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quinta-feira, 22 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
LEI 1º DE ABRIL DE 1964-2012
LEI 1º DE ABRIL DE 1964-2012
Cria a Comissão Nacional da Mentira no âmbito da República Autocrática Saudosista da "Contra-Revolução de 64"
OS APARECIDOS POLÍTICOS, comissão autoproclamada, como em todo processo arbitrário, não faz saber ao Congresso Nacional e a nenhuma organização da sociedade civil:
Art. 1º É criada, no âmbito do imaginário saudosista de alguns militares da reserva, dos discursos esquizo-paranóicos dos militares de pijamas e dos grupelhos conservadores golpistas-midiáticos, a Comissão da Mentira com a finalidade de promover a moral e os bons costumes a fim de efetivar o direito à mentira, à injustiça e a falta de memória.
Art. 2º A Comissão da Mentira, composta de forma arbitrária, será integrada por quantos reacionários tiverem interessados (ou que conseguirem nos comprar), designados pela Comissão dos Aparecidos Políticos, identificados com os "bons costumes" que ninguém sabe de onde vem, de reconhecida idoneidade humilhadora e com a defesa de condutas morais, morais e morais.
§ 1º Não poderão participar da Comissão da Mentira aqueles que:
exerçam interesse por assuntos políticos, com exceção daqueles de natureza alienada.
não tenham condições de atuar com extrema parcialidade e fervor pela pátria golpista da Comissão.
estejam em cargos ocupados de forma democrática.
§ 2º Os membros serão designados para mandato até o dia que acharmos melhor, pois não devemos satisfação a ninguém, só aos bons costumes da nossa saudosa pátria golpista.
§ 3º A participação na Comissão Nacional da Mentira será considerado um exercício público vergonhoso e nas surdinas, como tem sido a nossa prática ao longo desses anos.
Art. 3º São objetivos da Comissão Nacional da Mentira:
I – Impor no imaginário social o fato de que a democracia no Brasil foi consolidada pós Ditadura Civil-militar;
II – Promover uma campanha intensa de criminalização das pessoas que procuram os restos mortais do seus familiares desaparecidos políticos;
III – Quando se falar de mortos e desaparecidos políticos, sempre trocar pelos adjetivos de: terroristas, subversivos, assaltadores de bancos, criminosos e esquerdistas desordeiros;
IV – Fazer campanhas intensivas de acobertamento dos restos mortais dos mais de 300 mortos e desaparecidos políticos;
V – Esconder, através da exaltação de líderes militares genocidas e de valores das elites, os locais públicos que tenham qualquer tipo de relação com aquele período. Porões de Tortura? Aonde? Quando?
VI – Batizar ruas, bairros, escolas e até municípios com os nomes dos nossos pais, avôs, bizavôs, tataravôs e até onde a nossa honrada árvore genealógica permitir (nossa vontade de autoafirmação é inversamente proporcional a nossa confiança na democracia);
VII – Acusar todos aqueles que falam em direitos humanos de revanchistas e defensores de bandidos;
VIII – Criminalizar a pobreza que deve ser excretada do seio da nossa pátria (afinal, no seio dela não há leite para todos);
IX – Manter nossas práticas em defesa da ordem e da moral através da matança da juventude (preferencialmente os pretos e os pobres), das torturas nas delegacias e centros de privação de liberdade, na criminalização dos movimentos sociais e nos grupos de extermínios. Louvamos ações como a do Caso Pinheirinho e de repressão à greve de policiais (espaço agora de infiltração de comunistas enviados pelo fantasma do Lênin e de seu SSA - Serviço Secreto do Além);
X – Repetir mil vezes a lógica binária de que se tratava de uma "guerra de dois lados".
Art. 4º Para execução dos objetivos previsto no Art. 3º, a Comissão Nacional da Mentira poderá:
I - Fazer o que quiser, na hora que bem quiser e no momento que bem entender;
II - Executar testemunhas que possam de alguma forma expor informações que prejudiquem a "estabilidade social". O assassinato de um guia-testemunha do Caso da Guerrilha da Araguaia, em 2011 na cidade de Marabá, deve servir de exemplo;
III - Impor medo em pessoas que viveram naquele período como nas pessoas que hoje não sabem o que ocorreu;
IV - Promover audiências públicas, mas só nos nossos grupos secretos. (Só pode entrar quem tiver pijama de cor verde e amarela);
V - Estabelecer parceria com organizações religiosas extremistas, bancadas parlamentares de programas policiais, movimentos elitistas latifundiários como a União Democrática Ruralista (alguém tem que nos manter financeiramente, claro) e qualquer pessoa ou organização civil que tenha predisposição à sociopatia;
§ 1º As requisições nos incisos I, II e III podem ser revistas pelo próximo psicopata que assumir o cargo.
§ 2º Os dados, documentos e informações sigilosos fornecidos à Comissão da Mentira deverão se manter escondidos como sempre tiveram.
§ 3º É dever dos servidores públicos e militares a colaborarem com a Comissão Nacional da Mentira (claro, nós vamos ameaçá-los se não o fizerem).
§ 4º As atividades da Comissão da Mentira não terão caráter jurisdicional ou persecutório, afinal boa parte do nosso Poder Judiciário ocupado por alguns dos membros dos nossos grupos de pijamas (mas eles, além de usarem pijamas, usam também lençoizinhos pretos) não sabem o que significa a palavra Justiça de Transição.
§ 5º Qualquer cidadão que demonstre interesse em esclarecer a situação do fato será boicotado, sabotado, chamado de terrorista e, se insistir muito, já sabe o que faremos, não é?
Art. 5º Observadas as disposições da Lei no 6.683, de 28 de agosto de 1979 (a qual temos que repetir sempre que foi ampla, geral e irrestrita apesar de ser feita por nós) e as outras leis que não precisamos respeitar, obviamente, deverá a Comissão atuar fugindo ao máximo do Arquivo Nacional, da Comissão da Anistia, Comissão Especial sobre mortos e desaparecidos políticos e de todas outras legislações da excretável Constituição de 1988.
§ 1º Apesar de sermos totalmente contrários à Comissão Nacional da Verdade colocamos que: aplaudimos o curto prazo de dois anos para as atividades da mesma, o período dispersivo de investigação(1946-1988), o baixo número de integrantes e o seu caráter não punitivo.
Art. 6º A Comissão Nacional da Mentira deverá firmar parceria com instituições de ensino superior que têm sido ótimos espaços de perpetuação do esquecimento em detrimento de um ensino técnico e funcionalista.
Parágrafo Único. Os cargos previstos nesse artigo serão automaticamente permanentes, vitalícios e ligados aos nosso grupos conservadores.
Art. 7º A Comissão Nacional da Mentira terá o prazo de existência até o dia em que a justiça de transição for consolidada e quando todos os brasileiros terem a memória sobre o que foi o Ato Institucional nº 5, o fechamento do congresso, os vários tipos de tortura, desaparecimentos e crimes de lesa-humanidade.
Art. 8º Como primeira atividade da Comissão de Mentira, conclamamos a todos a participarem
§ 1º Do "Cordão da Mentira": no próximo dia 1º de Abril de 2012, data de aniversário do golpe da nossa "Ditadura Civil-Militar", a partir das 11:30hs, nos concentraremos na frente do Cemitério da Consolação e sairemos pelas ruas da cidade de São Paulo ao som dos tambores, para Celebrar a Mentira desta Democracia - uma Verdadeira Democradura.
§ 2º Da II Jornada Para Não Esquecer Jamais realizada em Fortaleza-CE, entre os dias 26 à 1 de abril de 2012.
Art. 9º Fica resguardado o dia 1º de Abril de 2012 para a divulgação pública dos nomes dos militares golpistas de 64, atualmente vivos, e presentes nos seus círculos militares, que irão compor essa Comissão Nacional da Mentira.
Art. 10º Para dizer que somos democráticos, deixaremos esse documento aberto para aqueles que se interessam em adicionar novos artigos. Os interessados em adicionar os artigos ou parágrafos devem encaminhar um e-mail para aparecidospoliticos@gmail.com com o assunto [Artigos] ou adicionar nosso perfil no Facebook: Aparecidos Políticos (http://www.facebook.com/profile.php?id=100003307123208)
GUERRA É PAZ.
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.
IGNORÂNCIA É FORÇA
Fortaleza, 18 de Março de 2012, 190º da "Independência, 123º da "República" e 48º da Ditadura Civil-Militar
segunda-feira, 19 de março de 2012
Chauí, viveiros de castro, Rolin et al. sobre o MinC
Na última década, o Ministério da Cultura transformou-se em uma área especialmente dinâmica do governo federal. Ao reconhecer a importância primária das práticas de sentido para a vida social, o Estado deu-se finalmente conta de que tem responsabilidades incontornáveis no que toca ao estímulo, apoio e defesa das manifestações criativas que emergem do povo, ou melhor, dos povos brasileiros como expressão de sua vitalidade e de sua personalidade.
À medida que o país foi ganhando projeção internacional, maior foi se tornando a necessidade de definirmos e consolidarmos a contribuição distintiva que o Brasil espera estar em condições de dar à civilização mundial. Com este objetivo, a abertura da esfera pública a uma multiplicidade de agentes e ações, oriundos de todas as regiões do Brasil, ligados à criação de cultura, isto é, de valor existencial - artistas, ativistas digitais, produtores culturais, editoras independentes, coletivos experimentais, criadores da moda e do design, intelectuais, povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, movimentos contra a discriminação de gênero e de orientação sexual, ambientalistas, grupos culturais dos mais variados matizes e propósitos - constituiu-se em uma das experiências institucionais mais inovadoras que o Estado brasileiro jamais promoveu.
Sob a liderança das gestões da cultura durante os 8 anos do governo Lula, o acolhimento entusiástico de uma vasta gama de manifestações antropológicas, tradicionais como modernas, regionais como nacionais, locais como globais, deu direito de cidadania e densidade politica a vários conceitos novos, doravante parte de nosso vocabulário de política pública: "cultura digital", "pontos de cultura", "cultura viva", "patrimônio imaterial", "cidades criativas", "economia da cultura", "diversidade cultural", "creative commons", "compartilhamento", "cultura e pensamento", "cidadania colaborativa", "participação setorial" e tantos outros. Um Plano Nacional de Cultura foi redigido pelo MinC com ampla participação dos setores interessados, e foi aprovado pelo Congresso Nacional. Tratou-se de um esforço consistentemente democrático de transformação da agitação social em meio de conquista de uma voz pública, de expressão da força viva dos povos de nosso país nos termos de um discurso de dimensões propriamente políticas, no sentido mais nobre da palavra.
Como herdeiro legítimo deste legado, o governo Dilma tem um grande desafio pela frente. É enorme a expectativa dos inúmeros grupos envolvidos no processo de emancipação cultural iniciado nas gestões passadas. Os que acompanham, como cidadãos, essa histórica reviravolta inquietam-se sobre a orientação que irá prevalecer uma vez encerrado o primeiro ano de uma gestão federal de cultura marcado por hesitações, conflitos e por mudanças de rumo que nos têm parecido infelizes.
É inevitável constatar que houve inúmeras perdas de visibilidade e de nitidez no horizonte da política cultural, comprometendo a imagem de um país que avança para o futuro sem perder a relação com seu passado, e que se moderniza sem destruir suas tradições. Depois de inúmeras notícias desalentadoras ao longo do ano que passou, a opinião pública constata que a presente gestão de nossa política cultural vem se mostrando descomprometida com o legado das conquistas recentes neste âmbito, como o atestam as inúmeras iniciativas de grande impacto dentro e fora do País. É digno de nota, em particular, o que parece ser o total desconhecimento, por parte da atual gestão do MinC, do debate internacional sobre os desafios que o novo regime capitalista globalizado coloca para os criadores em todos os âmbitos da cultura, nesta época em que a criação de valores existenciais se viu capturada e sujeitada pela produção de valor econômico.
O despreparo para a prática do diálogo e do embate crítico por parte dos atuais responsáveis pelo MinC é dolorosamente evidente. É assustador, por exemplo, que em recente entrevista a ministra afirme que tem vivido uma "guerra de nervos" e que todo o seu universo de preocupação esteja reduzido à sensação de que os que discordam de sua gestão estejam apenas querendo derrubá-la de seu posto, deixando de lado o sentido maior da vida democrática que é a possibilidade do diálogo e da reconciliação em benefício de algo público e de grandeza comum.
A criação cultural é indissociável da construção inovadora de horizontes para o País, é a cultura que forma as realidades que nos condicionam e projetam os destinos da vida em comum. Não faz mais sentido pensar nos quadros anacrônicos que tinham a chamada "infraestrutura", ou economia, como elemento primacial da vida humana, ao passo que a cultura, ou "superestrutura", era vista como artigo de luxo. Pois não é possível, justamente, entrarmos em pleno século 21 equipados com uma "superestrutura" mental que data do século 19. É um engano gravíssimo um Estado contemporâneo não dar a devida importância à agenda das políticas culturais, pois a economia sem a cultura não pode mais do que propagar a desvalorização de uma sociedade, colocando-a a mercê de interesses estritamente econômicos.
Desde que a crise global se abateu sobre o ocidente capitalista em 2008, a agenda cultural se tornou um tema ainda mais importante para nós e as disputas de sentido vão direcionando os possíveis caminhos a seguir. Ora, foi precisamente neste momento crítico que passamos a constatar a decadência do protagonismo do governo federal na área da política cultural, com a trágica perda de capacidade para gerar consensos mínimos e coordenar o desenho de horizontes para os inúmeros segmentos que estavam sendo reconhecidos pelo governo Lula. Esse perigoso isolamento do MinC pode nos fazer retroceder mais e mais nos próximos anos, ainda que a prosperidade econômica se mantenha. A mera celebração de uma "cultura" concebida como excedente simbólico entregue a profissionais consagrados da indústria de entretenimento certamente não pode substituir a consciência ativa do papel central que a força de trabalho criativa passou a desempenhar no cenário do novo regime capitalista. O MinC de hoje desconhece os sistemas de acumulação financeira, de ganho unilateral de corporações com os direitos autorais e de imagens. Ao tornar-se refém de um modelo institucional arcaico, o governo federal vai aceitando que as forças mais reativas do modelo neoliberal passem a conduzir as subjetividades, tornando-se um instrumento para sustentar apenas desejos sociais compulsivos de consumo, como se estes fossem o meio de produção de sociabilidade.
Neste sentido, a escolha do(a) ministro(a) que a Presidenta tem em suas mãos é um dos trunfos fundamentais na consolidação do projeto de país que se começou a implantar desde o fim da ditadura militar. Esta é uma responsabilidade crucial do governo federal e da sociedade civil, não podendo ser deixada ao sabor da Realpolitik e seus jogos de acomodação partidária. Esperamos que Dilma Rousseff, que tem mostrado grande competência na condução do País em outros setores, confirmada pelos altos índices de aceitação popular, tenha sensibilidade e coragem para indicar um ministro da cultura à altura do que requer este cargo, em vista da importância do Brasil no cenário mundial contemporâneo. Um(a) ministro(a) que alie uma escuta fina para a diversidade cultural, no acompanhamento das complexas demandas culturais internas e na articulação ousada com o cenário internacional, sobretudo em torno dos problemas deste novo estatuto da cultura.
A experiência acumulada por este nome escolhido é algo essencial neste momento. Quer em termos profissionais, quer em familiaridade com a política da criação contemporânea e a rica variedade a de suas manifestações, uma liderança suprapartidária e democrática é o que pode garantir um pulso firme e uma capacidade de gestão dinâmica, de verdadeira liderança nesta direção que o presente nos aponta. Nós signatários, como todos os produtores de cultura neste País, temos nossa parcela de responsabilidade nesta tarefa: cabe a nós o apoio ao futuro portador desta inteligência de qualidade cultural e a exigência de uma escolha acertada para os próximos anos da atual gestão federal neste importante âmbito da vida nacional.
MARILENA CHAUÍ, EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO, SUELY ROLNIK, LAYMERT GARCIA DOS SANTOS, GABRIEL COHN, MANUELA CARNEIRO DA CUNHA, MOACIR DOS ANJOS
À medida que o país foi ganhando projeção internacional, maior foi se tornando a necessidade de definirmos e consolidarmos a contribuição distintiva que o Brasil espera estar em condições de dar à civilização mundial. Com este objetivo, a abertura da esfera pública a uma multiplicidade de agentes e ações, oriundos de todas as regiões do Brasil, ligados à criação de cultura, isto é, de valor existencial - artistas, ativistas digitais, produtores culturais, editoras independentes, coletivos experimentais, criadores da moda e do design, intelectuais, povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, movimentos contra a discriminação de gênero e de orientação sexual, ambientalistas, grupos culturais dos mais variados matizes e propósitos - constituiu-se em uma das experiências institucionais mais inovadoras que o Estado brasileiro jamais promoveu.
Sob a liderança das gestões da cultura durante os 8 anos do governo Lula, o acolhimento entusiástico de uma vasta gama de manifestações antropológicas, tradicionais como modernas, regionais como nacionais, locais como globais, deu direito de cidadania e densidade politica a vários conceitos novos, doravante parte de nosso vocabulário de política pública: "cultura digital", "pontos de cultura", "cultura viva", "patrimônio imaterial", "cidades criativas", "economia da cultura", "diversidade cultural", "creative commons", "compartilhamento", "cultura e pensamento", "cidadania colaborativa", "participação setorial" e tantos outros. Um Plano Nacional de Cultura foi redigido pelo MinC com ampla participação dos setores interessados, e foi aprovado pelo Congresso Nacional. Tratou-se de um esforço consistentemente democrático de transformação da agitação social em meio de conquista de uma voz pública, de expressão da força viva dos povos de nosso país nos termos de um discurso de dimensões propriamente políticas, no sentido mais nobre da palavra.
Como herdeiro legítimo deste legado, o governo Dilma tem um grande desafio pela frente. É enorme a expectativa dos inúmeros grupos envolvidos no processo de emancipação cultural iniciado nas gestões passadas. Os que acompanham, como cidadãos, essa histórica reviravolta inquietam-se sobre a orientação que irá prevalecer uma vez encerrado o primeiro ano de uma gestão federal de cultura marcado por hesitações, conflitos e por mudanças de rumo que nos têm parecido infelizes.
É inevitável constatar que houve inúmeras perdas de visibilidade e de nitidez no horizonte da política cultural, comprometendo a imagem de um país que avança para o futuro sem perder a relação com seu passado, e que se moderniza sem destruir suas tradições. Depois de inúmeras notícias desalentadoras ao longo do ano que passou, a opinião pública constata que a presente gestão de nossa política cultural vem se mostrando descomprometida com o legado das conquistas recentes neste âmbito, como o atestam as inúmeras iniciativas de grande impacto dentro e fora do País. É digno de nota, em particular, o que parece ser o total desconhecimento, por parte da atual gestão do MinC, do debate internacional sobre os desafios que o novo regime capitalista globalizado coloca para os criadores em todos os âmbitos da cultura, nesta época em que a criação de valores existenciais se viu capturada e sujeitada pela produção de valor econômico.
O despreparo para a prática do diálogo e do embate crítico por parte dos atuais responsáveis pelo MinC é dolorosamente evidente. É assustador, por exemplo, que em recente entrevista a ministra afirme que tem vivido uma "guerra de nervos" e que todo o seu universo de preocupação esteja reduzido à sensação de que os que discordam de sua gestão estejam apenas querendo derrubá-la de seu posto, deixando de lado o sentido maior da vida democrática que é a possibilidade do diálogo e da reconciliação em benefício de algo público e de grandeza comum.
A criação cultural é indissociável da construção inovadora de horizontes para o País, é a cultura que forma as realidades que nos condicionam e projetam os destinos da vida em comum. Não faz mais sentido pensar nos quadros anacrônicos que tinham a chamada "infraestrutura", ou economia, como elemento primacial da vida humana, ao passo que a cultura, ou "superestrutura", era vista como artigo de luxo. Pois não é possível, justamente, entrarmos em pleno século 21 equipados com uma "superestrutura" mental que data do século 19. É um engano gravíssimo um Estado contemporâneo não dar a devida importância à agenda das políticas culturais, pois a economia sem a cultura não pode mais do que propagar a desvalorização de uma sociedade, colocando-a a mercê de interesses estritamente econômicos.
Desde que a crise global se abateu sobre o ocidente capitalista em 2008, a agenda cultural se tornou um tema ainda mais importante para nós e as disputas de sentido vão direcionando os possíveis caminhos a seguir. Ora, foi precisamente neste momento crítico que passamos a constatar a decadência do protagonismo do governo federal na área da política cultural, com a trágica perda de capacidade para gerar consensos mínimos e coordenar o desenho de horizontes para os inúmeros segmentos que estavam sendo reconhecidos pelo governo Lula. Esse perigoso isolamento do MinC pode nos fazer retroceder mais e mais nos próximos anos, ainda que a prosperidade econômica se mantenha. A mera celebração de uma "cultura" concebida como excedente simbólico entregue a profissionais consagrados da indústria de entretenimento certamente não pode substituir a consciência ativa do papel central que a força de trabalho criativa passou a desempenhar no cenário do novo regime capitalista. O MinC de hoje desconhece os sistemas de acumulação financeira, de ganho unilateral de corporações com os direitos autorais e de imagens. Ao tornar-se refém de um modelo institucional arcaico, o governo federal vai aceitando que as forças mais reativas do modelo neoliberal passem a conduzir as subjetividades, tornando-se um instrumento para sustentar apenas desejos sociais compulsivos de consumo, como se estes fossem o meio de produção de sociabilidade.
Neste sentido, a escolha do(a) ministro(a) que a Presidenta tem em suas mãos é um dos trunfos fundamentais na consolidação do projeto de país que se começou a implantar desde o fim da ditadura militar. Esta é uma responsabilidade crucial do governo federal e da sociedade civil, não podendo ser deixada ao sabor da Realpolitik e seus jogos de acomodação partidária. Esperamos que Dilma Rousseff, que tem mostrado grande competência na condução do País em outros setores, confirmada pelos altos índices de aceitação popular, tenha sensibilidade e coragem para indicar um ministro da cultura à altura do que requer este cargo, em vista da importância do Brasil no cenário mundial contemporâneo. Um(a) ministro(a) que alie uma escuta fina para a diversidade cultural, no acompanhamento das complexas demandas culturais internas e na articulação ousada com o cenário internacional, sobretudo em torno dos problemas deste novo estatuto da cultura.
A experiência acumulada por este nome escolhido é algo essencial neste momento. Quer em termos profissionais, quer em familiaridade com a política da criação contemporânea e a rica variedade a de suas manifestações, uma liderança suprapartidária e democrática é o que pode garantir um pulso firme e uma capacidade de gestão dinâmica, de verdadeira liderança nesta direção que o presente nos aponta. Nós signatários, como todos os produtores de cultura neste País, temos nossa parcela de responsabilidade nesta tarefa: cabe a nós o apoio ao futuro portador desta inteligência de qualidade cultural e a exigência de uma escolha acertada para os próximos anos da atual gestão federal neste importante âmbito da vida nacional.
MARILENA CHAUÍ, EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO, SUELY ROLNIK, LAYMERT GARCIA DOS SANTOS, GABRIEL COHN, MANUELA CARNEIRO DA CUNHA, MOACIR DOS ANJOS
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terça-feira, 13 de março de 2012
Carta aberta à população de Santo André do MTST
CARTA ABERTA À POPULAÇÃO DE SANTO ANDRÉ
Desde o dia 2/03 a cidade de Santo André tem vivido uma realidade nova com o acampamento Novo Pinheirinho onde se abrigam mais de mil famílias que sobrevivem a anos sem um lar digno para morar.
Santo André é hoje uma cidade com déficit habitacional de mais de 20 mil habitantes, só perdendo pra São Bernardo na região do ABC. Esses trabalhadores não têm onde morar e vivem em condições muito precárias de moradia. Em 4 anos se construiu pouquíssimas casas populares na cidade e no próximo período planeja-se entregar 1.600 casas, o que não resolve nem dez por cento do problema de moradia da cidade. A falta de moradia coloca em risco a vida das pessoas, que a cada dia que passa vem perdendo seus direitos, inclusive o direito de poder morar com dignidade.
O acampamento Novo Pinheirinho representa um grito de desespero e de indignação de milhares de famílias que já não suportam mais trabalhar a vida inteira e não ter ao menos uma casa para seus filhos viverem bem. Representa a resistência do povo explorado que luta por dignidade, que resolveu se organizar e aprendeu que a união dos trabalhadores é a mais poderosa arma contra aqueles que exploram e oprimem. Sofremos ameaça de despejo e lutamos para que a lei de zoneamento presente no Plano Diretor da cidade seja cumprida, pois há mais de 10 anos o terreno está sem cumprir qualquer função social. Essa é uma área onde, por lei, somente moradias populares podem ser construídas (Zona Especial de Interesse Social – ZEIS).
Durante 11 dias o acampamento sobrevive com a solidariedade das comunidades vizinhas, que fazem doações de alimentos, roupas e brinquedos. Está em luta, organizando marcha, em que conquistou uma negociação com a prefeitura de Santo André, dizendo que irá interceder pelas famílias e entrar em contato com o proprietário do terreno para negociação, além disso, a prefeitura se comprometeu a fazer a coleta de lixo do acampamento.
Isso prova que o movimento está no caminho certo, mas a luta continua, pois ainda não está nada ganho, avançou-se alguns passos, porém ainda não venceu a batalha.
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
MTST
Contatos regional ABC
Maria: (11) 81552983
quinta-feira, 8 de março de 2012
Teatro, política e feminismo: por uma vida justa, feliz, com autonomia e sem violência
Existe um profundo desequilíbrio entre homens e mulheres nas sociedades atuais. Os exemplos são numerosos: é comum as mulheres receberem salários inferiores aos dos homens para as mesmas funções; elas são vítimas de violências físicas e psicológicas pelo simples fato de serem mulheres; na divisão das tarefas sociais, geralmente são destinadas às mulheres as funções de limpeza (na casa e no trabalho) e de cuidados; é frequente o tratamento preconceituoso nos meios de comunicação, em particular na publicidade, mostrando a mulher como objeto de consumo masculino; nossa legislação é arcaica, impondo ideias como a de maternidade compulsória e criminalizando as mulheres que praticam a interrupção voluntária da gravidez; o número de creches é insuficiente, confinando as mulheres ainda mais ao lar; mulheres em cargos políticos e de comando ainda são exceções, no Congresso Nacional, por exemplo, elas representam apenas 10%; a livre orientação sexual não é respeitada e preconceitos são tolerados; muitas mulheres cumprem jornadas duplas ou triplas de trabalho.
Por que é tão urgente e necessário explicitar e enfrentar todas estas dificuldades? E mais: pode o teatro dar conta de um tema como desigualdade de gênero e apresentar possibilidades de transformação social?
Com relação à primeira pergunta, parece óbvio que não é possível aceitar qualquer tipo de desigualdade se o que buscamos é uma sociedade realmente livre e justa. E, no que diz respeito as desigualdes de gênero e sexo, estas tem se apresentado como uma das faces mais cruéis do atual sistema político-econômico (que gera 1 bilhão de famintos e miseráveis, dos quais 70% são mulheres, entre outras desgraças que recaem com maior intensidade sobre o sexo feminino: desemprego, precariedade no trabalho, violência doméstica etc). Um casamento perfeito entre patriarcado e capitalismo.
É neste sentido que o teatro tem como principal função "responder aos perigos de uma época" (como diz o dramaturgo marxista Edward Bond) e lançar as provocações necessárias para que nos tornemos conscientes e atuantes no curso da história, da nossa história e também no entendimento de que a luta por melhores condições de vida para toda-o-s só se faz coletivamente. Portanto, se não estamos satisfeita-o-s com as desigualdades de classe, etnia e gênero e se queremos que as ideias voltem a ser perigosas, em meio a tanta apatia, o teatro – como espaço horizontal, de reflexão mútua, de reunião e assembleia, espaço provocativo e propositivo – pode ser uma ferramenta potente nesta luta de Davi contra Golias.
No entanto, é importante atentar para o fato de que nos jovens países da América Latina, como o Brasil, onde o principal veículo de comunicação e transmissão de "cultura e pensamento" é a televisão comercial (segundo dados da Articulação Mulher e Mídia, menos de 10% da população lê jornal e são baixíssimos os índices de frequentação de teatro, cinema e outras atividades culturais), a formação estética, intelectual e política de grande parte da população está submetida ao controle de alguns poucos grupos econômicos que detém o poder das concessões públicas dos veículos de comunicação. Além disso, os governantes de nosso país preferem destinar quase metade do orçamento federal para o pagamento dos juros da dívida e apenas 0,06% para a pasta da Cultura.
No Brasil, atualmente, arte e cultura são tratadas como mercadorias e estão longe de serem um direito da população (como previsto no art. 215 da Constituíção desde 1988). Diante deste quadro, a disputa simbólica, do imaginário e dos meios de expressão é urgente e esta luta deve unir movimentos artísticos e sociais!
A discussão política sobre as questões que envolvem opressão de gênero, violência contra a mulher e temas afins também estão na ordem do dia – por um lado, uma mulher presidindo, pela primeira vez, o país e, por outro, uma Secretaria de Mulheres (que representa um avanço institucional) com verba ínfima para implementar o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, gestado nas últimas três conferências nacionais. Além disso, é preciso considerar o crescimento da bancada conservadora e religiosa no Congresso que impede os avanços das leis contra as formas de opressão às mulheres, entre elas a necessária discussão sobre a legalização do aborto, uma vez que o número de mortes de mulheres por conta de abortos clandestinos é uma questão de saúde pública e não de moral.
Neste sentido, diversos coletivos artísticos da América Latina vêm dando eco a esta problemática em seus trabalhos. A maneira como a sociedade se apropria do corpo e do espaço social da mulher, com o objetivo de engessá-la dentro de uma ideologia patriarcal, é hoje objeto de estudo de artistas e coletivos como Maria Galindo & Mujeres Creando (Bolívia), Mujeres Publicas (Argentina), The Magdalena Project (Rede Internacional de Mulheres), Jesusa Rodrigues e Liliana Felipe (México), As Loucas de Pedra Lilás (grupo de artistas feministas de Recife), as Obscenas (Belo Horizonte), Atuadoras (São Paulo), entre tantas outras, anônimas ou conhecidas, através das Américas.
Se as dificuldades de produção já são enormes, elas se multiplicam quando coletivos artísticos resolvem tematizar as questões de gênero - como se este assunto não tivesse a menor importância ou as mulheres já tivessem conquistado sua autonomia.
Durante os últimos 4 anos o coletivo do qual faço parte, a Kiwi Companhia de Teatro, enfrentou muitas dificuldade e desafios. Com o projeto artístico Carne – patriarcado e capitalismo nos deslocamos por toda a cidade de São Paulo, buscando os lugares onde o debate sobre a violência contra as mulheres poderia ser útil à comunidade e aos movimentos de mulheres, ao invés de ficarmos no conforto de um espaço cênico tradicional. Esta era uma das exigências de um trabalho com características de agitprop, aliado à consciência política mais abrangente sobre um novo modelo de sociedade, onde toda-o-s possam ter, no mínimo, as mesmas chances de realização como seres humanos.
Este projeto nos fez enfrentar "na carne" os problemas estruturais da nossa sociedade, mas nos mostrou também, ao afirmarmos a liberdade, a justiça e a autonomia e recusarmos os fatalismos, os preconceitos (de raça/etnia, de classe, orientação sexual) e todas as formas de violência impostas às mulheres, que a reflexão coletiva (entre a-o-s artistas, o público e os movimentos sociais) e os recursos que a arte nos oferece podem resultar numa sociedade transformada pela ação de mulheres e homens.
Temos o direito de acreditar que "a vida é boa!" como disse Machado de Assis antes de morrer.
Fernanda Azevedo
Kiwi Companhia de Teatro / Cooperativa Paulista de Teatro
Lembrete: O feminismo não é o contrário do machismo. Feminismo é a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.
terça-feira, 6 de março de 2012
Dia da mulher
AMO AS MULHERES - 8 DE MARÇO - DIA INTERNACINAL DA MULHER
A libertação da mulher tem origem na luta socialista
A idéia da libertação da mulher nasceu na terra fértil do movimento socialista mundial, no final do século XIX e começo do século XX.
As raízes desta batalha podem ser encontradas nos escritos de Marx e Engels. A visão da família, da mulher proletária e da burguesa que permeiam A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, de Engels, é a base da visão dos socialistas sobre a necessidade da libertação da mulher proletária. A frase de Marx, "A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem", demorou para dar seus frutos, mas deu.
Contemporâneos de Marx, Paul Lafargue e Laura Marx foram batalhadores da igualdade e da libertação feminina, em seus vários escritos, sobretudo em seu livro mais conhecido, Direito à Preguiça.
Clara Zetkin, desde 1890, logo após a fundação da Internacional Socialista, começou a falar, escrever e organizar a luta das mulheres visando a integrá-las à luta socialista. Visando a que elas tomassem seu lugar na luta de classes, na revolução socialista que estava próxima.
Fora da 2ª Internacional, a tradição anarquista de uma parte do movimento operário também exigia a igualdade de homens e mulheres. A realidade, naquele começo do movimento da classe trabalhadora ainda era dura: partido e sindicato eram coisas de homem. Mas, mesmo nesse ambiente desfavorável, grandes mulheres passaram a discutir com as maiores lideranças da época e deixaram suas marcas em livros e artigos e na organização das forças revolucionárias.
Foi neste embate de idéias que um dos teóricos da Internacional, August Bebel, em 1885, escreveu seu livro A Mulher e o Socialismo. E é nesse grande rio que deságua o célebre A Nova Mulher e a Moral Sexual, de Alexandra Kollontai, mais de 20 anos depois.
Nesse ambiente de lutas operárias e de discussões teóricas, no campo socialista, é que nasceu a luta pela participação política e, pouco a pouco, pela libertação da mulher.
A partir do começo do século XX, essa batalha das socialistas se cruzou com a do movimento das mulheres independentes, em sua maioria pertencentes às classes média e alta, que estavam em campanha pelo direito de voto. Essas mulheres, nos Estados Unidos e na Inglaterra, ao reivindicar o sufrágio para as mulheres, ficaram conhecidas como as sufragistas e suas relações com as socialistas eram de conflito, devido às visões e a posição de classe diferentes.
As mulheres socialistas criam o Dia da Mulher
Desde 1901, nos EUA, logo após a criação do Partido Socialista, surge a União Socialista das Mulheres, com a finalidade de reivindicar o direito de voto feminino. Entre os anos 1900 e 1908, sempre nos Estados Unidos, nascem vários clubes de mulheres, uns intimamente ligados ao Partido Socialista, outros mais autônomos, anarquistas ou não. Todos exigiam o direito de voto para as mulheres.
Em 1908, a Federação dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chicago toma a iniciativa, autônoma, não ligada oficialmente ao Partido Socialista, de chamar para um Dia da Mulher, num teatro da cidade. Era o domingo, 3 de maio. Os debates do dia tinham dois temas de pauta: 1. A educação da classe trabalhadora. 2. A mulher e o Partido Socialista.
Nessa conferência, o palestrante Ben Hanford repetiu uma das idéias-chaves de Engels no seu A Origem da Família da Propriedade e do Estado. Nas palavras do orador, de acordo com Engels, "As mais exploradas são as mães do nosso povo. Elas estão de mãos e pés amarrados pela dependência econômica. São forçadas a vender-se no mercado do casamento, como suas irmãs prostitutas no mercado público."
Mas não foi esse encontro independente, no teatro The Garrick, de Chicago, que foi reconhecido pelo Partido Socialista como começo da comemoração do Dia da Mulher. A iniciativa desse dia tinha nascido fora da estrutura oficial do Partido.
O primeiro dia da Mulher, nacional, assumido pelo Partido, foi no ano seguinte, em Nova Iorque, em 28 de fevereiro de 1909. Em outras cidades do País, como Chicago, o dia foi celebrado em outras datas.
O objetivo desse dia, convocado pelo Comitê Nacional da Mulher do Partido Socialista americano, "era obter o direito de voto e abolir a escravidão sexual." O panfleto de convocação dizia: "A realização da revolução das mulheres é um dos meios mais eficazes para a revolução de toda a sociedade."
Desde o começo do século, nos EUA havia um importante movimento pelo voto feminino, fora da órbita dos socialistas. A maioria das mulheres do Partido consideravam esse movimento como um movimento de mulheres brancas e de classe média.
Dentro do Partido Socialista havia um constante vai-e-vem sobre esse tema. Por seu lado, as mulheres anarquistas não viam nenhum sentido na luta pelo voto, nem das mulheres e nem dos homens. O meio para construir uma nova sociedade, e a igualdade entre homens e mulheres, na visão anarquista, não seria certamente o voto, e sim a ação direta revolucionária. A principal porta-voz desta visão era a revolucionária anarquista Emma Goldman.
O ambiente americano favorecia esta reivindicação do direito de voto. Até o ano de 1909, somente em quatro estados era reconhecido o direito ao voto feminino. A extensão do voto para toda mulher americana só viria em 1920.
Na Europa, o movimento das mulheres socialistas, liderado por Clara Zetkin, também era cheio de zige-zagues.
No começo, dentro da Internacional, se levava uma guerra sistemática contra a luta pelo direito de voto feminino, visto como uma forma de desviar as forças revolucionárias das mulheres e considerado como uma reivindicação burguesa. Era assim que eram tachadas as sufragistas, seja da Europa que da América, pelos socialistas.
Essa visão européia será adotada pelo Partido Socialista americano, em meio a grandes debates e com vozes discordantes. No meio do calor e das contradições desse debate, na 1ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1907, em Stuttgart, 58 delegadas de 14 países elaboraram uma proposição que comprometia os vários Partidos Socialistas a entrar na luta pelo voto feminino. A resolução foi elaborada, na véspera, na casa de Clara Zetkin, por ela e duas camaradas, suas hóspedes: Rosa Luxemburgo e a única russa da Conferência, Alexandra Kollontai.
É nesse clima de embates que, em 1910, o Partido Socialista americano organiza, pela segunda vez, o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro, em Nova Iorque. O objetivo do dia é declarado sem rodeios no convite: "Arrolar as mulheres no exército dos camaradas da revolução social."
Esta comemoração, de 1910 foi marcada por uma grande participação de operárias. Eram as costureiras da cidade que haviam terminado uma longa greve pelo direito de ter o seu sindicato reconhecido. A greve durou de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910, quase na véspera do Dia da Mulher. Foi uma greve longa, dura, com fortes piquetes reprimidos com violência pela polícia, que prendeu mais de 600 pessoas. Encerrada a greve, as costureiras participaram ativamente da preparação e da realização do Dia da Mulher chamado pelo Partido Socialista.
Dois meses depois, em maio, no congresso do partido, realizado em Chicago, foi deliberado que o partido americano enviaria delegados ao Congresso da Internacional, a ser realizado em agosto, com a tarefa, entre outras, de propor ao plenário que o Dia da Mulher fosse assumido pela Internacional. Esse dia deveria tornar-se o Dia Internacional da Mulher, a ser celebrado pelos socialistas, no último domingo de fevereiro de cada ano.
Em agosto desse ano, antes do Congresso da Internacional, se realizou em Copenhague, na Dinamarca, a 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. Foi então que as delegadas americanas levaram a proposta aprovada no Congresso do seu partido. Assim, aceitando a proposta das delegadas dos Estados Unidos, Clara Zetkin e outras camaradas propõem a realização anual do Dia Internacional da Mulher.
O dia ficou indefinido. Ficou a cargo de cada país escolher a data melhor para comemorar este dia. A resolução aprovada será publicada logo em seguida, no jornal dirigido por Clara, A Igualdade, em 29 de agosto.
"As mulheres socialistas de todas as nações organizarão um Dia das Mulheres específico, cujo primeiro objetivo será promover o direito de voto das mulheres. É preciso discutir esta proposta, ligando-a à questão mais ampla das mulheres, numa perspectiva socialista." A outra proposta, de comemorar o Dia da Mulher junto com a data já clássica da luta operária, o 1º de Maio, defendida por Clara e várias outras delegadas, foi derrotada. O dia da Mulher deveria ser comemorado num dia próprio, específico.
O Dia da Mulher se fixa em 8 de Março
Na Europa, a primeira celebração do Dia Socialista das Mulheres aconteceu em 19 de março de 1911, por decisão da Secretaria da Mulher Socialista, órgão da Internacional. Alexandra Kollontai, que propôs a data, diz que foi para lembrar um levante de mulheres proletárias, na Prússia, em 19 de março de 1848. Nesse dia, escreveu Kollontai, as mulheres conseguiram do rei da Prússia a promessa, depois não cumprida, de obter direito de voto.
Nos EUA, a tradição de realizar o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro se repetiu em 1911, 1912 e 1913. Em 1914, será comemorado em 19 de março, seguindo a indicação da Kollontai.
Nos vários países da Europa, após a decisão da 2ª Conferência, onde havia um partido socialista, se começou a comemorar o Dia da Mulher.
Na Suécia, a primeira comemoração foi em 1º de março de 1911. O mesmo aconteceu na Itália.
Na França, o começo do Dia da Mulher foi em 1914, comemorado dia 9 de março, próximo ao Dia da Mulher na Alemanha.
Em 1914, pela primeira vez, na Alemanha, Clara Zetkin e as mulheres socialistas marcam data do Dia da Mulher para 8 de março. Não se explicou o porquê dessa data, pois não precisava. Era um detalhe sem interesse. A data era totalmente indiferente. Tinha que ser qualquer dia. Importante era a realização do dia.
Na Rússia, sob da opressão do czar, o primeiro Dia da Mulher só foi comemorado em 3 de março de 1913.
Em 1914 todas as organizadoras do Dia da Mulher foram presas e com isso não houve comemoração.
Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de Março. Era o mesmo dia que, na Alemanha, tinha sido escolhido em 1914. Foi nesse dia que explodiu a greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado.
Nesse dia, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a decisão do Partido, que achava que aquele não era o momento para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação por pão e paz. Declararam-se em greve. Essa manifestação foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro.
Em outubro o Partido Bolchevique lidera a grande Revolução Russa, nos "dez dias que abalaram o mundo".
Essa greve foi documentada nos escritos de Trotsky e de Alexandra Kollontai, ambos membros do Comitê Central do Partido Operário Socialdemocrata Russo e ambos, depois, proscritos pelo stalinismo vencedor. Kollontai escreve: "O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução."
Mas o texto que melhor nos conta os fatos da greve das operárias da Petrogrado é um longo trecho de Leon Trotsky, no primeiro volume de seu livro História da Revolução Russa. Vale a pena acompanhá-lo:
Em 1921, realizou-se, em Moscou, na URSS, a Conferência das Mulheres Comunistas que adota o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional das Operárias. A partir dessa Conferência, a 3ª Internacional, recém-criada, espalhará a data 8 de Março como data das comemorações da luta das mulheres.
Um dia esquecido e depois reinventado
Na Rússia comunista, após a vitória da Revolução de Outubro, nos primeiros anos do novo regime, o dia 8 de Março era comemorado todo ano, como o Dia Internacional da Mulher Comunista.
O dia, pouco a pouco, perdeu seu interesse e o adjetivo comunista foi caindo à medida que o ímpeto revolucionário da União Soviética começou a se arrefecer.
Nos últimos anos da década de 20 e, sobretudo, nos anos 30, o Dia Internacional da Mulher, seja comunista ou socialista, se perderá na tormenta que se abateu sobre o mundo. A ascensão do nazismo na Alemanha, o triunfo do stalinismo na URSS e o declínio da socialdemocracia na Europa e o vendaval da 2ª Guerra Mundial enterram as manifestações do Dia das Mulheres.
Fora dos países comunistas, no Ocidente, a humanidade só voltará a falar do Dia da Mulher, no final dos anos 60. Nesse lapso de tempo, o marco do 8 de Março, data da greve das operárias de Petrogrado, de 1917, foi esquecido.
A data da vitória das revolucionárias rebeldes russas, que impôs a derrota do absolutismo do Czar e deslanchou a Revolução Russa, não interessava aos comunistas do mundo todo. Estes, quase todos, viviam anestesiados pelos encantos ou pelo terror stalinista.
Retornar a lembrança daquele 8 de Março das operárias revolucionárias de Petrogrado também não interessava à Socialdemocracia, rejuvenescida após a destruição da Segunda Guerra Mundial e em conflito aberto com o comunismo dos países do bloco soviético.
8 de Março: uma data a celebrar
Menos que menos, a data do 8 de Março de 1917, na nascente URSS, interessava o bloco capitalista ocidental, inimigo mortal da Rússia comunista. É neste clima, propício ao esquecimento da verdadeira história do Dia da Mulher, já na década de 1950, nas publicações do Partido Comunista, na França, se começou a falar de uma forte luta das operárias americanas, em 8 de março de 1857. Talvez, a famosíssima greve do 1º de Maio, na Chicago de 1886 e as numerosas greves nas tecelagens americanas estimularam as fantasias e levaram a enfatizar a participação dos Estados Unidos na luta da mulher, o que favoreceu esta confusão de datas. Pouco a pouco se deslocou a data para 1857, em Nova Iorque. E aí, em ondas sucessivas de contadores, se chegou a historinha completa.
No dia 1º de Março de 1964, o jornal da CGT francesa, Antoinette, fala que "foram as americanas que começaram. Era 8 de março de 1857. Para exigir as 10 horas elas ocuparam as ruas de Nova Iorque". É a continuação do que já tinha aparecido no jornal do PCF, nos anos anteriores.
E finalmente, foi assim, sem precisar de uma conspiração organizada por um suposto império do mal, que na Alemanha Oriental, em 1966, a Federação das Mulheres Comunistas noticiou a história do Dia da Mulher, enriquecida com o martírio das 129 queimadas vivas.
Tudo isto foi feito de forma confusa, misturando fatos com fantasias, com cada contador, escrevendo e inventando datas e detalhes.
E foi assim, sem nenhuma deliberação conspiratória, que o mito que acabava de ser criado, em 1966, no Leste Europeu, começou a ser divulgado e foi depois enriquecido fartamente, nos EUA do final dos anos 60 e em todo o mundo ocidental.
Depois disso, era só enriquecer o mito. O que foi feito, até sua cristalização em 1975, com a ONU e logo depois com a Unesco, em 1977.
Uma data muito rica que não precisa de mitos
Derrubar o mito de origem da data 8 de Março não implica desvalorizar o significado histórico que este adquiriu.
Muito ao contrário. Significa retomar a verdade dos fatos que são suficientemente ricos de significado e que carregam toda a luta da mulher no caminho da sua libertação. Significa enriquecer a comemoração desse dia com a retomada de seu sentido original.
Significa voltar às origens do ideal socialista da maioria das mulheres que lutavam por um mundo novo sem exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da mulher pelo homem.
Um dia que quer retomar a comemoração e a luta de um 8 de Março sem medos. Avançar sem medos e sem vergonha pelas derrotas sofridas pelas revoluções perdidas no século XX, rumo à conquista da libertação total das mulheres.
Significa integrar todos os novos e importantíssimos aspectos da luta da libertação da mulher, descobertos com a evolução histórica da humanidade no século XX, com a retomada de suas raízes socialistas.
Integrar à clássica luta libertária, socialista e comunista do começo do século XX, as contribuições de diferentes linhas de pensamento e países, que vão de Wilhem Reich a Simone de Beauvoir, de Herbert Marcuse a Samora Machel, de Betty Friedann a Rose Marie Muraro. Integrar toda a luta do feminismo para construir uma sociedade onde a mulher seja reconhecida como gente.
Integrar estas elaborações teóricas com as lutas e as experiências de vida de milhares de ativistas, militantes e organizadoras da luta das mulheres, no mundo inteiro: das guerrilheiras latino-americanas, às mulheres vietnamitas, das trabalhadoras das fábricas às plantadoras de arroz da Índia, das Mães dos desaparecidos argentinos às lutadoras pela reforma agrária do MST.
Uma longa luta sem medo da felicidade, sem medo do prazer. Sem medo de lutar por uma revolução, que deverá ser social, sexual, e profundamente cultural. Sem medo de levantar as bandeiras vermelhas da luta pela libertação da humanidade. A libertação de homens e mulheres.
A libertação da mulher tem origem na luta socialista
A idéia da libertação da mulher nasceu na terra fértil do movimento socialista mundial, no final do século XIX e começo do século XX.
As raízes desta batalha podem ser encontradas nos escritos de Marx e Engels. A visão da família, da mulher proletária e da burguesa que permeiam A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, de Engels, é a base da visão dos socialistas sobre a necessidade da libertação da mulher proletária. A frase de Marx, "A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem", demorou para dar seus frutos, mas deu.
Contemporâneos de Marx, Paul Lafargue e Laura Marx foram batalhadores da igualdade e da libertação feminina, em seus vários escritos, sobretudo em seu livro mais conhecido, Direito à Preguiça.
Clara Zetkin, desde 1890, logo após a fundação da Internacional Socialista, começou a falar, escrever e organizar a luta das mulheres visando a integrá-las à luta socialista. Visando a que elas tomassem seu lugar na luta de classes, na revolução socialista que estava próxima.
Fora da 2ª Internacional, a tradição anarquista de uma parte do movimento operário também exigia a igualdade de homens e mulheres. A realidade, naquele começo do movimento da classe trabalhadora ainda era dura: partido e sindicato eram coisas de homem. Mas, mesmo nesse ambiente desfavorável, grandes mulheres passaram a discutir com as maiores lideranças da época e deixaram suas marcas em livros e artigos e na organização das forças revolucionárias.
Foi neste embate de idéias que um dos teóricos da Internacional, August Bebel, em 1885, escreveu seu livro A Mulher e o Socialismo. E é nesse grande rio que deságua o célebre A Nova Mulher e a Moral Sexual, de Alexandra Kollontai, mais de 20 anos depois.
Nesse ambiente de lutas operárias e de discussões teóricas, no campo socialista, é que nasceu a luta pela participação política e, pouco a pouco, pela libertação da mulher.
A partir do começo do século XX, essa batalha das socialistas se cruzou com a do movimento das mulheres independentes, em sua maioria pertencentes às classes média e alta, que estavam em campanha pelo direito de voto. Essas mulheres, nos Estados Unidos e na Inglaterra, ao reivindicar o sufrágio para as mulheres, ficaram conhecidas como as sufragistas e suas relações com as socialistas eram de conflito, devido às visões e a posição de classe diferentes.
As mulheres socialistas criam o Dia da Mulher
Desde 1901, nos EUA, logo após a criação do Partido Socialista, surge a União Socialista das Mulheres, com a finalidade de reivindicar o direito de voto feminino. Entre os anos 1900 e 1908, sempre nos Estados Unidos, nascem vários clubes de mulheres, uns intimamente ligados ao Partido Socialista, outros mais autônomos, anarquistas ou não. Todos exigiam o direito de voto para as mulheres.
Em 1908, a Federação dos Clubes de Mulheres Socialistas de Chicago toma a iniciativa, autônoma, não ligada oficialmente ao Partido Socialista, de chamar para um Dia da Mulher, num teatro da cidade. Era o domingo, 3 de maio. Os debates do dia tinham dois temas de pauta: 1. A educação da classe trabalhadora. 2. A mulher e o Partido Socialista.
Nessa conferência, o palestrante Ben Hanford repetiu uma das idéias-chaves de Engels no seu A Origem da Família da Propriedade e do Estado. Nas palavras do orador, de acordo com Engels, "As mais exploradas são as mães do nosso povo. Elas estão de mãos e pés amarrados pela dependência econômica. São forçadas a vender-se no mercado do casamento, como suas irmãs prostitutas no mercado público."
Mas não foi esse encontro independente, no teatro The Garrick, de Chicago, que foi reconhecido pelo Partido Socialista como começo da comemoração do Dia da Mulher. A iniciativa desse dia tinha nascido fora da estrutura oficial do Partido.
O primeiro dia da Mulher, nacional, assumido pelo Partido, foi no ano seguinte, em Nova Iorque, em 28 de fevereiro de 1909. Em outras cidades do País, como Chicago, o dia foi celebrado em outras datas.
O objetivo desse dia, convocado pelo Comitê Nacional da Mulher do Partido Socialista americano, "era obter o direito de voto e abolir a escravidão sexual." O panfleto de convocação dizia: "A realização da revolução das mulheres é um dos meios mais eficazes para a revolução de toda a sociedade."
Desde o começo do século, nos EUA havia um importante movimento pelo voto feminino, fora da órbita dos socialistas. A maioria das mulheres do Partido consideravam esse movimento como um movimento de mulheres brancas e de classe média.
Dentro do Partido Socialista havia um constante vai-e-vem sobre esse tema. Por seu lado, as mulheres anarquistas não viam nenhum sentido na luta pelo voto, nem das mulheres e nem dos homens. O meio para construir uma nova sociedade, e a igualdade entre homens e mulheres, na visão anarquista, não seria certamente o voto, e sim a ação direta revolucionária. A principal porta-voz desta visão era a revolucionária anarquista Emma Goldman.
O ambiente americano favorecia esta reivindicação do direito de voto. Até o ano de 1909, somente em quatro estados era reconhecido o direito ao voto feminino. A extensão do voto para toda mulher americana só viria em 1920.
Na Europa, o movimento das mulheres socialistas, liderado por Clara Zetkin, também era cheio de zige-zagues.
No começo, dentro da Internacional, se levava uma guerra sistemática contra a luta pelo direito de voto feminino, visto como uma forma de desviar as forças revolucionárias das mulheres e considerado como uma reivindicação burguesa. Era assim que eram tachadas as sufragistas, seja da Europa que da América, pelos socialistas.
Essa visão européia será adotada pelo Partido Socialista americano, em meio a grandes debates e com vozes discordantes. No meio do calor e das contradições desse debate, na 1ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1907, em Stuttgart, 58 delegadas de 14 países elaboraram uma proposição que comprometia os vários Partidos Socialistas a entrar na luta pelo voto feminino. A resolução foi elaborada, na véspera, na casa de Clara Zetkin, por ela e duas camaradas, suas hóspedes: Rosa Luxemburgo e a única russa da Conferência, Alexandra Kollontai.
É nesse clima de embates que, em 1910, o Partido Socialista americano organiza, pela segunda vez, o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro, em Nova Iorque. O objetivo do dia é declarado sem rodeios no convite: "Arrolar as mulheres no exército dos camaradas da revolução social."
Esta comemoração, de 1910 foi marcada por uma grande participação de operárias. Eram as costureiras da cidade que haviam terminado uma longa greve pelo direito de ter o seu sindicato reconhecido. A greve durou de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910, quase na véspera do Dia da Mulher. Foi uma greve longa, dura, com fortes piquetes reprimidos com violência pela polícia, que prendeu mais de 600 pessoas. Encerrada a greve, as costureiras participaram ativamente da preparação e da realização do Dia da Mulher chamado pelo Partido Socialista.
Dois meses depois, em maio, no congresso do partido, realizado em Chicago, foi deliberado que o partido americano enviaria delegados ao Congresso da Internacional, a ser realizado em agosto, com a tarefa, entre outras, de propor ao plenário que o Dia da Mulher fosse assumido pela Internacional. Esse dia deveria tornar-se o Dia Internacional da Mulher, a ser celebrado pelos socialistas, no último domingo de fevereiro de cada ano.
Em agosto desse ano, antes do Congresso da Internacional, se realizou em Copenhague, na Dinamarca, a 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. Foi então que as delegadas americanas levaram a proposta aprovada no Congresso do seu partido. Assim, aceitando a proposta das delegadas dos Estados Unidos, Clara Zetkin e outras camaradas propõem a realização anual do Dia Internacional da Mulher.
O dia ficou indefinido. Ficou a cargo de cada país escolher a data melhor para comemorar este dia. A resolução aprovada será publicada logo em seguida, no jornal dirigido por Clara, A Igualdade, em 29 de agosto.
"As mulheres socialistas de todas as nações organizarão um Dia das Mulheres específico, cujo primeiro objetivo será promover o direito de voto das mulheres. É preciso discutir esta proposta, ligando-a à questão mais ampla das mulheres, numa perspectiva socialista." A outra proposta, de comemorar o Dia da Mulher junto com a data já clássica da luta operária, o 1º de Maio, defendida por Clara e várias outras delegadas, foi derrotada. O dia da Mulher deveria ser comemorado num dia próprio, específico.
O Dia da Mulher se fixa em 8 de Março
Na Europa, a primeira celebração do Dia Socialista das Mulheres aconteceu em 19 de março de 1911, por decisão da Secretaria da Mulher Socialista, órgão da Internacional. Alexandra Kollontai, que propôs a data, diz que foi para lembrar um levante de mulheres proletárias, na Prússia, em 19 de março de 1848. Nesse dia, escreveu Kollontai, as mulheres conseguiram do rei da Prússia a promessa, depois não cumprida, de obter direito de voto.
Nos EUA, a tradição de realizar o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro se repetiu em 1911, 1912 e 1913. Em 1914, será comemorado em 19 de março, seguindo a indicação da Kollontai.
Nos vários países da Europa, após a decisão da 2ª Conferência, onde havia um partido socialista, se começou a comemorar o Dia da Mulher.
Na Suécia, a primeira comemoração foi em 1º de março de 1911. O mesmo aconteceu na Itália.
Na França, o começo do Dia da Mulher foi em 1914, comemorado dia 9 de março, próximo ao Dia da Mulher na Alemanha.
Em 1914, pela primeira vez, na Alemanha, Clara Zetkin e as mulheres socialistas marcam data do Dia da Mulher para 8 de março. Não se explicou o porquê dessa data, pois não precisava. Era um detalhe sem interesse. A data era totalmente indiferente. Tinha que ser qualquer dia. Importante era a realização do dia.
Na Rússia, sob da opressão do czar, o primeiro Dia da Mulher só foi comemorado em 3 de março de 1913.
Em 1914 todas as organizadoras do Dia da Mulher foram presas e com isso não houve comemoração.
Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de Março. Era o mesmo dia que, na Alemanha, tinha sido escolhido em 1914. Foi nesse dia que explodiu a greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado.
Nesse dia, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a decisão do Partido, que achava que aquele não era o momento para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação por pão e paz. Declararam-se em greve. Essa manifestação foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro.
Em outubro o Partido Bolchevique lidera a grande Revolução Russa, nos "dez dias que abalaram o mundo".
Essa greve foi documentada nos escritos de Trotsky e de Alexandra Kollontai, ambos membros do Comitê Central do Partido Operário Socialdemocrata Russo e ambos, depois, proscritos pelo stalinismo vencedor. Kollontai escreve: "O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução."
Mas o texto que melhor nos conta os fatos da greve das operárias da Petrogrado é um longo trecho de Leon Trotsky, no primeiro volume de seu livro História da Revolução Russa. Vale a pena acompanhá-lo:
"O 23 de fevereiro era o Dia Nacional das Mulheres. Programava-se, nos círculos da socialdemocracia, de mostrar o seu significado com os meios tradicionais: reuniões, discursos, boletins. Na véspera, ninguém teria imaginado que este Dia das Mulheres pudesse ter inaugurado a revolução.
Nenhuma organização planejava alguma greve para aquele dia. Ainda por cima, uma das combativas organizações bolcheviques, o Comitê dos Tecelões de Rayon, formado essencialmente por operários, desaconselhava qualquer greve. O estado de espírito da massa, segundo Kaiurov, um dos chefes operários deste setor, era muito tenso e cada greve ameaçava tornar-se um confronto aberto.
O Comitê julgava que o momento de começar hostilidades ainda não tinha chegado e que o Partido ainda não tinha forças suficientes e, ao mesmo tempo, a união entre soldados e operários ainda era insuficiente. Por isso tinha decidido não chamar para greve, mas para se preparar para a ação revolucionária, num futuro ainda não definido.
Esta era a linha de conduta preconizada pelo Comitê, na véspera do dia 23, e parecia que todos a tivessem aceitado. Mas, na manhã seguinte, contra todas as orientações, as operárias têxteis abandonaram o trabalho em várias fábricas e enviaram delegadas aos metalúrgicos para pedir-lhes que apoiassem a greve.
Foi a contra-gosto, escreve Kaiurov, que os bolcheviques, seguidos pelos operários mencheviques e pelossocialistas de esquerda se juntaram à marcha.
Como se tratava de uma greve de massa, era necessário comprometer todo mundo para sair às ruas e estar à frente do movimento. Esta foi a resolução proposta por Kaiurov e o Comitê de Vyborov se sentiu forçado a aprová-la.
Pelos fatos, é então certo que a Revolução de Fevereiro foi iniciada por elementos da base que passaram por cima da oposição das suas organizações revolucionárias, e que a iniciativa foi tomada espontaneamente por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros, as operárias têxteis. (...) O empurrão final veio das enormes filas de espera em frente às padarias."
Em 1921, realizou-se, em Moscou, na URSS, a Conferência das Mulheres Comunistas que adota o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional das Operárias. A partir dessa Conferência, a 3ª Internacional, recém-criada, espalhará a data 8 de Março como data das comemorações da luta das mulheres.
Um dia esquecido e depois reinventado
Na Rússia comunista, após a vitória da Revolução de Outubro, nos primeiros anos do novo regime, o dia 8 de Março era comemorado todo ano, como o Dia Internacional da Mulher Comunista.
O dia, pouco a pouco, perdeu seu interesse e o adjetivo comunista foi caindo à medida que o ímpeto revolucionário da União Soviética começou a se arrefecer.
Nos últimos anos da década de 20 e, sobretudo, nos anos 30, o Dia Internacional da Mulher, seja comunista ou socialista, se perderá na tormenta que se abateu sobre o mundo. A ascensão do nazismo na Alemanha, o triunfo do stalinismo na URSS e o declínio da socialdemocracia na Europa e o vendaval da 2ª Guerra Mundial enterram as manifestações do Dia das Mulheres.
Fora dos países comunistas, no Ocidente, a humanidade só voltará a falar do Dia da Mulher, no final dos anos 60. Nesse lapso de tempo, o marco do 8 de Março, data da greve das operárias de Petrogrado, de 1917, foi esquecido.
A data da vitória das revolucionárias rebeldes russas, que impôs a derrota do absolutismo do Czar e deslanchou a Revolução Russa, não interessava aos comunistas do mundo todo. Estes, quase todos, viviam anestesiados pelos encantos ou pelo terror stalinista.
Retornar a lembrança daquele 8 de Março das operárias revolucionárias de Petrogrado também não interessava à Socialdemocracia, rejuvenescida após a destruição da Segunda Guerra Mundial e em conflito aberto com o comunismo dos países do bloco soviético.
8 de Março: uma data a celebrar
Menos que menos, a data do 8 de Março de 1917, na nascente URSS, interessava o bloco capitalista ocidental, inimigo mortal da Rússia comunista. É neste clima, propício ao esquecimento da verdadeira história do Dia da Mulher, já na década de 1950, nas publicações do Partido Comunista, na França, se começou a falar de uma forte luta das operárias americanas, em 8 de março de 1857. Talvez, a famosíssima greve do 1º de Maio, na Chicago de 1886 e as numerosas greves nas tecelagens americanas estimularam as fantasias e levaram a enfatizar a participação dos Estados Unidos na luta da mulher, o que favoreceu esta confusão de datas. Pouco a pouco se deslocou a data para 1857, em Nova Iorque. E aí, em ondas sucessivas de contadores, se chegou a historinha completa.
No dia 1º de Março de 1964, o jornal da CGT francesa, Antoinette, fala que "foram as americanas que começaram. Era 8 de março de 1857. Para exigir as 10 horas elas ocuparam as ruas de Nova Iorque". É a continuação do que já tinha aparecido no jornal do PCF, nos anos anteriores.
E finalmente, foi assim, sem precisar de uma conspiração organizada por um suposto império do mal, que na Alemanha Oriental, em 1966, a Federação das Mulheres Comunistas noticiou a história do Dia da Mulher, enriquecida com o martírio das 129 queimadas vivas.
Tudo isto foi feito de forma confusa, misturando fatos com fantasias, com cada contador, escrevendo e inventando datas e detalhes.
E foi assim, sem nenhuma deliberação conspiratória, que o mito que acabava de ser criado, em 1966, no Leste Europeu, começou a ser divulgado e foi depois enriquecido fartamente, nos EUA do final dos anos 60 e em todo o mundo ocidental.
Depois disso, era só enriquecer o mito. O que foi feito, até sua cristalização em 1975, com a ONU e logo depois com a Unesco, em 1977.
Uma data muito rica que não precisa de mitos
Derrubar o mito de origem da data 8 de Março não implica desvalorizar o significado histórico que este adquiriu.
Muito ao contrário. Significa retomar a verdade dos fatos que são suficientemente ricos de significado e que carregam toda a luta da mulher no caminho da sua libertação. Significa enriquecer a comemoração desse dia com a retomada de seu sentido original.
Significa voltar às origens do ideal socialista da maioria das mulheres que lutavam por um mundo novo sem exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da mulher pelo homem.
Um dia que quer retomar a comemoração e a luta de um 8 de Março sem medos. Avançar sem medos e sem vergonha pelas derrotas sofridas pelas revoluções perdidas no século XX, rumo à conquista da libertação total das mulheres.
Significa integrar todos os novos e importantíssimos aspectos da luta da libertação da mulher, descobertos com a evolução histórica da humanidade no século XX, com a retomada de suas raízes socialistas.
Integrar à clássica luta libertária, socialista e comunista do começo do século XX, as contribuições de diferentes linhas de pensamento e países, que vão de Wilhem Reich a Simone de Beauvoir, de Herbert Marcuse a Samora Machel, de Betty Friedann a Rose Marie Muraro. Integrar toda a luta do feminismo para construir uma sociedade onde a mulher seja reconhecida como gente.
Integrar estas elaborações teóricas com as lutas e as experiências de vida de milhares de ativistas, militantes e organizadoras da luta das mulheres, no mundo inteiro: das guerrilheiras latino-americanas, às mulheres vietnamitas, das trabalhadoras das fábricas às plantadoras de arroz da Índia, das Mães dos desaparecidos argentinos às lutadoras pela reforma agrária do MST.
Uma longa luta sem medo da felicidade, sem medo do prazer. Sem medo de lutar por uma revolução, que deverá ser social, sexual, e profundamente cultural. Sem medo de levantar as bandeiras vermelhas da luta pela libertação da humanidade. A libertação de homens e mulheres.
SIDNEY NUNES
quinta-feira, 1 de março de 2012
Pode a cultura ser sustentável?
Adailtom Alves Teixeira[1]
A virada do milênio foi uma virada de hambúrgueres para software. Software é uma ideia, hambúrguer é uma vaca. Ainda haverá fabricantes de hambúrgueres no século XXI, é claro. O poder, o prestígio e dinheiro, entretanto, fluirão para as empresas que detêm o indispensável capital intelectual.
P. Coy, Business Week, agosto de 2000 apud A.M. Nicolaci-da-costa.
O capitalismo vive uma crise estrutural e, como já aconteceu antes, ou se acaba com ele ou este se reinventa. O alemão Wolfgang Streeck, em recente artigo No Le Monde Diplomatique (janeiro de 2012, n 54, p. 24-5) afirma que dia após dia os mercados ditam leis aos Estados e que a crise de 2008 começou há 40 anos, no final dos anos 1960. Desde então o capitalismo vem se reinventando, passando por três soluções: inflação, dívida pública e dívida privada. Os grandes problemas ocorridos na Espanha, Grécia, Estados Unidos da América, são frutos dessa última "solução".
No que diz respeito à cultura, esta não escapou a sanha das grandes corporações, que perceberam formas de aumentar seus lucros e agregar valores à sua marca. Chin-Tao Wu, em Privatizações da cultura (2006), analisa como a política neoliberal chegou ao campo das artes. Desde então, podemos dizer que a cultura vem sendo ponta de lança da reinvenção do capitalismo, pois cada vez mais, trata-se de produzir idéias, que são muito mais rentáveis do que os produtos materiais. Afinal, uma peça, por exemplo, é necessário ser produzida para ser vendida, já uma ideia, ao ser criada, pode ser vendida indefinidamente, gerando muito lucro para os detentores dos seus direitos. É nesse campo que se coloca a economia criativa.
A economia criativa, até onde se apurou, começou na Austrália, com a ideia de nação criativa, depois migrou para o Reino Unido, sob a batuta de Toni Blair, o continuador da política de Margareth Thatcher. E se os mercados ditam as regras, claro que o Brasil não podia ficar de fora. Agora nós temos uma secretaria ligada ao Ministério da Cultura: Secretaria da Economia Criativa. A Secretaria foi implantada em janeiro de 2011, portanto, logo no inicio do governo Dilma, deixando claro como a cultura deve ser tratada, como negócio.
A secretária da economia criativa, Claudia Leitão, ao apresentar as metas de sua pasta, é clara: a cultura tem um papel estratégico no desenvolvimento do Estado brasileiro (disponível em: http://www.cultura.gov.br/site/2011/12/08/metas-da-secretaria-da-economia-criativa/ consultado em 29/02/12). A Secretaria é voltada para pensar e auxiliar na construção de produtos e serviços de dimensões simbólicas, devendo, inclusive, criar marcos legais para que se possa conceder empréstimos aos brasileiros mais criativos. Ou seja, se põe em prática a terceira "solução" do capital: o endividamento privado.
Em artigo publicado no Jornal Brasil Econômico (Disponível em: http://www.brasileconomico.com.br/epaper/contents/BE_2011-12-05.pdf. Planejando um Brasil Criativo. LEITÃO, Claudia. P. 17, 05 de dezembro de 2011. Consultado em 29/02/12), a secretária afirma ser difícil conceituar o que seja economia criativa, no entanto, não deixa dúvidas: "mas nós sabemos onde ela está". Frisa a necessidade de linhas de crédito para fomentar os empreendimentos criativos, pois a criatividade precisa virar inovação, para que esta se torne riqueza. Muito embora, Leitão não se refira para as mãos de quem irá à riqueza gerada. Talvez devêssemos supor que é para aqueles que produzem, mas como historicamente a riqueza tem sempre sido apartada daqueles que a produzem, é bom perguntar e ficar desconfiado.
Para se ter uma ideia do processo de transformação e de implantação da economia criativa, não só por aqui, aproveitei e realizei um pequeno levantamento de materiais teóricos – aliás, entre eles, parece não haver críticas a essa nova benesse que é a indústria criativa ou a economia criativa.
No site do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, economia criativa é definida como "um novo modelo de gestão e negócios baseado no bem intelectual, e não no industrial ou agrícola" (Disponível em: www.sebrae.com.br/setor/cultura-e-entretenimento/o-setor/economia-criativa. Consultado em 29/02/12). Ainda no mesmo site é possível obter informações sobre alguns dados mundiais, retirados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento – UNCTAD. Em 2008, apesar de queda de 12% no comércio global, "os serviços e bens da economia criativa cresceram até 14%. Quem mais produz? China, EUA e Alemanha. O relatório da UNCTAD – para aqueles que dominam o inglês – pode ser obtido em: www.unctad.org/en/docs/ditctab20103_em.pdf.
O site Economia Criativa (www.economiacriativa.com) afirma que a economia criativa, ao focar a criatividade, a imaginação e a inovação, não se restringe a produtos, serviços e tecnologias, englobando também processos, modelos de negócios e modelos de gestão, entre outros. Assim, economia criativa é o mais puro capitalismo. Ainda que se queira dizer o contrário.
A julgar pelos referenciais desse rápido levantamento, a economia criativa vem sendo fundamentada por teóricos que parece não encontrar possibilidades para além do capital. Mais uma vez a ciência dá régua e compasso ao processo de exploração. Cito apenas um exemplo, um livro, que apresenta muitos artigos com teóricos de diversas partes do mundo e o mesmo pode ser baixado da internet e foi gentilmente financiado pelo Itau Cultural, chama-se Economia criativa como estratégia de desenvolvimento: uma visão dos países em desenvolvimento (disponível em: www.garimpodesolucoes.com.br/downloads/ebook_br.pdf). A organizadora é Ana Carla Fonseca Reis, que devido as suas inquietações e navegação pelas esferas do marketing, da economia e da cultura, percebeu que as pessoas não sabem "o valor do que produzem e o preço que praticam", ou seja, as pessoas estão se vendendo mal, poderiam vender melhor sua criatividade. Reis (2008) afirma que os três pilares da economia criativa são a singularidade, o simbólico e o intangível.
A autora, na introdução, logo no primeiro parágrafo, demonstra sua criatividade e nos apresenta uma ideia interessante de como a criatividade pode alimentar o mercado:
Criatividade. Palavra de definições múltiplas, que remete intuitivamente à capacidade não só de criar o novo, mas de reinventar, diluir paradigmas tradicionais, unir pontos aparentemente desconexos e, com isso, equacionar soluções para novos e velhos problemas. Em termos econômicos, a criatividade é um combustível renovável e cujo estoque aumenta com o uso. Além disso, a "concorrência" entre agentes criativos, em vez de saturar o mercado, atrai e estimula a atuação de novos produtores" (REIS, 2008: 15).
Outro documento que faz um levantamento sobre a produção teórica sobre economia criativa, sempre do ponto de vista afirmativo desse processo, é apresentado por Paulo Miguez (disponível em: www.cult.ufba.br/arquivos/repertorio_economia_criativa.pdf). O artigo demonstra o quanto cultura e economia, desde o pós guerra, estão ligados, bem como o processo de transformação dos termos e a ampliação do que eles procuram abarcar. Assim, economia das artes ou economia da cultura, se transforma em indústrias criativas e hoje são ampliadas para o conceito de economia criativa. O autor nos apresenta a definição de indústria criativa dada pelo British Council:
indústrias que tem sua origem na criatividade, habilidade e talento individuais que têm um potencial para geração de empregos e riquezas por meio da geração e exploração da propriedade intelectual. Isto inclui propaganda, arquitetura, mercado de artes e antiguidades, artesanatos, design, design de moda, filme e vídeo, software de lazer interativo, música, artes cênicas, publicações, software e jogos de computador, televisão e rádio (Documento citado à p.11)
Miguez, preocupado com questões econômicas, se pergunta por que o patrimônio e as festas populares não entram na lista do British Council. Ele está particularmente interessado no carnaval baiano e carioca e a festa junina de Campina Grande/PB.
Paulo Miguez afirma ainda que muitos organismos internacionais, inclusive a Unesco, tem realizado debates, produzido documentos sobre o tema e mais adiante apresenta quais interesses estão por trás de tudo isso:
Agregue-se a estes fatos dois números estimados pelo Banco Mundial, os 7% que já representam o peso da economia criativa e das indústrias criativas na formação PIB mundial e os 10% de taxa média de crescimento prevista para o setor nos próximos 10 anos, e teremos, quero crer, uma boa dose de razões para compreender que, doravante, estaremos nos confrontando cada vez mais com esta temática – o que nos obrigará a fornecer respostas tanto teóricas quanto prático-políticas – e de justificativas plausíveis pra dedicar um olhar mais atento sobre a novidade da economia criativa e das indústrias criativas (Documento citado, p. 12-3).
No caso do Brasil, a resposta prático-política veio em forma de secretaria, que deve trabalhar, conforme anunciado por Claudia Leitão, com os demais ministérios, como o de Educação, das Cidades, de Ciência e Tecnologia, entre outros, de forma que a economia criativa alcance e capte todo o potencial do brasileiro. Aliás, em recente encontro em São Paulo a secretária deixou transparecer que esse pode ser o caminho que pode auxiliar a erradicação de 18 milhões de miseráveis.
Como já dito, Paulo Miguez considera a economia criativa uma ampliação da economia da cultura. O objetivo de sua pesquisa foi levantar materiais teóricos sobre o assunto, chegando a 777 fontes. Cabe destacar que de seu levantamento, 384 são sobre economia da cultura e 137 específicas sobre economia criativa.
Economia da cultura, indústrias criativas, economia criativa, trata-se da ampliação da indústria cultural, aliada à indústria do turismo e outros tantos ramos, que, nas cidades, produzem os processos de gentrificação, de espoliação, enfim, capitalismo perverso se adequando aos novos tempos.
Ana Carla Fonseca Reis (2008), afirma que as características da economia criativa são capazes de recuperar o cidadão (inserindo-o socialmente) e o consumidor (inserindo-o economicamente), ela só esquece que já estamos todos inseridos no sistema capitalista e que queremos é sair dele, pois não mais o suportamos.
Enfim, todos aqueles que têm a cultura como um direito, que vê na cultura a prática da liberdade e o exercício da plenitude humana e, por isso mesmo, deve ser para todos sem a mediação do dinheiro, todos que lutam pela emancipação humana, devem combater o atual processo metabólico pelo qual passa o capital. A cultura não pode ser pensada do ponto de vista do desenvolvimento econômico da nação, mas sim, do ponto de vista do desenvolvimento humano, logo, insustentável, pois o resultado que deve apresentar é o de seres humanos melhores.
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