de personagens com a inserção épico-narrativa. Duas das atrizes, a dona da barraca e a vendedora de ervas, irreconhecível, sem maquiagem são excelentes. Uma das atrizes, a mais alta, destoa do conjunto, inclusive na maquiagem... Todas as mulheres carregam nas tintas e no colorido da maquiagem, mas esta última usa uma maquiagem clássica. De qualquer forma, mesmo havendo alguma dissonância, o conjunto e afinado e afiado, e, pode-se dizer, herdeiro de uma certa tradição da comédia popular, maravilhosamente bem aclimatada ao nordeste brasileiro. Bahia veio muito bem representada com o seu Cordel do pega pra capá.

Cia. da Lua 
Primeiro grupo da cidade a apresentar-se no evento. Infelizmente, o local escolhido – a Bica da Carioca, local erigido em 1842 – pelo fato de ser um grupo local e ter levado um número grande de espectadores, fez com que aqueles que chegaram ao espetáculo, mesmo na hora marcada, não conseguissem ver o espetáculo. O local escolhido prejudicou sobremodo a apreensão ao trabalho. Do que deu para perceber, podem ser destacados alguns problemas. Além de o local escolhido ter sido equivocado, trata-se de uma obra concebida para palco e não para rua. Desenhos de cena, texto (extremamente retórico e ligado ao que se chama de teatro de conversação), entradas e saídas amparadas no conceito de coxias, altura da voz, a iluminação... Tudo característico de teatro de caixa. Nenhum problema há em que um espetáculo de caixa vá para a rua, entretanto, esse deslocamento pede mudança dos expedientes cênicos. Do ponto de vista temático, e a obra, segundo consta, desenvolve-se na década de quarenta do século XIX, o ponto de vista é da classe dominante. O ator que faz o escravo aparece (e isso é questão de concepção de quem dirige) de modo arquejado e meio néscio. Como todas as outras personagens são desenhadas de “modo ereto”, a comparação é inevitável... Trata-se de uma personagem próxima ao estereótipo, o que é uma pena. O olhar a partir do qual a personagem é vista e concebida, sem dúvida, corresponde a como certa classe dominante escravagista concebia o negro. Apesar de esforço do conjunto, no sentido, por exemplo, de certa reconstituição do figurino, um dos atores – e não acreditei nisso quando vi, e depois alguém também chamou a atenção para isso – usava um brinco em uma das orelhas... Como havia a intenção de recuperação de certa visualidade na reconstituição da obra, esse deslize foi muito mal. O diretor precisa olhar esses detalhes. Penso que os integrantes da Cia. da Lua – e lembro da atriz que fez a mãe no espetáculo ter participado do processo interventivo desenvolvido pelo mago de todas as praças, Amir Haddad – devem ter aproveitado o evento como um todo. Penso que se houve troca e interlocução, mais pessoas devem ter apresentado ao conjunto que apresentou A lenda da Bica da Carioca, alguns dos pressupostos de quem se apresenta nas ruas. Assim, que eu possa ver esse mesmo conjunto, em outro ou no mesmo espetáculo, promovendo, por meio da escuta e dos procedimentos característicos de quem escolhe a rua, trocas com a platéia.

Cia. de Teatro Nu Escuro 
Diretamente do Estado de Goiás, e passando por outros encontros e festivais, a Cia. de Teatro Nu Escuro escolheu, como texto a conferir um ponto de partida ao espetáculo, o “clássico” A farsa do Mestre Pierre Pathelin, de autor anônimo francês do século XIV/XV. Decorrente do espetáculo anterior, apresentado relativamente perto da Praça da Matriz, novamente lotada, o espetáculo teve de sofrer um atraso para que o público que assistiu ao espetáculo da Cia. da Lua tivesse tempo de chegar ao espaço em que seria apresentado O Cabra que matou as cabras. Assim, mas não pelo atraso ocorrido para iniciar a apresentação do espetáculo, tendo em vista tratar-se de uma proposta da direção, os atores-personagens passeiam por entre o público. Um desses atores, o tal Cabra, passa com uma garrafa de – imagino – aguardente, talvez para deixar o “miolo mais mole” da platéia. Afinal, ele será julgado, logo mais, em uma cena de julgamento. Opção do jovem diretor – Hélio Fróes, e o afinadíssimo grupo demonstra domínio da cena, das relações de troca com a plateia –, os atores não usam microfone, e são absolutamente ouvidos pela grande platéia presente ao espetáculo. Trata-se do espetáculo mais escatológico de todos a se apresentar na 14ª edição do Encontro Nacional de Teatro de Teatro de Rua. Desse modo, como já havia mencionado antes o conceito, talvez agora, e brevemente, fosse importante apresentar alguns indicadores conceituais do termo. Parte significativa dos termos e conceitos utilizados em teatro foi cunhada pelos gregos da Antiguidade clássica e transposta aos que vieram... Hoje, o conceito de escatologia refere-se, sobretudo, a comportamento mal educado, deselegante, não civilizado, decorrente de skatoslogos: referindo-se a doutrina que disserta sobre as fezes. Tendo uma pequena variação gráfica eskhatoslogos, o conceito refere-se a doutrina final do tempo. O conceito aqui utilizado refere-se, portanto, à primeira conotação. As personagens da montagem do grupo de Goiânia são personagens, fazendo uma alusão ao filme de Ettore Scola, além de sexualizadas: feias, sujas e malvadas. Diferentemente de A lenda da Bica da Carioca, neste espetáculo, e não apenas pelo texto original, o ponto de vista da encenação corresponde, como se espera de um espetáculo popular, não é o do comerciante ou do advogado, mas ao do empregado. O ator que apresenta esta personagem (o Cabra) é excelente. Tem domínio de seu fazer e do modo como lida com a platéia. De modo semelhante, precisam, também, ser destacadas as atrizes que fazem o advogado e sua mulher. Parabéns a todo o grupo e ao seu belo trabalho. Foi uma excelente finalização de segundo dia de jornada.

Grupo Pombas Urbanas 
O queridíssimo Lino Rojas, que tanta falta faz a tantos de nós, muito deixou. Pelo exemplo comportamental e de militância, pelos trabalhos apresentados, pela crença e tenacidade com a qual sempre abraçou o trabalho comunitário. Trata-se de um artista digno, avesso às badalações, e que escolheu um bairro muito distante da zona leste da cidade de São Paulo para disseminar e trocar seus tantos saberes. O Pombas Urbanas, em seus tantos tentáculos, tanto sociais como estéticos, representa uma continuidade do trabalho de Lino Rojas. Assim, pelo menos para mim, vê-los em cena significa, de modo algum aprisioná-los ao mestre, mas, o que me deixa muito feliz, constatar – a partir da mudança dos tempos – uma sequência àquele trabalho. Apresentado o argumento inicial, penso poder, e como o fiz pessoalmente ao Adriano Mauriz, discorrer acerca de alguns problemas acerca do espetáculo. Adotando algumas determinações do teatro épico, os seis atores do espetáculo dividem-se, todo o tempo em representar e contar as duas histórias que compõem o espetáculo. O primeiro problema, e também de acordo com tantos colegas com os quais tive a oportunidade de conversar, decorre dos textos escolhidos. A primeira delas, decorrente de uma dor de dentes, tem uma cotidianidade absolutamente comum, mas sem qualquer atrativo alegórico mais interessante. A segunda, totalmente alegórica, ao contrário da primeira, é excessivamente alegórica. Desse modo, do ponto de vista temático, entre uma e outra história, os extremos parecem não se encontram na obra. Desse modo se a segunda história alegoriza a vida cachorra, por que pintar o ator como se fora cachorro? Não se trata de uma alegoria? Os atores têm senso e domínio absoluto do espaço de representação e do pressuposto pelo teatro de rua, tentam processos de troca, mas tanto as discussões propostas pelos textos como as proposta de encenação parecem não ajudar. De todos os espetáculos assistidos até então, na Praça da Matriz, cujo público foi aumentando dia a dia, Histórias para serem contadas foi aquele em que houve um abandono maior durante o espetáculo, terminando, também, com um menor número de pessoas na praça. Afirmaram alguns parceiros de São Paulo que, originalmente, o espetáculo compreendia três histórias, e que, por problemas de entendimento, a terceira foi suprimida. Então, o tão grande esforço feito (e é muito perceptível isso) pelos atores decorre da ausência da terceira ou pelo problema, mesmo, com o próprio espetáculo. Espero, e a visita já está marcada, assistir a muitos espetáculos do grupo. Por enquanto, ficou a potência do grupo, mas não um resultado significativo.

Grupo Arte da Comédia 
Sob o curioso título de Aconteceu no Brasil, enquanto o ônibus não vem, o grupo curitibano, dirigido pelo italiano Roberto Innocente. Assim, por tratar-se de um mestre, o diretor, que assina também o canovaccio, o espetáculo acontece maravilhosamente. Comunica-se com o público, consegue apresentar, com grande clareza, a narrativa e diverte o público. O intróito (chegança) acontece de modo “rebombante”, trata-se de um grande modelo para que o público, próximo e distante, aproxime-se e fique ligado interessadamente no que acontecerá com aquela gente “barulhenta”. Alguns grupos mais discretos que se apresentaram no evento, penso, devem ter aproveitado bem aquela lição dos commedianti dell’arte. No início fiquei meio aflito porque a dramaturgia era muito fragmentada, mas depois dos dez primeiros minutos, tranqüilizei-me porque tudo passou a confluir para contar a história de o espetáculo de máscaras ser apresentado. Aclimatando uma tradição da commedia dell’arte, o diretor solicitou que cada personagem buscasse uma prosódia (um sotaque) característico de diferentes regiões do Brasil. Isso funciona, na maior parte das vezes. O arrebatamento chamado Ana Rosa Tezza apresentou um sotaque... mas qual? Aliás, diria que a atriz “é” um sotaque. Seu trabalho de criação é comovedor: ela se dá toda, por inteiro, sem medo! O espetáculo tem excelentes achados, “peca”, entretanto, se se puder falar assim, no que diz respeito ao tamanho diminuto do palco. Os atores não evoluem no palco, trombam-se, o que faz a beleza estética ficar em processo de esbarramento. Passado algum tempo depois do espetáculo, penso que o sistema de iluminação também é precário, ilumina pouco e não permite ver, sobretudo, a beleza das máscaras. Por fim, percebe-se que Roberto Innocente é um mestre e sabe perfeitamente que faz e como atingir seus objetivos estéticos. Mesmo cometendo injustiças, penso que Roberto e Lígia Veiga serem os dois melhores diretores do evento.

Experiência subterrânea 
Cercado de grande curiosidade por parte dos profissionais que se encontravam no evento, afinal André Carreira é um importantíssimo pesquisador de teatro, sobretudo o teatro de rua, no sábado à noite, saindo da Fundação Cultuar, iniciaram-se as performances do espetáculo Circo negro. O texto foi adaptado do livro homônimo de Daniel Veronese pelos integrantes do grupo, sob coordenação de André Felipe Costa Silva. Os atores do grupo vestiam-se a partir de diferentes trajes, explicitando tipos e situações sociais diferenciadas, transitando, ao que tudo indica, com situações próximas àquilo que já foi denominado de humor negro. Na primeira cena, por facada, alguém mata alguém. Ao fim da cena, evidencia-se que a morte foi uma brincadeira. Deslocando-se desse primeiro espaço e em rua próxima dali ocorre a segunda cena, difícil de ser assistida porque o público, em apertado espaço cercou a cena. Apesar de ter 1,90, confesso não ter conseguido assistir a cena. A terceira cena foi em outro lugar, igualmente estreito... A quarta cena ocorreu em uma estreitíssima viela, transversal à Praça da Matriz... Confesso, e porque não queria correr ou brigar para assistir à cena, “desisti” do espetáculo e dirigi-me para o espaço onde ocorreria o próximo espetáculo. Por conta disso, não tenho nenhuma condição de avaliar a obra. Ministro aulas na Escola Livre de Teatro de Santo André, nela há um núcleo de formação de diretores, atualmente sob a coordenação de Luiz Fernando Marques (do Grupo XIX de Teatro), os diretores apresentam cenas nos lugares os mais inusitados: de marquises de praças públicas a banheiros diminutos. Ao entrar em contato com tais propostas, me pergunto: para quem essas obras são feitas!?

Coletivo Pulso 
Tudo no início é zen. Uma marcha, marcialmente lenta, promove o deslocamento de dois atores-músicos, de fora para dentro do espaço de representação. Aliás, e claro que cadeiras são essenciais para os mais velhos, portadores de alguma deficiência física, para mulheres gestantes, mas a totalidade dos espaços – e isso é um contrasenso para espetáculos de rua – já se definia pelas cadeiras que cercavam o espaço de representação. Voltando ao espetáculo, com o curiosíssimo título: Hai-kai – somente as nuvens nadam no fundo do rio, tudo no início intentava o silêncio, o comedimento. O título já preconizava, prefigurava aquilo que eventualmente poderia acontecer. A inspiração para a criação de um hai-kai, trazido por musicalidade corda-sopro: acordeón-flauta que se consubstanciaria por intermédio de dois criadores, ou os dois formariam um só? Em português e ao que tudo indica em japonês, o hai-kai é criado. Criada a obra, mesclando duas culturas, imbricadas em uma só, o suscitado imagético decorrente do hai–kai “ganha o mundo”. Todos os elementos da natureza apareceram e se transfiguraram em imagem: um conjunto de efeitos e pirotecnias irromperá a cena e deixaram impactados os espectadores. Os atores do espetáculo, de certo modo, transitam entre a interpretação, a dança, a contraregragem... Ao fim, terminado o espetáculo, há uma grande inquietação... O espetáculo se caracteriza em um grande enigma. Como decifrá-lo? Com Clarice Lispector aprende-se que não é preciso preocupar-se com entender na medida em que viver ultrapassaria qualquer entendimento. Em um evento da envergadura do 14º Encontro de Teatro de Rua de Angra dos Reis é fundamental que os organizadores e curadores possam programar espetáculos mais experimentais, mesmo que não se trate de um espetáculo de rua, mas que seja montado na rua, sobretudo por conta da pirotecnia, como a chuva ao final.

Galpão Cine Horto 
Infelizmente, por problemas de confusão na agenda, não tive oportunidade de assistir ao espetáculo Arande Gróvore, mas os companheiros com quais conversei, rasgaram muitos elogios ao espetáculo, tanto pelo inusitado da prosódia como à delicadeza na concepção e criação da obra. Fico devendo essa aos artistas, e, porque não sou bobo, em nada, espero poder assistir ao espetáculo brevemente. Circo Nossotros Em muitos aspectos, o espetáculo Famiglia Milan e o Gran Circo Guaraná com Rolha assemelha-se ao espetáculo apresentado pelos Irmãos Brothers. Trata-se de um espetáculo sem dramaturgia clássica, e que, no caso da Famiglia Milan metateatraliza suas ações em um um circo, que é o Gran Circo Guaraná com Rolha. A obra apresenta o frontispício de um circo (que esteve lindo em contraste com a bela fachada da Igreja da Matriz: o vermelho e dourado do circo, em contraste com o branco da Igreja, no escuro da noite ficou, realmente, muito belo! Sandra Saraiva e Marcelo Milan, casados na vida real, vivem, na obra em epígrafe, um casal de malabaristas. Vestidos à moda dos anos 1920, o casal, na vida ficcional, dá um verdadeiro espetáculo de malabarismo, equilíbrio e confiança. Emociona-me sempre (e, com certeza, não só a mim) a confiança requerida e demandada por esse tipo de atração. Marcelo suporta a leve Sandra e esta entrega-se ao parceiro destemidamente. Mesmo faltando uma dramaturgia que pudesse dar sustentação emocional à história das duas personagens circenses, os números apresentados: da sustentação ao número de bicicleta, conseguem remeter, pelo cuidado da coreografia, do figurino, do casal equilibrista..., a um contexto de antigas tradições circenses que não se vê mais... Pelo menos, à exceção dos grandes empreendimentos, nunca tive oportunidade de assistir a esse tipo de número circense, com os requintes apresentados pelo casal Saraiva/Milan. Não fossem todos os méritos apresentados, a resistência (muito bem realizada) já se caracterizaria em justo júbilo. Ao casal parabéns e longuíssima vida! Obs. – que, pelo menos, uma das lindas filhas do casal, tome gosto pela “coisa” e siga a tradição!

A história de Édipo 
O espaço cênico delimita-se a um palco-traquitana, com função monumental. Propício a espaços abertos, os atores evoluem, sobretudo, nos planos que compõem a edificação vertical, constituídas por andaimes da Rohr. Além de espaço de representação, donde a adjetivação traquitana (que implica em diversas funções), no cenário-totem são dependurados todos os objetos de que necessitam os atores ou as personagens para apresentar a história de Édipo. O diretor Marcelo Bones transformou o mito grego de Édipo, com o conjunto de atores do Grupo Teatro Andante, em um espetáculo absolutamente eletrizante. Já havia assistido ao espetáculo anteriormente em Belo Horizonte, durante o dia, na Universidade Federal. Havia, na ocasião, na capital mineira, ficado bastante impressionado, mas à noite e a céu aberto, na Praça Zumbi dos Palmares (e o grupo apresentou-se em uma noite que o “céu angreense explodia”) toda a sofisticação do espetáculo vem à tona e envolve o espectador. Trata-se de um espetáculo em que todos os detalhes confluem, e com critério estético, para constituir uma obra com unidade: músicas ao vivo, em concepção, exploração e concepção muito bem resolvidas; figurino vermelho com fitas cruzando e macerando o corpo, a partir dos pés (alusão, portanto, ao mito); luz absolutamente afinada ao espetáculo; o já mencionado espaço de representação; o trabalho dos atores, e sobretudo dos dois atores). Em rápidos cinqüenta minutos – e afirmo isso, também, pelo que se podia sentir e respirar junto ao público –, houve um significativo momento de troca e de contato com uma curta, mas efetiva obra prima. Parabéns ao grupo e seu conjunto de criadores!

III. SAIDEIRA 
Voltando ao começo, reitero os agradecimentos com relação ao convite feito por Jussara Trindade e Licko Turle, à Prefeitura de Angra dos Reis e à Fundação Cultuar, na pessoa de Mário dos Anjos, aos parceiros de conversa e à alvissaríssima possibilidade de criação de um Núcleo Nacional de Pesquisadores de Teatro de Rua. No concernente aos comentários críticos, mesmo atrasado, fiz questão de apresentar alguns pontos de vista acerca dos espetáculos assistidos, e o fiz de modo meio acelerado. A vida tem exigido tal presteza. Entretanto, penso, essa é uma alternativa para que trocas e interlocuções possam ser desenvolvidas. A todos, coloco-me à disposição. Então, abraços fraternos do tamanho do mais amplo bem querer. Vamos que vamos, fazendo histórias, estando na história, registrando para a criação de uma história. Ao finalizar: Vai passar nessa avenida um samba popular (...) Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória Das nossas novas gerações. Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes Erguendo estranhas catedrais E um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval, o carnaval, o carnaval.(...).[3]

NOTAS
[1] Pesquisador e professor do Instituto de Artes da Unesp de São Paulo. Integrante, com justo júbilo, do Núcleo Nacional de Pesquisadores de Teatro de Rua.
[2] Mario PEDROSA. Frade cético, crianças geniais. In: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Perspectiva, 1981, p.177-78.
[3] Vai passar, letra de Chico Buarque de Hollanda e música de Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime. Coletado no endereço eletrônico http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45184/ [visitado em 08/07/2008].