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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Lei do artista de rua de Goiânia
Gabinete do Prefeito
LEI Nº 9.703, DE 03 DE DEZEMBRO DE 2015
Dispõe sobre a apresentação de artistas de rua nos logradouros públicos do Município de Goiânia.
A CÂMARA MUNICIPAL DE GOIÂNIA, Estado de Goiás, aprova e eu, PREFEITO MUNICIPAL, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º As manifestações culturais de artistas de rua no espaço público aberto tais como praças, anfiteatros, lagos, boulevards, bastará ao responsável pela manifestação informar à Secretaria Municipal de Cultura sobre o dia e hora de sua realização, a fim de compatibilizar o compartilhamento de espaço, se for o caso, com outra atividade da mesma natureza no mesmo dia e local, e observar as seguintes requisitos:
I – Sejam gratuitas para os espectadores, permitidas doações espontâneas;
II – Permitam a livre fluência do trânsito;
III – Permitam a passagem e circulação de pedestres, bem como o acesso a instalação pública ou privada;
IV – Prescidam de palco ou de qualquer outra estrutura de prévia instalação no local;
V – Utilizem fonte de energia para alimentação do som com potência máxima de 50 (cinqüenta) KVAs;
VI – Tenha duração máxima de até 4 (quatro) horas e estejam concluídas até às 22 (vinte e duas) horas;
VII – Não tenham patrocínio privado que as caracterize como um evento de marketing, salvo projetos apoiados por lei municipal, estadual ou federal de incentivo à cultura.
§ 1º As atividades desenvolvidas com base nesta Lei não implica em isenção de taxas, emolumentos, tributos e impostos quanto aos patrocínios públicos diretos ou a eventuais pagamentos recebidos pelos realizadores efetuados através de leis de incentivo fiscal.
Art. 2º Serão consideradas atividades artísticas e culturais, para fins desta Lei, todas as manifestações, shows, performances, saraus e recitais, nas mais diferentes linguagens, como teatro, dança, circo, mímica, música, artes visuais e plásticas, literatura e poesia. Parágrafo único. Durante a atividade ou evento fica permitido à comercialização de bens culturais duráveis, como CD’s, DV’s, livros, quadros e peças artesanais, sendo estes produtos da autoria do apresentante. Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
GABINETE DO PREFEITO DE GOIÂNIA, aos 03 dias do mês de dezembro de 2015.
PAULO GARCIA Prefeito de Goiânia Ivanor Florêncio Osmar de Lima Magalhães
Palácio das Campinas Venerando de Freitas Borges
(Paço Municipal) Av. do Cerrado nº 999 - Park Lozandes - Goiânia - GO
CEP 74.884-900
Fone: 55 62 3524.3004
| e-mail:paulogarcia@goiania.go.gov.br
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Pensamentos em Guerras III
PENSAMENTOS EM GUERRAS III
Com a intenção de aprofundar o pensamento crítico sobre os trabalhos da Estudo de Cena e contribuir com a formação de seus/suas integrantes e do público, a Estudo de Cena convidou pesquisadoras e artistas, que tem interesse na relação entre arte e realidade latino americana, para escrever reflexões a partir do espetáculo GUERRAS DESCONHECIDAS.
Confiram o terceiro texto da série escrito pela cientista social e educadora Jade Percassi.
Pensamentos em Guerras na Batalha das Ideias
"Tão longa a história das perdas que é preciso que faça sentido."
(trecho de A Farsa da Justiça Burguesa)
Porque a História não começa onde a gente começa é que é preciso reconhecer a importância e a beleza destes Pensamentos em Guerras.
Partindo de um projeto mais amplo, "Barricadas", a ideia da intervenção (ou deveria se chamar peça de Agitação?) Guerras Desconhecidas encontrava-se inscrita na noção de arte contra-hegemônica, que, segundo o pensamento de Gramsci, considera que contribuir para romper com as relações de hegemonia vigentes e com um modo de pensar unificado, na formação de uma nova concepção de mundo por meio da qual se fará uma nova leitura da história e da herança cultural da humanidade, faz parte da tarefa revolucionária. E para cumprir com tal tarefa, como é sabido, não basta avermelhar o discurso.
Daí que reconhecemos, em cena, desalienadamente, dezenas de pistas que demonstram serem os atos desta peça frutos de intensa pesquisa – teórica, sobre os processos históricos de luta e resistência de trabalhadores e trabalhadoras, conforme declara a própria Companhia – mas também, e principalmente, do aprofundamento dos estudos de linguagem, que intensificados no último período através da realização dos seminários Teatro de todos os dias e Diversões Populares – agregaram elementos do teatro de feira, circo, teatro de rua, estátuas vivas, mamulengos, malhação de judas, cortejos, entre outros, expressões populares carregadas de força e beleza, insistentemente desqualificadas ou invisibilizadas pela dita "alta" cultura.
Ainda sobre os sinais visíveis do processo de construção, tal como um canteiro de obras não desmontado, percebemos a riqueza da interação entre os pares – a contribuição, intencionalizada ou não, de integrantes de grupos de teatro aliados dentro dessa perspectiva de uma arte política e politizada, e que vão contribuindo nessa interação e fricção de linguagens e criações, para um repertório crescente de um modo de fazer teatro que se reconhece entre os diferentes. Apontaria, nesse sentido, traços de diálogos da trupe com Latão, Antropofágica, Estável, Brava, Engenho, Dolores, Kiwi, Buraco d'Oráculo – para ficar em alguns. Mas também, e não menos importante, do diálogo interrompido com uma tradição da militância teatral empreendida durante os anos que antecederam a ditadura civil- militar, dando continuidade a experimentações ousadas, ancoradas no princípio da indissociação entre técnica e política.
Na proposição de uma arte política contra-hegemônica se faz necessária a relação entre teoria e prática na produção do conhecimento, o desenvolvimento de ações e reflexões que possibilitem a formação de uma nova concepção de mundo por parte dos atuadores e atuadoras, cuja concreticidade se verifique na força da encenação. Nesse sentido, faz-se presente a participação política na formação dos integrantes da companhia, e isto se reflete na criação estética – desde o montar e desmontar a Barraca tendo o trabalho coletivo como princípio político-pedagógico, até referências possíveis devido à participação em espaços de luta e de debates junto aos movimentos sociais, como é o caso do diálogo com o MST e a Escola Nacional Florestan Fernandes (a instalação "mística" do encerramento figura como exemplo mais emblemático).
Quando a Estudo de Cena começou a traçar sua rota de Barricadas, pretendia resgatar episódios de resistência popular pouco divulgados, e através destes, oferecer experiências simbólicas diversas para o imaginário do público. E eu digo, humildemente, que o que se alcançou foi muito além. Emprestando de Iná Camargo a tese sobre os sismógrafos - formas artísticas são conteúdo histórico sedimentado e, quando uma obra explicita a necessidade de superação de alguma convenção vigente, ela está registrando, como um sismógrafo, abalos havidos na sociedade. Podemos assumir que Guerras Desconhecidas, além de barricada, compõe um conjunto atual desses sismógrafos. Mas além disso, Guerras Desconhecidas contribui para criar espaços coletivos não-convencionais que nos permitem refletir e criticar as contradições que perpassam o cotidiano - passo fundamental na luta pela participação efetiva e consciente de homens e mulheres comprometidos com a transformação social.
Aos trabalhadores e trabalhadoras, fica o ensinamento histórico do não–conformismo – que só rezar não basta. E aos poderosos, fica o recado: quem não pode com as formigas, não assanhe o formigueiro...
Jade Percassi
Cientista social e educadora formada pela Universidade de São Paulo; é militante do Coletivo de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.
Cientista social e educadora formada pela Universidade de São Paulo; é militante do Coletivo de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.
Repúdio da ABRAMALA aos agentes da Guarda Municipal de Foz do Iguaçu
Texto da Associação Brasileira de Malabarismo e Circo (ABRAMALA)
Viemos através dessa moção tornar público o seu repúdio a atitude truculenta e absolutamente indigna dos agentes da Guarda Municipal de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, que utilizando-se de um teaser, arma de choque, imobilizou e algemou um artista de rua que fazia suas apresentações de malabarismo em frente a um posto de combustíveis na Avenida Paraná.
Em vídeo divulgado pela RPC afiliada da Rede Globo na região oeste do Parana¹ pode-se ver na filmagem o abuso de poder dos políciais. Além do relato de testemunhas de que a vítima não havia mostrado nenhum sinal de desacato e de resistência à prisão realizada pelos policiais.
O incidente ocorrido no dia 01/12/2015, fere o seguinte artigo dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos:
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”
Como também, a MOÇÃO nº 35 de 08 de dezembro de 2010, Publicado no D.O.U. de 20/01/2011 SEÇÃO 1, P. 3. do Conselho Nacional de Politicas Publicas em apoio aos artistas de rua.
¹Link da matéria do Jornal Paraná TV publicada no dia 01/12/2015 (data de acesso 02/12/2015), http://g1.globo.com/pr/oeste- sudoeste/noticia/2015/12/ artista-de-rua-algemado-leva- choques-no-meio-da-rua-em-foz- do-iguacu-veja.html
contato com o governo do PARANA
http://www.cidadao.pr.gov.br/ modules/liaise/index.php?form_ id=1
http://www.cidadao.pr.gov.br/
Prefeito de Foz: Reni Clóvis de Souza Pereira
prefeito@pmfi.pr.gov.br
prefeito@pmfi.pr.gov.br
lINCK DO TEXTO COM A MOÇÃO E A LEI
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Fomos batizados terroristas
Fomos batizados terroristas
Encontrar Lampião, Zapata, um Pantera Negra e Santa Dica (quem??) num mesmo ato, a carregar o caixão de Gatilheiro Quintino (ah?...) poderia ser insólito, se o cortejo não fosse acompanhado de canto tão rasgante. Poderia ser insólito, se o cortejo fosse realmente fúnebre, mesmo em ato teatral. Mas não é.
O cortejo, que encerra peça da Companhia Estudo de Cena, ressuscita a força de luta de nosso povo latino americano. Recupera, nos destroços das histórias [quase] esquecidas, a braveza, a valentia, a indignação de tantos nós. Sua coerência encontra coro num canto que repete: "fomos batizados terroristas".
Lampião, Zapata, os Panteras Negras, Santa Dica e Gatilheiro Quintino ressurgem, assim, como irmãos de uma mesma tradição: que não se aprende em escola nenhuma, por vezes nem mesmo em casa, tradição dessa revolta que irrompe em forma de luta contra a perpetuação de tanta injustiça social.
"Fomos batizados guerrilheiros" é canto final composto pela Estudo de Cena para a montagem de Guerras Desconhecidas, peça de teatro inspirada nos cadernos do jornalista Leonencio Nossa. Criação da Estudo de Cena para um teatro mambembe a visitar feiras, praças, a rua por onde passam as pessoas mais comuns. Teatro sem cortinas de veludo, nem lugares marcados, que se faz com certo improviso frente as situações que a feira oferece, mas enreda sem rodeios nem floreios, com a precisão de sua música e poesia, a lembrança do que foi propositalmente omitido da história oficial.
O teatro então nos apresenta a história de três revoltas populares brasileiras de épocas e lugares diferente, revoltas que assumem a força de uma guerra contra a legitimação da propriedade privada e da opressão: a Guerra do Pau-de-Colher (década de 1930, interior da Bahia), a Guerra [ou Massacre] de São Bonifácio (anos 80, Serra Pelada), a Guerra do Gatilheiro Quintino (também década de 1980, no Pará, mas desta vez pela demarcação de terras). A montagem teatral da Estudo de Cena não apenas justapõe coisas e gentes que parecem separados no tempo e espaço, como também faz uso de diferentes jogos teatrais: a comédia, o drama épico, o poema lírico. A peça é como um experimento de linguagem com fim de sugerir a revelação de outra história, uma história então ampliada pela citação [aparição quase fantasmagórica] de outras tantas figuras – Zapata, Lampião - e revoltas – Canudos, Palmares.
A aparente simplicidade e a precisão na comunicação - já que é de uma síntese perspicaz - é um valor admirável da obra. Também o riso constante da plateia, fruto da atuação competente dos atores e do escracho crítico do texto, irrompe como força do trabalho sério deste teatro que não se abstém de tratar em praça pública da indigesta injustiça social da nossa realidade. Tratar a história de tanto sangue e pólvora surge pertinente como rastro do passado no presente.
Guerras Desconhecidas não é apenas uma denúncia ou revelação, toca-nos o brio, como um chamado bem dirigido:
"Ensinem nossa história sombria aos filhos, a fim de que nosso sangue permaneça na bandeira dos criminosos como sinal de catástrofe."
Este é um teatro que não segue como lamento ou cortejo fúnebre que elege heróis. É, antes, um teatro que brada a ressurreição da luta e da resistência:
"Pedimos: protejam os fracos das balas para que os vivos fiquem a salvo, permaneçam vigilantes, pronto para o combate."
Carolina Abreu
Novembro de 2015
sábado, 10 de outubro de 2015
Arte e cultura no rol das mudanças econômicas
A virada do milênio foi uma virada de hambúrgueres para software.
Software é uma ideia, hambúrguer é uma vaca. Ainda haverá fabricantes de
hambúrgueres no século XXI, é claro. O poder, o prestígio e dinheiro,
entretanto, fluirão para as empresas que detêm o indispensável capital
intelectual.
P. Coy, Business
Week, agosto de 2000.
O
capitalismo vive em crise e, como ainda não conseguimos acabar com ele, vive se
reinventando. Quanto à cultura, a mesma vem sendo ponta de lança de práticas
que apenas favorecem esse modo de produção. Chin-Tao Wu, em Privatizações da cultura, já analisou
como a política neoliberal chegou ao campo das artes. Hoje, cada vez mais,
ideias são mais rentáveis do que os produtos materiais. Uma peça de máquina, um
automóvel, é preciso ser produzida para se vender; já uma ideia, ao ser criada,
pode ser vendida indefinidamente, gerando muito lucro para os detentores dos
seus direitos. E não são sempre as grandes empresas as maiores detentoras dos
direitos autorais?
É
nesse campo que se coloca a economia criativa. E as últimas ações d@s ministr@s
da Cultura para expandir cada vez mais esse “universo cultural” são um pequeno
retrato do que devem esperar todos e todas que lidam com arte e cultura em
nosso país.
A
ideia de uma economia criativa, até onde se apurou, começou na Austrália, com a
perspectiva de nação criativa, depois migrou para o Reino Unido, sob a batuta
de Tony Blair, continuador da política de Margareth Thatcher. E se os mercados
ditam as regras, claro que o Brasil não poderia ficar de fora. A Secretaria de
Economia Criativa foi implantada em janeiro de 2011, logo no início do primeiro
governo Dilma, deixando claro como a cultura deveria ser tratada: como negócio. A Secretaria é voltada para pensar e auxiliar
na construção de produtos e serviços de dimensões simbólicas. Se a indústria da
moda, que sempre vampirizou as criações artísticas, é um desses campos, foi o que se perguntaram muitos brasileiros à época
da ministra Marta Suplicy.
Em
dezembro de 2011 a ex-Secretária de Economia Criativa, Claudia Leitão, em
artigo publicado no Jornal Brasil
Econômico, afirmou ser difícil conceituar o que seja economia criativa, no
entanto, não deixava dúvidas: “mas nós sabemos onde ela está”. E frisava a
necessidade de linhas de crédito para fomentar os empreendimentos criativos,
pois a criatividade precisa virar inovação, para que esta se torne riqueza -
muito embora o artigo não deixasse claro para quem iria a riqueza gerada por
tais empreendimentos. Leitão já não está mais na Secretaria, mas as ações do
Ministério parecem deixar claro quais devem ser os rumos do que entendem por
economia criativa e quais os mecanismos para isso. Para se ter uma ideia, a
tônica da política cultural brasileira ainda são as leis de renúncia fiscal,
sendo a Lei Rouanet o modelo único. O governo petista, de Lula a Dilma, não fez
nenhum enfrentamento a esse mecanismo. Ao contrário, mais que quintuplicou os
valores no período de suas gestões, e a renúncia fiscal já passa de 1,2 bilhão.
Os
dados dessa política absurda são contundentes. Eliane Parmezani, já em 2012, na
edição de outubro da Revista Caros
Amigos, afirmou que “por meio de renúncia fiscal, foram disponibilizados 12
bilhões de reais nesses 20 anos de lei Rouanet. Contudo, 50% dos recursos estão
concentrados em cerca de 100 captadores. A outra metade fica com 20% deles. E
os outros 80% dos proponentes não captam nada. Mais: apenas 5% dos projetos
aprovados na lei Rouanet são realizados”. Os dados do próprio Ministério da Cultura
não deixam dúvidas da perversidade desse mecanismo: a região Norte inteira
capta menos de 1%. Além disso, de cada dez reais de todos os recursos, nove é
dinheiro do Estado. Portanto, existe aí um feudo cultural financiado com
dinheiro público. Mas não vemos nenhum enfrentamento por parte do governo
federal em relação a essa política.
Se se
não rever urgentemente o modelo de política cultural, não serão apenas desfiles
de moda os beneficiados, mas uma gama infinita de “criativos”, enquanto
pequenos produtores das artes padecem pelo Brasil. Se a ideia da economia
criativa for no sentido de distribuir renda, como reza o discurso oficial, eu
não tenho dúvida que um pequeno festival de teatro realizado no norte do país, ou
qualquer outra região, distribui renda e agrega muito mais valor do que qualquer desfile de moda realizado fora do Brasil. Quanto
à renúncia fiscal já está claro que apenas meia dúzia são os beneficiados,
resta saber se haverá alguma mudança de rumos por parte do governo federal. No
entanto, como este só tem feito concessões às elites, as esperanças são miúdas.
Da participação
A novidade por parte do Ministério
da Cultura e do requentado ministro Juca Ferreira é a “nova” Política Nacional
de Artes e a Caravana das Artes, grosso
modo, uma busca desesperada de aliança e apoios políticos, já que não há
recursos se quer para pagar os míseros editais da Funarte. No claro português:
pura enrolação. Quando não há recursos, “vamos dialogar” para demonstrar que
estão trabalhando. E isso mesmo depois das conferências, dos encontros
setoriais, da construção das metas e da grita pela criação de uma política de
Estado, diferente da que vem sendo praticada. Os gestores pedem mais
participação da sociedade civil. Para lembrar, no campo do teatro, do agora é
Lula, até a pátria educadora de Dilma, nenhuma lei foi criada e a Funarte está
falida. No entanto, as demandas são as mesmas há, pelo menos, uns quinze anos,
mas o ministério repete o já visto. E nisso o atual ministro é bom. “Vamos
dialogar, pois a falta de diálogo pode levar ao fascismo”, como disse na cidade
de Santos no início de junho de 2015.
Ermínia Maricato (O impasse da política urbana no Brasil,
2012), que fez parte do governo, ainda na gestão de Lula faz um alerta
importante: “Nunca fomos tão participativos”. A autora deixa claro que a luta
por marcos jurídicos manteve a sociedade desigual e os movimentos sociais
pararam de “tratar do presente ou do futuro do capitalismo”. O Estado mudou e a
elite continua cooptando e anulando os conflitos sociais. E claro, é justamente
a participação que cumpre a função fundamental nesse panorama: a ilusão de se
está avançando. Não é o que temos visto? Quantos de nossos colegas ainda
acreditam que a participação vai criar uma política justa? E assim ficamos sem
discutir a justiça dentro do capitalismo, sem fazer o real enfrentamento das verdadeiras
questões. É preciso entender o momento atual. Afinal os recursos continuam indo
para as mãos dos mesmos, cada vez mais via dívida pública e no campo cultural
via renúncia fiscal.
No que tange aos movimentos
culturais, a Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR), coletivo teatral
espalhado por todo o país, no último encontro de maio de 2015, realizado na
cidade de Sorocaba, resolveu dar um basta ao tal do diálogo. Afirmam em seu
manifesto: “Sentimos que o sim ao diálogo deixou de ser
possibilidade de transformação para tornar-se um estado de legitimação de uma
falsa democracia, de uma falsa participação, de um falso programa de cultura
que nunca houve.” E afirmam ainda, o que é verdade, que as demandas estão
documentadas a muito tempo. “Resta por em prática”. Dentre as exigências está o
fim da renúncia fiscal – aliás já faz tempo que afirmam e lutam pelo fim da
Rouanet – e a criação da lei do Prêmio Teatro Brasileiro.
Dentro do seguimento teatral não
tenho dúvidas que a RBTR tem um pensamento avançado em relação às políticas
públicas e ao modelo de Estado que temos. No entanto, o coletivo tem limites. A
começar pela própria linguagem que representam, isto é, não podem falar em nome
da instituição teatro (e nem pretendem). E mesmo entre o teatro de grupo,
digamos assim, a parte mais politizada, tem limites de entendimento do que deva
ser uma política cultural de Estado para o teatro. Por isso mesmo, a RBTR
promete se juntar a outros movimentos sociais para fazer o enfrentamento desse
estado de coisas que vivemos. Quem se sentir incomodado com tanto cafezinho e
tanta conversa pode se somar ao coletivo, que se reúne pelo Brasil duas vezes
ao ano. Sempre de forma independente.
Para terminar, e penso que como
demonstração de nosso tempo histórico, apresento os pressupostos de dominação
de Max Weber, o sociólogo mais querido da direita mundial. Afirma ele, em Os três tipos puros de dominação legítima (2006),
são: a dominação legal (dominação burocrática): “qualquer direito pode ser
criado e modificado mediante um estatuto sancionado corretamente quanto à
forma”. Logo o que se obedece é à regra estatuída; dominação tradicional (o
patriarcado é o tipo mais puro); dominação carismática, em que “A associação
dominante é de caráter comunitário, na comunidade ou no séquito”. Parece-nos
que no Estado brasileiro, e não apenas no
campo da cultura, o primeiro elemento e o terceiro se juntaram e se alojou
como prática dos gestores públicos. No entanto, se em 2002 o traçado econômico
do governo federal já desenhava seu caminho, o carisma tem se colocado como um
véu que encobre a realidade. E se só se faz enfrentamento quando se sabe onde
se pisa e contra quem se luta, faz-se necessário a retirada de tal véu. Aí,
nesse campo é preciso ir ao antípoda de Weber, ainda que tenham origem e língua
em comum, as perspectivas teóricas são outras; é preciso ir a Marx.
Quando arte, cultura e a própria
vida se tornam mercadorias é necessário ver o problema em sua raiz. Afinal
Estado moderno e capitalismo se confundem. Logo, não adianta se organizar
apenas para gritar por verbas vindas desse mesmo Estado. É preciso compreender
e enfrenta-lo em sua real dimensão. Como afirma Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política (2013): “A
compreensão do Estado só pode se fundar na crítica da economia política capitalista,
lastreada necessariamente na totalidade social. Não na ideologia do bem comum
ou da ordem nem do louvor ao dado, mas no seio das explorações, das dominações
e das crises da reprodução do capital é que se vislumbra a verdade política”.
A tragédia maior é que, em plena
crise estrutural do capitalismo, os atores sociais, os sujeitos históricos que
deveriam realizar a mudança, os trabalhadores, estão fragmentados,
desorganizados. Quanto aos artistas, em sua grande maioria, tem se resumido a
alimentar a espetacularização ou a lutar bravamente para não morrer de fome. E
aí perguntamos: um artista preso à sua fome faz uma arte independente?
[1] Professor no
curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; graduado em
História e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp; membro do GT Artes
Cênicas na Rua da ABRACE e articulador da RBTR.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Sextas em Movimento em Marechal IV Dia 24 de Julho
Mais uma sexta, mais um dia em que a
Praça se movimenta, se ilumina. O som que sai das caixas ecoa devagar pelo ar,
anunciando que estamos chegando, no tempo do amor, amor esse anunciado pelo
brincante que dança, embalado pelo som das quatro estações de Vivaldi, vestido
com seu maio azul, calça vermelha e mascara de palhaço, passeia pela praça,
dança com os moradores, com a menina que ele ergue no ar, que abre os braços
para o mundo e se sente uma bailarina do mundo, livre, bailarina livre sem
sapatilha, sem a prisão das sapatilhas, assim como o senhor que dá a mão e pede
“me guia na dança, sou muito cego, mas estou adorando dançar...”, e o brincante
o guia para se soltar no meio da praça. O brincante dança e abre o espaço para
a chegada de Karol e Vilson, desbravadores do subúrbio, guias que resgatam a
memória e conversam com as pessoas para valorizarem o seu bairro, escutar sua
história, conhecer suas ruas e sua arquitetura.
Guiadas Urbanas para entender o
urbano subúrbio, de tradição, de cultura, de personalidades que ali nasceram,
cresceram e se aventuraram pelo universo do país.
Trabalho bonito, dedicado,
apaixonado, que só pode ser realizado por quem tem paixão pelo que faz, acredita.
E eles chegaram puxando uma comitiva de moradores, de gente que viu a
possibilidade e a beleza do bairro de Marechal Hermes. Com o microfone aberto,
Dona Ana, filha de portugueses, pega o microfone e solta a voz “ pois
precisamos muito disso. O bairro precisa de mais ações como essa. Sou moradora
do bairro há mais de 45 anos e é muito bom conhecer jovens, pessoas dispostas a
mudar o bucólico do praça. Estão de parabéns!”.
Estas palavras fortes foram o
suficiente para arrastar para o centro Ligeiro, que com seus tambores e seus
parceiros para fazer uma roda, uma roda de samba de raiz da raiz, um resgate
dos sons primeiros do terreiro das senzalas, dos primeiros ocupantes dos
morros.
Ele conta a história e teoriza na prática, no
canto e no tambor. E não é Ligeiro no nome a toa, é ligeiro no passo, na
harmonia, na ginga do malandro que corteja a dama, dama que entra e entra no
gingado da dança de roda, do samba primordial de roda.
Cada um que entra passa pelo tambor e
pede sua licença para entrar e dançar. E entram com vontade, com graça. A roda
vai enchendo, as pessoas se encantam e entram, quem queria entrar e é bem
recebido, orientado, libertado, pois a dança liberta mente e corpo. E foi com
essa alegria, começando com o clássico público dos grandes compositores e
terminando com os grandes tambores e compositores públicos das rodas de raiz.
Um bom dia com uma boa noite!
Herculano Dias
sábado, 12 de setembro de 2015
A memória das margens ou A suada resistência dos beradeiros é trazida à cena
A Beradera Companhia de Teatro,
de Porto Velho, Rondônia, estreou recentemente seu segundo espetáculo: Saga Beradera. A obra, escrita e
dirigida por Rodrigo Vrech, traz à tona a luta da população do distrito de
Nazaré pela permanência de sua cultura e de seu território. Nazaré, apesar de
pertencer ao mesmo município que a capital rondoniense, fica a cerca de 5 horas
de viagem de barco, única forma de acesso à comunidade, rio Madeira abaixo.
A partir de um
trio fictício: Seu Arigó (o avô), seu neto e a esposa Urbana, a dramaturgia
explicita o conflito entre modos de vida distintos: os ribeirinhos e aqueles
que vivem nas grandes cidades. Trata-se de um conflito intersubjetivo, mas que
implica também em macro questões, incluindo a sustentabilidade socioambiental.
Parte da
memória dos fundadores de Nazaré e de vários moradores da vila é sintetizada na
trama em que, após a cheia histórica de 2014, Neto, nascido nas margens do
Madeira, mas atual morador de São Paulo, tenta levar seu avô para a metrópole,
a contragosto do mesmo.
Construída de
forma fragmentada, a dramaturgia realça a dificuldade de comunicação entre os
universos do concreto e da mata e entre diferentes gerações, ao mesmo tempo em
que presentifica a resistência cultural na voz não apenas do morador
tradicional da “velha guarda”, mas por meio das músicas e da participação em
cena dos jovens do grupo Minhas Raízes, formado na comunidade.
As delicadas
composições do grupo, executadas ao vivo, com a voz doce e regional de seus
integrantes, dão um tom especial ao espetáculo, denotando a sensibilidade de
quem vem de fora (o diretor Rodrigo Vrech e parte do elenco), mas tem a
capacidade de construir as necessárias pontes entre os distintos mundos. Vale
apontar que, às vezes, o volume da voz e dos instrumentos não alcança a totalidade
do público, indicando a necessidade de amplificação. Os musicistas poderiam ser
ainda melhor aproveitados, talvez com canções inéditas para o espetáculo ou
ainda ambientação de cenas a serem umedecidas com outras músicas.
Além do aspecto
musical, a encenação envolve o público por vários prismas, como a própria
interpretação. O jovem elenco surpreende pela qualidade técnica e integridade
em cena, ainda em processo de construção, porém, com conquistas consideráveis.
O poeta e ator beradero Elizeu Braga fisicaliza suas memórias de infância em
Itacoã, no Baixo Madeira, e o legado de seus antepassados, conquistando voz e
corporalidade vívidas, para contar as encantadoras narrativas das margens de
onde veio. Além disso, a manipulação que o ator realiza com a poronga, que se
transmuta em diversos objetos e seres ao longo da história, é um belo exemplo
de criatividade na lida com os elementos cenográficos.
Andressa Silva
gera comicidade, nojo e identificação em sua construção da preconceituosa
Urbana, que destila incapacidade de enxergar e compreender o diferente, uma
postura que, infelizmente, é extremamente comum nestes tempos de ascensão do
fascismo. Para não dizer que não falei das flores, pequenas passagens de texto
ditas pela atriz ainda não estão condizentes com a postura que se espera da
personagem paulista.
Já Cláudio
Zarco, ator que vem se destacando na cena rondoniense, pela qualidade de seu
trabalho interpretativo, tem um desafio com o personagem Neto, já que ele
representa a inconclusa transição entre os mundos do Norte e do Sudeste. Seu
trabalho, a despeito de sua interessante presença no palco, demanda ainda
certos aprimoramentos de passagens específicas, especialmente nas transições de
emoção e em momentos de sua relação com Urbana, dada a complexidade que Neto
solicita.
A peça como um
todo tem um desenho e trajetória envolventes, mais ainda carece de um meio para
chegar ao fim. No entanto, o grupo, de forma legítima, vem experimentando
diversas estratégias de finalização da narrativa e está ainda buscando as
formas, por enquanto, dialogando com romantismo, informações históricas e
narrativas cíclicas.
Ressalto que esta
leitura crítica não tem a pretensão de se constituir como verdade, nem de dar
conta da totalidade da obra, mas sim de ser uma apreensão específica a partir
de um olhar que, como todos, é singular. Assim, encerro este texto expressando
a felicidade que tive em assistir a obra já por três vezes, por se tratar de um
trabalho belo, necessário e de grande potencial. Se o grupo investir na
continuidade da obra e conquistar as oportunidades para tanto, ela terá grandes
possibilidades de se firmar como a mais potente obra teatral nativa de Rondônia
no ano de 2015 e alçar voos além das fronteiras estaduais.
Alexandre
Falcão de Araújo, Professor de Teatro da Universidade Federal de Rondônia –
UNIR.
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