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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Relato de parte do que rolou nas plenárias do XX Encontro da RBTR

Segue o relato de parte do que rolou nas plenárias do XX Encontro da Rede. Envio para registro e especialmente pra quem não conseguiu estar presencialmente em Presidente Prudente.

Muito do que foi discutido não está nos relatos, mas acredito que esse registro já ajuda a ter uma ideia do que rolou (e ainda está rolando) em Presidente Prudente.

Alê Falcão


XX Encontro da RBTR, Galpão da Lua, Presidente Prudente/SP.

Relato de parte das conversas da plenária do dia 29/06/17.

Escriba: Alexandre Falcão

O momento foi dedicado principalmente ao relato da situação do teatro de rua e da cultura nas cidades e estados.

Cícero, núcleo Deixa Falar/ SP.
Fala da Higienização, políticas contra os artistas de rua. Há toda uma inversão da atuação da polícia militar contra os artistas. Temos que ir para a casa pública (assembleia etc) com um discurso mais embasado. Não podemos deixar da forma como está. Nossa vantagem, na linha histórica, é que ainda temos os encontros, nas localidades. Isso é um ganho tremendo e temos que manter isso.

Rena, coletivo Peabiru, Floripa/SC.
Conta da Resistência dos coletivos de rua, em Floripa. Pós-ocupação do IPHAN (Ocupa MinC), criaram a rede Fora Temer, uma rede de ação direta, formada por trabalhadoras da cultura. Batalhas de rap, espaços importantes de resistência cultural. Alguns espaços culturais independentes: Casa Vermelha, Engenho... Casa de Cultura do Rio Vermelho, entre outros.

Grupo Tia. Canoas/RS – os programas de incentivo à cultura estão atrasados desde 2014. Tinha uma secretaria de Cultura, mas virou Cultura e Turismo: sem diálogo com o colegiado. O governo, dito de esquerda, criou espaços culturais na gestão passada. Mas, estão praticamente parados atualmente. Há uma Cultura de mega shows, mega eventos, ligados à indústria cultural. Raramente apresentam na própria cidade com cachê. Tem uma comunidade quilombola que é uma das mais antigas do Brasil, mas não há valorização. E agora a prefeitura vai promover uma Oktoberfest, mesmo a cidade não tendo tradição alemã. Aconteceu aparelhamento dos movimentos sociais por alguns governos anteriores, ditos de esquerda. Este governo não desenvolveram políticas públicas, mas projetos de poder. Em Porto Alegre, os grupos foram retirados do Hospital São Pedro, uma importante ocupação cultural da cidade.

Márcio Silveira, Manjericão, RS/SC – ponto crítico na Capital (Porto Alegre), o não acontecimento do Festival Internacional de Rua de Porto Alegre. Os artistas estão chegando a um nível de esgotamento. Não estamos conversando: hiato. Perdemos o Hospital São Pedro, a Usina do Gasômetro. Pontos positivos: Em SC: Festival de Teatro de Animação, realizado pela UFSC, teve presença do teatro de rua. Em geral: notável o crescimento da presença dos grupos do interior e da região metropolitana.

Vanéssia, Teatro de Caretas, Ceará. A função do Estado é nos amortizar. Nós somos minorias, mas nós somos fortes, temos potências. É preciso buscar o fortalecimento da lógica de cidades. Política Cultural do Estado: tem uma secretaria ainda. Há, aparentemente, um diálogo que se amplia, lógica de editais, inclusive pra formação cultural. Os grupos têm tido algumas dificuldades burocráticas pra receber e operacionalizar os recursos. Já no município, a secretaria é pífia. Os artistas que começam a trabalhar na secretaria acabam inviabilizando o diálogo (cooptação, aparelhamento). Há uma casa que foi ocupada, depois encampada pelo município, mas mudou o formato, levando pra um modelo mais tradicional. Bota o movimento artístico um contra o outro. 2015: a secretaria foi ocupada. O movimento tem feito ações de constrangimento do secretário. 100 projetos que não recebem recursos há dois anos (edital).
Sim, eles (o Estado) têm que nos subsidiar. Teatro de Caretas e outros dois grupos alugam uma sede. A importância de ocupar.

Oziel, movimento Cabuçu, Guarulhos/SP. Organiza a Mostra de Teatro de Rua de Guarulhos. Começou com os grupos locais, primeiras edições, e depois passou a receber os grupos de fora. Vai para a 9ª edição. Passou em Presidente Prudente nos anos 1970, com o movimento hippie. Milita na questão ambiental. Faz parte dos conselhos de turismo e de urbanização da cidade. Temos que nos apropriar dos conhecimentos políticos, se apoderar das leis. O município de Guarulhos tem o Funcultura, com apenas R$ 500.000,00, apoia 13 projetos por ano. A mostra Teve apoio público apenas em 3 anos. Faziam o cortejo a partir do Teatro Municipal Adamastor, mas saiam para a rua (calçadão). Hoje, os coletivos não têm agenda no Adamastor, apesar de eles terem fomentado o espaço. Proposta de levar o encontro da rede pra Guarulhos em 2018. Agora a Mostra sai totalmente independente. No município foram juntadas as Secretarias Educação, Esporte e Cultura. É necessário pertencer a Conselhos, estar na Câmara, é preciso ocupar os espaços.

Batata, Nativos Terra Rasgada, Sorocaba/SP. Situação do interior: a gente vive no coronelismo há muito tempo. A violência do Estado chega no interior mais intensamente, e não há tanta visibilidade na mídia. No município o governo juntou a Secretaria de Cultura e Turismo esse ano. É preciso tentar encontrar um ponto de convergência. Ganhamos edital ano passado, mas o recurso foi negado, por questões burocráticas. Temos uma mostra, mas também ficamos um ano sem fazer a mostra, por falta de recursos. Há uma arena de artes públicas, mas o uso está proibido, devido ao espaço ficar próximo a um espaço da GCM. Há uma discussão de lei para controlar o trabalho de artistas de rua também nas praças.

Luís, Galpão da Lua. Vivemos uma crise de hegemonia, crise sem precedentes, ampla, em todos os âmbitos: federal, estadual e municipal. Os eleitos estão sem legitimidade (sem base eleitoral ampla). O Estado está em crise e o Capital está em crise também, já que um depende de outro. Vemos as dificuldades financeiras dos grupos, muitas vezes perdendo as sedes, vemos as leis que tentam coibir o trabalho dos artistas de rua. A gente vem pro encontro pra recarregar as baterias. Os grupos acabam tendo papel político em seus locais, pois estão envolvidos em processos de luta muito importantes. Devido à crise, a secretaria de Cultura de Presidente Prudente tem se aberto a um certo "diálogo", pois eles estão sem recursos e precisam fazer parcerias para realizar algo.
Grupos consolidados estão deixando de existir, porque não estão em condições de sobreviver disso.
As migalhas que nos chegavam, já não estão mais chegando. O Galpão da Lua se tornou um espaço de referência e mesmo com quem a gente diverge a gente está dialogando. A gente não tem a Justiça do nosso lado, no caso da Lua, mas temos a rua como espaço para explicitar "o outro lado da história".
No caso da Lua, no processo militar, o policial foi absolvido. O processo está no inquérito civil, o policial será julgado de homicídio culposo, modalidade indireta, vai para júri popular. A gente não tem discurso de ódio contra o policial, individualmente. A maior injustiça é a gente não ter direito à verdade e o Estado participar dessa fraude, do terrorismo de estado.

Caio. Trupe Olho da Rua. Santos/SP – Um juiz corregedor abriu uma investigação contra a polícia, devido ao caso de violência policial que ocorreu com a Trupe, em Santos, durante apresentação da "Blitz". O juiz corregedor concluiu que houve abuso de autoridade. Os policiais terão que responder na polícia comum. Houve 85 casos abertos de abuso de autoridade pela PM nos últimos 10 anos e em nenhum caso a polícia foi responsabilizada.
Devido às dificuldades financeiras, eu me vejo quase na situação de dizer: "Estamos de volta ao teatro amador". É duro a gente olhar a realidade, mas talvez seja mais condizente com a história do nosso país. Qual o lugar do teatro de rua? Está muito claro que a gente está inserido num lugar de resistência. A gente tenta se agarrar nas pequenas vitórias, estamos no Conselho de Cultura, tentando cavar algumas coisas, conseguimos aprovar a Lei do Artista de Rua (tentando combater a política higienista) e o Plano Municipal de Cultura, mesmo sem o lastro do MinC.
No encontro da RBTR em Londrina tivemos uma experiência formativa importante, o curso do Núcleo 13 de Maio. Estamos procurando uma saída, procurando parceiros. Qual nossa saída política, enquanto classe, enquanto categoria? As ocupações são quase quilombos hoje em dia. Mas, os quilombos precisam se organizar. Da noite pro dia, o governo do Estado fechou a totalidade das oficinas culturais do Estado. Sobraram 2 ou 3 na Capital e em Santos, devido à militância organizada, conseguiram a negociação pra a Oficina (e os recursos) irem para o município.


Marcos (?) Rancharia/SP. A cidade tem 83 anos, 30.000 habitantes e tinha zero de cultura. 2013 ele assumiu a Secretaria de Cultura e conseguiu levar o teatro para as ruas e praças da cidade. Tínhamos um salão com um palco bastante precário. Um teatro que estava em construção, mas ficou parado por quase três anos. Em 2013 concluímos o teatro. Hoje, há uma nova gestão (do PSDB) e o teatro tem sido frequentemente usado para outros fins. O outro espaço existente está fechado. Rancharia hoje tem um grupo: ImaginaSom (do qual ele faz parte). Baseia-se em literatura pra construir seus espetáculos. Necessidade de posicionamentos, uma postura da rede em relação aos embates que iremos ter. Pensar o momento de 2018 (eleições?).

Fernando, Maracangalha, MS. Conseguimos as leis, mas nunca foram cumpridas. Mais três anos de calotes. Governo muito violento contra os indígenas e conseguiu cooptar parte do movimento indígena. Na prática, os grupos estão se virando como podem. Fazemos a temporada do Chapéu: mostra de teatro de rua (fizemos este ano). A perspectiva de ter marcos legais não nos levou a nada. O pessoal de Campo Grande e Dourados está buscando formas de circulação que não dependam do Estado. Parte do movimento cultural é cooptado por um cachê aqui ou ali e alguns artistas ficam com medo, para garantir as migalhas. No MS, as secretarias também foram transformadas em Cultura e Turismo. Fizemos manifestações de rua. As tentativas de diálogo parecem que foram esgotadas. O diálogo é uma fraude, em uma democracia que parece que não existe. "Pacote de maldades da Dilma": Lei 13.029 (?) de chamamento público. Está fazendo pregões nacionais pra poder contratar espetáculos. Lei antiterrorismo: grupos artísticos e movimentos do MS têm sido enquadrados também nessa lei, devido às ocupações indígenas. A administração municipal criou uma burocracia que dificulta a ocupação das praças, exigindo inúmeros documentos.

Letícia, Dolores Boca Aberta – ZL, São Paulo/SP. Ocupam o CDC Vento Leste, há mais de 10 anos, mais de 8 grupos que ocupam o espaço. Faz 2 anos que não participavam dos encontros, devido à questões financeiras. Estão com questões estruturais, devido à dificuldades financeiras. Contou da participação no Fórum de Cultura da Zona Leste e no Movimento de Cultura das Periferias. Como resultado deste movimento, conseguiram implantar a Lei de Fomento à Periferia. É o que neste momento está viabilizando a participação do grupo no encontro da rede. Autogestão: o quanto a gente pode seguir com determinado combustível. E a gente vem aqui se abastecer.

Elton, Presidente Prudente. A gente costuma fazer documentos, cartas, vídeos. Apontar os próximos encontros. Vamos conversar sobre o Edital (de redes)?

 Alexandre Falcão – Univ. Federal de Rondônia (UNIR) – Contou da disputa de espaço na academia, nas universidades. O grupo de trabalho Artes Cênicas na Rua, da ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós Graduação em Artes Cênicas irá realizar de 26 a 28 de julho próximos, em São João del Rei, MG, a sua segunda reunião (a primeira aconteceu em Porto Velho, RO, em 2015). O evento vai reunir artistas, estudantes e pesquisadores para praticar, estudar e debater teatro de rua e intervenção urbana.  Apesar de relativamente recente, o teatro de rua vem crescendo dentro das universidades, mas ainda há muito para crescer, há muito espaço para conquistar. Esse espaço precisa ser disputado devido à relevância estética e política do teatro de rua.
Falou um pouco também do cenário do Estado de Rondônia, onde há política estadual aprovada, mas sem orçamento. Foram lançados alguns pequenos editais desde o ano passado, mas nenhum contemplou o teatro, cujo edital vem sendo prometido desde início de 2016. No município de Porto Velho não há política pública municipal de fomento às artes e cultura, apenas iniciativas isoladas de governo, a depender da gestão. Na capital, Porto Velho, há espaços culturais independentes que realizam importante trabalho de formação e que mantém programação cultural. Destaques para o Tapiri, espaço do grupo O Imaginário RO e para a Arigóca.


Dia 30/06/17
Registro de parte do que aconteceu na plenária da manhã
Escriba: Alexandre Falcão

Jean e Delgado, São José dos Campos/SP
Falaram da Lei que proíbe o trabalho do Artista de Rua em SJC. A Lei foi promulgada alegando o risco de acidentes de trânsito, por isso foi proibido o trabalho em semáforos. Mas, não foram apresentadas estatísticas, apenas a opinião das "autoridades". Previa necessidade de cadastro pra usar as praças. Depois, com a pressão dos artistas, o cadastro para uso das praças caiu. Mas, é preciso não dividir a categoria, pois a lei não ataca mais diretamente o teatro de rua, mas ainda prejudica diretamente os artistas itinerantes. O trabalho do artista de rua muitas vezes é  associado também à mendicância.
Fizeram um ato no Festdança, juntamente com o pessoal do Maracatu. Na abertura do Festival, os artistas fizeram uma intervenção, denunciando a repressão contra os artistas de rua. Os jornais deram pauta para a intervenção, mas, nos dias seguintes, a edição das reportagens não favoreceu o movimento.

Batata e Samir, Nativos, Sorocaba/SP.  Sorocaba tem uma lei contra a mendicância, e os artistas de rua são enquadrados nesta lei. Um vereador está retomando a Lei do Artista de Rua, pensando em cadastrar os artistas de rua.
O que fazer? Antes a pauta eram as leis, editais e desde o encontro de Fortaleza percebemos que não é mais isso, que nesse momento não é mais isso.
Samir: Como fortalecer a rede? Como buscar pessoas novas? Tá na hora de ir buscar mais artistas de rua pra RBTR. Trazer pessoas de Estados que nunca vieram.
A realidade da rede é muito diversa/plural. A gente tem que ter o cuidado de entender essa diversidade, essas particularidades. A pessoa que coloca chapéu no meu espetáculo de palhaço, não coloca na "Blitz", muitas vezes. Temos grupos grandes, com trabalhos que não têm viabilidade de sobreviver com chapéu.
Batata: A gente vai encontrar caminhos, mas não solução. A gente precisa encontrar caminhos que agreguem.

Fábio/ Trupe Olho da Rua/Santos – a criação de uma Lei para o Artista de Rua pode ser um labirinto para ferrar a gente. É preciso tomar cuidado, para que não vire amarras para o nosso trabalho. "Queriam fazer um cadastro para os artistas de rua", mas a característica dos artistas de rua é a itinerância. O caso mais grave é em São José, mas é preciso ver a situação de repressão mais ampla.

João Paulo/ Trupe Olho da Rua/ É sempre importante buscar entender de economia, política, pois o que estamos fazendo é, de certa forma, uma análise de conjuntura. É a luta de classes batendo na porta, o período de concessão acabou. Em Santos o artista é proibido no semáforo, mas a Secretaria de Ação Social faz campanha no semáforo e uma grande construtora faz publicidade nos semáforos também.
Anos atrás discutíamos o sistema nacional de cultura, hoje discutimos violência policial e precarização. Daqui a pouco SP vai perder a Lei de Fomento, aí vamos perder os parâmetros.

Luís, Galpão da Lua, Prudente. Prudente teve uma lei que buscou barrar o artista que usa fogo no semáforo. Segundo levantamento da OAB, Presidente Prudente é uma das cidades campeãs de leis inconstitucionais, mas as comissões das câmaras que deveriam cuidar disso, não fazem bem feito o seu trabalho. É preciso publicizar a discussão, expor a situação, buscar assessoria jurídica no Ministério Público ou na OAB. O pior é que este tipo de Lei, mesmo inconstitucional, tem respaldo dos setores mais conservadores da sociedade. Quando a gente busca regulamentar algo que já é uma garantia constitucional, a gente está agindo errado.
Temos o artigo 5º da Constituição que garante a liberdade de expressão, qualquer norma mais restritiva, é uma restrição de um direito fundamental
.
Maracangalha/Campo Grande – Na temporada do chapéu, negaram a possibilidade de fazer, alegaram a necessidade de muitas autorizações. O grupo apenas comunicou o poder público, não pediram autorização, mas já estavam divulgando na mídia. Realizaram o evento mesmo assim. Querem que o grupo se enquadre como se fosse um grande evento.

SBC, grupo Menelão. Pauta: revista da RBTR. Trouxe proposta de arte gráfica. Precisa reunir o GT de comunicação.

Dai, MARL, Londrina – falando a importância das articulações, de não se isolar. MARL tem se aproximado dos movimentos de moradias, temos muito a aprender com os movimentos de moradia. Todas as iniciativas são válidas. A instabilidade veio morar dentro da gente. Todos nós estamos passando por momentos de instabilidade.

Pedro. MARL, Teatro de Garagem, Londrina/PR. Vereadores criaram uma lei de criminalização das ocupações, e questionam se a ocupação cultural do MARL não abre precedente pra regularização das ocupações de moradia.
Quando fazer o enfrentamento, usar a estratégia de publicização, filmar, não ir sozinho.
Relato: cancelaram o edital municipal. Os artistas se uniram para enfrentar, mas depois se dividiram, entrando com estratégias individuais.

Edna, MARL, Londrina. Edital importante, PROMIC (?), existente desde 2002, 90% dos projetos eram na periferia da cidade. Mas, este ano, os pagamentos foram cancelados, alegando que devido a uma Lei Federal, pessoas físicas não poderiam receber. Estão com assessoria jurídica da OAB. Mas, não conseguiram reverter a questão dos pagamentos. Ela vê esta ação da prefeitura como uma vontade de desmantelar o movimento local. Muitos projetos continuam por militância, mesmo sem militância. A gente (a ocupação do MARL em Londrina) existe por causa da RBTR! Nosso movimento local foi muito fortalecido após o primeiro encontro da rede. A Rede está forte!

Raquel/ Trupe Olho da Rua – a gente tá se recuperando e tentando ver para onde vai. Fizemos uma reunião com uma senhora de Guarujá (Rai?) que estava trabalhando no Ministério da Cultura, para tratar de um festival em Santos, mas ela disse que não sabia nem o cargo em que estava. Ministério da Cultura e Funarte praticamente não existem mais. Nesse momento de crise, as pessoas não têm grana pra vir. ProAC/Estado de São Paulo: muitos cortes e editais que não foram lançados.

Caio/Santos: Encaminhamento/Pauta: ter um blog que sistematize as denúncias contra as leis de repressão ao artista de rua. Ele está repensando a questão da lei: os grupos de teatro têm certo respeito, mas os malabaristas solo, itinerantes, são mais vulneráveis. A cidade/movimento que têm condições de emplacar uma lei que proteja o artista de rua, talvez valha a pena.

Tico/Cascavel, PR: Lá em Cascavel a gente nunca teve lei/edital. A gente vai pra rua e passa chapéu: e a gente usa o artigo 5
º da CF, liberdade de expressão. Além da questão da liberdade de expressão, é uma questão de Direito ao trabalho, de Arte gratuita (direito do público). A gente consegue viver sem projeto? A gente não entende a realidade dos municípios que têm leis. Isso é novo pra nós.

Vulka. Galpão da Lua, As artistas trans ainda nem começaram a ter espaço. Pauta: gênero na arte. Como aparecemos no teatro: muitas vezes hiperssexualizando nossa imagem, como a engraçadinha que dá uma pinta.

Nati Siufi, Xingó, SP: retomar o histórico. Há 20 anos atrás, a gente tava começando, quase não era conhecido, éramos poucos, o lugar do teatro de rua não era reconhecido nem na categoria teatral. Depois, crescemos, houve um momento em que tínhamos 9 pessoas da RBTR dentro do colegiado do MinC. Nas cartas a gente tinha embasamento, nós estudamos, propomos projetos de Lei. Não tem sentido então essa construção pela legalidade? Estamos no limbo. Temos que aproveitar o trabalho histórico. Temos nosso plano feito, é legítimo. Não precisamos rever, já temos os documentos construídos coletivamente. Não precisamos abandonar o que já foi feito, quando houver um país em que seja possível confiar nas leis. O processo ético tá debilitado, é do geral pro particular e do particular pro geral. Se a gente não se dedicar a rever o trabalho (políticas públicas) que já tá feito, a gente vai ter mais tempo pra dedicar a outros assuntos. Pauta: quando é a gente vai começar discutir de novo linguagem, estética, qualidade e potência dos nossos trabalhos? Vou voltar a fazer contação de história nas escolas, mas vou fazer uma puta contação de histórias.

Adriano/Pombas Urbanas/SP: Pauta: ter um lugar visível de toda essa história (as leis, as conquistas). A maior posição é a gente se alimentar de nós: saber as estratégias que cada um tá fazendo pra resistir. Cidade Tiradentes: 20 jovens formaram uma cooperativa. Passando chapéu na comunidade: estreia: R$ 800,00 de chapéu. Apostaram em se reinventar. A mudança é necessária. É preciso trazer as comunidades pra nosso lado, com um teatro que agregue. Só de estar aqui, me dá forças pra continuar.

Cícero, SP: contou um pouco sobre a formação do movimento de teatro de rua de SP, em 1999.

sábado, 1 de julho de 2017

Programação dia 01 de julho encontro RBTR - Ato 3 anos sem Lua Barbosa, Cortejos, plenárias e espetáculos





O dia será de relembrar que a nossa querida Lua foi assassinada, vítima da violência policial. Faz 3 anos que carregamos essa triste história conosco. Com o apoio dos mais de cem artistas de diversas partes do Brasil faremos um ato Artístico, um cortejo saindo do Galpão da Lua até a Praça 9 de Julho para marcar essa data e cobrar justiça, cobrar também a desmilitarização da polícia e o fim dos crimes cometidos por esta instituição principalmente contra pretos pobres e jovens das periferias.
Espetáculo Blitzz - Foto de Marcia Tanaka
























Nós amigos, familiares e artistas da RBTR sairemos às ruas com nossa arte e nossa dor e gritaremos. Queremos uma política de segurança pública que respeite a vida, que respeite os direitos humanos. Por justiça a Lua Barbosa e a todas as vitimas de violência policial.

Blitzz - Foto Márcia Tanaka
O ato contará com a encenação da peça "BLITZ - O Império que nunca dorme" com a Trupe Olho da Rua, que tão bem trata dessa violência que queremos um basta. O espetáculo simboliza pela ótica da sátira com elementos e signos que representam o poder opressor do Estado e da mídia corporativa, resignificando o que está posto escamoteado pelo senso comum na intenção de ressaltar a potencialidade estética e dramatúrgica do que nos é apresentado como comum no dia a dia.
A programação de sábado terá também, no período da tarde, lançamento de dois livros: "Teatro de Rua – Discursos, Pensamentos e Memórias em Rede" (Organizadores: Vanéssia Gomes, Licko Turle e Jussara Trindade) e "Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora" (Autor: Márcio Silveira dos Santos).

Livro "Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora" apresenta ao público um recorte da trajetória do Grupo Manjericão. São relatos apaixonados que vem à tona pelas mãos de um de seus fundadores, Márcio Silveira dos Santos, trazendo vivências ao leitor como se fosse espectador de cada momento vivido. Ainda traz os relatos da maior aventura do coletivo artístico porto-alegrense, que parte do Rio Grande do Sul para uma jornada no norte do Brasil. Mas não é uma expedição qualquer. Trata-se de levar a arte teatral para o interior da Amazônia, descendo de barco rios como o Madeira e o Rio Amazonas e atracando nas comunidades ribeirinhas com a palhaçaria feita por um experiente trio. Essa jornada é apresentada em seus encontros inusitados e momentos singulares, em narrativas e diários de bordo, além de muitas imagens captadas nesta imersão na floresta.

Sobre o autor:
Márcio Silveira dos Santos nasceu em Porto Alegre/RS. É professor-pesquisador com Licenciatura e Mestrado em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é Doutorando no Programa de Pós-graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina. É ator, diretor, dramaturgo e palhaço no Grupo Manjericão/RS. Articulador da RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua e membro do GT Artes Cênicas na Rua da ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas. De 2010 a 2014 foi representante da sociedade civil no Colegiado Setorial de Teatro/RS no CNPC – Conselho Nacional de Política Cultural/DF

Livro "Teatro de Rua – Discursos, Pensamentos e Memórias em Rede" (Organizadores: Vanéssia Gomes, Licko Turle e Jussara Trindade)

O Grupo Teatro de Caretas em parceria com o Conselho Nova Vida apresenta TEATRO DE RUA: Discursos, Pensamentos e Memórias em Rede. O livro está organizado de forma a propiciar aos leitores (em especial aqueles artistas que atuam nos espaços abertos) os múltiplos olhares de algumas práticas/experiências artísticas realizadas pelos rueiros do Brasil que se transformaram em estudos, pesquisas, reflexões, registros históricos. De certa forma, ele é para nós uma práxis; ou seja, uma devolução teórica para retroalimentar a nossa prática como artistas-trabalhadores das ruas que somos. Os articulistas, que generosamente contribuíram com esta edição, são atores/ diretores integrantes de um ou mais coletivos ou grupos de teatro de rua de todo o Brasil. Alguns atuam também no ensino das artes, em instituições públicas e privadas, como artistas-docentes; outros aprofundam suas investigações no campo científico da pesquisa e da pós-graduação. Uma conquista para a multiplicação dos saberes e fazeres.

Banda Dr. Jupter

Às 20h espetáculo "Lorys para maiores" com Lorys Verônica.
 E para finalizar a noite show com a Banda Doutor Júpiter de Mairiporã-SP, que se autodenomina "caipira", tem sonoridade folk com elementos rock, country e da música brasileira. O quarteto é considerado um autêntico representante da música folk brasileira.






Programação de hoje
Sábado, 1 de julho

9h – Ato/cortejo artístico "3 anos sem Lua Barbosa – Desmilitarização Já!".
Itinerário: Galpão da Lua – Praça 9 de Julho.
11h30 – Espetáculo "BLITZ - O Império que nunca dorme" com a Trupe Olho da Rua (Santos-SP). Local: Praça 9 de Julho, Centro.
14h – Plenária da RBTR e GTs.
17h – Lançamento dos livros: "Teatro de Rua – Discursos, Pensamentos e Memórias em Rede" (Organizadores: Vanéssia Gomes, Licko Turle e Jussara Trindade) e "Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora" (Autor: Márcio Silveira dos Santos).
20h – Espetáculo "Lorys para maiores" com Lorys Verônica (Pres. Prudente-SP) e Banda Doutor Júpiter (Mairiporã-SP). Local: Rua Júlio Tiezzi, Centro (em frente ao Galpão da Lua).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora

Livro: Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora.
Autor: Márcio Silveira dos Santos            Editora: UEBA Editora    

Release:
O Livro “Longa Jornada de Teatro de Rua Brasil Afora” apresenta ao público um recorte da trajetória do Grupo Manjericão. São relatos apaixonados que vem à tona pelas mãos de um de seus fundadores, Márcio Silveira dos Santos, trazendo vivências ao leitor como se fosse espectador de cada momento vivido. Ainda traz os relatos da maior aventura do coletivo artístico porto-alegrense, que parte do Rio Grande do Sul para uma jornada no norte do Brasil. Mas não é uma expedição qualquer. Trata-se de levar a arte teatral para o interior da Amazônia, descendo de barco rios como o Madeira e o Rio Amazonas e atracando nas comunidades ribeirinhas com a palhaçaria feita por um experiente trio. Essa jornada é apresentada em seus encontros inusitados e momentos singulares, em narrativas e diários de bordo, além de muitas imagens captadas nesta imersão na floresta.


Sobre o autor:
Márcio Silveira dos Santos nasceu em Porto Alegre/RS. É professor-pesquisador com Licenciatura e Mestrado em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é Doutorando no Programa de Pós-graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina. É ator, diretor, dramaturgo e palhaço no Grupo Manjericão/RS. Articulador da RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua e membro do GT Artes Cênicas na Rua da ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas. De 2010 a 2014 foi representante da sociedade civil no Colegiado Setorial de Teatro/RS no CNPC – Conselho Nacional de Política Cultural/DF.
Contatos para aquisição do livro R$30,00: E-mail: marccioss@yahoo.com.br – Whatsapp (51) 982292509. (tim).

Fanpage: https://www.facebook.com/LongaJornadadeTeatrodeRuaBrasilAfora

quarta-feira, 26 de abril de 2017

De encontros às margens do Tietê, que nos fazem verter águas de lágrimas pelos olhos e pelos poros


Alexandre Falcão de Araújo[1]

A arte, por vezes, alcança o simples (e profundo) papel de nos reconectar com a potência da relação entre as pessoas, os seres e as paisagens, potência biológico-cultural inerente à nossa espécie e à nossa história e que, no entanto, frequentemente, deixamos de lado. A trajetória proposta pelo espetáculo “A Cidade dos rios invisíveis”, do Coletivo Estopô Balaio, cumpre esse belíssimo papel e nos leva, desde a estação de trem do Brás até o Jardim Romano, no extremo leste da cidade de São Paulo, a revisitar as memórias alagadas de uma região que constantemente sofre com enchentes.
Com cerca de quatro horas de duração, o itinerário começa dentro do trem, com fones de ouvido que nos levam a escutar canções, sons de rios, relatos documentais de moradores da região e narrativas fabulares, metaforizando os trechos do trajeto e suas personagens. Desembarcamos na estação Jardim Romano, de onde seguimos em caminhada - passando pela sede do coletivo - por diversas ruas, vielas, becos e terrenos baldios do bairro. Na deriva, o grupo nos propõe um momento de partilha, de convívio com outro lado da cidade, em grande parte desconhecido pelos moradores da classe média e da elite paulistanas.
Foto: Alexandre Falcão de Araújo
Desde o início, no vagão de trem, os atores-performers nos convocam a realçarmos o olhar para os que conosco dividem o espaço do transporte público e, em jogos que mesclam delicadeza e certo risco de relação com os passageiros, colam papeis com frases, questões e provocações nas janelas e bancos do trem, nos pés e mochilas das pessoas.
Acerca da qualidade interpretativa praticada desde o início do trabalho, o ator Juão Nin, logo nos avisa: _Não sou um personagem, sou eu mesmo, Juão! Esta característica, realçada durante todo o caminho, reforça ainda mais a dimensão relacional proposta pela obra, pois já ao desembarcamos na Estação Jardim Romano, os integrantes do elenco passam a cumprimentar os moradores conhecidos que encontram na rua e, vice-versa, os amigos criados no bairro chamam-lhes pelo nome, inclusive de dentro da lotação que passava pela rua.
Aqui cabe um esclarecimento ao leitor que não participou da experiência: o elenco é divido entre um núcleo “estrangeiro”, vindo de fora do bairro e formado majoritariamente por migrantes, oriundos do Rio Grande do Norte, incluindo o diretor João Júnior; e outro núcleo formado por atores moradores do Jardim Romano que, desde 2012, participam dos projetos realizados no bairro pelo coletivo Estopô. Depois de alguns anos de convivência com o novo território os potiguares parecem ter alcançado um grau de intimidade e articulação com a comunidade, que os permitiu realizar a ousada empreitada do espetáculo itinerante em questão. Nesse sentido, também é muito bonito perceber o processo continuado de pesquisa do grupo, já que tive a oportunidade de assistir em 2013 ao seu segundo espetáculo: “O que sobrou do rio”. De lá pra cá, os atores moradores amadureceram visivelmente e indicam estarem cada vez mais se apropriando da história de seu pedaço e portanto, de sua própria história, para reconta-la e reconstruí-la poética e politicamente. Para isso, foram imprescindíveis os apoios de políticas públicas de cultura recebidas pelo grupo, ao longo de seus últimos anos, entre eles, do programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, que vem sendo ameaçado, juntamente com outros importantes programas, pela atual gestão municipal, do prefeito João Dória Junior.
Retomando à encenação, que é de natureza fragmentada e apresenta linguagem híbrida, por diversas vezes o elenco se vale da performatividade em detrimento da representação, ora com foco em imagens corporais, ora com foco em narrativas. O grupo se vale ainda do recurso da metateatralidade, utilizado especialmente para cenas dos atores-moradores, ao representarem suas próprias histórias. Além do que já foi citado, dentro do caleidoscópio projetado pelo grupo, uma miríade de recursos e linguagens são lançados em cena, como dança de rua, interpretação dramática mediada pela filmagem em equipamentos portáteis e dublagem de música pop (pelo ator morador Bruno Fuziwara, travestido de Dhiana d´Água) seguida por cantos sagrados de tradição sincrética popular afro-brasileira, em cortejo pelo beco que remete à senzala da antiga fazenda do Sr. Romano. O curioso é que este emaranhando de imagens e estímulos gerados não se esgarça, pois é costurado na também múltipla gama de estímulos que o próprio cenário do bairro nos traz. A relativa longa duração do percurso não se faz sentir de forma absoluta, já que é instaurado um outro tempo: o tempo da experiência.
Tal temporalidade transforma nosso olhar, que foi amplificado pelos estímulos sonoros, visuais e relacionais desde o vagão do trem e que segue estranhando a cidade: vemos homens correndo na estação do Jardim Romano. Por que correm? Em trechos do trajeto, os moradores do bairro cruzam as cenas: a senhora com a sombrinha e a criança (talvez sua neta) com uma touca rosa, com orelhinhas de gato, passam ao lado da dupla de rappers do bairro que cantam em frente à sede do grupo, criando um contraste de ritmos, cores e comportamentos. Cenas corriqueiras que nos são ressaltadas pela experiência estética gerada no encontro do cotidiano do bairro com a encenação.
Neste dia, particularmente, nosso caminho foi acompanhado por uma personagem crucial naquele contexto: a chuva. Entre garoa e pingos mais grossos, quase três horas de água caindo dos céus acompanharam público e elenco, gerando mais uma camada de sensações ao trabalho: o frio e a umidade, que são extremamente presentes nas memórias de sofrimentos dos moradores. Nos bueiros-rios, equipamentos de saneamento básico poetizados na dramaturgia, e nas ruas e vielas de forma geral, ás aguas afluíram de maneira mais sutil que na enchente, mas em volume suficiente para nos molhar e nos inundar de novos significados naquela vivência.
Na trama de relações com os artistas e moradores do local, o coletivo realiza ainda mensalmente o Sarau do Peixe, homenageando poetas da quebrada. Esta ação cultural deságua para o espetáculo e algumas poetisas do bairro ganham voz e foco na encenação, como Chica Lôra, que na frente de seu bar, nos recebe e lê uma poesia. Outro personagem local que nos acompanha desde a casa do Balaio até o destino final é o Sr. Vital, sanfoneiro que faz a cama sonora em diversas cenas e protagoniza junto com a atriz Ana Carolina Marinho a cena-conversa sobre Saudade, momento emocionante em que ambos compartilham uma canção composta pela dupla e deixam transparecer pelos poros, vozes e olhares a integridade e profundidade do encontro que tecem a cada nova apresentação.
Entremeado pelas histórias e memórias locais, o espetáculo constrói um olhar político, de perspectiva social, em relação à segregação da cidade, olhar este permeado pelo afeto e sensibilidade praticados nos diversos encontros fluviais. Chegando ao destino final, às margens do rio Tietê, encontramos todo o elenco e, às suas costas, o rio poluído, de onde podemos ver e ouvir galinhas d´água, pássaros silvestres e capivaras, em sinfonia com os ecos lançados às àguas pelo poeta Emerson Alcalde, importante agitador cultural da Zona Leste e artista convidado na obra do Balaio. Concluímos a experiência com a contemplação do rio e o silêncio, preenchido por diversas vozes pretéritas e presentes daquelas margens, transbordando em nós como emoção, reflexão e relação social. 




[1] Professor do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, doutorando em Artes pela Universidade Estadual Paulista – Unesp.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Basta de preconceito e violência contra artistas de rua


Dia 8 de abril, Matías Galindez Rodrígues (Matías Ziatriko), malabarista e viajante uruguaio de 29 anos, conversava com um amigo sobre o que era SER ARTISTA DE RUA. Ambos estavam num posto de gasolina em Ji-Paraná, no estado de Rondônia, Brasil, quando THIAGO FERNANDES, que passava no momento, interviu na conversa alegando que malabarismo não é arte. Em seguida THIAGO FERNANDES sacou uma arma e disparou 10 vezes à queima-roupa contra Matías, fugindo em um carro Corola prata. Matías, foi socorrido por bombeiros e levado ao hospital onde sua vida se apagou.

THIAGO FERNANDES de 19 anos, encontra-se foragido, é filho de duas grandes autoridades locais e já cometeu outros assassinatos. Diante da corrupção e do abuso constante de autoridade que vivemos diariamente, nossa palavra não tem peso, nosso caminho não vale, nossa escolha não é válida, nossa opinião não conta.Apesar da nossa inegável presença nas ruas, nas praças, nos parques de toda América Latina, continuam nos marginalizando, proibindo, reprimindo. Hoje é triste dizer, mas defender a bandeira da arte de rua pode custar sua vida.

Essa intolerância encoberta de civilidade levou embora Matías. Vivemos em um mundo absurdo em que é mas difícil conseguir uma permissão para exercer arte em espaços públicos do que comprar uma arma e sentir-se no direito de disparar a qualquer um que pense e viva diferente.

Estamos conscientes de que Matias é mais uma vítima do ódio: o ódio pela liberdade de poder escolher um estilo de vida alternativo, autônomo e contra o sistema, que nutre de sonhos, de paixões, de desafios. Assim é a vida dos artistas de rua. É uma luta constante. É o paradoxo entre saber o que geramos, a surpresa de uma criança, o sorriso de um idoso e esse ódio que abastece na ignorância de quem acredita que somos vagabundos e desempregados por ter uma ideia diferente do que é viver bem. 

ALGO DEVE FICAR BEM CLARO: MATÍAS FOI ASSASSINADO violentamente e impunimente por defender o que escolheu ser: Um artista de rua que entende a arte como ferramenta de transformação, como um direito intrínseco aos seres humanos, como algo que deve ser acessível a todos.

Desde toda a América Latina, Europa e por todo mundo, exigimos JUSTIÇA PARA MATÍAS. Que a sua morte não fique impune, e que o assassino pague por suas ações perante as leis humanas, pois sabemos que a sabedoria do universo lhe devolverá suas ações.

Como artistas de rua, como viajantes, como cidadãos do mundo que somos, exigimos que seja respeitado o estilo de vida que não só transcende fronteiras, se não que é um patrimônio cultural dos povos. Sempre existimos. Lutamos dia a dia para reivindicar nosso papel na sociedade. Nós resistimos a fazer parte desse sistema capitalista/patriarcal de ódio, violência e sentimento que doutrina dia a dia através dos meios de desinformação. 

Os artistas de rua RESISTEM no semáforo, numa roda em uma praça, em uma ocupação, no humor, na colaboração voluntária no chapéu, na autogestão e na organização coletiva e cooperativa. 
Na Arte de Rua acreditamos, assim como acreditava e vivia Matías, que uma sociedade tolerante, inclusiva, amorosa e livre de preconceitos é possível.

Fazemos um chamado às autoridades pertinentes: Consulado, Chancelaria, Ministro das Relações Exteriores e a todos os que podem contribuir de alguma maneira para que justiça seja feita. 

Até agora sabemos que a mãe e o irmão estão em Ji-Paraná fazendo os procedimentos para o traslado do corpo de volta para o Uruguai. 

BASTA DE PRECONCEITO E REPRESSÃO POLICIAL CONTRA OS ARTISTAS DE RUA.
DESDE SEMPRE PELAS RUAS DO MUNDO TODO. LONGA VIDA À ARTE DE RUA!"

*texto traduzido do coletivo Circo Paraguay

Mais informações:

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Agitprop: cultura política

ESTEVAM, Douglas; COSTA, Iná Camargo; BÔAS, Rafael Villas (Orgs.). Agitprop: cultura política.
Adailtom Alves Teixeira[1]

São Paulo: Expressão Popular, 2015, 197 p.
Palavras-chave: Agitprop; teatro; história; trabalhadores
Keywords: agitprop; theater; history; workers

O livro Agitprop: cultura política, organizado por Douglas Estevam, Iná Camargo Costa e Rafael Villas Bôas, lançado em dezembro de 2015 pela editora Expressão Popular, é um alento e uma oportunidade para conhecermos um pouco mais sobre o teatro criado pelos trabalhadores da Alemanha e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) na primeira metade do século XX.
Fruto de pesquisa e traduções de uma equipe de militantes, o livro é dividido em quatro partes, tomando como base o livro francês Le Théâtre d`agit-prop de 1917 à 1932, este dividido em diversos tomos. Como o acesso ao francês é restrito, o trabalho vem suprir uma lacuna importante, afinal, com sua leitura, fica claro que desconhecemos por completo a produção do teatro classista, isto é, o teatro que se engajou na luta de classe alemã e na Revolução Russa.
Três textos de pesquisadores franceses dão conta dos aspectos teóricos da produção agitpropista, cobrindo as fases históricas pelas quais passou essa produção –   caso do capítulo de Jean-Pierre Morel, que aborda desde o início, durante a guerra civil, até o desmonte dessa forma teatral sob domínio stalinista. Além disso, apresenta ainda a relação dos vanguardistas, como Maiakovsky, Meyerhold, entre outros, com os trabalhadores da agitação e propaganda. O segundo texto, de Christine Hamon, aborda as formas dramatúrgicas e cênicas do teatro de agitprop na Rússia; já o terceiro, de Bernard Lupi, foca na produção alemã, tanto em seus aspectos históricos, seu desenvolvimento, bem como sua construção cênica e dramatúrgica.
Outra parte do livro foca na experiência de um dos principais coletivos de agitação da URSS, o Blusa Azul. O coletivo, que atuava principalmente em Moscou, mas tinha braços por toda Rússia, com apenas cinco anos de existência já tinha atingido mais sete milhões de espectadores. O grupo surgiu como jornal vivo, atravessou toda a década de 1920 e foi modificando seu repertório ao longo do tempo. Além dos espetáculos, produziu também um periódico em que publicava os melhores esquetes e as indicações para futuras encenações.
Na última parte do livro são apresentados justamente quatro esquetes do coletivo Blusa Azul, fruto da publicação de seu periódico. Os esquetes abordam questões do imperialismo internacional do período, aspectos relacionados à saúde dos trabalhadores e o problema do trabalho doméstico, isto é, da importância da igualdade entre homens e mulheres. Além das indicações para encenação, os esquetes vem enriquecidos com notas de pé de página, situando o leitor historicamente em relação às personagens reais abordadas.
Na primeira parte do livro, a produção agitpropista brasileira é discutida. Iná Camargo Costa apresenta os antecedentes teóricos e a rápida experiência do Centro Popular de Cultura, que durou de 1962 a 1º de abril de 1964, quando a sede da União Nacional dos Estudantes foi metralhada pela ditadura civil-militar. Muitos dos envolvidos na criação e produção do CPC abandonaram aquela forma de produção, alguns, inclusive a negaram. Por isso, Costa destaca o nome de Augusto Boal, como um dos poucos que persistiram e ampliaram sua pesquisa, sendo hoje reconhecido internacionalmente. Em certa medida, é justamente com o apoio de Boal que a produção agitpropista vai renascer no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, já na virada do milênio. A experiência é narrada por Miguel Enrique Stédile e Rafael Villas Bôas no capitulo “Agitação e propaganda no MST”.
Para completar um pouco dessa nossa história sobre o teatro de agitação e propaganda, pode ser lido também o livro organizado pro Fernando Peixoto O melhor teatro do CPC da UNE, publicado pela Global (1989) e o livro de Miliandre Garcia Do teatro militante à música engajada, da Fundação Perseu Abramo (2007).
A pouca produção acerca do assunto por si só, já demonstra a importância do livro Agitprop: cultura política, desejando que a equipe continue a traduzir para que novos volumes venham a público e possamos conhecer um pouco mais da história cultural dos trabalhadores, pois só assim poderemos ensinar ou repicar essas experiências, seja em nível acadêmico, seja pelas lutas diárias que travamos.




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; mestre em Artes pela Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (2012); membro do grupo de pesquisa PAKY`OP – Laboratório de Pesquisa em Teatro e Transculturalidade.

segunda-feira, 13 de março de 2017

URGENTE – POR UMA POLÍTICA PÚBLICA PARA OS FESTIVAIS DE ARTES CÊNICAS

REDE BRASILEIRA DE FESTIVAIS DE TEATRO
CARTA DE SÃO PAULO
URGENTE – POR UMA POLÍTICA PÚBLICA PARA OS FESTIVAIS DE ARTES CÊNICAS
Neste momento em que estamos aqui reunidos, dezenas de programadores, centenas de artistas, milhares de espectadores, agregados pela MITsp, em meio à grave crise democrática e econômica porque passa o Brasil, a Rede Brasileira de Festivais de Teatro, articulação que abrange mais de 60 festivais em todas as regiões do país, vem a público reivindicar, urgentemente, a construção de uma política pública para a sobrevivência dos festivais realizados no Brasil.
Os festivais de artes cênicas têm papel fundamental e decisivo na difusão e circulação da produção das artes cênicas no Brasil. Promovem um intenso trabalho de formação de público, descentralização cultural, fomento ao intercâmbio nacional e internacional, qualificação artística, técnica e de gestão, contribuindo para a difusão da imagem do Brasil no exterior, além de impulsionar mercados de trabalho e economias locais. Geram também uma interface com vários outros setores da economia e da sociedade, tais como turismo, educação, tecnologia, comunicação, ação social, entre outros.
Num levantamento preliminar, realizado através do esforço dos próprios festivais, entre os anos de 2015 e 2016 os orçamentos de 25 festivais movimentaram mais de 50 milhões de reais. Estes eventos alcançaram um público superior a 2 milhões de pessoas, gerando mais de 15 mil empregos diretos. Foram mais de 400 espetáculos nacionais e internacionais que circularam no país. Estes números demonstram a robustez dos festivais e apontam para sua relevância cultural, artística, educacional e econômica.
É urgente, inadiável e premente a construção de uma política pública para o setor, que responda aos desafios colocados pelo avançado estágio de complexidade das artes cênicas brasileiras. Que seja capaz de criar um sistema orgânico, democrático e participativo, que viabilize a sustentabilidade dos festivais, e ainda, que vislumbre ações e metas de longo prazo, destinadas ao fomento deste estratégico segmento.
Infelizmente, pouco se avançou para a efetiva implementação das reivindicações constantemente lançadas desde 2004 quando os festivais começaram se organizar. Assim, a Rede Brasileira de Festivais de Teatro retoma sua pauta e propõe o imediato debate e encaminhamento, através das seguintes diretrizes:
1. A busca de um modelo de financiamento e gestão que se adeque às necessidades específicas dos festivais e aponte para uma estratégia de continuidade e consolidação;
2. Criação de um grupo de trabalho como canal de interlocução entre diversos ministérios e agencias públicas, além do Ministério da Cultura, buscando soluções transversais para os marcos regulatórios trabalhistas, fiscais, tributários e alfandegários;
3. Fomento à criação de encontros e redes relacionadas à produção de festivais de dança, circo e teatro e performance.
4. Apoio do poder público para a realização de estudos e pesquisas sobre os impactos artísticos e econômicos dos festivais;
5. Ampliação do diálogo com as três esferas de governo, iniciativa privada, artistas, meios de comunicação e sociedade em geral, reforçando a importância estratégica da realização dos festivais para o desenvolvimento artístico e econômico do Brasil.
São Paulo, 14 de março de 2017
REDE BRASILEIRA DE FESTIVAIS DE TEATRO
Carta Lançada durante a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo