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domingo, 29 de agosto de 2021

Teatro de rua: rompimento e ressignificação*

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

 

            Não há dúvida que uma das maiores especificidades do teatro de rua é o próprio espaço em que ele se coloca: a rua. Rua aqui significa todo local apto a receber espetáculos, como praças, parques, assentamentos, comunidades ribeirinhas e ruas propriamente ditas. Por isso mesmo, estes locais devem influenciar na estética dos grupos, seja de maneira plástica, cenográfica, sonora etc., levando-os a inseri-los ou recusá-los nos espetáculos de forma consciente. É fundamental levar em consideração a geografia espacial urbana. A cidade, com tudo que há nela, prédios, monumentos, esculturas, fachadas, entre outros, pode vir a ser, dentro de um espetáculo, cenário, personagem, elemento cênico e não apenas o local da representação. Como nos lembra o geógrafo Milton Santos, “os objetos, força inanimada, não são outra coisa que o veículo das relações entre os homens” (2000, p. 51). Assim, a cidade com seus elementos, podem oferecer-se como objetos estéticos e mediadores das relações humanas, no qual o teatro de rua é um dos facilitadores.

            Não podemos esquecer que quando um grupo se coloca no espaço público aberto ele está rompendo com algo, está transgredindo-o, já que a rua foi pensada para passagem de carros e pedestres, não para a fruição das artes. E mesmo as praças têm abandonado seu conceito de convivência humana, com seus corredores por onde as pessoas devem transitar, não sendo reservado nenhum espaço que possa abrigar uma manifestação artística, com exceção de uma ou outra praça, retirando de cidadãos e cidadãs, o que Milton Santos chamou de “direito ao entorno” no seu livro O espaço do cidadão (2000).

            Colocar-se no espaço público aberto é transgredir e ressignificar, tornando-os locais de fruição de arte, fazendo com que o espectador deixe de ser um passante e adquira a condição de espectador. Por isso mesmo o teatro de rua se conflita com as instituições reguladoras, já que estas devem “zelar” e fiscalizar para que seu uso venha ser “adequado”: escoadouro do capital.

            Não podemos esquecer que cada época teve e tem seu espaço de representação em acordo com a sociedade dominante. Portanto, a rua não é, do ponto de vista artístico, o espaço da classe dominante, daí a transgressão do teatro de rua, seu conflito com as instituições e a sua condição de marginalidade.

Podemos afirmar também que o conflito com as instituições se dar pela valorização do privado em detrimento do que é público na sociedade contemporânea. Nessa sociedade individualista, que nos dita a todo momento a não confiarmos em ninguém e assim vamos tornando cada vez mais deficitárias as relações humanas, os espaços públicos vão perdendo sua importância de convívio, perdemos, assim, a relação com o/a outro/a.

            Não esqueçamos, ainda, que dentro de uma mesma cidade os espaços têm valores diferenciados, ou seja, os bairros e seus moradores não têm a mesma igualdade social, e que, portanto, o teatro não pode ignorar essa realidade. E o grupo, ao escolher determinado lugar, território ou pedaço para desenvolver seus trabalhos não pode esquecer que o mesmo recebe influências econômicas e culturais. Ou seja, o espaço tem significado, portanto pode ser lido e nem sempre o seu significado condiz com a imagem que nos é vendida. Por isso a criação de um espetáculo tendo como foco o lugar, ou o desenvolvimento de um projeto mais amplo em uma dada região, devem ser considerados pelo grupo teatral. E mais uma vez, cabe lembrar, isso pode levar o coletivo a um maior enfretamento com as instituições que “zelam” pelo espaço, realçando sua condição marginal. Foi esse enfrentamento e essa marginalização, além do engajamento político por parte de diversos grupos teatrais de rua, que levou John Downing (2004) a colocá-lo como mídia radical alternativa, fazendo do teatro de rua uma forma privilegiada de luta contra as estruturas de poder.

            Por tudo isso, fica claro a importância dos fazedores em conhecerem e compreenderem sua cidade, sua geografia e sua estrutura urbana, pois a paisagem, os monumentos e os lugares devem adentrar os espetáculos, mas todos eles têm significados específicos. A fachada de uma instituição financeira, uma igreja ou um conjunto de prédios populares têm significados históricos, sociais, econômicos e culturais.

            A grandiosidade do teatro de rua está nessas imensas possibilidades criativas no uso do espaço da cidade, pois “a condição espacial é a essência do próprio teatro de rua” (BRITO, 2004, p. 17). Um espetáculo na rua pode oferecer ao espectador diversas formas de ver e de se relacionar com sua cidade. Sendo a rua é polimorfa, cria possibilidades cênicas também polimorfas.

            O teatro de rua possibilita uma relação mais aberta entre atores e espectadores, já que não há diferença de níveis entre os mesmos, todos estão no mesmo patamar. E é este fator que faz com que o espetáculo na rua receba tanta interferência, mas, ele próprio, não esqueçamos, é uma interferência no espaço. Penso que no processo de retomada desses espaços, no período pós-pandêmico, essa modalidade teatral será fundamental na reconstrução dos afetos de cidadãos e cidadãs, podendo levar o passante a sonhar e a refletir sobre sua condição de sujeito histórico dentro da cidade, pois diferentemente da mercadoria de rápido consumo, a arte precisa de “um tempo de ressonância” (CAIAFA, 2000, p.23), isto é, o teatro não se esgota no momento da apresentação, demanda um tempo de reflexão para ser digerido. E ao refletir ou recontar o vivido frente a um espetáculo, é o cidadão que passa a ser o criador, pois sua recriação não é mais o mesmo espetáculo presenciado, já é uma “mutação subjetiva”, a “pós-vida” da arte, impressa por uma marca singular, que irá “engajar outras singularidades” (CAIAFA, 2000, p. 68).

 

Bibliografia

BRITO, Rubéns José Souza. Teatro de Rua. Princípios, Elementos e Procedimentos: a contribuição do Grupo de Teatro Mambembe (SP). 2004. 226 f. Dissertação (Livre Docente) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP.

CAIAFA, Janice. Nosso Século XXI: notas sobre arte, técnica e poderes. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

DOWNING, John D. H. Mídia Radical: rebeldia nas comunicações e movimentos sociais. Trad.: Silvana Vieira. 2ª ed. São Paulo: SENAC, 2004.

SANTOS, Milton. O Espaço do Cidadão. 5ª ed. São Paulo: Studio Nobel, 2000.


*Texto originalmente publicado na Revista Confradinho nº 2, junho/2021, uma publicação da Confraria da Paixão.

[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; doutorando em Artes pelo instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Artes pela mesma instituição, articulador e um dos fundadores da Rede Brasileira de Teatro de Rua, ator, diretor e integrante do Teatro Ruante. Autor do livro Teatro de Rua: identidade, território pela Giostri Editora (2020).

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Manifesto do GT Artes da Cênicas na Rua da ABRACE - Assoc. Bras. de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas

 Manifesto: A dupla “asfixia” dos artistas no período pandêmico

A arte, em toda a sua amplitude, vem combatendo a desinformação, revelando diferentes contextos avassaladores de crises de saúde pública, bem como, criando produções de denúncias sobre a crescente desigualdade social cada vez mais agravada por este vírus.

Os setores artísticos estão muito fragilizados financeiramente, já que sempre necessitaram da formação de público e de espectadores contínuos para sobreviver. Agora, com a maioria dos espaços culturais e artísticos fechados, esses setores necessitam se reinventar para permanecerem vivos diante da realidade que se apresenta de forma dura.


No caso do Brasil, este agravamento se acirra ainda mais, pois os mesmos setores já sofriam um ataque maciço por parte do atual governo, autoritário e conservador e/ou falsamente moralista que, por sua vez, tentou paralisar diferentes atividades artísticas, como também, sufocar grupos que se opõem a este status e, ainda, retirar sistematicamente e de forma arbitrária os investimentos nas áreas culturais. 

Com isso, as artes no Brasil tiveram que enfrentar grandes dificuldades desconhecidas por países ditos democráticos, pois foram duplamente asfixiadas: primeiramente, pela demonização da cultura a partir de uma lógica de ataque governamental neopentecostal que minou, paulatinamente, os financiamentos nesta área e, posteriormente, pelo impacto do vírus.

Em meio a este caos, espetáculos presenciais foram cancelados, artistas ficaram sem remuneração, diferentes espaços nacionais foram fechados, obrigando os profissionais a se reinventarem diante do esvaziamento de políticas públicas adequadas para o enfrentamento da situação atual. 

O direcionamento de diversos trabalhos foi voltado para a pesquisa em rede de artes não presenciais, acentuando, dessa forma, a tomada de espaços virtuais por artes que até então, só se imaginavam existir a partir da presença física. Com isso, houve a interrupção brusca das atividades artísticas ditas presenciais para a expansão de ações artísticas movidas pela virtualidade da cena. 

Neste sentido, o contexto atual pandêmico desloca os processos de criação determinados por um tempo e espaço efêmeros para inventar laboratórios experimentais, cujos repertórios são mediados por câmeras de computador, de celulares e outros artefatos tecnológicos, naturalizando uma cultura de intimidade exposta, já que nossas casas são abertas para os olhares do espectador, cada vez mais inserido em nosso cotidiano, agora mediado por uma tela. A investigação artística a partir de diferentes mídias foi solução parcial encontrada para dar continuidade às criações e à sobrevivência de artistas, companhias, coletivos, etc.

A despeito dos inúmeros ataques sofridos, é extremante importante reiterar o apoio às valorosas iniciativas das categorias artísticas e do Congresso Nacional na criação das leis emergenciais para a cultura.

O GT ACR apoia a continuidade da Lei 14.017/2020 (Lei Aldir Blanc) e a efetiva implantação da Lei Paulo Gustavo PLP 73/2021.

Ressaltamos ainda a importância da manutenção destas leis e deste tipo de política pública cultural após o período pandêmico.

sábado, 27 de março de 2021

Lançamento de Livro sobre o Movimento Popular Escambo Livre de Rua

 


Livro: Movimento Popular Escambo Livre de Rua: Se Escambo é Troca, Eu Também Quero Trocar

Autor: Márcio Silveira dos Santos

Editora: UEBA Editora. Ano: 2021


 

Sinopse do livro:

No livro Movimento Popular Escambo Livre de Rua: Se Escambo é Troca, Eu Também Quero Trocar, o autor Márcio Silveira dos Santos compilou cinco textos que escreveu nos últimos anos em suas pesquisas sobre o Movimento Escambo. São registros, análises e reflexões sobre elementos que compõe este importante movimento artístico criado no nordeste brasileiro e hoje presente em muitos Estados do Brasil e América Latina. O livro é principalmente uma homenagem e parte das celebrações de 30 anos do Movimento Escambo que acontecerão durante todo o ano de 2021.

 

O Livro estará disponível para download gratuito na página da UEBA Editora a partir do lançamento dia 27 de março às 19h, no dia mundial do teatro e do circo.

Lançamento: https://meet.google.com/mew-mthf-ntk?authuser=1

UEBA Editora: https://editoraueba.lojaintegrada.com.br/

 

Sobre o autor:


Márcio Silveira dos Santos é ator, diretor, dramaturgo, produtor, professor/pesquisador, integrante do Grupo Manjericão. Acompanha e troca com o Movimento Escambo há 12 anos. Tem doutorado em Teatro pela UDESC- Universidade do Estado de Santa Catarina. Mestrado e licenciatura em Artes Cênicas pela UFRGS-Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especialização em Psicopedagogia pela UCB-Universidade Castelo Branco. É Articulador da RBTR-Rede Brasileira de Teatro de Rua e membro da ABRACE-Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. Foi professor colaborador nos cursos de Artes Cênicas, Dança e Teatro da UEMS - Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

ESTUDOS DE TEATRO(S) DE RUA



ESTUDOS DE TEATRO(S) DE RUA

“QUEM DÁ TANTO A CARA Á TAPA
  PODE DAR A CARA Á TELA
  VEM COM A GENTE NESSE EMBALO
  NOSSA ARTE CONTINUA
  EU NÃO ME CALO 
  ME COLOCO E EMBARCO NELA
  ESTUDOS DE TEATROS DE RUA”
      (música de Toni Edson)

RESUMO

ESTUDOS DE TEATRO(S) DE RUA é um curso livre, promovido de forma gratuita e virtual através de inscrições e apresentações pelo nosso canal de Youtube, pretendemos dialogar o conteúdo das histórias das Artes Cênicas na Rua, seus artistas e fazedorxs (rueirxs), as principais obras e grupos de referência, as questões sociais e políticas de seus fazedorxs através dos manifestos, manifestações e festivais, como também as possíveis abordagens e perspectivas contemporâneas. Serão destacados as pedagogias e locais de ensino e pesquisa de conhecimentos específicos desta modalidade teatral, pelas escolas, formações pelos grupos, disciplinas acadêmicas e suas produções (livros, editais, TCCs, mestrados, teses e produções audiovisuais etc.).

Propomos um curso que abriga abordagens a um só tempo confluentes, divergentes, complementares e, por vezes, conflitantes sobre os Teatros de Rua do país.

Este Curso está vinculado diretamente a disciplinas da graduação de Teatro Licenciatura e de projetos de extensão e ainda com o Grupo de Pesquisa CNPq UFAL Brincantuar: artífices cênicos... que tem em uma de suas linhas de pesquisa as Artes Cênicas de Rua.

A comissão organizadora é composta por professores de diversas Universidades e grupos do país trazendo seus projetos, pesquisas, grupos de atividades e toda a experiência em Artes Cênicas na Rua.

Dividido em três momentos


BREVE HISTÓRICO

Esse projeto nasceu da necessidade de registros, diálogos e trocas em plena Pandemia de Covid 19 de 2020. Devido à necessidade de encontrar momentos de reflexão, aprendizado e trocas, alguns integrantes da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR) - que estava desenvolvendo seus encontros virtuais - decide por esta iniciativa dos ESTUDOS DE TEATRO(S) DE RUA. Para tanto, agregamos professores acadêmicos, pesquisadores, profissionais e alunos (da Ufal e da UNIR), para assessorar as questões conceituais e estruturais deste webinário.

Um dos encontros


OBJETIVOS

O objetivo deste curso é estimular o interesse pela pesquisa, experimentação e prática dos Teatros de Rua, ressaltando as dimensões existenciais, políticas, sociais, culturas e poéticas do fazer Artes Cênicas na Rua. Para isso, vamos compartilhar e dialogar com os profissionais acerca de um amplo espectro de experiências, fazeres e estudos que enveredam por diferentes campos do saber, tais como estudos da cena, filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, estudos culturais e religião, para citar alguns exemplos.


EQUIPE

Comissão acadêmica e organizadora:

Profa. Dra. Ana Carneiro (UFU)

Ana Maria Pacheco Carneiro: http://lattes.cnpq.br/2871760285264620

Prof. Dr Licko Turle (Instituto Artivista)

Noeli Turle da Silva / Licko Turle: http://lattes.cnpq.br/6181670089929835

Profa. Dra. Jussara Trindade (UNIR)

Jussara Trindade Moreira: http://lattes.cnpq.br/2455489235718674

Prof. Dr Ivanildo Piccoli (Ufal)

Ivanildo Lubarino Piccoli dos Santos: http://lattes.cnpq.br/3371038837189854

Prof. Ms Alexandre Falcão (UNIR)

Alexandre Falcão de Araújo: http://lattes.cnpq.br/0059449047020903

Prof. Ms. Adailtom Alves (UNIR)

Adailtom Alves Teixeira: http://lattes.cnpq.br/7072637053498414

Profa. Ms. Vanéssia Gomes 

Vanéssia Gomes dos Santos; http://lattes.cnpq.br/4942315555756162



Equipe técnica:

Alan Cardoso, Alex Zampielly, Aline Almeida, Anne Luz, Josival Silva, Louise Brandão, Luiz Santhos, Roberta Brito, Rosy Farias, Stephanie Caroline e Victor Satti,


Contato: 

Estudos de Teatro(s) de Rua de 24 de junho a 19 de dezembro de 2020

Onde: Curso online, pelo canal do 

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC072UB1oDLXSp8s5-UJ2aYQ/  

email: estudosteatroderua@gmail.com

Instagram/Facebook: @estudosdeteatroderua  

Twitter: @estudosteatro

                                                  



sexta-feira, 17 de julho de 2020

A hora e a vez das mulheres protagonistas da cena (dentro e fora do palco)


Durante a XIII Mostra Lino Rojas, organizada pelo Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR/SP) no segundo semestre de 2019, tive a oportunidade de assistir, na Casa de cultura do Itaim Paulista, zona leste da capital paulista, ao espetáculo Vulcânicas - Ensaio sobre nossos corpos femininos em luta, inspirado nos livros Calibã e a Bruxa, de Silvia Federicci e Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, em montagem da companhia também denominada Vulcânicas. Fiquei muito contente em ver o novo caminho coletivo trilhado por um conjunto de mulheres artistas experientes e aguerridas: Cinthia Arruda, Ju Flor e Natali Santos, oriundas do longevo e importante grupo Pombas Urbanas. A obra teve a direção de Aysha Nascimento, artista integrante do coletivo Negro de Teatro e da Cia. dos Inventivos e a dramaturgia de Rafaela Carneiro, integrante do grupo também feminista Madeirite Rosa e, por sua vez, artista madura oriunda da Brava Companhia.
Cinthia Arruda, Natali Santos e Ju Flor em Vulcânicas. Galpão do Folias.
Foto: Sheila Signário.

Considero que a obra expresse tanto um momento de militância e pesquisa artística específico extremamente relevante dessas atrizes-criadoras, em torno das questões interseccionais de gênero e classe, como também seu processo histórico de luta e resistência cultural na zona leste de São Paulo, onde está sediada a companhia. Porém, diferentemente de percursos anteriores, desta vez o trabalho se dá a partir do protagonismo feminino na cena e na criação artística.
                Como é sabido de todes que tenham algum nível de consciência de classe, o acesso aos recursos públicos e privados de fomento às artes e a cultura é absolutamente desigual, com privilégios ligados à classe, raça, gênero e distribuição da produção cultural no território das cidades (especialmente em relação à dicotomia centro-periferia). Nesse sentido, em que pese a qualidade artística do trabalho das Vulcânicas, estou plenamente consciente que seu sustento e continuidade – assim como de tantos outros coletivos periféricos – necessita de um olhar diferenciado por parte do poder público, para que não se reproduza a exclusão histórica que privilegia grupos mais centrais e, frequentemente, mais ligados aos circuitos acadêmicos e da crítica teatral e ainda, cuja predominância de poder, muitas vezes, mantém traços mais evidentes do patriarcado. Por esse e outros motivos associados, no que tange à crítica teatral, dedico-me principalmente ao teatro de rua, na busca de jogar luz sobre essas potentes experiências e reverter parte do preconceito que acomete essa modalidade teatral, mas começo também a dedicar mais atenção aos coletivos que se dedicam às lutas anti-opressão específicas (também chamadas, talvez de forma equivocada, de lutas identitárias) por vê-las como determinantes para o enfrentamento das questões que ferem nosso tecido social.
Apresentação de Vulcânicas na ocupação Nove de Julho. Foto: Dayse Serena.

Ainda que o espetáculo de estreia do coletivo Vulcânicas não seja propriamente teatro de rua, suas criadoras, por também serem atrizes de rua, trazem em seu jogo de cena e em sua temática, eminentemente popular e classista, muitos dos aspectos que me atraem no teatro de rua e que proporcionam ampla comunicação com o público das cidades. Na obra, de estrutura assumidamente épica, memórias documentais e ficcionais se mesclam entre imagens de trabalhadoras periféricas, mães, filhas, esposas, feiticeiras (bruxas, santas ou nenhuma dessas opções maniqueístas?) apresentadas de forma tocante e hábil pelas atrizes, que também são musicistas, cantam e tocam belamente em cena. Sua narrativa, em que pese alguns pontos e significações que podem ser aprimorados, no sentido das costuras dramatúrgicas e de encenação, é tocante e envolvente, como manifesto,  denúncia e acalanto em mulheres que, a despeito de toda a violência histórica, aprenderam a cuidar e estão (estamos) aprendendo a se cuidar, como nos lembra uma bela canção do espetáculo:
Fazer-se sã, neste lugar, apenas existir
E já não ser, para lhe agradar
Não vim pra lhe servir
 
Natali Santos. Apresentação realizada no Galpão do Folias.
 Foto: Sheila Signário.
Por isso e vários outros méritos, desejo longa vida ao espetáculo Vulcânicas...[1] e a seu coletivo homônimo, torcendo para que ele possa circular por todas as regiões da cidade de São Paulo e em muitas outras localidades mais, proporcionando beleza, diversão (no sentido brechtiano) e inspiração pra luta e resistência das mulheres e para o combate ao machismo estrutural que sangra diariamente nossa sociedade e nossas relações humanas.





Alexandre Falcão de Araújo
Professor do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia – UNIR
Coordenador do Grupo de Trabalho Artes Cênicas na Rua, da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas – ABRACE



[1] Parte da obra, adaptada para o audiovisual (de forma inteligente e sensível) por conta do contexto da pandemia do COVID 19, pode ser conferida no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=d-TL-mHF6KM

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Fascismo à brasileira


Adailtom Alves Teixeira

Um a cada oito casos de COVID-19 no mundo está no Brasil. Ultrapassamos mais de um milhão de casos confirmados (no mundo todo são pouco mais de oito milhões) e mais de 49 mil mortes, fora a subnotificação. No entanto, quando olhamos para o governo é ainda mais desesperador, pois não vemos nenhuma ação no sentido de enfrentar seriamente essa situação. Não temos se quer alguém da área da medicina no Ministério da Saúde. O que vemos é apenas um jogo de acusações para com os governos estaduais e um governo central acuado, buscando defender os seus devidos os últimos acontecimentos. Somado o descaso e as ações dos grupos que lhe dão sustentação, podemos afirmar: sim, o fascismo caminha a passos largos no Brasil.
Tomarei aqui as ideias apresentadas em uma palestra de Vladimir Safatle, para expor a concepção de um fascismo à brasileira, pois, se alguns anos atrás usávamos em seu sentido mais banal, como uma exconjuração, uma forma de distratar o outro, hoje, podemos utilizar em seu sentido analítico. Vejamos quatro características do fascismo, aí vocês podem dizer se estão ou não presentes no Brasil – e não necessariamente a apenas a um ano, mas, algumas (ou todas?) características são históricas.
A primeira característica do fascismo é o culto à violência. Esse culto pode aparecer de muitas formas: nas falas como ser favorável à tortura, no desejo de armar uma parte da sociedade brasileira, nas milícias etc. O que leva, em certo sentido, a um Estado paralelo, uma espécie de Estado paramilitar, os exemplos no Rio de Janeiro, a greve de policiais no Ceará e a forma de atuação das polícias nas periferias brasileiras. Isso leva a um Estado suicidário, concepção que Safatle pinça de Paul Virilo. Isto é, é uma etapa posterior ao Estado necropolítico. A morte se banaliza, no Estado suicidário um amplo espectro de pessoas são lançadas à condição de coisa, logo, são sujeitos matáveis. São mais de 65 mil mortes violentas por ano no Brasil. Mas vamos trazer pro hoje, lembram da dança com caixões ou das buzinas em frente ao hospital? Essa banalização da morte inclui quem banaliza, afinal ao irem para rua colocaram as próprias vidas em jogo.
A segunda característica é uma paranoia identitária: um nacionalismo exacerbado. A pátria, seus símbolos (hino, bandeira), as fronteiras, juntam os sujeitos de maneira cega. Mais, esses grupos elegem um inimigo que precisa ser combatido. É nessa perspectiva que qualquer alusão ao mínimo de direitos, torna-se problemático, pois todos viram comunistas, de reais comunistas até ao João Dória. A coisa terrível nisso tudo é a cegueira, pois patriotismo significa um mínimo de defesa dos recursos da pátria, no entanto, o que vemos é um governo entreguista e dizendo isso às claras, afinal o que é “passar a boiada”, “vamos vender essa p... logo”? Assim, essas contradições são absorvidas e causam uma tremenda opacização nos ditos patriotas, sendo, muitos deles, os próprios expropriados.
Outra característica, a terceira, é uma profunda insensibilidade para com os historicamente marginalizados, isto é, indígenas, LGBTQI+, negros (que apesar de serem maioria, devido a seu pouco poder social, enquadram-se como minoria). Essa insensibilidade implode a solidariedade, afeto fundamental para a construção de qualquer sociedade que se pretenda e queira ser um pouco mais igualitária. E claro que, nesse aspecto, a lógica neoliberal cumpre papel fundamental, pois priorizou e a continua a priorizar uma extrapolação do indivíduo e da propriedade privada.
A quarta característica do fascismo à brasileira é a transferência do poder a alguém que estar fora da lei, alguém que quebra as regras todo o tempo. Alguém que manifesta o desejo anti-institucional, posto ser o representante daqueles que estão, também historicamente, fora do poder decisório. No entanto, não significa que seja menos político, pois o outsider centraliza esse desejo de poder desse grupo, lhes representa, isto é, um determinado corpo social transfere o poder a alguém igual a si mesmo, que pensa e age igual a si. Esse alguém detém o poder, mas é simples, é igual àquele sujeito que lhe dá sustentação.
Percebam que, desse ponto de vista, muitos dos elementos, ou mesmo todos, sempre estivem presente na história brasileira. Não à toa que, sempre que se busca historicamente exemplos de fascismos fora da Europa, vem da África do Sul, que pariu o apartheid, e o Brasil, em que a história dos integralistas são um exemplo. Esses elementos fascistas estão presentes a bastante tempo e representa uma camada populacional entre 20 e 30% da população. O Brasil sempre foi extremamente conservador.
Para irmos encerrando essa reflexão, cabe destacar que Bolsonaro e seu governo foi gestado por seis forças: 1) o setor financeiro; 2) as igrejas, sobretudo as neopentecostais; 3) o agronegócio; 4) as Forças Armadas; 5) a Justiça ou grande parte desse setor e; 6) a grande imprensa brasileira. Apenas os dois últimos saltaram fora desse governo suicida, os demais continuam apoiando e lhe dando sustentação.
Se a esquerda quiser avançar – esquerda que é esquerda deve ter, no mínimo, como horizonte a igualdade radical e a soberania popular – precisa fazer o dever de casa e construir um programa e saber onde quer chegar, mas não pode mais deixar de lado, deixar de discutir esses elementos fascistas elencados acima e presentes em nossa história e que hoje nos governa. Nunca enfrentamos o lado terrível de nossa história. Ninguém foi julgado, por exemplo, pelas torturas que cometeram durante a ditadura civil-militar, os jovens negros continuam a morrer e continuamos, como sociedade a olharmos pro lado. Para criar uma nova subjetividade, capaz de gestar uma nova sociedade, se faz necessário, além das outras tarefas, realizarmos esses enfrentamentos históricos.