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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Fomos batizados terroristas

Fomos batizados terroristas

Encontrar Lampião, Zapata, um Pantera Negra e Santa Dica (quem??)  num mesmo ato, a carregar o caixão de Gatilheiro Quintino (ah?...) poderia ser insólito, se o cortejo não fosse acompanhado de canto tão rasgante. Poderia ser insólito, se o cortejo fosse realmente fúnebre, mesmo em ato teatral. Mas não é. 



O cortejo, que encerra peça da Companhia Estudo de Cena, ressuscita a força de luta de nosso povo latino americano. Recupera, nos destroços das histórias [quase] esquecidas, a braveza, a valentia, a indignação de tantos nós. Sua coerência encontra coro num canto que repete: "fomos batizados terroristas".



Lampião, Zapata, os Panteras Negras, Santa Dica e Gatilheiro Quintino ressurgem, assim, como irmãos de uma mesma tradição: que não se aprende em escola nenhuma, por vezes nem mesmo em casa, tradição dessa revolta que irrompe em forma de luta contra a perpetuação de tanta injustiça social.




"Fomos batizados guerrilheiros" é canto final composto pela Estudo de Cena para a montagem de Guerras Desconhecidas, peça de teatro inspirada nos cadernos do jornalista Leonencio Nossa. Criação da Estudo de Cena para um teatro mambembe a visitar feiras, praças, a rua por onde passam as pessoas mais comuns. Teatro sem cortinas de veludo, nem lugares marcados, que se faz com certo improviso frente as situações que a feira oferece, mas enreda sem rodeios nem floreios, com a precisão de sua música e poesia, a lembrança do que foi propositalmente omitido da história oficial.

O teatro então nos apresenta a história de três revoltas populares brasileiras de épocas e lugares diferente, revoltas que assumem a força de uma guerra contra a legitimação da propriedade privada e da opressão: a Guerra do Pau-de-Colher (década de 1930, interior da Bahia), a Guerra [ou Massacre] de São Bonifácio (anos 80, Serra Pelada), a Guerra do Gatilheiro Quintino (também década de 1980, no Pará, mas desta vez pela demarcação de terras). A montagem teatral da Estudo de Cena não apenas justapõe coisas e gentes que parecem separados no tempo e espaço, como também faz uso de diferentes jogos teatrais: a comédia, o drama épico, o poema lírico. A peça é como um experimento de linguagem com fim de sugerir a revelação de outra história, uma história então ampliada pela citação [aparição quase fantasmagórica] de outras tantas figuras – Zapata, Lampião -  e revoltas – Canudos, Palmares.

A aparente simplicidade e a precisão na comunicação - já que é de uma síntese perspicaz - é um valor admirável da obra. Também o riso constante da plateia, fruto da atuação competente dos atores e do escracho crítico do texto, irrompe como força do trabalho sério deste teatro que não se abstém de tratar em praça pública da indigesta injustiça social da nossa realidade. Tratar a história de tanto sangue e pólvora surge pertinente como rastro do passado no presente.

Guerras Desconhecidas não é apenas uma denúncia ou revelação, toca-nos o brio, como um chamado bem dirigido:

"Ensinem nossa história sombria aos filhos, a fim de que nosso sangue permaneça na bandeira dos criminosos como sinal de catástrofe."

Este é um teatro que não segue como lamento ou cortejo fúnebre que elege heróis. É, antes, um teatro que brada a ressurreição da luta e da resistência:

"Pedimos: protejam os fracos das balas para que os vivos fiquem a salvo, permaneçam vigilantes, pronto para o combate."

Carolina Abreu
Novembro de 2015

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sábado, 10 de outubro de 2015

Arte e cultura no rol das mudanças econômicas



Adailtom Alves Teixeira[1]

A virada do milênio foi uma virada de hambúrgueres para software. Software é uma ideia, hambúrguer é uma vaca. Ainda haverá fabricantes de hambúrgueres no século XXI, é claro. O poder, o prestígio e dinheiro, entretanto, fluirão para as empresas que detêm o indispensável capital intelectual.
P. Coy, Business Week, agosto de 2000.

O capitalismo vive em crise e, como ainda não conseguimos acabar com ele, vive se reinventando. Quanto à cultura, a mesma vem sendo ponta de lança de práticas que apenas favorecem esse modo de produção. Chin-Tao Wu, em Privatizações da cultura, já analisou como a política neoliberal chegou ao campo das artes. Hoje, cada vez mais, ideias são mais rentáveis do que os produtos materiais. Uma peça de máquina, um automóvel, é preciso ser produzida para se vender; já uma ideia, ao ser criada, pode ser vendida indefinidamente, gerando muito lucro para os detentores dos seus direitos. E não são sempre as grandes empresas as maiores detentoras dos direitos autorais?
É nesse campo que se coloca a economia criativa. E as últimas ações d@s ministr@s da Cultura para expandir cada vez mais esse “universo cultural” são um pequeno retrato do que devem esperar todos e todas que lidam com arte e cultura em nosso país.
A ideia de uma economia criativa, até onde se apurou, começou na Austrália, com a perspectiva de nação criativa, depois migrou para o Reino Unido, sob a batuta de Tony Blair, continuador da política de Margareth Thatcher. E se os mercados ditam as regras, claro que o Brasil não poderia ficar de fora. A Secretaria de Economia Criativa foi implantada em janeiro de 2011, logo no início do primeiro governo Dilma, deixando claro como a cultura deveria ser tratada: como negócio.  A Secretaria é voltada para pensar e auxiliar na construção de produtos e serviços de dimensões simbólicas. Se a indústria da moda, que sempre vampirizou as criações artísticas, é um desses campos, foi o que se perguntaram muitos brasileiros à época da ministra Marta Suplicy.
Em dezembro de 2011 a ex-Secretária de Economia Criativa, Claudia Leitão, em artigo publicado no Jornal Brasil Econômico, afirmou ser difícil conceituar o que seja economia criativa, no entanto, não deixava dúvidas: “mas nós sabemos onde ela está”. E frisava a necessidade de linhas de crédito para fomentar os empreendimentos criativos, pois a criatividade precisa virar inovação, para que esta se torne riqueza - muito embora o artigo não deixasse claro para quem iria a riqueza gerada por tais empreendimentos. Leitão já não está mais na Secretaria, mas as ações do Ministério parecem deixar claro quais devem ser os rumos do que entendem por economia criativa e quais os mecanismos para isso. Para se ter uma ideia, a tônica da política cultural brasileira ainda são as leis de renúncia fiscal, sendo a Lei Rouanet o modelo único. O governo petista, de Lula a Dilma, não fez nenhum enfrentamento a esse mecanismo. Ao contrário, mais que quintuplicou os valores no período de suas gestões, e a renúncia fiscal já passa de 1,2 bilhão.
Os dados dessa política absurda são contundentes. Eliane Parmezani, já em 2012, na edição de outubro da Revista Caros Amigos, afirmou que “por meio de renúncia fiscal, foram disponibilizados 12 bilhões de reais nesses 20 anos de lei Rouanet. Contudo, 50% dos recursos estão concentrados em cerca de 100 captadores. A outra metade fica com 20% deles. E os outros 80% dos proponentes não captam nada. Mais: apenas 5% dos projetos aprovados na lei Rouanet são realizados”. Os dados do próprio Ministério da Cultura não deixam dúvidas da perversidade desse mecanismo: a região Norte inteira capta menos de 1%. Além disso, de cada dez reais de todos os recursos, nove é dinheiro do Estado. Portanto, existe aí um feudo cultural financiado com dinheiro público. Mas não vemos nenhum enfrentamento por parte do governo federal em relação a essa política.
Se se não rever urgentemente o modelo de política cultural, não serão apenas desfiles de moda os beneficiados, mas uma gama infinita de “criativos”, enquanto pequenos produtores das artes padecem pelo Brasil. Se a ideia da economia criativa for no sentido de distribuir renda, como reza o discurso oficial, eu não tenho dúvida que um pequeno festival de teatro realizado no norte do país, ou qualquer outra região, distribui renda e agrega muito mais valor do que qualquer desfile de moda realizado fora do Brasil. Quanto à renúncia fiscal já está claro que apenas meia dúzia são os beneficiados, resta saber se haverá alguma mudança de rumos por parte do governo federal. No entanto, como este só tem feito concessões às elites, as esperanças são miúdas.

Da participação

            A novidade por parte do Ministério da Cultura e do requentado ministro Juca Ferreira é a “nova” Política Nacional de Artes e a Caravana das Artes, grosso modo, uma busca desesperada de aliança e apoios políticos, já que não há recursos se quer para pagar os míseros editais da Funarte. No claro português: pura enrolação. Quando não há recursos, “vamos dialogar” para demonstrar que estão trabalhando. E isso mesmo depois das conferências, dos encontros setoriais, da construção das metas e da grita pela criação de uma política de Estado, diferente da que vem sendo praticada. Os gestores pedem mais participação da sociedade civil. Para lembrar, no campo do teatro, do agora é Lula, até a pátria educadora de Dilma, nenhuma lei foi criada e a Funarte está falida. No entanto, as demandas são as mesmas há, pelo menos, uns quinze anos, mas o ministério repete o já visto. E nisso o atual ministro é bom. “Vamos dialogar, pois a falta de diálogo pode levar ao fascismo”, como disse na cidade de Santos no início de junho de 2015.
            Ermínia Maricato (O impasse da política urbana no Brasil, 2012), que fez parte do governo, ainda na gestão de Lula faz um alerta importante: “Nunca fomos tão participativos”. A autora deixa claro que a luta por marcos jurídicos manteve a sociedade desigual e os movimentos sociais pararam de “tratar do presente ou do futuro do capitalismo”. O Estado mudou e a elite continua cooptando e anulando os conflitos sociais. E claro, é justamente a participação que cumpre a função fundamental nesse panorama: a ilusão de se está avançando. Não é o que temos visto? Quantos de nossos colegas ainda acreditam que a participação vai criar uma política justa? E assim ficamos sem discutir a justiça dentro do capitalismo, sem fazer o real enfrentamento das verdadeiras questões. É preciso entender o momento atual. Afinal os recursos continuam indo para as mãos dos mesmos, cada vez mais via dívida pública e no campo cultural via renúncia fiscal.
            No que tange aos movimentos culturais, a Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR), coletivo teatral espalhado por todo o país, no último encontro de maio de 2015, realizado na cidade de Sorocaba, resolveu dar um basta ao tal do diálogo. Afirmam em seu manifesto: “Sentimos que o sim ao diálogo deixou de ser possibilidade de transformação para tornar-se um estado de legitimação de uma falsa democracia, de uma falsa participação, de um falso programa de cultura que nunca houve.” E afirmam ainda, o que é verdade, que as demandas estão documentadas a muito tempo. “Resta por em prática”. Dentre as exigências está o fim da renúncia fiscal – aliás já faz tempo que afirmam e lutam pelo fim da Rouanet – e a criação da lei do Prêmio Teatro Brasileiro. 
            Dentro do seguimento teatral não tenho dúvidas que a RBTR tem um pensamento avançado em relação às políticas públicas e ao modelo de Estado que temos. No entanto, o coletivo tem limites. A começar pela própria linguagem que representam, isto é, não podem falar em nome da instituição teatro (e nem pretendem). E mesmo entre o teatro de grupo, digamos assim, a parte mais politizada, tem limites de entendimento do que deva ser uma política cultural de Estado para o teatro. Por isso mesmo, a RBTR promete se juntar a outros movimentos sociais para fazer o enfrentamento desse estado de coisas que vivemos. Quem se sentir incomodado com tanto cafezinho e tanta conversa pode se somar ao coletivo, que se reúne pelo Brasil duas vezes ao ano. Sempre de forma independente.
            Para terminar, e penso que como demonstração de nosso tempo histórico, apresento os pressupostos de dominação de Max Weber, o sociólogo mais querido da direita mundial. Afirma ele, em Os três tipos puros de dominação legítima (2006), são: a dominação legal (dominação burocrática): “qualquer direito pode ser criado e modificado mediante um estatuto sancionado corretamente quanto à forma”. Logo o que se obedece é à regra estatuída; dominação tradicional (o patriarcado é o tipo mais puro); dominação carismática, em que “A associação dominante é de caráter comunitário, na comunidade ou no séquito”. Parece-nos que no Estado brasileiro, e não apenas no campo da cultura, o primeiro elemento e o terceiro se juntaram e se alojou como prática dos gestores públicos. No entanto, se em 2002 o traçado econômico do governo federal já desenhava seu caminho, o carisma tem se colocado como um véu que encobre a realidade. E se só se faz enfrentamento quando se sabe onde se pisa e contra quem se luta, faz-se necessário a retirada de tal véu. Aí, nesse campo é preciso ir ao antípoda de Weber, ainda que tenham origem e língua em comum, as perspectivas teóricas são outras; é preciso ir a Marx.
            Quando arte, cultura e a própria vida se tornam mercadorias é necessário ver o problema em sua raiz. Afinal Estado moderno e capitalismo se confundem. Logo, não adianta se organizar apenas para gritar por verbas vindas desse mesmo Estado. É preciso compreender e enfrenta-lo em sua real dimensão. Como afirma Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política (2013): “A compreensão do Estado só pode se fundar na crítica da economia política capitalista, lastreada necessariamente na totalidade social. Não na ideologia do bem comum ou da ordem nem do louvor ao dado, mas no seio das explorações, das dominações e das crises da reprodução do capital é que se vislumbra a verdade política”.
            A tragédia maior é que, em plena crise estrutural do capitalismo, os atores sociais, os sujeitos históricos que deveriam realizar a mudança, os trabalhadores, estão fragmentados, desorganizados. Quanto aos artistas, em sua grande maioria, tem se resumido a alimentar a espetacularização ou a lutar bravamente para não morrer de fome. E aí perguntamos: um artista preso à sua fome faz uma arte independente?



[1]                    Professor no curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; graduado em História e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp; membro do GT Artes Cênicas na Rua da ABRACE e articulador da RBTR.


Publicado originalmente em Contrapelo - Caderno de estudos sobre arte e política, nº 2, 2015.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Sextas em Movimento em Marechal IV Dia 24 de Julho

Mais uma sexta, mais um dia em que a Praça se movimenta, se ilumina. O som que sai das caixas ecoa devagar pelo ar, anunciando que estamos chegando, no tempo do amor, amor esse anunciado pelo brincante que dança, embalado pelo som das quatro estações de Vivaldi, vestido com seu maio azul, calça vermelha e mascara de palhaço, passeia pela praça, dança com os moradores, com a menina que ele ergue no ar, que abre os braços para o mundo e se sente uma bailarina do mundo, livre, bailarina livre sem sapatilha, sem a prisão das sapatilhas, assim como o senhor que dá a mão e pede “me guia na dança, sou muito cego, mas estou adorando dançar...”, e o brincante o guia para se soltar no meio da praça. O brincante dança e abre o espaço para a chegada de Karol e Vilson, desbravadores do subúrbio, guias que resgatam a memória e conversam com as pessoas para valorizarem o seu bairro, escutar sua história, conhecer suas ruas e sua arquitetura.

Guiadas Urbanas para entender o urbano subúrbio, de tradição, de cultura, de personalidades que ali nasceram, cresceram e se aventuraram pelo universo do país.

Trabalho bonito, dedicado, apaixonado, que só pode ser realizado por quem tem paixão pelo que faz, acredita. E eles chegaram puxando uma comitiva de moradores, de gente que viu a possibilidade e a beleza do bairro de Marechal Hermes. Com o microfone aberto, Dona Ana, filha de portugueses, pega o microfone e solta a voz “ pois precisamos muito disso. O bairro precisa de mais ações como essa. Sou moradora do bairro há mais de 45 anos e é muito bom conhecer jovens, pessoas dispostas a mudar o bucólico do praça. Estão de parabéns!”.

Estas palavras fortes foram o suficiente para arrastar para o centro Ligeiro, que com seus tambores e seus parceiros para fazer uma roda, uma roda de samba de raiz da raiz, um resgate dos sons primeiros do terreiro das senzalas, dos primeiros ocupantes dos morros.

 Ele conta a história e teoriza na prática, no canto e no tambor. E não é Ligeiro no nome a toa, é ligeiro no passo, na harmonia, na ginga do malandro que corteja a dama, dama que entra e entra no gingado da dança de roda, do samba primordial de roda.

Cada um que entra passa pelo tambor e pede sua licença para entrar e dançar. E entram com vontade, com graça. A roda vai enchendo, as pessoas se encantam e entram, quem queria entrar e é bem recebido, orientado, libertado, pois a dança liberta mente e corpo. E foi com essa alegria, começando com o clássico público dos grandes compositores e terminando com os grandes tambores e compositores públicos das rodas de raiz. Um bom dia com uma boa noite!


Herculano Dias

sábado, 12 de setembro de 2015

A memória das margens ou A suada resistência dos beradeiros é trazida à cena

A Beradera Companhia de Teatro, de Porto Velho, Rondônia, estreou recentemente seu segundo espetáculo: Saga Beradera. A obra, escrita e dirigida por Rodrigo Vrech, traz à tona a luta da população do distrito de Nazaré pela permanência de sua cultura e de seu território. Nazaré, apesar de pertencer ao mesmo município que a capital rondoniense, fica a cerca de 5 horas de viagem de barco, única forma de acesso à comunidade, rio Madeira abaixo.
A partir de um trio fictício: Seu Arigó (o avô), seu neto e a esposa Urbana, a dramaturgia explicita o conflito entre modos de vida distintos: os ribeirinhos e aqueles que vivem nas grandes cidades. Trata-se de um conflito intersubjetivo, mas que implica também em macro questões, incluindo a sustentabilidade socioambiental.
Parte da memória dos fundadores de Nazaré e de vários moradores da vila é sintetizada na trama em que, após a cheia histórica de 2014, Neto, nascido nas margens do Madeira, mas atual morador de São Paulo, tenta levar seu avô para a metrópole, a contragosto do mesmo.
Construída de forma fragmentada, a dramaturgia realça a dificuldade de comunicação entre os universos do concreto e da mata e entre diferentes gerações, ao mesmo tempo em que presentifica a resistência cultural na voz não apenas do morador tradicional da “velha guarda”, mas por meio das músicas e da participação em cena dos jovens do grupo Minhas Raízes, formado na comunidade.
As delicadas composições do grupo, executadas ao vivo, com a voz doce e regional de seus integrantes, dão um tom especial ao espetáculo, denotando a sensibilidade de quem vem de fora (o diretor Rodrigo Vrech e parte do elenco), mas tem a capacidade de construir as necessárias pontes entre os distintos mundos. Vale apontar que, às vezes, o volume da voz e dos instrumentos não alcança a totalidade do público, indicando a necessidade de amplificação. Os musicistas poderiam ser ainda melhor aproveitados, talvez com canções inéditas para o espetáculo ou ainda ambientação de cenas a serem umedecidas com outras músicas.
Além do aspecto musical, a encenação envolve o público por vários prismas, como a própria interpretação. O jovem elenco surpreende pela qualidade técnica e integridade em cena, ainda em processo de construção, porém, com conquistas consideráveis. O poeta e ator beradero Elizeu Braga fisicaliza suas memórias de infância em Itacoã, no Baixo Madeira, e o legado de seus antepassados, conquistando voz e corporalidade vívidas, para contar as encantadoras narrativas das margens de onde veio. Além disso, a manipulação que o ator realiza com a poronga, que se transmuta em diversos objetos e seres ao longo da história, é um belo exemplo de criatividade na lida com os elementos cenográficos.
Andressa Silva gera comicidade, nojo e identificação em sua construção da preconceituosa Urbana, que destila incapacidade de enxergar e compreender o diferente, uma postura que, infelizmente, é extremamente comum nestes tempos de ascensão do fascismo. Para não dizer que não falei das flores, pequenas passagens de texto ditas pela atriz ainda não estão condizentes com a postura que se espera da personagem paulista.


Já Cláudio Zarco, ator que vem se destacando na cena rondoniense, pela qualidade de seu trabalho interpretativo, tem um desafio com o personagem Neto, já que ele representa a inconclusa transição entre os mundos do Norte e do Sudeste. Seu trabalho, a despeito de sua interessante presença no palco, demanda ainda certos aprimoramentos de passagens específicas, especialmente nas transições de emoção e em momentos de sua relação com Urbana, dada a complexidade que Neto solicita.
A peça como um todo tem um desenho e trajetória envolventes, mais ainda carece de um meio para chegar ao fim. No entanto, o grupo, de forma legítima, vem experimentando diversas estratégias de finalização da narrativa e está ainda buscando as formas, por enquanto, dialogando com romantismo, informações históricas e narrativas cíclicas.
Ressalto que esta leitura crítica não tem a pretensão de se constituir como verdade, nem de dar conta da totalidade da obra, mas sim de ser uma apreensão específica a partir de um olhar que, como todos, é singular. Assim, encerro este texto expressando a felicidade que tive em assistir a obra já por três vezes, por se tratar de um trabalho belo, necessário e de grande potencial. Se o grupo investir na continuidade da obra e conquistar as oportunidades para tanto, ela terá grandes possibilidades de se firmar como a mais potente obra teatral nativa de Rondônia no ano de 2015 e alçar voos além das fronteiras estaduais.
                                                                   

Alexandre Falcão de Araújo, Professor de Teatro da Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

David Harvey e a classe operária

Boa reflexão de David Harvey sobre a classe operária nos dias de hoje, bem como sobre as cidades.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

VI Corredor Cultural de Teatro de Rua 2015



No de 2015 a Oigalê comemora 16 anos de estrada e trabalho continuado. Nesse período, um dos projetos desenvolvidos de forma sistemática é o Corredor Cultural de Teatro de Rua. Executado de forma simples e otimizada e com baixo custo orçamentário, oportuniza gratuitamente apresentações, oficinas e bate-papos sobre o teatro de rua com a população das cidades contempladas.
Giancarlo Carlomagno

A proposta do ano de 2015 é uma circulação de Porto Alegre/RS até São Paulo, passando por Criciúma, Joinville, Curitiba, Maringá, Jacarezinho e Santos.

Os Corredores Culturais têm provado que trabalhando de forma organizada e integrada entre as cidades, regiões e instituições, consegue-se mais economia, dinamismo e versatilidade, oferecendo atividades culturais e proporcionando um maior intercâmbio com outros grupos, assim como com a população, por um custo muito menor. Não se trata apenas de uma turnê, de um circuito artístico, mas sim de uma vivência e convívio do artista com a estrada, as regiões, as cidades e as pessoas.


O que:
VI Corredor Cultural de Teatro de Rua 2015

Onde:
Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo


Quando:
PROGRAMAÇÃO
       
Rio Grande do Sul 
O Baile dos Anastácio
Dia   22/8    sáb   12h       Parque da Redenção                                            Porto Alegre/RS

Santa Catarina 
O Baile dos Anastácio
Dia   25/8    ter     12h30   Praça Nereu Ramos - Centro                               Criciúma/SC

Dia   26/8    qua   16h30   Praça Nereu Ramos - Centro                               Joinville/SC

Paraná 
O Baile dos Anastácio
Dia   27/8    qui    12h30   SESC da Esquina                                                  Curitiba/PR

Oficina de Espaço, Movimento e Ritmo
Dia   28/8    sex   19h       SESC                                                                       Maringá/PR

O Baile dos Anastácio
Dia   29/8    sáb   10h30   Festival Ciranda das Artes
                               Av. Prudente de Moraes, ao lado estádio Willie Davis  Maringá/PR

Dia   01/9    ter     10h       XI EnCena 2015
                                             Marques dos Reis                                                  Jacarezinho/PR

Dia   01/9    ter     20h       XI EnCena 2015
                                             Praça CCHE/CLCA - UNEP                                 Jacarezinho/PR

São Paulo                                             
O Baile dos Anastácio
Dia   05/9    sáb   18h       FESTA – Festival Santista de Teatro
                                             Praça Fonte do Sapo                                             Santos/SP




Mais informações sobre O BAILE DOS ANASTÁCIO:

Fotos em alta resolução:

Clipe do espetáculo:

Espetáculo na íntegra:

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

NOTA DE REPÚDIO

 
DESACATO AO ARTISTA / PALHAÇO TICO BONITO

        A Companhia Estável de Teatro de São Paulo-SP repudia com veemência a prisão arbitrária sofrida pelo palhaço Tico Bonito, nome artístico do cidadão Leônides Quadro, enquanto se apresentava na rua, no dia 14 de agosto de 2015, na cidade de Cascavel, no Paraná. Esta ação, infelizmente naturalizada em quase todo o país, fere o artigo 5º, inciso IX da Constituição Federal que assegura a liberdade de expressão artística e mata o direito do cidadão de exercer o seu trabalho crítico com dignidade.
        Exigimos que o poder público local realize urgentemente a abertura de inquérito para apurar o abuso de autoridade na abordagem e detenção do palhaço, que foi detido quando fazia sua apresentação em  uma praça da cidade para um público formado em grande parte por crianças. Leônides Quadro foi acusado de desacato à autoridade apenas por se posicionar crítica e artisticamente quanto à função da Polícia Militar, no que está dentro de seus direitos assegurados pela Constituição.
        Nos solidarizamos com o artista contra essa arbitrariedade e continuamos firmes com nosso trabalho que tem se tornado cada vez mais nossa principal ferramenta de resistência, luta e militância.
Atenciosamente.
 
Companhia Estável de Teatro