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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Diários do Grupo Vivarte - Acre



14/12/09
Olá rede, hoje iniciamos o projeto Circuito do espetáculo O casamento da Filha de Mapinguari, Prêmio Artes cênicas na rua, pela manhã das 7:00h às 10:30h, organizamos o material necessário para viajarmos. Coisas como, material do espetáculo, alimentação, objetos de uso pessoal, medicamentos, farmacêuticos e naturais, etc.
Exatamente as 10:42h pegamos a estrada, foi uma viagem tranqüila até Sena Madureira, onde dentro de uma van passamos o texto, curtimos a paisagem, teve até parada pro Rapé. Ao chegar a Sena, almoçamos enquanto esperávamos o transporte para seguir para Manoel Urbano, quando o transporte chegou, mudou nossa realidade, era uma Toyota das antigas, traçada e ficamos impressionados com a quantidade de lama na lataria, na viagem até Sena.
Perguntamos ao motorista como era a estrada, e nos disse que iríamos sofrer um pouquinho. Quando pegamos a estrada percebemos que ele queria era nos animar, pois em alguns momentos a Toyota rebolava, andava de lado, em algumas vezes parecia que ia virar cambalhota.
Encontramos no meio do caminho uma Toyota até o talo de lama, sem conseguir sair do lugar, o motorista em um ato solidário rebocou a outra do atoleiro, mas logo em seguida nós que caímos atolados, precisando assim da ajuda dos rebocados.
Seguimos a viagem com a estrada daquele jeito, mas esse jeito nada nos abalou, pois, cantando e tocando, encantamos os minutos e as horas até chegar à balsa e em seguida Manoel Urbano, com a estrada melhor.
Tivemos uma ótima recepção pelo Secretário de Educação e nesse momento estamos hospedados no prédio na Secretaria de Educação, descansando para amanhã desenvolvermos nossas atividades com esta comunidade tão simples e tão hospitaleira.
O povo já nos olha com curiosidade.
Neste lugar de difícil acesso vemos carência de atividades teatrais e para nós é um grande orgulho estar realizando este projeto, não apenas trazendo um trabalho artístico a este lugar e sim, aprendendo com este povo guerreiro que encara muitas dificuldades em sua caminhada, porém, tem o brilho nos olhos e o carinho de receber e trocar momentos nos mais diversos ambientes, mesmo sendo na carroceria de uma Toyota, correndo o risco de ficar no meio do caminho, mais com uma imensa coragem de encarar, sentir e viver os momentos. Isto nos enriquece e nos fortalece para encarar e realizar o teatro de rua e da floresta no meio da Amazônia.
Valeu e ai vai algumas fotos do trajeto.
Sempre estaremos enviando nosso diário de bordo até quando der, pois em alguns lugares a internet não dá sinal.
Assinado: Juliano Espinho e Marilua
(Grupo experimental de teatro Vivarte – AC)
15/12/09
Hoje começamos cedo no batente, acordamos (alguns) às 07:30h, nos vestimos e saímos para tomar café da manhã na padaria do seu Cocão, segundo ele já foi secretario de cultura e deputado de Manoel Urbano. Contou umas histórias da região e sobre uma lenda que é verdadeira da índia que aparecia e brigava com os homens, não se sabe ao certo o que é, apenas, uma cabocla misteriosa e assustadora.
Nos despedimos e voltamos para secretaria, pois tínhamos uma reunião com o prefeito e precisávamos nos organizar pra saber o que iríamos fazer. Conhecemos as senhoras e senhores que não são engravatados, porém vereadores. Receberam-nos muito bem, colocamos nossas propostas e por alto o que pretendíamos fazer estando por aqui. Também sobre o teatro de rua e a RBTR, e o interesse de outros grupos do Brasil em viajar no interior do Acre. Agradeceram, falaram da importância de estarmos aqui pra essa comunidade carente de cultura. Contaram-nos mais algumas histórias e o secretário ficou de nos apresentar a uma pessoa que sabia exatamente a lenda da índia.
Entrevistamos Sr José , que nos contou fatos impressionantes sobre a cabocla que no final da década de 80 aterrorizou os seringais de Manuel Urbano, contando também sobre outros mistérios desta grande floresta Amazônica.
Fomos conhecer o espaço cultural disponível para as oficinas e uma quadra, onde estavam 3 meninos jogando bola, aproveitamos pra bater uma bolinha com eles, ganhamos de 4 x 1. Voltamos e fomos almoçar e descansar um pouco pra fazer um cortejo chamando a população para grande festa.
Ao sair pelas ruas no cortejo encontramos um publico aberto e curioso que logo nos acompanharam, alguns saíram nas varandas de suas casas para receber o recado carregado pelo cortejo, apresentação do Casamento da filha de Mapinguari na quinta feira dia 17/12/2009 às 18h na praça central.
Pela noite realizamos a oficina com a temática: Iniciação ao teatro de rua, com os jovens e adolescentes, foi muito bom, conversamos sobre as linguagens de rua e fizemos exercícios práticos e encerramos com um ensaio aberto do espetáculo o casamento da filha de Mapinguari. Ao final fizemos uma avaliação geral da oficina e do ensaio no que demonstraram muito interesse, inclusive em organizar um espetáculo.
Percebemos a carência de atividades teatrais em Manuel Urbano, mas vemos um grande potencial nos jovens de criar e desenvolver essa atividade artística.
Juliano Espinhos / Marilua Azevedo / Dani Mirini
(Grupo Experimental de Teatro de Rua Vivarte – ACRE)
16/12/09
Bom, não posso dizer como foi o começo do dia, pois acordei às 10hs. Depois eu e alguns companheiros fomos tomar café na padaria do seu Cocão, que havia nos prometido, no dia anterior, tapioca, mas que o Rodolfo acordando cedo, as comeu. É mérito de quem cedo madruga. Depois fomos dar uma volta na beira do rio, acho eu que é onde fica o porto de Manuel Urbano. Marilua, Kuru, Miguel e Juliano desceram para olhar os barcos (atenção para esta parte) enquanto eu, Rodolfo e Dani, ficamos tocando e cantando. Ah, e a Rita que até o momento eu não tinha visto e ninguém sabia do seu paradeiro, reapareceu com suas unhas belas para a viagem. Ficamos lá até a hora do almoço (ou até a barriga do Juliano avisar que era à hora do almoço), e na ida para o restaurante fomos surpreendidos por uma chuva. Surpresa boa ( a Rita é quem pode falar melhor sobre isso). Enquanto esperávamos a chuva cessar, abrigados em uma pequena cobertura, se fazia uma roda e volta do dominó comprado poucas horas antes por Miguel, que naquele momento iniciava o jogo com Marilua e Rodolfo, onde cada jogador jogava a sua maneira. Esperamos alguns minutos e seguimos para o restaurante, e após o almoço cada um foi fazer suas coisas pessoais, inclusive a Rita que executando sua tarefa, descobriu que o barco prometido a nós, para nos transportar até Santa Rosa, não estava de certo prometido. Manuel Urbano ficou responsável por nossa hospedagem e alimentação no município e também a ida e volta de todos até Sena Madureira. Já Santa Rosa, pela nossa ida e volta de Manuel Urbano até lá. Porém se alegava que o preço do barco para nos transportar, estava muito alto, do qual eles não tinham disponível, R$ 7.000.000.
Mas depois de estresses, discussões, nervos alterados, Juliano foi até o porto onde havíamos estado pela manhã e negociou com o dono de um barco, por um preço bem menor, em relação ao barco que Santa Rosa havia tentado negociar. Tudo acertado, seguimos para o ensaio aberto, que em minha opinião, foi muito produtivo. Quando acabou o ensaio, já estava na nossa hora de jantar. Jantamos e depois fomos direto para a oficina, que ao meu olhar, tem pessoas de idade, estilos e até pensamentos diferentes, no entanto o mesmo brilho no olhar e vontade de aprender, como diz a música do Juliano, com as portas abertas para o conhecimento. Juliano comandou belissimamente a oficina. E ao final, junto com os alunos, ensaiamos um cortejo, côco, ciranda que iniciará o espetáculo de amanhã. Que o com a participação dessas pessoas, cheias de ritmos, cadencia e malemolência, já posso prever o belo resultado. Até fomos convidados para um bate papo com direito a tereré, mas ficou para amanhã depois do espetáculo, para uma avaliação da oficina. Para encerrar a noite fomos dar um passeio pela cidade e voltamos para o nosso aconchegante e coletivo espaço para uma partida de dominó, onde Rodolfo e Miguel estão sobre suspeita. E eu desistindo do jogo, agora me encontro escrevendo esse relatório do dia para o diário de bordo do Vivarte. Boa Noite!
Vanessa Oliveira
Fotografias Elenilson Soares – PE (mais fotos: http://www.blogdovivarte.blogspot.com/)
17/12/09
Acordamos com hora marcada e um leve frio na barriga. Dia da estreia do espetáculo O Casamento da Filha de Mapinguari.
No café da manhã um balanço da nossa situação. Temos barco, comandante, e até dez coletes salva-vidas. Questionei sobre as redes. O barco comporta armar duas redes. Os mosquitos me preocupam.
Nesse momento a expectativa de cumprimento da nossa jornada é grande. O plano se mantém: partir bem cedinho com destino a Santa Rosa, parando pra dormir, e em duas aldeias, para combinar as apresentações, que faremos na volta. A data da nossa chegada lá é um completo mistério. Ouvi falar em três, cinco e até sete dias.
De volta à secretaria, passagem rápida do texto. Poucos erros.
E, pra variar, descemos à beira do rio. Juliano à frente. Foco nas casas de apoio aos índios Kaxinawá e Kulina. Esses são os nomes pelos quais são conhecidos pelos homens brancos. Chamam-se, na verdade, Hunicuim e Madehá.
Os primeiros nos proporcionaram fotografias fantásticas, feitas por Kuru, closes incríveis das três crianças, na janela, a princípio tímidas, e depois encantadas.
Falamos com os Madehá. Pela primeira vez vi um índio responder a Juliano que sim, tomava rapé. Mostramos a eles o que temos. Nos surpreendeu o modo diferente de eles usarem o rapé, colocando entre os dentes e o lábio inferiores. Depois foram servidos pelo tipi de Juliano, inclusive Lua e eu.
-- Forte, repé! – disse um.
Outro tomou três vezes.
-- E sua aldeia, onde fica? Tem pajé na sua aldeia? – perguntava um terceiro.
Foi nessas casas que pegamos o nome das maiores aldeias de cada etnia. Anotei mentalmente: Santa Júlia e Nova Aliança.
Meio-dia. Parada para postagens, e-mails, ver fotos. Almoço.
De novo no quarto, descansamos. Rapé, dominó; ajustes de máscaras, adereços, acessórios. Essa ocupação com detalhes práticos me fazem sentir verdadeiramente dentro do Teatro. A tarde foi bem mais tranqüila do que eu esperava. Outra visita ao rio, última passagem de texto e banho. As condições do tempo permaneceram indefinidas até o momento de começar a arrumar as coisas. Fomos. Maria Rita para um lado, resolver a questão do combustível, e nós para outro, pegar o material do espetáculo.
Sob algumas nuvens carregadas, indecisas, arriscamos. Levamos quase tudo do colégio para a esquina em frente à praça. Voltamos ao colégio. Até Juliano confessou uma sensação gelada no estômago.
Figurinos vestidos (só o macaco de máscara), instrumentos em punho, saímos em cortejo, tocando maracatu, chamando as pessoas e já acompanhados por algumas crianças. De novo para a praça. Algumas crianças curiosas no local da apresentação, outros passantes aqui e ali, uns poucos alunos da oficina espalhados pela praça. Fomos até o seu centro. Fechamos, os seis, uma roda em torno da santa, a padroeira da cidade, Nossa Senhora da Penha.
O apito soou longamente. Respiramos na mesma pulsação.
Cantamos o aboio que abre o espetáculo e entramos novamente em formação de cortejo. Atravessamos a rua, seguidos pelos alunos, e crianças. Formamos o círculo. Emoção.
"Ao som do apito que toca..." Vanessa é quem puxa esse coco, que dessa vez viu outras pessoas no meio da roda. Dani deu a fala de abertura da peça. Segura, sem pressa, não tornou a chamar o maracatu antes de fechar a roda com o público ainda meio desconfiado.
Logo na primeira fala senti a dificuldade de alcançar com a voz todos os pontos da roda. Terminei a estrofe já cansado. Outras músicas e falas depois, chega o mito, Mapinguari; é ele quem nos dá a ordem de botarmos as máscaras.
Quando não estamos na roda, Lua, Miguel e eu formamos a banda do espetáculo, muito engraçado uma banda formada por bichos, o trio de Tucano, Jaraguá e Bicho Folharal. Sentado no banquinho vi quanto tinha enchido o local.
Tudo se sucedeu conforme o ensaiado, exceto pequenos detalhes. As crianças riram, os indígenas adoraram, cantamos para eles depois, as fotos ficaram lindas, não choveu. Tudo como eu gostaria que fosse. Pelo sorriso de cada um vi que todos gostaram.
Na hora do jantar, um Kulina procurava Juliano, querendo rapé. Enquanto os dois conversavam Juliano notou que ele tinha o dedo do pé ensanguentado. Pisara numa garrafa de vidro, logo depois da apresentação. A cena que vi ficará um bom tempo em minha memória: meu amigo Juca buscou um balde de água, um sabão e com suas mãos lavou o dedo encardido e ensanguentado do pobre Madehá.
Mais à noite os alunos da oficina nos receberam para um tereré na escola. Sorteamos a um deles a camiseta da peça. Antes disso ainda levamos para dentro do barco a grande caixa preta com estrelas e o nome do grupo, além dos mantimentos, panelas, etc.
O fim da noite foi de conversas, risadas, cervejas, café, tapioca, mais conversas...
Rodolfo Curumim
Fotografias Elenilson Soares (Kuru) – PE
18/12/09
Às 5h o despertador, todos olham para o lado para ver se havia alguém de pé, ninguém. Fomos dormir muito tarde, a noite foi para comemorar o espetáculo. Levantamos e fomos arrumar as malas, tomar café da manhã e carregar o barco.
Saímos de Manoel Urbano às 8:20h, a caminho de Santa Rosa, as imagens encantam nossos olhos, belíssimas árvores, pássaros em nosso caminho, é agora a natureza que canta e dança numa representação do não imaginário cenário do Rio Purus.
Agora as lentes se encontram para os belos registros da viagem, enquanto os pandeiros e as cantorias alegram como um cortejo rio acima.
Como companheiros temos o Duti e José, barqueiros de muita fé, as 11h navegamos para almoçar, e em ritmo de toc-toc do motor que não quer parar, a paz, a tranqüilidade de nossas almas é constante, com o que vemos a cada instante, após o almoço a pausa para o repouso, rapé só o Juliano de pé, a viagem segue seu ritmo, botos, garças e manguaris, a chuva como uma mensagem dos deuses, dão alerta para o novo horizonte, alguns momentos o silêncio, reflexões, parece que todos tem uma só essência, como o puro encontro com o divino.
Tudo é tão bonito, lindo, calmo e tranqüilo.
São 15h, Rita prepara o café, parece que todos meditavam em um só pensamento, pois surgiram os movimentos do corpo e da mente em um só ritmo, Bailão de Princesa. Eu encantado, não deixo de registrar os encantos da natureza. Dentro de barco o grupo vivarte, a luz, a sutileza, a beleza, uma união de cores que da alma surge a clareza, a expressão de um olhar, um sorriso, de uma palavra, de um gesto, isso é viver da arte, vivarte.
Faltam 15min pras 17h, Juliano e Miguel, se preparam para a pesca. Pintados e Mandins contribuem para o prato do dia, às 18:30h, o barqueiro dá uma parada para o descanso, Andiroba no corpo, lanternas passam a ser nossos guias, é hora de arrumar os colchonetes, redes e mosquiteiros. A noite vai caindo, o silencio da relva, o estado de espírito que nos transporta a um universo de paz, de vida e de eternidade.
Agente já não sabe o tão belo é o jardim que Deus criou, onde o Rio Purus, grande e cheio de mistério cortam as matas dando o sentido da verdadeira fonte de vida, O que mais podemos dizer do sagrado Rio Purus.
Kurunandana Dasa
Fotografias Kuru - PE
19/12/09
Nosso segundo dia dentro do barco, a arrumação pra dormir não foi a das melhores, nem todos conseguiram descansar. O Juliano e o Miguel começaram a pescar bem cedo, antes de todos levantarem, foram 5 peixes, sendo que um pulou dentro do barco por conta própria.
Hora do Rapé...
O café da manhã foi recheado com um pão de milho, chá de hortelã, camomila e café com leite, era uma manhã linda, uma neblina sobre a floresta e o som de muitos pássaros e animais.
O barqueiro seguiu viagem era 6:10h, até pararmos no seringal Espírito Santo, fomos recebidos com olhares curiosos de diversas crianças. O Juca desceu do barco direto pra água num mergulho, logo em seguida Marilua e Miguel caíram no leito do rio. Kuru foi logo registrando a história daquele lugar. Começamos a tomar nosso banho, todos caíram n'água.
Juca, o Duti e o José (assistente do barqueiro) foram buscar água lá em cima do barranco pra cozinharmos, pois a água da cacimba próxima ao rio estava muito suja, foi quando um menino de meio metro de altura nos chamou e levou até outra nascente de água limpa. Tivemos muita dificuldade para levarmos a água até o barco, pois o balde estava muito pesado e o caminho escorregadio pro causa da lama e da chuva. Barco abastecido, banho tomado, seguimos viagem.
No caminho o capitão nos falava o nome de diversas árvores nativas da margem do rio, como: Mulateiro, Sumaúma, Cerejeira, Cumaru Ferro, Assacú, entre outras originárias dessa bela região amazônica. Os botos brincavam a distancia e com a aproximação do barco mergulhavam e reapareciam as margens do rio, dificultando o fotografo em busca da foto desses encantados seres.
Hora do Rapé...
O tempo passou, nessa viagem subindo o rio, encarando balseiro, repuxos e tronqueiras que estavam a passar, a fome apertou e fomos preparar o almoço, no qual o cardápio foi: Macaxeira, arroz, feijão e um ensopado dos peixes pescados por nossos maravilhosos pescadores.
Almoçamos e chegou à hora do cochilo.
Chegamos a primeira aldeia Kulina, Santa Julia, fomos analisar para vermos se poderíamos apresentar o espetáculo para a comunidade, ancoramos como de costume fomos recebidos com olhares curiosos, subimos o barranco e nos deparamos uma criança andando de perna de pau, que era um instrumento pra andar encima da lama, logo em seguida vimos uma cena muito triste, quase todos os adultos estavam bêbados as quedas,brigas e discussões, as crianças cheia de feridas, aproximou-se uma índia com uma menina muito pequena no colo, não dava para entender direito o que falava, pois falavam pouquíssimo português, palavras jogadas. Mostrou-nos a menina com a marca de uma cirurgia bem do lado da costela direita, então chamaram uma liderança que falava um pouco melhor português, assim que este desceu do seu Tapiri (casa feita de palha e Paxiúba), levou a maior queda no meio da lama, estava bêbado também, se aproximou e se apresentou como Luiz Montes Kulina, sempre falava que era fiscal do rio e agente de educação e saúde, tentamos explicar sobre nossa proposta de apresentarmos na aldeia diversas vezes, mas foi difícil a compreensão, pois seu estado de embriaguês atrapalhava o dialogo. Quando nos entendeu, pediu num papel escrito o dia que iríamos passar por lá, descemos no barco para escrever, ele veio junto, demorou um pouco para calcular o dia que voltaríamos de Santa Rosa para apresentarmos na aldeia, neste tempo conversamos mais um pouco, foi quando o Juca ofereceu-lhe um rapé, então descobrimos que o álcool era trazido pelos barqueiros que passavam freqüentemente no rio, trocado por carne de caça, lembrei de outro vacilam que já tinha falado sobre isso em Manoel Urbano, nos aconselhando a levar álcool para trocas. Com o rapé alto, cantei uma canção Mantinere ele pensou que falava a língua dele e começou a falar, mas não compreendi nada. Os Mantineres têm o mesmo tronco lingüístico dos Kulina (Aruaki), então pedi para que cantasse uma canção, foi quando a essência do seu povo começou a brilhar, na partida escutamos o desabafo de uma das poucas mulheres que não estava bêbada, que falava do descaso no qual sua aldeia estava, sem auxílio algum e sofrendo de doenças a qual não conheciam remédios e que já havia matado muitos, adultos, crianças e velhos. Após esse desabafo trocamos 1 kg de arroz, um pouco de rapé e tabaco, por um punhado de carne de caça para isca de pesca.
Embarcamos indignados com tanto descaso e sofrimento que esse povo vem passando, são 500 anos sem trégua que os povos indígenas vêm sofrendo e hoje vemos essa propaganda de sua imagem rendendo milhões, mais não trazendo a estes seres humanos a oportunidade de alcançar essa hegemonia na qual transmite essa falsa propaganda. Temos como meta agora falar por toda a parte que apresentarmos esta realidade para abrir os olhos de quem quer enxergar e colocar urtiga na poltrona de quem quer esconder.
Logo a frente encontramos outra aldeia Kulina (buaçú), encostamos também para avisar sobre a apresentação na Santa Julia, subimos o barranco e encontramos Sival, professor e indígena da aldeia, percebemos logo uma melhor organização, não encontramos ninguém embriagado e logo estávamos cercados por todos os moradores pra ver o que se passava, devido a questão da estrutura, pois não havia tanta lama e a proximidade da aldeia Santa Julia, decidimos fazer a apresentação na aldeia buaçú, que também era mais populosa. Tudo confirmado seguimos viagem. Viajamos aproximadamente mais uma hora e logo a atravessar a desembocadura do Rio Chandre, paramos em uma colocação ao qual o capitão sabia que havia outro barco de chegada, onde poderíamos usar para montar as redes e dormir, foi uma noite tranqüila.
OBS.: Antes de dormirmos paramos para pescar, o destaque foi nossa pescadora Marilua de primeira viagem que superou as expectativas, pescando 2 peixes, detalhe eram Candirus, peixes temidos nos rios amazônicos pelo fato de quando tomamos banho nus, eles gostam de entrar em nossos buracos, causando quando problema a saúde do nosso intestino, pode se dizer também que são peixes estupradores, ao qual não presta para comer.
Esta viagem tem sido de grande importância e experiência, temos encontrado histórias, lendas, mitos e estamos conhecendo a realidade dos moradores do Rio Purus, é uma experiência única, ao qual agradecemos muito pela oportunidade de realizar e construir essa historia. Encontramos o ouro que os Europeus não encontraram, que esta dentro de cada morador e seu imaginário na diversidade cultural, nas águas do Purus e na imensa floresta amazônica.
Juliano e Marilua
Fotos Kurunandana

Diário de Bordo do Vivarte


20/12/09
Renasce o dia.
Renascem os pensamentos.
Tucanos, socós, manguaris, são os mensageiros do tempo.
Renasce o tom.
Renasce a luz do dia, enquanto todos dormiam.
Às cinco da manhã seguiram com as fotografias.
Os encantos dessa manhã já dizia o que iríamos encontrar.
Os povos Kaxinawa, com tamanha força e expressão no olhar, crianças, mulheres, pousavam para fotografar.
Juliano com seu tipi na mão, peça chave do rapé, leva a proposta do Vivarte á apresentação.
Rita na rede do pajé tomava kaissuma.
Marilua em volta das meninas um retrato de solidariedade, presenteou uma delas com uma argola, que seu brinco tornou em uma amizade.
Junto com Rodolfo, Vanessa e Miguel resolveram tocar com ela, em uma das ocas. Daquele povo levamos amendoim, artesanato, expressão e muita energia conosco a caminho. Em seguida Duti, o barqueiro mostrou uma mangueira que seus frutos davam para a beira do rio, resolvemos parar, Juliano subiu no pé, como si toma rapé, rápido como o sopro do pajé, as mangas que caíram dentro do rio, num ritual sagrado, era a purificação das águas do Purus.
Elenilson Soares (kuru)- PE.
O barco corta as águas do Rio Purus. São 13h24min. Hoje acordei com o Juliano falando que tinha pegado um peixe grande. Não sei o que aconteceu. O peixe não apareceu. Fizemos café já em viagem, preparei para o café da manhã, tapioca com cenoura, o Juliano já tinha preparado cuscuz e café. Logo após o café da manhã chegamos na Aldeia Runi-kuí, ou Kaxinawa, nome dado pelo homem branco, no período do Contato com esse povo.Como não tinha peixe pescado pelo Juliano e Miguel, comemos, baião de dois, que sobrou do jantar da noite passada, com sardinha. Chegando à Aldeia tomamos kaissuma preparada com milho, estava uma delícia, o morador da Aldeia, Senhor Bristo, pediu que eu deitasse, na rede, que quando chegamos o mesmo estava deitado. mi deitei e fiquei muito a vontade, senti-me em casa,com tamanha hospitalidade. Enquanto saboreava aquela deliciosa kaissuma, Juliano, Rodolfo, Vanessa, Miguel, Kuru, tomavam rapé, junto com Bristo. Logo as mulheres da aldeia se aproximaram de mim, e começaram a pega no meu vestido. Uma das mulheres a de mais idade pediu que eu desse o meu vestido pra ela. Eu fiquei sem jeito, disse-lhe que eu tinha trazido somente aquele, e que em outra oportunidade eu traria um vestido pra ela. Outra adolescente de olhos negros, rosto lindo, cabelos liso, caindo sobre os ombros, pediu-me a presilha que estava segurando os meus cabelos. Há olhei nos olhos, comecei a arrumar os cabelos dela, e coloquei a presilha que estava nos meus cabelos.
Bristo colocou uma espécie do koka na minha cabeça, fazendo mi sente bem mais a vontade. Perguntei-lhe se ele vendia o koka, ele disse que venderia por vinte reais. Durante essa vivência, ele disse que poderíamos trocar por algum alimento que tivéssemos a bordo do barco, oferecemos-lhes, bolachas depois eles pediram mais mantimentos, desci no barranco, para pegar juntamente com as duas índias, e as crianças nos acompanharam até o barco. Como tinha um saco de bombos que Rodolfo teria trazido na bagagem para consumirmos em viagem, comecei a distribuir bombons pras crianças, mais elas juntamente com as mulheres adultas também avançaram sobre o pacote de bombons retirando das minhas mãos. Fiquei imaginando como foi à questão do escambo com o contato com várias nações no período da Colonização no Brasil e no resto da Amazônia.
Ao retornarmos ao barco, decidimos toma banho de Rio, ali mesmo onde o barco estava ancorado. E seguimos viagem, durante o percurso o Grupo passou um ensaio do Espetáculo O Casamento da Filha de Mapinguari.
O Capitão do Barco, senhor Duti ancorou o barco que nos conduziríamos à casa de um ribeirinho. Não descemos do barco. Juliano, Miguel, Vanessa e Lua começaram a pescar na esperança que algum peixe mordesse a isca de carne de veado adquirido na aldeia. Logo eles pegaram três, mandi e três pintados e um peixe cachorro pulou no barco.
Durante a pesca, o mungunzá de milho com leite de coco e leite condensado ficou pronto. Era à hora do jantar.
As lamparinas improvisadas por mi com uma lata de leite vazia e o vidro de leite de coco consumido no jantar, se transformaram na iluminação desta noite. Observamos que com as lamparinas as carapanãs, que é o tormento de que viaja de barco nos rios da Amazônia, não nos perturbaram tanto.
Juliano faz mais uma rodada de rapé e prepara para tomarmos o chá de cipó preparado pelo Claudio e o Caniço na mata. De resto não da mais pra falar. Só vivenciando esses momentos. Com certeza todos os integrantes do Grupo Experimental de Teatro Vivarte, que participam dessa turnê que estavam presente nessa noite tem sua história particular para contar.
Eu fico por aqui.
Maria Rita
21/12/09
Acordamos 6h da manha e partimos as 6:30h, o capitão Duti e seu timoneiro José ligaram os motores e lá vamos nós . Quarto dia viajando o Rio Purus, com uma paisagem e cultura que muito nos fascina. Eu e Juliano cuidamos do café da manha enquanto a galera dormia. Cardápio do café, cuscuz e tapioca. Depois de todos acordando trocamos vivencias artísticas, e criamos, aproveitando a fonte de inspiração, que é a natureza, mata para os dois lados do rio, e quando chega a noite um céu de estrelas tão lindo que se reflete no rio.
Todo seguia viajem dentro de um barquinho que mede 1metro e 80 de largura, com 10 passageiros, todos juntos aprendendo uns com os outros a conviver com as diferenças. Passamos por diversas aldeias Kaxinawas, mas não paramos devido o tempo que temos para a realização do projeto, e na volta iremos apresentar em duas aldeias uma dos Kaxinawas e outra dos Kulinas.
E no entardecer passamos o espetáculo O Casamento da filha de Mapinguari, mas apenas musicas e falas do espetáculo. Depois cada um voltou para seus afazeres artísticos, ansiosos pela chegada em Santa Rosa do Purus, lembrando que o acesso a essa cidade é apenas pelo rio ou de avião teco-teco.
Chegado à noite um espetáculo da natureza em nossa frente, botos atrás de peixes, peixes pulando pelo rio, a dança de andorinhas que dançam no vento ao rebojo da água. E sons da mata, corujas.
E Miguel fez uma macarrão para o jantar e Juliano e Lua foram pescar. Lua conseguiu pescar um pintado grande, mas com medo de colocar para dentro do barco o peixe pegou a isca dela e voltou para o rio. Os dois conseguiram pescar 2 pintados e 2 mandis.
Quando mais navegamos mais vimos a necessidade de acesso a arte para esses povos afastados, valorizando a beleza que tem a cultura deles .
Bem e foi isso, Boa noite!
Assinado: Mirini
Fotos: Elenilson (mais fotos: http://www.blogdovivarte.blogspot.com/)
22/12/09
Depois do susto que todos nós levamos ao perceber o barco solto no rio, terminou tudo bem. Graças a Deus o barco só havia voltado uns 300 metros e após 10 minutos navegando avistamos o lugar onde atracamos pela 1° vez e descobrimos o motivo. O rio havia subido e o ferro firmado na areia onde o barco foi amarrado não agüentou o rebojo e soltou, assim a correnteza levou o barco.
Seguimos subindo o rio e após algumas horas paramos em uma praia para tomarmos banho, já na próxima curva do rio chegamos ao porto de Santa Rosa. Logo Rita foi encontrar o prefeito, enquanto nós ficamos esperando no barco. Quando ela voltou ficamos sabendo que iríamos ficar no hotel do Roque, então levamos nossas bagagens. Fomos levados para almoçar, voltamos para o hotel e ficamos a descansar o resto da tarde. Reencontramos-nos para jantar e ara levar a janta do Duti, que preferiu ficar no barco.
Passamos o texto com as marcações e as músicas na varandinha do hotel, onde também fizemos o cronograma das atividades para a oficina do dia seguinte.
Tudo pronto, tudo acertado, cada um foi se agasalhar em seus aposentos. Confesso que demorei a dormir, pois com cinco dias de barco, eu ainda balançava.
Vanessa Oliveira
Conversando com diversos indígenas, principalmente Runi-kuin (Gente verdadeira), percebemos os problemas relacionados à política, um deles falou que a maioria da população de Santa Rosa é indígena, mas por não terem conhecimento da política do "branco" sempre ficaram nas mãos dos governantes "brancos "ou Nawas como chamam, que por eles pouco fazem, quando começaram a se organizar na política os "brancos" corrompiam os parentes com dinheiro, gasolina ou cargos que dava apenas nome, mas na hora do orçamento desviavam os recursos para outros fins.
Hoje, eles estão em busca de uma união para conseguir espaço na política, já que são maioria, não sei até que ponto isso é bom, mas bom mesmo foi conhecer jovens Runi-kuin em busca de conhecimento e com sua simplicidade abrirem portas e fortalecer seu povo. Os evangélicos fizeram um estrago cultural em uma parte das aldeias, mas tem jovens e velhos dispostos a resistir em seus costumes e cultura, tomando rapé, cipó, mantendo seu ritual e suas brincadeiras, espiritualidade e quando eles encontram Nawas que gostam da cultura isso os anima e fortalece.
Esta viagem tem sido também um laço enorme que faz com que além de um grupo de teatro apresentando nas cidades e aldeias, nós nos transformamos em um grupo com metas fortes junto a esses povos (Runi-kuin e Madeha), para juntos aprendermos, respeitando uns aos outros, em nossas diferenças e nos fortalecendo em nossa cultura, sabendo o valor de cada um para lutarmos juntos pelos nossos direitos e raízes, pois estamos no mesmo cipó, seguindo as guias e desatando os nós, mesmo voltando para Rio Branco, vamos ter no coração a força guerreira destes povos e juntos lutaremos construindo um novo viver.
Juliano Espinhos
Fotos Elenilson Soares (Kuru) – PE
23/12/09
Acordamos com o objetivo de mandar todos os relatórios pendentes, principalmente para pessoal da RBTR, que está firme nos acompanhando nessa jornada. Valeu pessoal!
Tomamos café da manhã e fomos realizar nossas obrigações, ver alguns emails pessoais e matar um pouco a saudade que nos aperta.
Voltamos para nossos quartos para nos organizarmos, almoçamos no restaurante Frigideira, onde fiquei de cara, pois em plena Amazônia, desde Manoel Urbano, os restaurantes e qualquer lugar que chegamos não têm suco de fruta, ou é artificial ou uma Coca-Cola bem geladinha.
Seguir para dar a oficina no Centro de Cultura e Florestania. Chamamos quatro índios residentes de Santa Rosa que estavam na frente do hotel onde estamos hospedados pra nos acompanhar na oficina que não deu muito certo, pois a divulgação que a prefeitura deveria fazer furou conosco, não apareceu ninguém, não desistimos, fomos para uma escola que tinha um pátio grande logo em frente de onde tínhamos marcado. Demos a oficina para os quatro que estavam lá. Foi super bacana, exercício de foco, de concentração, brincadeiras com músicas, uma roda de ciranda, coco e maracatu.
Passamos um cortejo e logo saímos na rua, os indiozinhos tinham ido embora pros seus afazeres, divulgamos o espetáculo até o centro, essa foi muito boa, muita gente na rua, uns com sorrisos, alguns espantados, outros desconfiados, as crianças correndo, outras chorando, enfim, são varias as emoções quando nos deparamos o desconhecido.
O espetáculo será amanhã dia 24 às 17h, na praça se não chover, se chover, num galpão no centro ou na escola onde demos a oficina.
Agora descansamos cada um no seu quartinho, hibernando, até nossa hora de jantar, passar o tempo com um dominó ou até mesmo exportar o vem em nossas cabeças.
Marilua Azevedo
Fotografias Elenilson Soares (Kuru) – PE
24/12/09
Iniciamos o dias as 8:00 da manha, distribuímos as funções. Lua foi enviar os relatórios enquanto Dani e Rita foram na secretaria de educação de Santa Rosa, e Juliano, Rodolfo e Kuru foram na radio cipó da cidade.
Na secretaria de educação ouvimos as dificuldade do ensino da Arte nas comunidades rurais de Santa Rosa e como é a educação para as aldeias indígenas já que 80% da população é indígena, como se da o processo da educação nestas aldeias, respeitando a cultura indígena.
Depois percorremos um pouco a cidade em busca dos ingredientes para ceia de natal, já a cidade não dispunha de legumes e verduras, apenas o que encontramos foi tomate o Kilo era R$ 4,00 reais.
As 14h horas reunimos fomos verificar o espaço da rua onde iríamos apresentar, em que lugar da praça, e de onde iríamos iniciar o cortejo. Depois de analisado o espaço, fomos nos concentrar e repassarmos o texto, e novas marcações para o espetáculo.
A apresentação estava marcada para iniciar as 17 h mais devido o tempo ter fechado atrasamos 30 minutos O tempo começou a abrir com dois lindos arco-íris , começamos a organizar o material , instrumentos e adereços tudo no seu lugar.Vestido o figurino pegamos os instrumentos e saímos em cortejo pelas ruas de Santa Rosa.
"Eis , que o apito faz figura.
Mais alto que um realejo.
Seu som alcança lonjura ressoa como um festejo.
Povo responde a altura.
Começa assim o cortejo."
Fechamos a roda e começamos o espetáculo. Erramos, improvisamos e acertamos. O espetáculo foi bem dinâmico, os bichos fizeram sucesso, Tucano com sua frescura, Bicho Folharal com sua paz e amor, Jaraguá com sua irreverência, macaco com o seu popular, Tamanduá com sua malandragem, Lua Nova a filha do mito e Mapinguari o Protetor da floresta.
Encerramos o espetáculo, muitas fotos com as crianças, muitos abraços e muitos olhos brilhantes de felicidade, quem via teatro pela primeira vez. Maria Rosa Kaxinawa veio nos cumprimentar falando de sua emoção ao assistir, teatro pela primeira vez.
Véspera de Natal, fomos convidados pelo secretario de educação para ceia de Natal junto a sua família as 21h, aceitamos. Mais mesmo assim preparamos a nossa ceia de Natal, Miguel o Italiano fez a macarronada e Kuru, Dani e Vanessa preparamos o bolo de chocolate. Comemos e bebemos e depois da meia-noite cada um foi se retirando para dormir, pois o dia seguinte vai ser corrido, carregar o barco com o material e novamente partirmos para apresentarmos ainda em duas aldeias.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Diários de Bordo do Grupo Vivarte


25/12
Meu dia de Natal começou com batidas na porta às três da manhã. "Vamos sair bem cedo", pensei. Mas não: era Juliano, que ainda não tinha ido dormir, procurando seu tipi e o potinho de rapé.
Levantamos para a partida às sete e meia. Muita coisa para arrumar, levar para o barco, arranjar água e combustível. Saímos bastante atrasados, quase às dez da manhã.
Seguindo rio abaixo, a velocidade é bem maior. Tínhamos expectativa de chegar à Aldeia Nova Família, local da primeira de nossas apresentações em terras indígenas. Juliano queria antes passar em Novo Lugar, também aldeia Kaxinawá, onde mora Vivaldo, que conhecemos no fundo do hotel e com quem trocamos canções, a fim de reencontrá-lo e conhecer o seu pai Edivaldo, importante liderança indígena.
Viajamos o dia todo, sem paradas. Dia bonito e astral muito bom, a exuberância da floresta acreana enchendo nossos olhos. Vi duplas de araras, capivaras. Um enorme boto cor de rosa pulou alto, mostrando-se por inteiro e voltando a sumir nas águas barrentas do Purus.
Chegamos a Novo Lugar no fim da tarde. Ainda que a parada fosse muito rápida, seria complicado chegar no mesmo dia a Nova Família, pois estávamos num trecho de difícil navegação à noite. Para alegria de Juliano e minha, iríamos dormir naquela aldeia.
Fomos muito bem acolhidos. Ouvimos um pouco sobre o lugar onde estávamos e a enorme família que ali morava. Já de noite, um banho de cacimba, num lugar maravilhoso, debaixo de grandes palmeiras e da lua que nos iluminava.
Nos reunimos depois numa das casas, com os índios. Compartilhamos um pouco de nossas culturas. Juliano, eu e Miguel ganhamos cocares de penas de araras, ave que representa a sabedoria. Todos recebemos nomes indígenas. O meu é Isaka (Issacá), que significa homem forte.
O Kaxinawá que faltava chegou, trazendo consigo uma garrafa, da qual nos serviu Nixi-Pan, Ayahuasca. Dani, Rita, Lua e Vanessa também estavam conosco. Tomamos a bebida sagrada, em seu contexto mais antigo, junto com aqueles que primeiro se utilizaram dela, os índios.
Ouvimos deles canções, em português e também em sua língua nativa. A cantiga no idioma dos Kaxinawá trouxe muita força e mirações. Juliano cantou várias de suas músicas, também compartilhei algumas das minhas, e seguimos conversando até quase duas da manhã. Achei curiosa uma canção na qual eles falavam sobre os índios que vão para a cidade, estudam, e que eles denominam "imitadores de nawá". Nawá, nós, o homem branco.
Depois armamos nossas redes e ali mesmo nos deitamos. Antes de dormir, fechei os olhos e fiz a imagem mental do mapa do Brasil, do lugar onde eu estava, e de onde eu viera. Da Avenida Paulista para a Floresta Amazônica, Rio Purus, tribo Kaxinawá. Não me senti apenas deslocado no espaço, mas também no tempo. De volta às origens do Brasil, e do uso sagrado da Ayahuasca. A última coisa que vi antes de adormecer foi uma dupla de araras voando.
Rodolfo Curumim
Fotos Elenilson Soares (Kuru) – PE Obs.: fotos podem ser visualisadas em http://blogdovivarte.blogspot.com/
26/12
Ao amanhecer a linda sinfonia da floresta nos recebia a um novo dia, levantamos, guardamos nossos materiais, nos despedimos dos grandes amigos e parceiros que naquele novo lugar fizemos, descemos ao barco e duas horas de atraso do horário determinado partimos.
Conosco carregamos as lembranças daquela noite encantada, as músicas, as histórias e as imagens de homens, mulheres, jovens e velhos daquela recém formada aldeia, chamada novo lugar. Descemos o rio guiado por nosso comandante Duti e seu timoneiro José, pelo rio e a floresta em suas margens, povoados por lendas mitos, insetos e animais, nós logo chegamos à aldeia Nova família, vizinha muito próxima da ova Aliança, logo fomos recebidos por Bristo, que encontramos na subida e que já estava aguardando nosso retorno, desceu para nos receber com seu koká de Jacú e um coco da mata recheado de rapé. Desembarcamos e subimos com o material um imenso barranco, as quedas, pois tinha chovido e estava tudo muito liso, vimos o sorriso no rosto dos que estavam nos observando na subida, ai já começava o espetáculo, com as quedas e escorregões. Depois do primeiro ato em uma das tendas fui recebido com banana cozida, pirão e macaco prego assado. Começamos a organizar o material para o espetáculo, antes muito rapé, então depois de tudo organizado e todo o público Runi-Kuin na expectativa, começamos a nos apresentar. As reações foram diversas, desde o velho que ria ao curioso que queria tocar nos bonecos pra saber do que era feito, uma velha com muito medo fazia caretas diversas quase a ponto de correr e se esconder e as crianças que a cada gesto se entocavam e gargalhavam com a apresentação.
Foi uma experiência e tanto, na conversa apos o espetáculo entre o grupo, organizamos nosso trajeto de acordo com o tempo disponível, pois haviam feito um convite de ficarmos para uma confraternização com a presença de outras aldeias, mas infelizmente não havíamos tempo, ainda teríamos uma longa jornada. Percebemos assim, que para nos organizarmos junto às aldeias por serem tão receptivos, teremos que nos próximos projetos ter mais tempo para compartilhar esta rica convivência, apresentando e recebendo com muito amor a cultura desse belo povo Runi-Kuin (Kaxinawá).
Rita começou a falar da história do Brasil e logo foi rodeada de índios atentos, escutando suas palavras, pois está dentro do seu costume contar e ouvir histórias. Enfim, chegou a hora de partir, levando redes e outros artesanatos, que compramos e trocamos naquela aldeia. O sino toca, o motor é ligado, o sino toca 2 vezes, começamos a seguir, o sino toca 3 vezes, já não se vê a aldeia.
Junto com o vento chegamos em Buaçú, aldeia Kulina (Madeha), logo vários homens desceram e ajudaram o Miguel a carregar a caixa d Mapinguari, barranco acima. A intenção foi boa, mas com dificuldade por pouco um italiano e uns Madehas rolam dentro do rio. No fim deu tudo certo. Fomos recebidos pelo professor Sival (nome brasileiro), quando viram nossos instrumentos, vieram curiosos, também trazendo uma flauta, alguns sempre muito próximos. Organizamos, e quando tudo estava ok, começamos o cortejo, mesmo sendo um povo mais sério ou sofrido, acompanharam-nos, víamos até crianças chamando suas famílias para ver-nos passar, e conseguimos arrancar alguns sorrisos desse público. No inicio do espetáculo, uma Madeha entrou e dançou conosco, foi uma apresentação tensa, pois haviam nos dito que os Madeha são um povo que a menos tempo que os outros tiveram um contato mais próximo com o branco e nem sempre recebem hospitaleiramente estes. Houve casos ate de equipes da educação indígena do município de Santa Rosa saírem corridos da aldeia. Em um momento e outro entrava alguém gritando e falando coisas no idioma que não entendíamos, mas assustado fiquei quando o macaco (Dani), devido ao conflito da peça falou seu texto com a exaltação exigida pelo texto próximo a um Madeha, e todos ficaram muito sérios. Mas logo voltaram a sorrir me chamou também à atenção um velho que olhava e em seus olhos, vi o encanto e a saudade como se lembrasse das grandes festas realizadas por seu povo. No final do espetáculo recebemos até aplausos, coisa difícil entre os índios, pois existem outras maneiras de se demonstrar satisfação, quando estávamos nos despedindo para partir, eles gritaram não e começaram a nos segurar, dizendo que agora eram eles que iriam mostrar-nos a tradição do Mariri Madeha, jovens e principalmente mulheres uniram seus braços e com a força da origem do seu povo, cantaram e dançaram. Foi muito bom perceber que nossa apresentação na aldeia trouxe esta motivação deles dançarem e catarem, pois assim vimos a força de nossa ação e a força festiva e ritualística do povo Madeha Kulina. Antes de partir, rapé e tabaco, e no barco prosseguimos povoados com a ancestralidade dos povos tradicionais da floresta.
Juliano Espinhos
18h, depois de um banho de rio, todos exaustos, em busca de um cantinho no barco para descansar, pois a noite será fria. Depois da reunião do grupo na aldeia Kaxinawá, esta para acertar alguns detalhes, parece que Deus nos presenteou um dia fabuloso e espetacular, tanto com as apresentações nas aldeias, quanto pelo cenário deslumbrante da natureza, uma lua crescente que veio iluminar nossas almas, dando um brilho especial, com certeza em nossas vidas. A neblina que se aproximava, dava cada vez mais uma emoção e um mistério, pois não dava para ver o trajeto do rio, como a neblina era muita a visibilidade quase não existia, os balseiros que desciam o rio cada vez mais destemiam. Duti muito experiente, tentava olhar para os lados para se manter no caminho, a noite ia caindo, o frio era intenso. Miguel e Vanessa foram dormir ao luar, a minha preocupação era tanta que comecei a orar, mas a energia que nos conduzia era constante, tudo era perfeito. Jamais meus olhos puderam ver algo tão fascinante, era mais uma vez as águas do Purus, chegamos a Manoel Urbano as 2h, atracamos e eu fui descansar para seguir a viagem.
Fico por aqui deixando mais uma vez o meu ponto de vista, a vista!
Elenilson Soares (Kuru)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fazer Teatro em Grupo é Um Espetáculo

por Alexandre Mate[1]

Você já se perguntou porque faz teatro? Que necessidade: interior ou exterior (ou as duas juntas) faz com que sinta vontade de estar em um espaço de representação: palco, praça, salão? Muitas reflexões tentam dar conta destas e de outras tantas questões. Entre os séculos XVI e XVII, o espanhol Lope de Vega, um grande autor de textos teatrais, teria afirmado que a essencialidade do teatro pressuporia: "Dois bancos, quatro tábuas, dois atores e uma paixão." Beleza de definição... E não é que é isso mesmo?!
Não se pode chamar paixão, também, à necessidade de desenvolver uma nova forma de expressão e de interlocução (conversa indireta, porque o ator não fala diretamente com a platéia, mas relaciona-se com ela)? Será que não é essa paixão de comunicar-se com seus semelhantes e de mostrar – através da representação: tudo aquilo que se sente e se pensa – que se caracteriza em um dos motivos mais fortes para fazer teatro? Bem, pelo menos, e até onde se sabe, tem sido assim na maior parte dos casos, sobretudo entre os amadores. Claro que hoje, e especialmente no Brasil, a televisão induz muita gente a buscar o teatro para conseguir chegar até as telenovelas. Mas esse é um assunto que não vale a pena tratar aqui.
Vale a pena recuperar outras questões, porque tem preconceito no pedaço. É preciso saber que desde muito, muito tempo, quando se usa a expressão 'teatro amador', essa idéia refere-se a duas coisas: primeiro, a uma prática daqueles que não são profissionais (que não têm registro de profissional, porque não fizeram uma escola); e, segundo, o que é pior, a uma prática de quem não sabe fazer bem o teatro... Essas idéias, que não são verdadeiras, são extremamente complicadas e, infelizmente, muita gente bacana e simples, e que faz teatro amador, pensa assim. Inicialmente, o conceito de amador referia-se àquele que fazia teatro porque amava a linguagem teatral... Praticava o teatro por necessidade, paixão, para aproximar-se de modos diferentes de seus semelhantes. Mas esse conceito, que é verdadeiro, está perdido.
Ao estudar a história do teatro, tem-se a confirmação de que o povo nunca pediu licença a ninguém para praticar essa linguagem artística. A cultura popular existe porque o povo se cola e (beleza!) transforma suas próprias tradições. Teatro, para os artistas populares, foi uma forma de gozar e de denunciar os poderosos; de aproximar-se de seus deuses e humanizá-los; de reiterar seus prazeres e desejos mundanos e espirituais; de expandir e cultuar suas crenças, antepassados, tipos humanos e tradições; de reinventar procedimentos para construir relações de prazer e de diversão... Por falar em história do teatro, muitos escravos e negros forros fizeram teatro no Brasil, desde o século XVII, entretanto, é raro ter o registro de seus nomes nos manuais. A chamada democracia racial, como se sabe, existe em discurso e em lei, mas não é praticada de modo geral. A situação da prática teatral no Brasil é tão complicada que, na maior parte dos casos, os livros de panorâmicas teatrais apresentam o nome de João Caetano (1808-1863) – que era branco (e descendentes de portugueses) e pertencia à Guarda Nacional –, como o 'primeiro ator do Brasil'. Assim, os negros que fizeram teatro no Brasil, nos séculos XVII, XVIII e XIX, fora raríssimas citações, sobretudo no último desses séculos, não figuram de lugar nenhum.
Ernst Fischer, importante teórico das artes, afirma, no excelente livro A necessidade da arte, que o ser humano faz arte porque tem necessidade de 'ser mais' do que simplesmente ele mesmo. Ele precisa exprimir-se e produzir, tomando os sentimentos, a sensibilidade, os anseios, seu conceber idealmente o mundo... Para isso, o ser humano precisa compartilhar, juntar-se, em processo, a outros tanto contemporâneos (e que estão ao seu lado) como aqueles do passado, recuperando suas experiências e descobertas. Materializa a idéia do ajuntamento – nas artes coletivas, como é o teatro – a perspectiva de uma união dando força ao conjunto e, também, a cada indivíduo. Nesse sentido, basta lembrar o quanto certas pessoas contribuíram para nosso crescimento pessoal: para que a gente conseguisse olhar as coisas com outros olhos, para que a gente mudasse de opinião, para que a gente gostasse de algo que não conhecia...
Claro que o grupo é fruto de inúmeros conflitos, mas, em se querendo mesmo fazer arte e se estando inteiro e de verdade nesse trabalho, o grupo é a única maneira de se produzir um trabalho de modo mais conseqüente. Um grupo democratiza a palavra, as idéias, os processos de trabalho... O teatro é uma arte coletiva por excelência. Mesmo se se fizer um monólogo, alguém escreveu o texto, alguém dirige, alguém manipula equipamento de som e luz (quando for o caso), alguém fez o figurino etc. Verdade que tem indivíduos que querem fazer tudo isso sozinho, mas, normalmente, quando isso acontece, e para dizer o menos, o espetáculo sai desastroso.
Pois é: dividir é bom e gostoso. Faz com que a gente melhore, fique mais paciente, aprenda a discutir e a argumentar. Mais e junto com tudo isso, ao facilitar aproximações, o teatro desenvolve nossa capacidade de percepção e de imaginação; amplia nossa auto- estima, a autoconfiança, promove a descoberta dos valores de nossa comunidade! Afinal, é claro que o artista quer mostrar seus sentimentos para o mundo, mas antes disso, precisa fazê-lo para sua comunidade!!! Se nós não mostrarmos quem somos, ninguém o fará por nós. E essa é nossa parcela de responsabilidade. É essa nossa busca de identidade! Nossa comunidade se parece a múltiplas outras, mas tem particularidades próprias. Tem um modo de ser, tem uma mentalidade singular, tem necessidades próprias. Descobrir esse berço comunitário e a memória cultural onde estão a nossa origem é trabalho do artista amador (aquele que faz por amor) comprometido com seu tempo, consigo mesmo, com o grupo e com a comunidade de que faz parte.

Publicado originalmente em A Gargalhada nº 1, março/abril de 2006.




[1]Prof. Dr. Do Instituto de Artes da UNESP