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domingo, 9 de agosto de 2009

Possíveis definições para o teatro de rua

Por Adailtom Alves Teixeira[1]

Este artigo tem por objetivo abordar algumas definições dadas por pesquisadores ao teatro de rua, sem, no entanto, aprofundá-las devido ao pouco espaço.

O teatro de rua tem fortes vínculos com a cultura popular, no entanto, isso não quer dizer que todo teatro de rua é popular. Daí o risco de qualquer definição fechada. Para além dos fortes vínculos com as culturas tradicionais, o teatro de rua também recebeu influências do Agit-Prop (Centro de Cultura Popular nos anos 60) e do circo, principalmente o chamado “circo novo”.

Para Fabrizio Cruciani e Clelia Falletti o teatro de rua estaria ligado ao rito, a arte e a festa; por isso abarca “coisas bastante diversificadas” (1999, p. 19). Já Fernando Peixoto identifica-o às “raízes das mais autênticas manifestações da identidade cultural nacional” (1999, p. 143). O autor utiliza em sua definição termos delicados, já que toda identidade é uma construção (Cf. Renato Ortiz, 1994), e o termo “nacional” é controverso e já serviu em momentos autoritários para nortear políticas de culturas que buscaram forjar uma única identidade para todos os brasileiros. Alberto Miralles, em Novos Rumos do Teatro, ao abordar o fazer teatral dos anos 60 e 70 do século passado, afirma que o teatro de rua é uma “arte produzida à sombra, marginalizada” (1979, p. 84) e que se coloca contra o estabelecido. Cabe lembrar que o autor refere-se a um teatro produzido na Europa e nos Estados Unidos da América, distinto de nossa realidade. Patrice Pavis em seu Dicionário do Teatro, diz que o teatro de rua é “uma volta às fontes”, sendo produzido “em locais exteriores às construções tradicionais” e que por muito tempo “se confundiu com o Agit-Prop” (2005, p. 385). Por fim, André Carreira diz que “o teatro de rua abarca todos os espetáculos ao ar livre que optam por ficar fora dos teatros convencionais e utilizam espaços urbanos apropriados temporariamente para o fenômeno teatral, permeáveis ao público acidental” (2007, p. 54).

Levando em conta a realidade brasileira e as diferenças de produção em território tão extenso, fica claro que todas as definições podem servir mais ou menos, dependendo de quem está produzindo. Claro está que é um teatro que se opõe a arte oficialmente estabelecida: a arte burguesa. Para nós, teatro de rua é uma manifestação marginal que utiliza o corpo e o discurso no espaço aberto a serviço do estético, apropriando-se ou não da paisagem como cenário, de maneira a permitir a fruição a um público passante.

Nossa definição vai ao encontro de um teatro que busca relacionar-se com o ambiente e o cidadão, seja ele urbano ou não. Ao colocar-se no espaço aberto – um local, em tese, de todos –, o teatro de rua não seleciona seu público, sendo eminentemente democrático desse ponto de vista, já que a única coisa que prende o espectador é o interesse que o espetáculo desperta.

Rubéns Brito em sua tese sobre o grupo Mambembe afirmou que “a condição espacial é a essência do próprio teatro de rua” (2004, p. 17). Não há dúvida que uma das maiores especificidades do teatro de rua é o espaço em que ele se coloca. Sendo possível utilizar, no caso urbano, a própria cidade como cenografia, isto é, prédios e monumentos podem vir a ser elementos cênicos. Por isso mesmo, não podemos esquecer que “o espaço está carregado de sentido” (CASTELLS, 1983, p. 249), a fachada de um banco não tem o mesmo significado que uma igreja e isso é preciso ser pensado na criação dos espetáculos teatrais que utilizam a paisagem urbana em seus espetáculos. Assim, a rua por ser polimorfa, do ponto de vista de sua ocupação teatral cria possibilidades cênicas também polimorfas. Por estar em um local que pertence a todos, outro aspecto importante é a interferência que o espetáculo de rua recebe, pois, enquanto os atores jogam com o público, estes, por estarem no mesmo nível, em pé de igualdade, jogam para os atores, em um jogo dialético que faz o espetáculo avançar. Não podemos esquecer também que o espetáculo, ele próprio, é uma interferência no espaço e ao interferir re-significa o ambiente, tornando-o propicio a fruição. Nesse momento, o passante adquire a condição de espectador. Para André Carreira todo grupo que se coloca na rua transgride-a, resignificando-a, daí o conflito “com as instituições burguesas” (2007, p. 37), que devem regular e fiscalizar para que as ruas tenham usos ‘apropriados’ dentro do sistema vigente, dito de outra forma, querem que as ruas sejam apenas escoadouro do capital.

O teatro ao colocar-se na rua se contrapõe a arte hegemônica, organizando seu espaço cênico e desorganizando o espaço da rua em seu uso cotidiano, isto é, de escoadouro de mercadorias e local de passagem, a rua transforma-se em local de fruição. E tudo isso acontece ao mesmo tempo em que a vida acontece. Assim, o teatro de rua é uma arte que organiza enquanto desorganiza: se apossa dos espaços públicos abertos para organizar-se cenicamente, criando novas possibilidades para quem faz e para aqueles que presenciam os espetáculos, ao mesmo tempo, desorganiza o cotidiano dos espaços ocupados, na medida em que estes não são pensados para a fruição das artes.

Bibliografia citada
BRITO, Rubéns José Souza. Teatro de Rua. Princípios, Elementos e Procedimentos: a contribuição do Grupo de Teatro Mambembe (SP). 2004. 226 f. Dissertação (Livre Docente) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP.
CARREIRA, André. “Reflexões sobre o Conceito de Teatro de Rua.” In: TELLES, Narciso; CARNEIRO, ANA. (org.) Teatro de Rua: olhares e perspectivas. Rio de Janeiro: E-Papers, 2005.
______. Teatro de Rua: (Brasil e Argentina nos anos 1980): uma paixão no asfalto. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007.
CASTELLS, Manuel. A Questão Urbana. Trad.: Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
CRUCIANI, Fabrizio; FALLETTI, Clelia. Teatro de Rua. Trad.: Roberta Baarni. São Paulo: Hucitec, 1999.
MIRALLES, Alberto. Novos Rumos do Teatro. Rio de Janeiro: Salvat, 1979. ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. Trad.: J. Guinsburg e Maria Lucia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 1999.
PEIXOTO, Fernando. “Teatro de Rua no Brasil.” In CRUCIANI, Fabrizio; FALLETTI, Clelia. Teatro de Rua. Trad.: Roberta Baarni. São Paulo: Hucitec, 1999.

[1] Historiador e um dos fundadores do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo.

Este texto é parte de um artigo maior, publicado originalmente na Revista Camarim nº 43, 1º semestre de 2009, p. 50-53. Foi revisto para esta publicação em 09/08/09.

2 comentários:

Dani Caielli disse...

este blog é realmente um achado!
riqueza de informações, possibilidade de tomar contato com a história vivida com quem escolhe fazer arte na rua.
tô sempre passando por aqui agora
abraço!!

Rafael disse...

por favor, estou tentando baixar o artigo original na revista e o arquivo está com problemas lá. vocês podem me mandar o texto completo em pdf?
obrigado,
Rafael
rafaorlando@gmail.com