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domingo, 18 de agosto de 2013

Acabou a magia: uma intervenção sobre o Fora do Eixo e a mídia NINJA (1ª parte)

A devoção transforma-se num regime de exaustão e de submissão, em que o esgotamento físico e mental impedem o ensaio de qualquer auto-organização e de espírito crítico. Por Passa Palavra

Na noite do dia 05 de agosto de 2013, a participação de Pablo Capilé e Bruno Torturra no programa Roda Viva, "idealizadores" da Mídia NINJA (Narrativas Integradas de Jornalismo e Ação), disparou um intenso debate nas redes sociais e demais fóruns da internet. Então veio à tona questões para as quais desde há dois anos o Passa Palavra chamava a atenção: o caráter empresarial do coletivo por trás da Mídia NINJA, o Fora do Eixo, sua relação com os financiamentos públicos e privados, aspectos hierárquicos de seu funcionamento interno e a prática exploratória sobre a produção artística, cultural e simbólica de agentes mais ou menos ligados ao circuito.

1. Velhos truques

A inserção do Fora do Eixo nos movimentos sociais não é um fato novo. Em 2011, sua participação na Marcha da Liberdade gerou também um intenso debate no Passa Palavrasobre os perigos da proximidade entre os chamados novos gestores culturais e os movimentos sociais. Neste sentido, uma nova tentativa de capitalização e difusão de sua marca nas jornadas de lutas contra o aumento das tarifas do transporte coletivo e o que se seguiu nas ruas de todo o Brasil não deveria parecer novidade. A diferença entre a aproximação do FdE na Marcha da Liberdade e nessas últimas manifestações é que, dessa vez, o coletivo-empresa não era desconhecido nos meios militantes e, talvez por isso, não chegou oferecendo sua carta de serviços para compor a organização dos atos, como tentou fazer dois anos atrás. Durante a jornada recente, o FdEprocurou se implantar nos movimentos sociais diretamente com sua estrutura, por uma via que não levantasse suspeitas sobre o seu caráter militante.  Como quem não quer nada, os FdE apresentaram-se como algo diferente, como uma equipe de comunicação supostamente independente e, mais importante, aparentemente descolada da marca Fora do Eixo. Isso possibilitaria que a empresa não criasse atritos com os meios militantes autônomos (ou pelo menos mais à esquerda) ao mesmo tempo que angariava jovens ativistas voluntários ao novo empreendimento (afinal, era quase impossível contabilizar o número de pessoas nas manifestações tirando fotos ou filmando os atos com seus celulares).

Um exemplo dessa tentativa de descolamento do FdE foi uma reunião realizada com a Frente de Luta contra o Aumento de Goiânia, em meados de julho, com o objetivo de formar um coletivo Ninja naquela capital. Questionada a esse respeito, Fernanda Costa, que se apresentou como uma "agente da Mídia Ninja", afirmou vagamente que havia apenas uma "parceria" com o Fora do Eixo, não mais que isso, como tantas outras parcerias realizadas pelo país. Para ilustrar a situação, a representante dos Ninjas chegou a equivaler a "parceria" com o FdE a uma outra supostamente feita com o movimento Mães de Maio, de São Paulo – o que talvez na sua avaliação comprovasse o caráter ativista da empreitada. Hoje é mais do que sabido que a Mídia NINJA não mantém relação com o FdE, simplesmente porque ela é o FdE, um novo ramo de negócio do nosso já conhecido  coletivo-empresa.

A estrutura da Mídia NINJA funciona com um núcleo central em São Paulo, com mais ou menos 8 pessoas, e com um número flutuante de colaboradores em outros estados, principalmente em capitais como Belo Horizonte, Porto Alegre, Belém do Pará, Brasília, Rio de Janeiro e Salvador. Para montar uma nova sucursal dos ninjas, os novos voluntários são instruídos a aderir ao projeto através do preenchimento de um cadastro. Nele, a pessoa indica a sua disposição em ajudar, em qual área ela pretende atuar e o quê ela tem a oferecer em termos de auxílios materiais. Esta seria a forma de financiamento colaborativo apontada por Fernanda Costa. Haveria ainda, segundo a representante, a possibilidade de disponibilização de materiais e instrumentos para a utilização nos núcleos ainda em fase de formação. E aqui entraria a vaga parceria com o FdE, fornecendo parte da estrutura acumulada em seus anos de existência, através da exploração de trabalho não pago de artistas e colaboradores da empresa.

No projeto exposto por Bruno Torturra, na entrevista do Roda Viva, o objetivo do Fora do Eixo com seu braço jornalístico, a Mídia NINJA, seria o de se contrapor aos grandes conglomerados dos meios de comunicação do Brasil. Com a centralização em site único da captação das imagens das sucursais existentes em algumas cidades, o Fora do Eixo poderia controlar o que se vem chamando de "cobertura alternativa" das manifestações organizadas por diversos movimentos sociais. Ainda de acordo com Fernanda Costa, não haveria uma linha editorial a nortear os trabalhos, senão um critério de seleção que seguiria um "padrão estético" e a correção ortográfica, realizada pelas pessoas responsáveis pela página que hoje existe. O funcionamento desta estrutura passaria, desta forma, da produção do conteúdo pelas pessoas dispersas e inseridas nas manifestações para esta equipe central, que cumpriria o papel de selecioná-los e corrigi-los.

Em reportagem veiculada por O Globo é relatado um debate ocorrido no Rio de Janeiro sobre a tentativa de se buscar recursos públicos para o financiamento do site da Mídia NINJA a partir de editais públicos da cultura. Apesar de esta ser uma das práticas comuns de captação financeira do Fora do Eixo, a reportagem evidencia a existência de uma polêmica sobre a aceitação ou não deste tipo de financiamento entre os membros do coletivo. Frente à desconfiança em se aceitar este tipo de recurso para a estruturação do projeto, Pablo Capilé afirmou não ver problema nesta prática, argumentando ainda que "Só no Rio, já existem 200 grupos que gostariam de ter mais estrutura. Sem recursos, dificilmente conseguiremos dar a eles mais suporte. Temos que disputar políticas públicas, como faz a grande imprensa, que cria formas de receber esse dinheiro".

Fazer como a grande imprensa na captação de financiamento público é o que propõe Capilé para que o Fora do Eixo e a Mídia NINJA possa conseguir dar "suporte" aos grupos interessados na nova prática midiática. Mas será que a semelhança entre o Fora do Eixo e as demais corporações de comunicação brasileira ocorre apenas no âmbito da captação dos recursos? Ou a semelhança vai além desta disputa financeira, se revelando também na organização interna do Fora do Eixo?

2. A empresa Fora do Eixo e o "núcleo durável"

A já famosa entrevista dos dois ninjas ao Roda Viva acabou sendo também um tiro pela culatra. Apesar da primeira onda de comentários ter sido caracterizada por uma grande quantidade de elogios que surgiram nos meios virtuais sobre o embate com os representantes da mídia corporativa e como os ninjas conseguiram quebrar os argumentos dos velhos jornalistas, começaram a aparecer, logo em seguida, relatos de experiências concretas de artistas e colaboradores internos do Fora do Eixo, os quais contradizem frontalmente o argumento de uma organização horizontal e participativa.

No primeiro relato, que alçou notoriedade no Facebook, Beatriz Seigner expôs como o Fora do Eixo utilizou de sua produção artística para conseguir financiamento público e organizar eventos com a distribuição de seu filme.

Em seguida, Lais Bellini narrou detalhadamente as relações de trabalho que vigoram na Casa Fora do Eixo em São Paulo, quartel general da empresa, confirmando aspectos que o Passa Palavra já havia desenvolvido aqui. Primeiramente, as noções de horizontalidade, participação igualitária e existência comunitária – sempre aludidas pelas grandes figuras e demais intelectuais ligadas à empresa – caem por terra quando a ex-integrante relata a existência de um "núcleo duro" que controla a organização interna dos espaços e das pessoas que lá laboram. Ainda segundo Laís Bellini, o núcleo duro "é o grupo que está mais envolvido com a rede, dentro de um ponto (numa cidade) da rede e, por conseqüência, tem mais poder de fala, mais poder de decisão, mais poder, enfim, ou melhor, como eles dizem mais 'lastro'". Para ela o "lastro" é a mesma coisa e carrega o mesmo sentido da "prepotência que [se] assiste nos poderes públicos do país. Lastro é sim poder" dentro da organização Fora do Eixo. E ela exemplifica como o "lastro" garante o exercício do poder aos mais experientes da empresa e que estão há mais tempo construindo-a.

Você vive dentro da Casa Fora do Eixo São Paulo e isso é a sua vida. Se você quer visitar seus pais no interior… olha sinceramente, que você tenha um bom motivo… e que não venha "pedir" 2 meses seguidos. Sim, porque ali o verbo era esse. "Posso ir visitar minha mãe essa semana?", coisas do tipo. Tá afim de encontrar uma pessoa que não faz parte da rede?! Vai inventar a maior mentira pra conseguir sair dali uma noite se quer[sic], e no dia seguinte se demorar pra voltar, não tem cara bonita te dizendo bom não. Ali, é cobrança 24h por dia. Agora, ai de você perguntar porque o Pablo tá saindo. Porque a Lenissa vai passar 3 dias fora. Você não tem que perguntar. Ela vai sair, vai usar o dinheiro do caixa coletivo, não vai pedir a ninguém o quanto vai usar. Mas claro, veja bem, ela tem "mais lastro que você". O Pablo resolveu dormir até mais tarde e perdeu o vôo. Não importa, ele nem se deu a obrigação de cancelar o vôo. "Você vai ligar lá Laís, vai dar um jeito de trocar a passagem." "Mas já passou a hora do checkin" "não importa, troca, ou compra outra, tem que comprar outra, rápido Laís, já resolveu (o gtalk bombando!!!) vai Laís, vai logo, menina, tá lerda hoje, você é lerda mesmo né, parece retardada". Sim, você fica na função de comprar 70 passagens aéreas e não para durante 4 dias fazendo todas as cotações possíveis e impossíveis. Ai de você comprar um horário que seja errado. Ligue para ela, pergunte que horas ela vai chegar. Tem que ter um vôo pra ela. Laís, você é retardada, NÃO TÁ OUVINDO O QUE EU TO FALANDO?"

O relato não deixa dúvidas de que aquilo que é chamado de "lastro" consiste em um mecanismo de legitimidade que garante aos mais bem posicionados na hierarquia da empresa o controle sobre o tempo de trabalho alheio. Mostra os maiores gestores da Fora do Eixo, Pablo Capilé e Lenissa Lenza, exercendo sua função de comando no caso das compras de passagens. A cobrança intensa do resultado do trabalho e a pressão psicológica para que a trabalhadora cumpra com sua tarefa no prazo estipulado pelos que têm mais "lastro" dentro da organização demonstra uma situação que não difere em quase nada das relações sociais de produção existentes em qualquer empresa capitalista, em que há atribuições hierárquicas de decisões a serem executadas por trabalhadores que não têm "lastro". O fato de Capilé ou Lenissa não se reportarem aos demais sobre os motivos de saída da Casa Fora do Eixo mostra o grau de controle que detêm sobre seu próprio tempo de permanência no local de trabalho, controlando sua jornada de trabalho e decidindo sobre a saída ou não dos demais moradores.

A entrega à construção do mundo alternativo propalado pelos líderes do Fora do Eixo leva os moradores da Casa a terem uma jornada de trabalho que lhes ocupa todo o tempo da vida, com o agravante de mesmo o tempo de descanso ser realizado dentro da própria empresa.

Curiosamente, são estas relações laborais que uma das ideólogas de plantão do Fora do Eixo, Ivana Bentes, classifica como "um dos mais potentes laboratórios de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades. Que tem como base: autonomia, liberdade e um novo 'comunismo' (construção de Comum, comunidade, caixas coletivos, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários)" (ver aqui).

O "salto" de organização em relação às empresas tradicionais, se é que assim pode ser considerado, reside no fato de o núcleo duro passar a dispor de larga margem de controle inclusive sobre as relações interpessoais dos moradores, indicando-lhes os limites das relações afetivas e quais as pessoas com quem podem ou não se relacionar. Ao mesmo tempo que se endurece o caráter totalitário das relações trabalhistas internas ao FdE, para fora, sua rede de parceiros jogam com a imagem da felicidade plena no local de trabalho; no melhor estilo da propaganda do regime stalinista.

Ainda a respeito da organização interna do Fora do Eixo é importante destacar como o argumento do "lastro" esconde o óbvio: sempre será Capilé e os que iniciaram a empresa em Cuiabá quem terá maior lastro, afinal, possuem dedicação integral há muito mais tempo, pois foram eles os próprios fundadores. A ascensão interna possui uma barreira hierárquica intransponível, consolidando assim uma cúpula dirigente cristalizada. Não houve até o momento um relato sequer que dissesse o contrário a respeito da hierarquia interna.

Se a crítica libertária do último século não poupou linhas a respeito dos partidos leninistas, já não é aqui o que se está analisando e engana-se quem o faz. Num típico partido leninista há, por assim dizer, momentos de democracia interna, seguidos por decisão e definição de linhas, o que se denominou centralismo-democrático. No caso do Fora do Eixo, o mecanismo do "lastro" impede justamente o aparecimento do "democrático": há apenas o centralismo irradiado por seu "núcleo durável".

Por regra, onde há política, há oposição. Um caso extremo são os partidos trotskistas, em que há forte rigidez doutrinária e ideológica, e onde os rachas e fragmentações são recorrentes. Como se explica o fato de uma Casa Fora do Eixo não se opor à outra ou, ainda, não haver disputas internas acirradas? É certo que a ideologia deles é muitíssimo fraca, baseada em ideólogos como Claudio Prado e Ivana Bentes, que há pouco tempo atrás falavam em "pós-rancor". Porém, não estamos mais discutindo a partir de regimes internos democráticos, onde é um expediente recorrente os expurgos de dissidentes.

Conforme você sobe na pirâmide de poder, mais transparência é cobrada pelos que estão acima de você. Você deve compartilhar tudo que está acontecendo, o que está sentindo, com quem está conversando, tudo. Porém a prática não funciona no caminho contrário, as decisões de fato, e tudo que permeia a alta cúpula fica limitada a ela mesmo, inclusive com uma escala de poder interno, onde imagino, mesmo entre eles não é tudo compartilhado.

A transparência de sentido único entre os "de baixo" para com os "de cima" reforça o caráter autoritário da organização. Através do slogan "trabalho é vida", o Fora do Eixo consegue tecer elementos da sua ideologia com outras dimensões da vida fazendo disso uma "experiência". O resultado é achatar todas as dimensões da vida numa só: a própria empresa Fora do Eixo.

A devoção transforma-se num regime de exaustão e de submissão, com longas jornadas de trabalho, em que o esgotamento físico e mental impedem o ensaio de qualquer auto-organização e de espírito crítico. Se no interior da empresa Fora do Eixo a coletividade "só funciona nos níveis mais baixos", isso permite uma situação em que a cúpula sempre terá mais tempo e dedicação para pensar e planejar enquanto para os outros as tarefas não terminam. Dessa forma, "os de cima" sempre apresentarão e terão domínio de melhores propostas, suscitando nos "de baixo" um sentimento individual de satisfação e orgulho em trabalhar para pessoas "tão inteligentes", convertendo a cúpula em líderes "naturais". Na verdade, trata-se tão somente da posição central ocupada pelos "lastreados" na estrutura de poder e no fluxo informacional. É assim que se nasce e forma um líder e também uma base de seguidores fanáticos.

Será o leitor tão desatento que não percebe aonde queremos chegar?

3. O Banco Fora do Eixo e a transformação da mais-valia em crédito

A captação de recursos públicos através de editais, a captação financeira proveniente de patrocínios, o recebimento de bilheterias, as vendas de bebidas e outros rendimentos provenientes em reais possibilitam ao Fora do Eixo sustentar uma rede financeira que integra as diversas unidades da empresa. O instrumento desta integração financeira é uma moeda própria, o Fora do Eixo Card. O objetivo da moeda seria o de possibilitar "a sistematização do capital intangível praticado em processos econômicos envolvendo entre vários produtores, gestores e artistas culturais, valorizando o seu próprio trabalho e promovendo o estímulo desses agentes em prol de projetos autorais que desenvolveram cenários culturais locais." (Diário Oficial FdE) Como um dos "simulacros das frentes mediadoras responsável pela criação e fomento de alternativas que gerem o desenvolvimento sustentável da rede", o Banco Fora do Eixo garantiria as transações financeiras entre as diversas unidades e o financiamento dos eventos e atividades da empresa, ou seja, ele apenas unifica um sistema econômico que transforma a mais-valia em crédito. O lastro monetário em reais serviria de base para a conversão em cards, o que garantiria a circulação do numerário para o financiamento das várias unidades, além do eventual pagamento de artistas e demais produtores dos eventos do Fora do Eixo.

Esta proposta em nada diferenciaria o Banco Fora do Eixo da atuação realizada pelas instituições financeiras dos Estados nacionais. Levando em consideração ainda que as grandes corporações transnacionais passaram a ocupar funções e espaços dos Estados nacionais, como a constituição de instituições financeiras, educacionais, jornalísticas e políticas com dinâmicas internas próprias, levantamos a questão: em linhas gerais, em que o Fora do Eixo se diferencia de uma corporação capitalista? E há ainda aqueles que conseguem vislumbrar e conceituar essas mesmas relações descritas como "pós-capitalismo"…

4. Mágica e ética: uma discussão não religiosa, mas sobretudo econômica

Ainda no programa do Roda Viva, Pablo Capilé mais uma vez comentou que o Fora do Eixo transformava "um real em 15" [reais] através do seu caixa coletivo e da sua inovação da gestão organizacional e econômica. Como quem apresenta seu projeto a um possível patrocinador, Capilé tomou como exemplo a casa Fora do Eixo em São Paulo. Explicou que lá moram 30 pessoas e que cada uma custa cerca de R$ 900 reais por mês, e continuou, revelando que cada uma delas, prestando consultoria para 300 festivais no período, produziria R$ 150 mil. Ora, não existem mágicas de valorização num câmbio fixo com paridade entre real e cards. A mágica que aqui faz R$1 (investido) multiplicar-se em muitos outros não é outra coisa senão o esforço combinado de trabalhos braçais, cognitivos ou simbólicos não-pagos, ou sub-remunerados, pelo circuito: chama-se mais-valia – processo que também já fora demonstrado nessas séries de artigos (aqui e aqui).

Como exemplo de "socialismo imanente" apresentam o fato de morarem em beliches e compartilharem um armário coletivo – e até as próprias roupas de baixo -, mas ora, essa é a consolidação do mais puro tipo ideal weberiano do capitalista, definido num clássico da literatura sociológica, A ética protestante e o espírito do capitalismo. Ao acumular ao máximo as riquezas do trabalho, investe-se tudo em mais capacidade para expandir a própria estrutura e gerar mais capital num movimento circular. O "caixa coletivo" é, na verdade, a reafirmação deste tipo ideal, uma vez que se trata de uma racionalização dos gastos com produtos não ligados à reprodução do ciclo da mais-valia. E, em parte, a carência material é suprida pela apropriação e gestão dos pertences pessoais dos membros. Como já apontamos, engana-se redondamente quem acha que o bom capitalista é aquele que destina o seu rendimento em consumo de supérfluos ou mercadorias de mera ostentação.

Os que afirmam tratar-se de uma experiência pós-capitalista deveriam debruçar-se mais sobre as formas de enriquecimentos pré-capitalistas. Nomeadamente a Igreja Católica que, através da doação voluntária de bens materiais e da crença no "trabalho é vida" de monges e frades, conseguiu acumulações de capital colossais nos conventos e mosteiros, bem como nos cabidos das sés, transformando-os em grandes proprietários. Foi através da dedicação daqueles que acreditavam no projeto que o Vaticano conseguiu ser o que é hoje nos planos empresarial e financeiro, algo que em tempos de rancor chamávamos de acumulação primitiva de capital.

Com a primeira parte deste artigo chamamos a atenção para o que escrevemos há dois anos, quando insistimos no caráter empresarial do Fora do Eixo, perante muitos leitores céticos ou mesmo indignados conosco. Hoje esse caráter empresarial está latente aos olhos de todos e só não o vê quem precisa não o ver. Mas não nos limitamos a reafirmar o que já havíamos escrito, porque pretendemos aprofundar a análise. Tentamos mostrar que o Fora do Eixo conjuga uma vertente econômica tradicional, com mais duas vertentes: uma vertente gângster, ou seja, uma economia do submundo, onde as pressões físicas e psicológicas se somam às fraudes e aos calotes; e uma vertente que imita as técnicas religiosas de acumulação do capital, em que os crentes — que no caso do Fora do Eixo se intitulam "membros" — são confinados em espaços clausurados e em que todos dão o que têm para um patrimônio comum, queremos dizer, em que a doação é comum, mas o patrimônio é aproveitado por poucos, pelos detentores de "lastro". É com base nessas três vertentes econômicas que se lança a Mídia NINJA, objeto do nosso próximo artigo.

Leia também: 

Mais um relato: quais os problemas do Fora do Eixo? 

A esquerda fora do eixo

Domingo na Marcha 1ª parte

Domingo na Marcha 2ª parte

Domingo na Marcha 3ª parte

Domingo na Marcha 4ª parte

Domingo na Marcha 5ª parte

Existe consenso em SP? Reflexões sobre a questão da cultura (1ª parte)

Existe consenso em SP? Reflexões sobre a questão da cultura (2ª parte)

Comentando o "Existe consenso em SP?"


Fonte: http://passapalavra.info/2013/08/82548

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Publicações - Núcleo Paulistano de fazedores e pesquisadores em teatro de rua - Atividades de 20.08.2013



Núcleo Paulistano de Pesquisadores e Fazedores de teatro de Rua

 

Atividades do dia 20.08.2013.

 

Das 19h às 20h – Lançamento das Seguintes publicações:


Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo: 

·        Caderno II - Centro de Pesquisa para O teatro de Rua Rubens Brito
Seminário Nacional de Dramaturgia para o Teatro de Rua

·        IV edição da Revista - A Poética da Rua

·        CD: Fotografia Sonora


Buraco d´Oráculo: Buraco d´Oráculo 15 anos de História: para muito Ser Tão Ser muito mais Cuscuz.


Grupo Andaime: Livro sobre os 25 anos do Grupo Andaime, de Piracicaba - Andaime - Um jeito de ser.


Rebento - Revista de Artes do Espetáculo #4.


Kiwi Companhia de TeatroContrapelo - Caderno de Estudos sobre arte e política.


Das 20h às 21h20Considerações sobre Meyerhold e Teatro de Feira.

Debatedores: Maria Thaís e Mario Fernando Bolognesi.


Das 21h20 às 21h30 – Intervalo.


Das 21h30 às 22h30 – Debate.




Apreensão de Malabares em Sorocaba 14/08/2013

Olá,

Este é um vídeo denuncia sobre a conduta da Urbes e da Guarda Municipal de Sorocaba.

Gravado em 14/08/2013

Suportei por três anos a proibição. Saí correndo (literalmente) por um ano inteiro. Fui ofendido de vagabundo por funcionários da prefeitura e ameaçado por diversas vezes nesses anos.


Conheço relatos de colegas que já foram: Agredidos, sequestrados, extorquidos, violentados e perseguidos pela antiga Abordagem Social.

Inicio aqui, uma luta pelo direito irrestrito a liberdade de expressão prevista na:

Constituição Brasileira de 1988 - Artigo V


Inciso IX: é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;



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ALEGAÇÃO DA GCM

Dentre as incríveis alegações dos guardas, a principal é esta:

Lei que proíbe diversas atividades em cruzamento (exceto malabares).


Projeto de Lei nº 44/95 autoria Vereador Jorge Moysés Betti Filho.

A Câmara Municipal de Sorocaba decreta e eu promulgo a seguinte lei:

Artigo 1º - Fica proibida a prática de atos de comércio, propaganda, distribuição de folhetos, arrecadação de ajuda financeira ou de qualquer espécie nos cruzamentos das vias públicas da cidade. Ver tópico (1 documento)

Parágrafo único - Excetuam-se das proibições supra, as campanhas e ou promoções patrocinadas pelos Poderes Públicos ou pôr eles autorizadas a entidades educacionais, sanitárias ou beneficentes. Ver tópico (1 documento)

Artigo 2º - As crianças e adolescentes, com comportamento contrário à presente Lei, serão encaminhados aos órgãos estaduais ou municipais com competência legal para orientá-los. Ver tópico

Artigo 3º - Aos maiores infratores será aplicada a multa equivalente a 200 (duzentas) Unidades Fiscais do Município de Sorocaba, sempre dobradas nas reincidências. Ver tópico

Parágrafo único - Independentemente da (s) multa (s) as mercadorias ou objetos que portarem serão apreendidos e destinados ao fins convenientes. Ver tópico

Artigo 4º - As despesas para o cumprimento desta Lei, correrão pôr conta das verbas próprias do orçamento. Ver tópico

Artigo 5º - Esta lei entrará em vigor 30 (trinta) dias após a sua publicação. Ver tópico

Palácio dos Tropeiros, em 07 de junho de 1.995, 341º da fundação de Sorocaba.

PAULO FRANCISCO MENDES

Prefeito Municipal



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Para que não se repita, para que não fique impune! 


Paulo Galindo

15 - 81647858



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

CAFÉ / ESCULACHO DO RECUSA -



CONVITE
MINISTÉRIO DA CULTURA, RECUSA E GRANDE ELENCO APRESENTAM:
"CAFÉ BATUCADA: Também quero decidir!

Dia 17 de agosto (Sábado) de 2013 às 10h.

1º GRANDE ATO / CAFÉ / ESCULACHO / BATUCADA DO RECUSA (REDE CULTURAL DE SOLIDARIEDADE AUTÔNOMA)


Imagem do 1º Esculacho


LEMBRA DA RIMA DE AS ÁGUAS VÃO ROLAR?
A NOSSA É:
EU QUERO AVACALHAR
DO JEITO QUE TÁ
DE PÉ NÃO PODE FICAR
PRIVATIZARAM A DISCUSSÃO SOBRE A CULTURA
E SÓ OUÇO FALAR EM NEGOCIAR
AI! EU QUERO AVACALHAR!
 
FRASE DO CULTURA E MERCADO:
VAMOS REFLETIR? DEBATER? COOPERAR?
MAS NO JARAGUÁ TEM QUE PAGAR!

Se você também acha um absurdo pagar R$350,oo reais em um seminário para discutir Financiamento Público para a Cultura, chega mais no nosso Café Batucada!
Tragam comes e bebes para ajudar no nosso café de rua, acessórios e intervenções para somar!

Participem do nosso ato/esculacho cultural e popular com batucada, oficinas, rádio post, intervenções e muita festa.
 
O Estado mais uma vez se mostra em função dos interesses do capital por isso vamos dar nosso recado. 
Quem não agüenta mais tamanha desfaçatez que venha pro Ato e ajude na Convocação para os Trabalhadore(a)s das Artes em geral.
 
Basta de renúncia fiscal na Cultura.
Contra a promiscuidade entre governo e empresários.
SI HAY RENÚNCIA
SOY CONTRA!
Todo trabalhador(a) quando faz arte coloca o mundo às avessas.
Contra a política do coffee break: Cafézinho popular.
Dia 17 de agosto de 2013 (Sábado) às 10h.
Em frente ao Novotel Jaraguá:
R. Martins Fontes 71 - Centro - São Paulo
Nas proximidades do Café / Ato / Batucada teremos as ilustres presenças de representantes do Ministério da Cultura, como o Deputado Federal "Pedro Eugênio" (Atual relator do Procultura) e o Secretário de Fomento e incentivo à Cultura "Henilton Menezes".
CADA PARTICIPANTES E OU MILITANTE DEVE LEVAR: Uma xícara e um pires pro seu café.
SE COMPROMETER EM LEVAR COMES E BEBES DO CAFÉ, POIS TRATA-SE DE UMA DISCUSSÃO E CONSTRUÇÃO COLETIVA.
DICAS DE COMIDINHAS: Pães, bolos, biscoitos variados, torradinhas, manteiga, requeijão, geléias, açúcar, adoçante, achocolatado, chás, garrafas de café e água quente, frios (presunto, queijo, salame...), sucos, bombons, frutas, iogurte, achocolatado, patê, guardanapos e descartáveis (facas, garfos e pratos).
DOS GRUPOS E MOVIMENTOS NECESSITAMOS: Instrumentos musicais, tambores, apitos, mega-fones, caixas de som, faixas, estandartes e muita criatividade.
Compareça e junte-se a todo(a) nós!
Por favor, ajudem na divulgação.
É muito importante que venham representantes de todos os grupos e estudantes das artes e cultura em geral.
Que se diga, mais uma vez:
- O que se defende é uma política pública de Estado, e não apenas de governo, estabelecida em leis com regras claras e democráticas, e com orçamentos próprios, o que obrigaria os governos, como Poder Executivo, a executá-las. O que se defende é uma abertura para programas e não um programa único como o incentivo fiscal. O que se defende são leis – a serem construídas no tempo – e não uma lei única como o Procultura.
- O que se defende é um Fundo Nacional de Cultura, que não é programa, mas um instrumento contábil para a ação dos governos, com orçamento e regras claras estabelecidas em leis; que seja administrado através de editais, que serão sempre refeitos e discutidos, tendo um caráter conjuntural, ao contrário dos programas acima, que têm caráter estrutural e estruturante, caráter de continuidade.
 
Aos representantes do  Estado exigimos impacientes que cumpram nossas exigências. 
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Imagem do 1º Esculacho

Carta de Apresentação da Recusa
RECUSA - Rede Cultural de Solidariedade Autônoma - é o nome de um espaço que se propõe a articulação de trabalhadore(a)s, ativistas e agitadore(a)s da cultura em conjunto com movimentos populares para o fortalecimento de nossas lutas. A rede surge com a necessidade de nos articularmos na disputa dos espaços de nossa cidade, sejam eles espaços geográficos ou espaços das idéias. Organizado(a)s, potencializamos nosso movimento de contestação dos vários problemas que vivemos.
Acreditamos que nosso apartidarismo, assim como nossa autonomia de governantes e organizações que representam os interesses dos de cima é fundamental para realmente resolvermos nossos problemas e não apenas conquistarmos pequenas mudanças e reformas que não mudam o sistema. Afinal, aqueles que nos exploram e nos oprimem estão organizados: temos de responder à altura.
Não levantamos apenas uma bandeira ou acreditamos em uma única forma de luta, a RECUSA é uma ferramenta para somarmos nossas propostas e nossos esforços. É um espaço político para construirmos o mundo que queremos para amanhã (para ontem!). E assim, caminhando lado a lado e nos organizando por baixo, buscamos a transformação dessa sociedade.
Toda força para os que lutam! 

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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Amazônia em Cena na Rua - louco de especial

Buenos dias colegas.
 
Ainda não havia conseguido um tempinho para deixar aqui meu relato com relação ao 6º Amazônia Em Cena na Rua, organizado e produzido pelo O Imaginário na cidade de Porto Velho em Rondônia.
 
Nesses anos de batalha, o grande boto rosa, Chicão Santos transformou esse encontro de rua, de frente para o rio na Arena Madeira Mamoré, em um dos melhores festivais do Brasil. Foi muito bom estar junto dessa grande brincadeira.
 
A boa recepção e gentileza dispensam comentários.
 
O Tapiri, sede do grupo, está "o luxo do gaúcho".
 
Até frio fez este ano. Pode? Frio em Porto Velho! A minha ingnorância nunca imaginou. Neste dia, terça 23 de julho, fazíamos a última apresentação do dia. Algo em torno de 22h local. O público resistente, corajoso. Estava em torno de 9°C. O povo vestido de chinelo, bermuda, camiseta, vestido. Normal. Porto Velho, né? Casaco pra que? Começa a "chuviscar" mais forte, pois de quando em vez cai uns pingos. Nós prontos e vendo o público ainda resistente. Chega a nossa vez. Nesse momento, uma parte esta indo embora, congelada e outro grupo de pessoas vem pedir para que a gente fizesse outro dia, que transferisse...estavam com muito frio...Pertinentemente acabamos apresentando na quinta com temperatura normal de 30°C à noite.
 
Queria falar também dos espetáculos. Uns consegui assistir completos, outros pelas metades, pelos lados. Minhas sinceras desculpas aos colegas prejudicados, mas a responsabilidade é toda do Chicão. Não dá. O cara põem a gente pra trabalhar o tempo todo. Não dá pra tomar um um açaí, comer um peixinho frito, um banho de rio, uma cachacinha...Sacanagem pura. Enfim... voltando aos espetáculos, as vacas magras, para nós da Oigalê foi um encontro incrível. Um momento intenso de aprendizagem constante. Assistindo, conversando, reencontrando. Foi uma grata surpresa reencontrar Alexandre do "Circo Mínimo" de SP, os "Nativos" de Sorocaba/SP e os conterrâneos, índio veio Márcio, do "Manjericão". Conhecer e admirar "Maria Cutia" de BH, Leo e as "Madalenas" do PA, "Timbanaré" de MT, Zé do "Celeiro das Antas" do DF  e os sempre parceiros "Pavanelli" e a "cambada de bagaceiros" de SP capital.
 
Foi uma semana de muita qualidade e de uma confimação absoluta: O povo de Porto Velho adora teatro de rua. Difícil de explicar pra quem não conhece, mas é uma grande arena, ao estilo grego, com uma característica singular de uma região na "roda" onde se obtém uma melhor projeção da voz. A visão do ator é incrível. Na apresentação de "O Baile dos Anastácio", a roda foi fantástica. Pra quem quiser acessar o link (https://www.dropbox.com/sh/8v5m8mf39isfb0o/B4xyF4VKGl), tem algumas fotos realizadas pelos colegas da Maria Cutia. A polícia militar fala em 3000 pessoas, a imprensa fala em 5000 e a organização em 7000 pessoas. A verdade é que são muitas pessoas assistindo com a família, amigos, parentes, namorados. A sociedade já reconhece e se organiza para vir a Arena. Os ambulantes já sabem e já se organizam no entorno. A verdadeira economia da cultura. Pipoca, churros, banana verde frita... Uma grande arena, de frente para o Rio e para uma comunidade de pescadores que também tivemos o prazer de conhecer e conviver rapidamente.
 
Foi um encontro impar, especial. Louco de especial!!!
 
Saudações,
Giancarlo Carlomagno
Oigalê

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

CASA FORA DO EIXO – UM MODELO DE NEGÓCIOS

CASA FORA DO EIXO – UM MODELO DE NEGÓCIOS

Por Carlos Henrique Machado Freitas

Antes de qualquer coisa, acho que vale sublinhar um dado importante, os coletivos culturais são uma ideia extraordinária, e digo isso porque, graças ao progresso fulminante da informação, outras formas colaborativas ajudarão a renovar a produção cultural brasileira, o que nada tem a ver com a pretensão e a cobiça do modelo de negócios da casa Fora do Eixo. Portanto, atribuir aos coletivos de cultura a lógica triunfalista exposta pelo conceito de marca que vem sendo construído pelos líderes do Fora do Eixo, é perder o sentido do valor e da natureza das novas soluções que ousadamente estão se desenvolvendo no espírito das várias formas da produção coletivada. Porque não há como negar que a experiência de um coletivo verdadeiramente determinado a propor mudanças dentro de um tempo empírico, com novas ações, relações e ideias, não seja a grande mutação contemporânea. E isso é benditamente irreversível, provocado justo pela grande mutação tecnológica onde a utilização da informação é cada vez mais democratizada.

FORA DO EIXO INSIGTHS – UM PROJETO DA DIREITA

Basta ter um contato direto com o Itaú Insigths para nos permitir entender como se materializa a visão de marca da casa Fora do Eixo. É verdade que o foco é a inovação, mas é bom diferenciar o modelo coletivado, descentralizado com o que pratica como segredo de marca a casa Fora do Eixo.

A questão de atitude sempre foi um dos co-editores da cultura de massa e este conceito patriarcal foi adotado pelo FdE como se fosse o representante legal de todos os coletivos, uma espécie de agência personalité, o que é uma estrambótica mentira. O FdE tem sim o foco na inovação, mas para definir bem definido como estratégia de relacionamento político, digo em todos os quadrantes da vida política nacional. Daí vende a todos uma diretriz de futuro com uma pretensa ideia de que promove a construção de uma performance sustentável.

Nesse mesmo contexto de informação onde organiza seus espaços como franquia por todo o Brasil com "colaboradores", até a informação que nos chega, com seus trabalhos precarizados, é a própria visão de máquina do tempo que está sendo gerida pela augusta lógica da gestão corporativa, sobretudo nos grandes eventos e com patrocínios via renúncia fiscal para a construção de um circuito comercial.

É preciso entender que o Fora do Eixo não é um coletivo, mas apenas um point cultural com efeito multiplicador dentro das regras de um voluntariado de trainees com o objetivo único de se tornarem líderes num futuro próximo dentro de um slogan de "mudar o mundo". É verdade que as grandes marcas e mitos fazem parte da história da humanidade, mas, no caso do Fora do Eixo, foi criada uma imagem como uma espécie de majestic, alguém que pensa diferente e estimula as pessoas a pensarem "fora da caixa".

A grande novidade nesse novo espaço do empreendedorismo simbólico é que a publicidade e todo um sistema na áreas de tecnologia se fundem num vácuo deixado pela velha indústria cultural para dar lugar a um projeto de uma outra história do capitalismo cultural, que pode ser considerado como um novo ciclo do capitalismo se utilizando dos bens simbólicos.

É bom lembrar que o grande portfólio do líder do Fora do Eixo, Pablo Capilé, é personificar a marca em sua imagem, alinhando-a a todas as formas de inovação como se ele próprio fosse a encarnação da nova geração de ideias. E como toda ideia precisa de um começo, além dos truques e técnicas, a capacidade de estabelecer contato com todas as lideranças políticas e empresariais, é questão sine qua non. Por isso o próprio Capilé, no Roda Viva, pinçou com uma plástica bastante translúcida como faz suas trocas de relacionamento, "ninguém nos convida, nós nos impomos".

E foi assim que Pablo Capilé, um bicão profissional, foi se instalando nos lugares, festas, encontros políticos, empresariais, manifestações de rua e construindo uma espécie de catarse coletiva, não arrecadando recursos para financiamento de sua máquina do tempo, mas arrecadando imagens e postando-as em redes sociais, numa espécie de cópia do "ache o Wally". E assim, ele criou uma espécie de cadastro de investimento de imagem, gerando a ideia de que sua interação com as pessoas (medalhões) era um satélite colocado em órbita em todos os lugares numa troca constante de conhecimetos. Assim Capilé construiu uma mega rampa de um projeto de exposição da casa Fora do Eixo.

Na verdade Capilé desenvolveu um equipamento publicitário que, quanto mais ele se movimenta, mais valor agregado ele produz para a marca Fora do Eixo e, para tal oferece consultorias espontâneas para políticos, artistas e empresários, como um Platão pós-rancor que sabe transformar uma carroça em uma ferrari, aproveitando um "desenvolvimento sustentável".

Mas o que mais simboliza esse modelo de serviço diferenciado é sua estratégia de marketing, e isso precisa ser ressaltado, foi no Roda Viva, onde Capilé apareceu usando uma camiseta preta com uma estampa de desenho aprimorado em branco, com a seguinte frase: "cadê o Amarildo?", como sinal de engajamento às questões de ordem polítca e social. Poderia usar o mesmo banco do Roda Viva para fazer frente a um cenário escabroso, utilizando a mesma camiseta com o mesmo conceito gráfico, escrito em branco luminoso a seguinte frase: "cadê o Fleury Filho?". Sim, esta pergunta deveria ser feita, mas parece que esse desenho não está e moda e, portanto, está fora de sua estratégia, justo na semana em que são julgados e condenados vários PMs de São Paulo por conta do massacre de 111 presos do Carandiru, em que o governador na época, Freury Filho, sequer foi citado pela justiça.

Capilé, quando sentou naquele banco diante de representantes de uma mídia que já não se sustenta em cima das próprias pernas, jogou para a torcida de esquerda. O que ele fez exatamente? Qual a novidade de seu discurso? Dizer que a mídia corporativa edita suas manchetes e artigos para atacar adversários ou salvar aliados? Quem já não disse isso no Brasil? Mas Capilé apareceu como um grande domador dando estalos com seu chicote e pisando na cabeça de um leão, hoje, completamente sem dentes.

Mas não foi só isso, vimos o líder do Fora do Eixo, no mesmo Roda Viva, dar exemplo de eficiência, inovação sobre educação financeira, tudo, absolutamente tudo, sem um mínimo de transparência, mas com uma inegável capacidade de sugestionar, principalmente uma esquerda embotada por uma rivalidade infantil entre a mídia tradicional e a mídia alternativa. E é assim que a casa Fora do Eixo vem vendendo seus produtos, serviços, com maior "agilidade e simplicidade" dentro do mais absoluto conceito de "soluções adequadas". O que rigorosamente quer dizer nada.

Mas lembremos, a performance dele é em prol da marca. Por isso não se viu uma ideia a exemplo do seu banco de sustentabilidade. E agora os líderes do FdE dizem aos críticos do seu castelo de cartas, Fora do Eixo… "Quem quiser conhecer o nosso trabalho, tem que ir a uma das casas", sentir o ambiente, e também entender como funciona a escola de conteúdo.

Então, pergunto sobre o projeto do "novo": todos os seus shows pirotécnicos nas manifestações de rua, nas "conferências" não se transformam em um grande auditório em tempo real na internet? Por que agora na hora de encontrar a tal "cultura de excelência" tem que voltar ao tempo chucro do século XVII, como tropeiros cavalgando até a uma das casas do Fora do Eixo?

Na verdade, não se pode negar que o protagonista da casa Fora do Eixo, Pablo Capilé, tem força de linguagem capaz de transformar pó em ouro tão somente com sua oratória. E assim celebrar junto com seus grandes patrocinadores, um projeto completamente contrário aos coletivos sociais da cultura aonde o foco é, ao contrário das relações sociais, o pior dos símbolos do capitalismo, uma logomarca em estado puro para ser usada num futuro próximo em qualquer tipo de mercadoria.

Lembrando que o que sustenta hoje o Fora do Eixo, é sim, uma mega-estrutura financeira com um grande número de técnicos em cada estabelecimento para não deixar passar um único edital de forma direta ou via leis de incentivo à cultura. O que permite isso é um sistema neoliberal adotado no Brasil há mais de vinte anos, no período FHC quando lançou sua cartilha para as grandes corporações, "Cultura é um bom negócio". Provavelmente Capilé seja o melhor aluno de FHC, pois a casa Fora do Eixo é o próprio retrato do neoliberalismo cultural sonhado pelos tucanos.

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