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terça-feira, 10 de maio de 2011

Teatro de Rua: manifestação política, pública e popular?

Teatro de Rua: manifestação política, pública e popular?[1]
Adailtom Alves Teixeira[2]
Podemos afirmar categoricamente que teatro em espaços abertos sempre existiu desde a Antiguidade, no entanto, se levarmos em consideração o substantivo rua que, colado a palavra teatro, se adjetivou, podemos dizer que é uma característica moderna, já que a rua como conhecemos atualmente é um advento da modernidade. Se seguirmos essa lógica, teremos no teatro de rua uma arte urbana, sendo produzida apenas nas cidades. Não obstante, se pensarmos nos rincões de nosso Brasil, o teatro de "rua" chega a trilhas, comunidades ribeirinhas, tribos, entre outros, universos bem distintos do que se entende por urbano ou cidade. E mesmo muitas cidades brasileiras mantêm o seu pequeno núcleo urbano e sua quase totalidade ainda é rural, como pude presenciar em uma temporada por dez cidades gaúchas (ainda que seja possível afirmar que as áreas rurais estejam hoje tomadas pela cultura urbana).
O tempo e a disposição ao aprendizado nos ensinam lições maravilhosas. Não faz muito tempo, exatamente em 2008, após dialogar com uma pequena bibliografia (devido à ausência de materiais teóricos sobre o assunto) defini teatro de rua nos seguintes termos:
"(...) teatro de rua é uma manifestação marginal que utiliza o corpo e o discurso no espaço aberto urbano a serviço do estético, apropriando-se ou não da paisagem urbana como cenário, de maneira a permitir a fruição a um público passante."
Naquele momento estava pesquisando o teatro de rua paulistano, dessa forma, o termo urbano presente na definição cabia muito bem, mas ao ampliarmos e pensarmos em termos de Brasil, não apenas o termo urbano não cabe, mas também o público passante, pois o que se tem visto na realização de alguns projetos como "Banzeirando"[3]do Imaginário de Rondônia, ou as atuações do Vivarte[4]nas tribos do Acre, para citarmos apenas dois exemplos, essa definição não cabe ou define apenas em parte o teatro de "rua" brasileiro. Nos dois projetos acima o adjetivo rua ganha uma conotação mais ampla, pois em ambos os projetos realizados pelos grupos supracitados chegava-se aos lugares de barco e seguia-se depois por trilhas para apresentarem-se em pequenas comunidades ou tribos indígenas. O Brasil é bem mais amplo que o espaço urbano, ainda que o último censo de 2010 nos apresente dados contundentes, mais de 80% da população brasileira moram em áreas urbanas[5]. O que se pode afirmar sem incorrer em risco é que o teatro de rua brasileiro é tão diverso quanto os espaços que ocupa.
Continuando abordando os vocábulos presentes no título desse texto, passemos ao termo manifestação. Segundo Antônio Geraldo da Cunha em seu Dicionário etimológico da língua portuguesa (2010), o verbo manifestar significa "tornar público, notório, apresentar, declarar, revelar, divulgar"; torna, portanto, manifesto (patente, claro, evidente) uma intenção, que por ser uma ação do homem, é política. Pois, desde Aristóteles afirma-se que o homem é um animal político. Dessa forma, o teatro de rua, revela-se como ações dos homens sobre os homens, logo, são ações políticas.
O termo política deriva do grego polis, que refere-se as Cidades-Estados da Grécia Antiga. "A polis se constituía como uma unidade política e territorial, sobretudo através do vínculo que seus cidadãos mantinham com ela por lealdade(sic), identidade cultural e origem" (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006: 220). Do aglomerado, da junção dos cidadãos em determinado território (na cidade) deriva o termo político, bem como de suas funções, isto é, cabe aos cidadãos o "destino" dos negócios e do governo da cidade.
Desse ponto de vista, o teatro de rua ao inserir-se na polis manifesta sua atitude política, pois reúne os cidadãos em torno de uma obra que propõe a discussão de algo, daquilo que apresenta o espetáculo. Cabe destacar ainda que o simples fato dos cidadãos se colocarem em roda em um espaço público aberto é uma atitude política, pois instaura a ágora (assembleia). E se pensarmos que a rua não foi pensada para a fruição das artes o sentido político se amplia, já que ao colocar-se em local aberto o teatro desorganiza a função inicial do espaço da "rua", dando-lhe nova significação, a saber, a possibilidade de fruição de uma obra de arte.
Se entendermos público em seu sentido lato, isto é, como algo "relativo, pertencente ou destinado ao povo, à coletividade" (CUNHA, 2010: 531), é possível entendermos o teatro de rua como uma manifestação pública, posto colocar-se no espaço que, em tese, é de todos, já que não seleciona os fruidores da obra artística. Por outro lado, é sempre bom atentarmos que o simples fato de está em local público, não faz dessas obras uma arte de todos, isto é, nem tudo que está em meio ao povo é do povo (Cf. CHAUÍ, 2003). Assim chegamos ao último e controverso termo: popular.
Démos é um termo grego que indicava parte de um território ocupado por um grupo de pessoas, por isso, depois ganhou o sentido de étnico povo e depois o sentido político em oposição ao rei, daí democracia (governo do povo). Ora, se há um grupo de pessoas que se opõe a outro grupo, isso significa que há um embate entre eles, existe disputa e nessa disputa uns saem vencedores e exercem a dominação sobre os demais. Na sociedade capitalista existem dois grandes grupos: a classe dominante e classe dominada, o povo[6]. Mas o povo é um universo amplo:
(...) lato sensu costuma-se considerar como povo não só o operariado urbano e rural, os assalariados dos serviços, os restos do colonato, mas, ainda, as várias camadas que constituem a pequena burguesia, não sendo possível agrupar em um todo homogêneo as manifestações culturais de todas essas esferas da sociedade (CHAUÍ, 2003: 45).
Se existe o povo, existe uma cultura do povo ou culturas do povo, como prefere Marilena Chauí (2003), fugindo do termo cultura popular, já que o adjetivo popular pode descambar para um populismo ou outros projetos de dominação das classes dominantes.
Assim, em um universo tão vasto como o povo, ou se preferirmos nas classes populares, não é possível entendermos que há unificação das manifestações culturais, logo não existe arte "popular", faz-se necessário ao menos pluralizarmos o vocábulo popular.
Focando na questão do teatro de rua, perguntando-nos se o mesmo é ou não popular; ainda que a resposta não seja definitiva, é importante termos claro e defendermos que o mesmo seja uma arte do povo. Logo, em sendo do povo ou para o povo, deve contrapor-se à outra forma de arte: aquela produzida pelas classes dominantes. Ora, se existem culturas populares é porque existem outras formas de culturas que não o são e ambas, tanto as populares como a arte de elite, via de regra, são nominadas por aqueles que detêm um saber formal, logo, existe valoração entre as culturas, afinal, como nos lembra Antônio Augusto Arantes em O que é cultura popular, "(...) na sociedade capitalista, o que é "popular" é necessariamente associado a "fazer" desprovido de "saber"." (1995: 14) Existe aí uma separação entre o pensar e o fazer, como se o fazer estivesse destituído de saber, logo há uma valorização de uma em relação a outra, sendo também uma forma de dominação. Nesse sentido, as culturas populares saem perdendo, posto seus praticantes não terem os canais de valorização das mesmas, isto é, lhes falta o saber acadêmico, que em uma sociedade dividida em classes, se sobrepõe aos demais saberes. Mesmo assim, adotemos aqui o conceito de popular, sem, no entanto, fazermos juízo de valor entre as culturas, mas tão somente para distinguir de qual lado estamos.
Do nosso ponto de vista nem todo teatro de rua é popular, sobretudo se tomarmos o embate entre as classes como discernimento sobre o que é ou não popular. E não podemos esquecer também que mesmo nas artes mais populares, no sentido daquelas que nascem do seio do povo, carregam elementos conservadores, pois as ideias dominantes de uma época, são sempre as ideias das classes dominantes, como já afirmou Karl Marx, e estas ideias – já que as classes dominantes têm os mecanismos de disseminação das mesmas – encontram-se presente também em meio as classes dominadas.
Podemos, então, adotar como teatro de rua popular, o ponto de vista apresentado por Bertolt Brecht em "O caráter popular da arte e arte realista", artigo presente no livro Teatro e vanguarda (s.d.). O texto de Brecht é de 1938 e afirma que o conceito de popular "(...) não é tão popular como parece" (s.d.: 8), pois o povo não alcançou "(..) o seu pleno desenvolvimento" (s.d.:9), já que foi impedido pelas classes dominantes, por isso o popular tornou-se estático. Assim, o seu conceito de popular
"(...) refere-se a um povo que não só participa plenamente no desenvolvimento histórico, como se apodera dele, o acelera, o determina. Referimo-nos a um povo que fazendo a História, se transforma a si mesmo, e consigo, o mundo. Um povo combativo, implica um conceito combativo de popular" (s.d.: 9-10).
Seu conceito é dialético e implica uma arte que chegue "as largas massas", enriquecendo suas expressões e adotando o ponto de vista daquela parte mais progressista, que tomará os rumos da sociedade; sem, no entanto, esquecer que é preciso ser compreendido pela outra parte do povo, bem como conhecer as tradições culturais e desenvolvê-las. Esses aspectos, requeridos por Brecht, exigem de todos nós muito empenho, pois trata-se de criar uma arte complexa e divertida, em que os elementos abordados dizem respeitos a própria produtividade do trabalhador (Cf. Pequeno Organón para o teatro). Segundo o ponto de vista do autor alemão, é preciso compreender o povo hoje para fazermos uma arte que dialogue com todos, tendo em mente que o popular não é estático, mas se modifica. E dentro dessa perspectiva, nem mesmo as clássicas obras populares podem ser tomadas como parâmetros: "Em cada caso particular, a representação da vida deve comparar-se com a própria vida, e não apenas com outras representações da vida" (BRECHT, s.d.: 16).
Não podemos perder de vista a realidade na qual atuamos, nem temermos um mergulho na complexidade de nossos trabalhos artísticos, achando que, por dialogarmos com uma vasta camada da população (crianças, idosos, pessoas com educação formal, analfabetos etc.), não seríamos compreendidos, Brecht alerta:
Falo por experiência, quando digo que não há que ter medo de apresentar ao proletariado coisas audazes, desusadas, desde que tenham unicamente que ver com a realidade. Haverá sempre gente culta, conhecedores que virão interpor-se dizendo: "O povo não entende isso!" Mas o povo afasta impacientemente esta gente e entende-se com os artistas" (s.d.: 14).
Assim, para concluir e retomando o título do presente texto, é preciso termos em mente a ampliação do conceito de teatro de rua. A adjetivação "rua" extrapola os ambientes urbanos, ainda que cada vez mais os ambientes rurais sejam permeados por uma cultura urbana. O teatro de rua, hoje, é uma arte que chega a muitos lugares. E, segundo os conceitos aqui discutidos, é possível afirmarmos que todo teatro de rua é uma manifestação política e pública, mas isso não o faz popular por extensão. Nem todo teatro de rua é popular, mas pode vir a ser, desde que adote o ponto de vista do povo, sobretudo daquela camada mais progressista. Para que o teatro de rua seja popular faz-se necessário que os seus fazedores conheçam sua época, seu povo e sua cultura e os coloque em cena de forma complexa, nas suas ricas contradições. A arte é uma forma de apreensão do mundo e quando esse mundo adentra a cena, tomando como referência os saberes, os fazeres, as tradições (mas sem se prender a elas, mas sim reinventando-as), esse mundo se enriquece e avança. Eis os caminhos de um teatro de rua popular.
Bibliografia consultada
ALVES Teixeira, Adailtom. A Rua Como Palco: o teatro de rua em São Paulo, seu público e a imprensa escrita. Monografia. São Paulo, Universidade Cruzeiro do Sul, 2008.
ARANTES, Antônio Augusto. O que é cultura popular. 14ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.
BRECHT, Bertolt. "O Caráter popular da arte e arte realista". In: BRECHT, B. et al. Teatro e vanguarda. Trad.: Luz Cary e Joaquim José Moura Ramos. Lisboa: Editorial Presença, s.d.
CHAUÍ, Marilena Souza. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. 10ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.
_____. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro, 2010.
JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.



[1]Texto criado para ser falado na I Feira de Teatro de Rua de Sorocaba, no dia 04/05/11.
[2]Mestrando do Instituto de Artes da Unesp; ator e diretor teatral.
[3]http://projetobanzeirando.blogspot.com/
[4]http://blogdovivarte.blogspot.com/2009/06/diario-de-bordo-8-dia-1906.html
[6]A discussão pede um aprofundamento, sobretudo em relação ao conceito de classe, mas optamos simplificar, dado o espaço e tendo em mente o objetivo para o qual foi preparado esse texto.


3 comentários:

Patrícia Caetano disse...

Maravilhoso texto Adailton tive um imenso prazer ao lê-lo, muito pertinente e bem construído. Estou aqui ás voltas com a feitura do projeto de sede pública do Bando, gostaria de saber se você tem alguma indicação de leitura sobre o conceito de sede pública olhei as cartas da RBTR mas elas só citam a possibilidade não é mesmo? se você puder me ajudar agradeço. beijos

Adailton Alves disse...

Patrícia, o conceito de Sede Pública surgiu com o Tá na Rua, ao ocuparem o Largo da Carioca (se não me engano) para seus ensaios e treinamentos; mas mesmo no livro dos trinta anos do grupo esse conceito não é desenvolvido. Partindo da ideia de sede pública a RBTR começou a reivindicar em seus documentos (as Cartas)a inclusão nos editais e leis a praça como espaço cultural, da mesma maneira que um teatro, por exemplo, afinal todos que fazem teatro de rua sabem das possibilidades de fruição da arte em uma praça, além da troca de experiência no conceito benjaminiano.

Falcão disse...

Olá Adailton!

Rapaz, fazia tempo que não visitava seu blog, acho que desde que entrei na unesp não o tinha visitado. Hoje, ao entrar no blog tive uma grata surpresa! Ele está extremamente rico e bem alimentado! Muito bom o texto lido em Sorocaba, claro, preciso e preenchido de conteúdo!
Vou aproveitar muito as trilhas que você está percorrendo.

Um abraço,
até breve,

Alê Falcão